BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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O primeiro carnaval de Catarina

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que a Catarina me chama de Blurg.

Bom, esses dias, eu a a minha mãe, o Dirceu e a Catarina estávamos lá em casa vendo os desfiles das escolas de samba pela tevê. Quer dizer, só eu que estava vendo, porque os outros três estavam dormindo: a minha mãe no sofá, o Dirceu na poltrona e a Catarina no carrinho dela. E a Catarina estava bem engraçada, porque a minha mãe fez uma fantasia de bailarina para ela (e eu coloquei uma peruca colorida).

Aí eu estava vendo os desfiles da escolas de samba quando eu escutei um barulho estranho. Tipo assim: “prooooque!”

Então eu fui dar uma olhada no carrinho da Catarina. E aí eu escutei o “proque” de novo. Era ela que tinha soltado um pum. Um pum de pirlimpimpim!

Eu até tentei não respirar, mas não deu. E aí, quando eu vi, eu tava empurrando o carrinho da Catarina numa praça bem grande, e tinha um monte de gente cantando e dançando.

Então eu fui até um cara que estava com uma roupa chique e perguntei:

“Moço, onde é que eu estou?”

“Na Praça Onze, é claro!”

“E por que todo mundo está dançando?”

“Por que é carnaval.”

“De que ano?”

“1935. Como é que você não sabe? Usando lança-perfume nessa idade?”

“Não usei perfume nenhum. A Catarina é que lançou um pum de pirlimpimpim fedido e a gente veio parar aqui.”

“Bom, então aproveita. Você está no meio do primeiro desfile oficial das escolas de samba do Rio de Janeiro.”

“Aica! O primeirão!?”

“É.”

“E que escola é essa aqui?”

“É a Vai Como Pode. Quer dizer, era, porque dois dias atrás, quando a gente foi tirar a licença para participar, o delegado disse que esse nome não era muito sério, e mandou a gente escolher outro. Então, como a gente se reúne lá na Estrada do Portela, o nome ficou Portela.”

“Ah, é uma azul e branca, não é?”

“Isso mesmo. Em homenagem às cores de Nossa Senhora da Conceição. E o nosso símbolo é a águia, a ave que voa mais alto.”

“A minha mãe torce por vocês.”

“Que ótimo!”

Aí eu vi uns caras batucando com prato, frigideira e faca, e perguntei: “Vale usar essas coisas, é?”

“Claro que vale. A gente tem que inventar. Um camarada meu chamado Bide pegou uma lata de manteiga de vinte quilos, cobriu com um pedaço de papel de cimento e inventou um instrumento chamado surdo.”

“Acho que usam isso até hoje. Quer dizer, hoje, não. Até daqui a uns 70 anos.”

“Você às vezes fala umas coisas estranhas.”

“E daí? Deixa eu falar.”

“Ah, você é da ‘Deixa  Falar’?”

“Hein?”

“A Deixa Falar é a primeira escola de samba.”

“E por que chama escola de samba. Tem aula lá?”

“Não, é que o pessoal da Deixa Falar, de onde era o Bide, se encontrava em frente à Escola Normal. Aí o pessoal começou a dizer que tinha a Escola Normal e a Escola de Samba.”

“Ah, entendi. E quantas escolas estão disputando esse desfile aqui?”

“Vinte e quatro. Todas com mais de cem integrantes!”

“Tem uns caras bem vestidos na sua turma.”

“Ah, eu faço questão de que a gente saia sempre na maior estica. Esse negócio de que sambista é tudo vagabundo tem que acabar. Por isso é que eu me visto bem.”

“E quem é o senhor?”

“Paulo Benjamim de Oliveira. Mas pode me chamar de Paulo da Portela.”

“O senhor sempre usa terno, gravata e chapéu?”

“Sempre. E eu gosto de ver todo mundo de pés e pescoços ocupados. Nada de gente descalça e sem gravata.”

“Eu pensei que sambista usava camisa listrada.”

“Preconceito, meu rapaz, preconceito. Aliás, no ano que vem eu vou usar fraque e cartola. Agora chega um pouquinho para cá que vai passar a nossa alegoria.”

Então eu vi um globo terrestre bem grandão com a estátua de uma baiana lá em cima e disse: “Aica! Por que tem uma baiana em cima do mundo?”

“É para combinar com a nossa música, que é ‘O samba dominando o mundo’. Modéstia à parte, eu e o meu amigo Antonio Caetano que fizemos.”

“Legal! E aquelas baianas ali?”

“Ah, essa é uma parte muito importante da escola. É que a gente costuma se encontrar na casa de umas mães-de-santo que vieram da Bahia, então, em homenagem a elas, a gente combinou que sempre tem que ter umas baianas no desfile.”

“Ah, é por isso! Legal!”

Então eu peguei e comecei a empurrar o carro da Catarina no meio das baianas, e ia para lá e para cá e a Catarina ria muito e a gente estava se divertindo um tantão, mas aí acabou o efeito do pum de pirlimpimpim da Catarina e a gente voltou para o apartamento.

“Lelê, pára de dançar com a sua irmã no meio da sala! Quer que ela vomite?”, disse a minha mãe.

Aí eu parei.

Depois eu liguei o computador e fui procurar quem é que ganhou aquele primeiro desfile, e eu vi que foi a Vai Como Pode, quer dizer, a Portela.

Eu também vi que a Portela é a que mais ganhou carnavais até hoje. Só que tem 25 anos que ela não ganha nenhum.

E o Paulo morreu 14 anos depois daquele primeiro desfile. Tinha 15 mil pessoas no enterro dele.

Ah, e eu também li que, quando o Walt Disney veio aqui no Brasil, o Paulo é que levou ele lá na Portela, para mostrar como é que era o samba de verdade. E depois o Walt Disney inventou o Zé Carioca, que também usa chapéu e gravata.

Será que o Zé Carioca é o Paulo da Portela?  

 

Escrito por Lelê às 09h17
Lelê e Leleonardo

O meu tio Torero veio visitar a gente neste sábado. Aí, que nem ele sempre faz, ele comeu muito no almoço e depois dormiu no sofá da sala com a bocona aberta.

A minha mãe e o Dirceu foram ver um filme e eu fiquei lá com o meu tio. Ele estava usando uma camisa engraçada, que tinha um monte de desenhos de gente. O mais legal era o de um velho. A camisa era essa aqui:

 

E o velho era assim:

Aí eu fiquei olhando a camisa e perguntei para mim mesmo: “Será que o meu tio ia gostar se eu desenhasse uns bigodes nesses desenhos?”

E eu me respondi: “Vai, sim. Aproveita enquanto ele tá dormindo. Ele tem o maior sono pesado mesmo.”

Então eu peguei as minhas canetinhas coloridas e ia começar a desenhar quando meu tio soltou um pum. E, como a gente tinha comido feijoada, foi um pum fedidão. Que nem os do meu avô. Aí eu pensei: Será que esse pum também é um pum mágico, um pum de pirlimpimpim?

“Claro que é”, me respondeu o desenho do velho da camisa do meu tio.

Aquilo me deixou o maior assustado. Eu nunca tinha visto um desenho de camisa falante. Então eu perguntei: “Quem é você?”

“Meu nome é Leonardo.”

“O meu é Leocádio. Também chamam você de Lelê?”

“Não. Só de Leonardo mesmo. Às vezes chamavam de Leonardo da Vinci, porque eu nasci perto de uma cidade chamada Vinci.”

“Ah, eu já ouvi falar de você. Até fui no castelo onde você morreu! Tenho uma foto de lá.”

E aí eu peguei o meu álbum e mostrei a foto para ele, e ela era essa aqui (o velho é o terceiro quadrado lá em cima):

 

“Ah, é o meu castelo mesmo”, ele disse. “Quem me deu ele foi o rei Francisco I. Ele era meu fã. É você que está brincando ali no parafuso voador?”

“Eu mesmo.”

“Ah, como eu ia gostar de voar... Sabe que de vez em quando, quando eu era novo, eu comprava pasarinhos nas feiras e abria as gaiolas para eles fugirem?”

“Legal! Em que ano que você morou nesse castelo?”

“Foram só três anos. De 1516 a 1519. Aí eu morri.”

“E o que você fazia antes de morrer?”

“Um pouco de tudo. Eu era pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, fisiólogo, químico, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, mecânico, escritor, poeta e músico.”

“Tudo isso?! Você devia ser um gênio.”

“É o que o pessoal diz. Mas hoje em dia eu sou famoso mesmo é por causa da Mona Lisa.”

“Ah, eu vi esse quadro. É o da mulher da risadinha, né?”

 A mulher da risadinha

“Esse mesmo. Mas hoje em dia só existem 17 pinturas minha por aí. E nenhuma estátua.”

“Estátua quebra fácil. Eu já quebrei um  monte da minha mãe.”

“Mas eu deixei vários cadernos. Mas muitas vezes eu escrevia de trás para a frente. Só dava para ler no espelho.”

“Maneiro!”

“Juntando tudo dá umas 10 mil páginas.”

 Uma das páginas tem esse desenho legal.

“O que que tem nesses cadernos? Lição de casa?”

“Não, tem uns estudos artísticos e científicos que eu fiz. Sabe?, eu nunca separei muito as coisas da arte das coisas da ciência. Na verdade, tudo é muito misturado. A gente é que separa as coisas. O conhecimento é um bolo só. Mas hoje em dia ia tem gente que só come a cereja, uns que só gostam do recheio e outros que só querem a cobertura.”

“Eu como todas as partes."

"Eu também."

"E com esses estudos você inventou algum treco legal?”

“Um monte.”

“Tipo o quê?”

“Tipo o salva-vidas, o pára-quedas, a bicicleta, um tanque blindado, o submarino, o helicóptero...”

“Aica!”

“Uma das coisas que eu mais gostei foi um tipo de escafandro. Ele era de couro, tinha um snorkel de cana para o mergulhador respirar, um cinto flutuador e até uma espécie de bolsa para ele fazer xixi.”
 

“Pô, completão!”

“Mas eu gostava mesmo era de inventar máquinas voadoras. Eu desenhei vários planadores.”
 

“E essas sua invenções funcionavam?”

“Bom, eu só desenhava. Não construía as coisas de verdade. Mas parece que muitas delas funcionariam.”

“Pô, você devia ser o maior inteligentão.”

“É, mas eu acreditava que o Sol e a Lua é que giravam em volta da Terra, e que a Lua refletia a luz do Sol porque era coberta por água.”

“Burrão, hein?”

“Ninguém é perfeito.”

 O Leonardo cortou umas trinta pessoas mortas para ver como é que a gente é por dentro. Blargh!

“E você teve filhos?”

“Nunca casei. O casamento é como enfiar a mão num saco de serpentes na esperança de apanhar uma enguia.”

“Que frase engraçada.”

“Acho que é a minha mais famosa. Mas o que é que você vai fazer com essas canetinhas?”

“Vou pintar uns bigodes nos seus desenhos.”

“O seu tio não vai acordar?”

“Que nada, ele comeu feijoada!”

 Esse aqui é um esboço do Leonardo. Mas acho que o pessoal não estava comendo feijoada aqui. 

“Argh, que horror. Comer carne faz muito mal. Eu era vegetariano, sabe?”

“Legal. Mas não muda de assunto. Eu posso fazer os bigodes?”

“Pode. Mas, em mim, prefiro um chapéu. Manda brasa, Lelê da Vinci!”

E aí eu peguei e pintei uns bigodes nos desenhos do Leonardo. E no Leonardo eu fiz um boné. Ficou o maior legal. Só que o meu tio não gostou muito. Agora ele está lavando a camisa dele lá no tanque.

 

Escrito por Lelê às 20h40
Lelê volta às aulas

Uma coisa muito chata nas férias é que elas acabam.

No último domingo das férias eu até durmo mais tarde, só para elas durarem mais um pouquinho.

Mas aí chega a segunda-feira não tem mais jeito mesmo. A gente põe o uniforme e vai para a escola. O bom é que a gente vê um monte de amigo que não via há um tempão. E todo mundo tem alguma coisa para contar:

-o Gabriel andou de cavalo;
-o Edgar foi para Peruíbe;
-a Gláucia fez um bolo com a mãe (queimou um pouco, mas ela disse que ficou bom assim mesmo),
-a Marilene bateu num menino da rua dela,
-o Pérsio fez um monte de gols,
-a Clarissa leu um monte de livros,
-o Adriano nadou muito,
-o Roberto escreveu uma poesia,
-o Sílvio, o Sidnei e o Silmar, que são trigêmeos, brigaram bastante,
-a Priscila fez um penteado novo (ela sempre usa uns penteados esquisitos),
-a Paloma foi para uma praia no Nordeste,
-a Sheila pegou um cachorro na rua, levou para casa e convenceu a mãe a deixar ele ficar;
-e a Laura dormiu muito.

A gente começou a contar essas coisas uns pros outros antes da aula começar. Mas aí, quando a gente estava numa conversa o maior boa, chegou a professora.

Ela entrou e disse assim: “Oi, classe, o meu nome é Jurema. Antes eu dava aula de inglês, lá em São Paulo, mas eu tive uns probleminhas nos nervos e mudei de matéria. Inglês é muito estressante, sabem? Por isso, agora eu vou dar aula de matemática. Quem aqui gosta de matemática?”

Só o Adriano levantou a mão.

“Bem, pelo menos temos um admirador dos números nesta classe.”

“Não, professora”, disse o Adriano, “é que eu quero ir no banheiro.”

“Ah, sei... Já vou deixar, mas antes eu quero falar para vocês que a matemática não é uma coisa complicada. É uma coisa divertida. E, para mostrar como ela é divertida, eu vou dar um problema bem engraçado para vocês.”

“Se é problema, não pode ser engraçado”, disse a Tainá, que tem cabelo vermelho. 

“Muito boa a sua observação. Mas não vamos criar problemas logo no começo da aula.”

“Se não criar problemas, como é que a gente vai fazer as contas?”, perguntou a Clarissa.

“Nós vamos ter problemas, mas não vai ser um problema problemático, entenderam?”

“Não!”, todo mundo respondeu.

“Ai que saudade da clínica...”, falou a dona Jurema. “Bom, chega de conversa e vamos ao problema. Eu vou ditar e vocês escrevem no caderno. Certo?”

“Certo!”, a gente respondeu.

E aí ela começou: “Um homem quer fazer um suco de laranja...”

A Paloma nem deixou ela continuar e já levantou a mão.

“O que foi?”, perguntou a dona Jurema.

“Já sei qual é o problema: o homem está com sede”, falou a Paloma.

“Não”, disse a dona Jurema. “Esse não é o problema!”

“É claro que é. É horrível ficar com sede”, falou a Paloma.

Todo mundo concordou, menos o Adriano, que disse que pior que ficar com sede era ficar com vontade de fazer xixi.

“Calma, pessoal. Vamos em frente que vocês vão entender. Escrevam aí no caderno: Um homem quer fazer um suco de laranja e para isso ele precisa de seis laranjas...”

“Por que ele não compra suco pronto?”, perguntou a Marilene.

“É bem mais rápido”, falou a Gláucia.

“Eu gosto mais do de uva”, disse o Roberto.

“Goiaba é que é bom”, falou a Clarissa.

“Essa conversa de suco está me deixando mais apertado...”, disse o Adriano, que já estava balançando as pernas de tanta vontade de fazer xixi.

“Ai, onde está a minha homeopatia?”, falou a dona Jurema. Então ela achou um vidrinho na bolsa e tomou um monte de pílulas. Mas aí o Pérsio e a Clarissa já estavam brigando por causa do suco de goiaba.

“Suco de goiaba é horrível!”, disse o Pérsio.

“É nada! E ele é cor-de-rosa! Combina com o meu quarto”, falou a Clarissa.

“Suco de goiaba parece vômito. Blargh!”, fez o Pérsio, fingindo que estava vomitando.

“Não parece, não”, falou bem alto a Clarissa.

“Aposto que tem bicho de goiaba no suco de goiaba”, disse o Pérsio.

“Para de falar mal do suco de goiaba!”, gritou a Clarissa.

“Crianças, o suco de goiaba não é o problema”, disse a dona Jurema.

“Não é porque o cara do problema vai fazer suco de laranja, e laranja é bom, não é que nem goiaba que parece vômito!”, falou o Pérsio.

“Suco de goiaba é bem melhor, quer ver?”, gritou a Clarissa.

E então ela pegou uma garrafinha com suco de goiaba e tchum!, jogou no Pérsio.

Aí, o Pérsio, que tinha uma garrafinha de suco de laranja, pegou e jogou na Clarissa, mas ele errou e acertou o Roberto, que pegou a caixa dele (de suco de uva) e jogou no Pérsio, mas ele também errou e acertou na Marilene, que jogou sua coca-cola no Gabriel, e aí todo mundo achou aquilo bacana e começou a atirar suco uns nos outros.

   

Tchbum, tchbum! Splash, splash!

Ficou uma molhação superlegal, com suco de tudo quanto é cor para tudo quanto é lado. Teve uma hora que até a dona Jurema pegou uma caixinha de suco de laranja e disse: “É para as pílulas descerem melhor”, e aí tomou todas as pílulas do vidrinho e bebeu o suco.  

Então a diretora entrou de repente na classe e perguntou: “Qual é o problema aqui?”

E a dona Jurema respondeu: “O problema é que tem um homem com sede, ele quer fazer uma laranjada, mas suco de goiaba é melhor. Sabem, eu adoro laranjas, lá na clínica tinha um pé de laranja. Ai que saudade da clínica...”

“Acho que a senhora precisa descansar um pouco”, disse a diretora, e aí ela levou a dona Jurema para uma outra sala. Parece que ela vai tirar outra licença.

Ah, e o Adriano, com aquela molhação toda, nem precisou mais ir no banheiro.

 

Escrito por Lelê às 09h21
A primeira aula de violão de Lelê

Segunda-feira, que foi antes de ontem, aconteceu uma coisa que foi o maior legal: eu tive a minha primeira aula de violão.

Bom, vou começar a contar do começo, que começa antes da aula.

No sábado fez sol e eu quis ir na praia. O Dirceu ficou com a Catarina e minha mãe foi comigo. O chato é que ela demorou um tempão para pegar a cadeira, a esteira, o protetor, a revista, o guarda-sol, a minha prancha, as minhas figurinhas, a minha cadeira e o dinheiro pro sorvete. Então, enquanto eu esperava ela na porta, eu vi o Leonardo.

O Leonardo é meu vizinho. Eu já tinha visto ele antes, mas dessa vez tinha uma coisa diferente: ele estava carregando um violão.

Eu saí correndo e fui falar com ele.

“Oi, Leonardo.”

“Oi, Lelê.”

“Você também tá aprendendo a tocar violão?”

“Não, eu já aprendi. Na verdade, eu dou aula.”

“Jura?”

“Juro.”

“Eu ganhei um violão no Natal e já estou o maior bom. Será que eu posso dar aula também?

“Bom...”

“Eu vou pegar o violão pra te mostrar as músicas que eu inventei!”

“Não precisa, não. Eu sei que você toca. Dá para escutar aqui de casa.”

“E o que você achou?”

“Eu acho que você podia ter umas aulinhas...”

“E você pode ser meu professor?”

“Posso, claro.”

 Um dia eu vou desmontar o meu violão para ver como é.

Bem nessa hora a minha mãe chegou e a gente combinou que o Leonardo ia me dar umas aulas. Ela até perguntou se ele não podia começar no sábado mesmo. Mas o Leonardo não podia.

“Nem domingo?”, a minha mãe perguntou.

“Posso na segunda”, o Leonardo respondeu.

Então a minha mãe disse que tudo bem, ela aguentava esperar mais um pouco.

Aí, na segunda, O Leonardo foi em casa, e ele falou assim:

“Bom, Lelê, para começar, a gente tem que estudar duas coisas: a mudança dos acordes e das notas, que a gente faz com a mão esquerda, e os movimentos da mão direita, que dão o ritmo.”

“Com a direita eu já sou o maior bom”, e aí eu comecei a passar a mão pelas cordas do violão bem rápido.

“Calma, calma! A gente agora vai fazer mais devagar. Não precisa ter pressa. Nem precisa cantar também, tá?”

“Tá.”

 Quando o violão está inteiro, ele é assim.

Depois ele ensinou os nomes das partes do violão, falou como que eu tinha que segurar, ensinou duas posições (uma chamada ré e outra chamada mi menor) e aí tocou um pouco para eu ver. O Leonardo toca o maior bem.

“Você conhece a história do violão, Lelê?”, ele perguntou.

Como eu não sabia, eu respondi: “Não.”

“Bom, é uma história meio complicada, porque a gente não tem certeza sobre um monte de coisas.”

“Tipo o quê?”

“Tipo quem inventou e onde. Por exemplo: apesar de ser um instrumento típico da música brasileira, ele não foi criado aqui. Ele pode ter vindo do alaúde árabe, da cítara romana ou da lira grega. De qualquer forma, na Europa ele sempre foi muito usado, principalmente na Espanha e em Portugal.”

“Então o violão não tem um inventor?”

“Não, mas tem uns caras muito importantes que ajudaram o violão a ficar conhecido no Brasil inteiro, tipo o Américo Jacomino.”

“Ele que deu aula para você?”

“Não, ele morreu em 1928. E nasceu em 1889.”

“Acho que ele deve ter conhecido o meu avô. O meu avô é bem velho.”

 Esse é o Américo.

“O Américo era muito bom e com dezesseis anos já compunha. O apelido dele era Canhoto. Adivinha por quê?

“Porque ele era canhoto?”

“Gênio! E, por causa disso, ele tocava com o violão invertido.”

“Ele dava aula?”

“Dava, mas ele começou como pintor de painéis. Aí começou a tocar em circos, a participar de serenatas em São Paulo e ficou conhecido. Tanto que, quando ele tinha 27 anos, fez um concerto para o pessoal chique da cidade. Aí ficou mais famoso ainda.”

“Daí é que ele arranjou uns alunos.”

“É. Ele deu aula até para filha do governador. E gravou muitos discos.”

“Disco? Ah, já sei, aquele cedezão preto!”

“Isso mesmo. E em 1927 o Américo foi eleito Rei do Violão Brasileiro. Nessa época ele dava aulas e tinha muitos alunos.”

“Que nem você?”

“Quem me dera...”

“Poxa, essa história me deu uma idéia.”

“Você vai estudar bastante para tocar que nem o Américo?”

“Não, é que ele tocava com o violão invertido, então eu também preciso tocar de um jeito diferente.”

“Diferente como?”

“De cabeça para baixo! Eu vou ser o violeiro-morcego.”

“Não, Lelê! Senta direito no sofá! Você vai vomitar! Ë perigoso! Ah..., deixa pra lá... Toca como você quiser, violeiro-morcego. Mas eu vou pedir um aumento para a sua mãe.”
 

Escrito por Lelê às 08h36