
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Lelê e Orfeu, o músico que foi até o inferno
É que ela tem andado com muita dor de cabeça, coitada. E isso é ruim, porque nem dá para ela aproveitar as músicas que eu toco no violão. E, como tem chovido muito, eu tenho tocado todos os dias. Quer dizer, não sei se o que eu faço é tocar, porque a gente ainda não arranjou um professor para mim. Mas não faz mal, eu fico inventando umas músicas. Inventar música é o maior fácil, é só passar os dedos bem rápido nas cordas. Bom, ontem eu perguntei para a minha mãe: “Mãe, por que você está com as mãos nos ouvidos. Você não gosta da música que eu inventei?” “Imagina, Lelê”, ela disse. “É que eu gosto tanto da sua música que não quero que ela saia da minha cabeça.” “Legal!” “Mas acho que ela pode ficar melhor se a gente pelo menos afinar o violão.” “Como assim, afinar? Ele está muito grosso?” “Não, é que a gente tem que regular as cordas. Existe um aparelhinho que ajuda a gente a fazer isso.” “E quando a gente pode ir comprar esse afinador.” “Já. É isso ou eu fico louca.” E aí a gente foi até uma loja que vendia uma porção de instrumentos. Logo que a gente chegou, a minha mãe disse que ia procurar um tapa-ouvidos e eu fui falar com um vendedor. Eu olhei o nome no crachá dele e perguntei: “Orfeu, você tem um afinador de violão?” “Eu tenho este modelo aqui.” “É esse que você usa no seu violão?” “Eu não toco violão, toco lira.”
“Lira?” “É uma coisa parecida com aquela harpa ali, só que menor.” “Nunca vi ninguém tocando lira.” “Na Grécia era muito comum.” “Ah, mais um deus grego!" "Não, eu sou só um homem comum, um músico." "Mas é grego, né?" “Sou, mas fale baixo que ainda não tenho visto de trabalho e não quero perder o emprego.” “Se eles te mandarem embora, você pode tocar num barzinho.” “Já andei pensando nisso. As pessoas gostavam muito de me escutar na Grécia.” “Elas tampavam os ouvidos para a música não sair da cabeça delas?” “Não, mas, quando eu tocava, os pássaros paravam de voar para me escutar e as árvores se curvavam para pegar os sons no vento.” “Pô, você devia fazer o maior sucesso.” “Ah, eu era muito feliz, mesmo. Mas um dia, minha esposa, a Eurídice, morreu.” “Que chato...” “Eu fiquei muito triste e resolvi ir buscá-la nos reino dos mortos.” “A gente pode fazer isso?” “Poder, não pode. Mas eu quis tentar. Peguei a minha lira e comecei a tocar. Falei com o Caronte, que é o barqueiro que leva a gente até o reino dos mortos...” “Um barqueiro?”
“É que os recém-mortos vão para o inferno de barco, através do rio Aqueronte.” “Ah...” “Mas eu ainda não estava morto. Só que o Caronte se emocionou tanto com a minha música que me levou mesmo assim.” “Legal!” “Três cabeças? Será que ele tem três tigelinhas?”
“Só sei que ele é bem bravo e cuida das portas do inferno. Mas eu consegui entrar. E cheguei até o trono do rei dos mortos, o Hades. Ele ficou tão emocionado com a minha música que soltou lágrimas de ferro.” “Deve ter estragado o lenço dele.” “O melhor é que ele deixou que eu trouxesse a Eurídice de volta. Só que tinha uma condição: eu não podia olhar para ela até chegar aqui em cima.” “E aí?” “Aí eu peguei o caminho que levava para fora do reino da morte, e vim tocando músicas de alegria para guiar a sombra de Eurídice de volta à vida. Mas, quando cheguei na saída, fiquei com medo que a Eurídice não estivesse atrás de mim e olhei. Só deu para ver a sombra dela se desfazendo...” “Pô, que triste...” “Depois as mulheres da Trácia queriam me consolar. Mas eu não dava bola para nenhuma delas e elas ficaram furiosas, loucas da vida mesmo. Tanto que um dia elas despedaçaram meu corpo e jogaram minha cabeça no rio Hebro. E enquanto ela afundava eu cantava: ‘Eurídice!, Eurídice!’" “Pô, que mulheres bravas!” “Mas elas tiveram um castigo terrível. Os dedos dos pés delas começaram a se espichar e a entrar na terra, e quanto mais tentavam tirá-los, mais eles se enraizavam. As pernas e os corpos delas foram virando madeira e elas acabaram se transformando em carvalhos. Ficaram assim por muitos e muitos anos, até que seus troncos caíram mortos e vazios no chão. “Peraí! Tem uma coisa que eu não entendi. Se você foi despedaçado, como é que você tá inteirinho aqui?” “É que as musas, que são as protetoras das artes, juntaram os meus pedaços. E, como eu estava morto, voltei para o reino dos mortos e me encontrei com a Eurídice.” “Poxa, então você morreu mas a sua história teve um final feliz?” “Pois é.” “E como é que você está aqui no mundo dos vivos?” “De vez em quando eu venho dar uma mãozinha para os músicos iniciantes.” “Que nem eu, né? Será que vou tocar tão bem quanto você?” “Isso eu não sei, mas com esse aparelho pelo menos você não desafinar. São sessenta e oito reais. Pode pagar ali no caixa.” Nessa hora minha mãe voltou com uma cara o maior triste. “Droga, não achei um tapa-ouvidos. Vou ter que passar na farmácia e comprar mais comprimidos.”
Escrito por Lelê às 00h22
![]() As férias da Clarissa e da Ysa
Oi, Lelê, Você disse que podia inventar sobre as férias, né? Então, eu tive que inventar um monte porque eu tô o tempo todo em São Paulo. É chato não viajar se os seus amigos saíram quando chove todo dia ! Nem passear com as minhas cachorrinhas não dá. Daí eu li uns livros (Folha e Vira-Lata do Stephen Michael King e A Árvore Generosa, do Shel Silverstein), assisti uns filmes, fiz palavras-cruzadas (eu sou maior boa nisso). O legal foi que a gente já comprou meu material da escola e eu escolhi uns cadernos super lindos. Mas a mochila, eu vou ter que usar do ano passado. Tudo bem porque ela ainda tá novinha. É que essa mochila eu ganhei no meio do ano, no meu aniversário e eu cuido direitinho das minhas coisas. Pelo menos é o que todo mundo sempre fala prá mim. Bjs, Clarissa.
obs.: Gente, meu primo não é lindo!!.... Tão lindo quanto a Catarina, irmã do Lelê.
Escrito por Lelê às 08h00
![]() Lelê e os direitos da Catarina
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Quer dizer, todo mundo, não, porque a Catarina me chama com um gritinho que eu nem sei escrever. Bom, esses dias eu estava fazendo umas experiências científicas com o ventilador, que era jogar umas coisas nele para ver o que acontecia, e aí eu descobri que se você joga gelatina ela espalha de um jeito bem bacana. O chato é que, por causa das minhas experiências, eu acabei de castigo. Aposto que todo cientista fica muito de castigo quando é criança. Mas o pior é que não foi um castigo comum. A minha mãe disse que eu ia ter que ficar vendo a TV Justiça por uma hora, e a TV Justiça é a mais chata do mundo, porque só tem advogado e juiz falando. Bom, aí eu fiquei lá na frente da tevê e vi um juiz dizendo que todo mundo tem os mesmos direitos. Pô, quando eu escutei aquilo, eu pensei: "Legal!, então eu tenho os mesmos direitos que a minha irmã, a Catarina." Daí eu peguei um papel, uma caneta, escrevi umas coisas e entreguei para a minha mãe. Lá estava escrito assim: Cara mãe, eu vi na TV Justiça que todos os brasileiros têm os mesmos direitos. Eu sou brasileiro. A Catarina é brasileira. Então eu quero ter os mesmos direitos que a Catarina. Os direitos dela são esses aqui, ó: 1-) Direito de dormir e ficar acordado quando quiser.
2-) Direito de comer só quando tiver vontade. 3-) Direito a receber um monte de elogio sem precisar fazer nada.
5-) Direito a ter um aniversário por mês.
Quando a Catarina fica muito chateada e chora, levam ela para passear de carro, porque aí ela fica quieta. Mas se eu fico chateado, a minha mãe me manda estudar. Blargh! 7-) Direito de ver tevê antes de fazer a lição de casa.
8-) Direito de ter muita roupa nova. 9-) Direito de sujar muito a roupa nova. 10-) Direito a soltar puns e arrotos.
Bom, a minha mãe leu o que eu escrevi, pensou um pouco e falou assim: "Caro cidadão Lelê, as suas reivindicações são muito justas. Mas se o senhor quer ter os mesmos direitos que a Catarina, também vai ter os mesmos deveres. Por exemplo, daqui para a frente vai ter que mamar na mamãe..." "Que nojo!" "Não tem mais esse negócio de mesada." "Pô!" "Nada de dormir na casa dos amigos." "Aica!" "E não tem mais bicicleta, videogame, gato, natação, futebol..." "Droga..." "Sem falar que, se ficar doente, não vai mais tomar comprimido." Não?" "Não. De agora em diante é só supositório." Aquilo me deixou tão espantado que eu arregalei os olhos e abri a boca. Então a minha mãe riu e disse: "Pode ficar tranquilo, Lelê. Eu estava brincando. Além disso, aqui no Brasil os juízes não dão os mesmos direitos para todo mundo."
Escrito por Lelê às 09h16
![]() As férias da Bianca e da Laura
Nós fomos ao Projeto Tamar e vimos as tartarugas marinhas, fomos a um lugar (acho que era uma igreja) onde você faz um pedido e amarra uma fitinha no portão, que já tem muitas fitinhas. Fomos também ao Pelourinho, ao Mercado Modelo, ao Elevador Lacerda e a um clube muito legal. Um beijo,
Oi, Lelê, tudo bem???? Minhas irmãs não aguentam mais me ver dormindo. Mas teve um dia que fui conhecer o Museu de Pesca, achei o maior legal!!!! Tem um esqueleto de baleia enorme!!! Mas quando cheguei em casa tava super cansada e dormi um pouco. Laura.
Escrito por Lelê às 07h08
![]() As férias da Bibi
Oi, Lelê,
Escrito por Lelê às 09h03
![]() As férias do Gabriel
Oi, Torero, Eu estive viajando, fui para Águas de São Pedro lá as águas são muito fedorentas mas o mais engraçado é que as pessoas bebem e tomam banho lá, dizem que faz bem a saúde. Eu andei a cavalo (eu adoro andar a cavalo),nadei bastante, fiz um monte de amigos e até joguei futebol,achei uma mariposa e um besouro. Quando eu fui na cidade vizinha tirei essa foto lá desse estadio, o meu pai disse que esse Garrincha foi um ótimo jogador de antigamente.
Um abraço, Gabriel
(PS: Quem quiser pode mandar um texto e uma foto sobre as suas férias. E vale inventar.)
Escrito por Lelê às 08h22
![]() Lelê, o diamante, o museu e o fantasma
A minha mãe diz que eu tenho energia demais e que se desse para transformar a minha orelha em tomada ela ia economizar um dinheirão. Na verdade, eu acho que eu sou que nem aqueles heróis que roubam a energia dos outros, porque a minha mãe sempre chega no fim do dia dizendo que não aguenta dar nem mais um passo. Nas férias isso é pior ainda, porque eu fico mais tempo em casa e a minha mãe também trabalha em casa, então de noite ela está o maior mortona. Acho que foi por isso que, quando o meu tio Torero passou lá em casa estes dias, ela falou: "Por que você não leva o Lelê para passar uns dias em São Paulo?" "Ah, não dá", ele disse. "Esses dias eu tenho que trabalhar muito." "Por favor..." "Não dá." "Por favor!" "Eu até gostaria, mas..." "Por favor!!!!", "Vai arrumar a sua mala, Lelê." Depois disso, a minha mãe disse que o meu tio era um mártir (que eu não sei o que quer dizer) e deu um pedaço gigante de pudim para ele comer. À tarde a gente foi para São Paulo. No caminho, a gente passou em frente ao estádio do Pacaembu, e o meu tio disse: "Aqui é que fica o Museu do Futebol. Preciso dar uma passada qualquer dia desses." "Vamos agora?" "Agora não dá" "Vamos agora..." "Eu até gostaria, mas..." "Vamos agora!!!" "Tá bom!", disse o meu tio. Ele é o maior fácil de convencer. É só insistir um pouco.. Bom, aí a gente estacionou o carro e foi até a bilheteria. Só que, depois de comprar os ingressos, ele pôs a mão na barriga e falou assim: "Xi, acho que comi pudim demais, Lelê. Espera aqui que eu vou no banheiro." Eu fiquei esperando. Mas então chegou um cara, me ofereceu um Diamante Negro e perguntou: "Quer conhecer o Museu?" "O senhor é guia daqui?" "Ah, conheço cada cantinho desse negócio", ele respondeu. Então a gente começou a andar. Primeiro a gente entrou num salãozão onde tinha um monte de quadros legais. Tinha uns botões gigantes, uns cartazes bem velhões, flâmulas (que é um triângulo com o símbolo do time), figurinhas e mais um monte de coisa.
Dava para ficar um tempão lá. Mas aí a gente subiu uma escada rolante e lá em cima tinha o Pelé. Não era o Pelé de verdade, era um Pelé numa televisão. E ele fica cumprimentando todo mundo que chega, e num monte de línguas diferentes.
Aí eu perguntei para o Homem do Diamante Negro: "O Pelé é o maior jogador de todos os tempos do mundo, né?" "Ele era bom, mas dizem que teve um tal de Leônidas que era melhor que ele." "Sério?" "Sério. Ele fazia gol de todo jeito, até de bicicleta." "Poxa, fazer gol de bicicleta deve ser complicado. A pé já é difícil." "Não, bicicleta é o nome de uma jogada." "Ah... E esse tal de Leônidas era grandão que nem o Ronaldo ou baixinho que nem o Romário?" "Ele era mais ou menos da minha altura, tinha mais ou menos o meu peso e a cara dele era mais ou menos parecida com a minha." "Poxa, que coincidência!" Então a gente entrou num lugar que tinha 25 jogadores meio que voando, assim que nem anjos. Aí eu procurei e não vi o tal Leônidas. "Ué, mas o tal Leônidas não está aqui?", eu perguntei. "Ele não era bonzão?" "Ah, meu garoto, isso é um erro do Museu. Um erro lamentável. Imperdoável! Como é que o Bebeto está aqui entre Os Anjos do Futebol e o Leônidas, não? Isso é triste, muito triste... Vamos passar rápido por essa parte."
Aí a gente foi num lugar em que dava para pôr uns fones no ouvido e escutar um monte de narradores de futebol. "Ouve esse aqui. É o meu favorito", disse o cara do Diamante Negro. E aí ele colocou um tal de Fiori para eu ouvir, e o cara era o maior bom mesmo. Ele falava assim: "Abrem-se as cortinas! Começa o espetáculo!". Agora, sempre que eu for jogar uma partida de Winning Eleven, eu vou falar desse jeito. Bom, depois a gente foi ver uns gols que tem lá numas tevês. Quem escolheu os gols foram uns jornalistas e eles explicam por que que escolheram aqueles. O tio Juca escolheu um do Corinthians e o tio Torero, um do Santos. Coincidência, né?
Aí a gente continuou andando e eu perguntei para o homem do Diamante Negro (daqui para frente eu vou chamar ele só de Seu Diamante) para que time ele torcia. Ele disse que gostava de três. De um chamado São Cristóvão, do Flamengo e do São Paulo. Depois a gente viu umas fotos do Pacaembu, sentou numa arquibancada e viu o Ronaldinho jogar com o esqueleto dele (eu não vou explicar, porque é complicado, mas é legal), viu uns jogadores em câmera lenta (isso me deu sono) e viu uns cartazões legais, que nem esses aí embaixo. Bom, agora eu vou falar das três coisas mais legais que eu vi lá. Uma foi que embaixo da arquibancada tem um lugar chamado Exaltação que é bem legal. Tem umas telas mostrando as torcidas e o som é o maior alto. Parece que a gente está lá no campo. "Eu fico até arrepiado de escutar isso", disse o seu Diamante. Outra coisa legal foi que tem um lugar onde você chuta uma bola de verdade e um goleiro numa tela tenta defender o seu pênalti. Aí tiram uma foto e a gente pode pegar ela pela internet depois. E a terceira coisa que eu mais gostei foi um brinquedo esquisito. É um campinho de futebol projetado no chão.
Aí tem uma bola e a gente chuta ela para lá e para cá e, quando acontece um gol, estouram uns fogos assim: Eu joguei uma partida com o seu Diamante e ganhei de três a zero. Mas acho que ele deixou eu ganhar. Aí a gente voltou para a porta do banheiro e o meu tio ainda não tinha saído. Então eu perguntei para o seu Diamante: "O senhor está sempre aqui?" E ele respondeu: "Sempre. De vez em quando o pessoal me vê numa sala, às vezes apareço atrás de um torcedor numa foto, e há quem diga que já escutou o meu nome sendo sussurrado." "Poxa, falando assim o senhor até parece um fantasma." "Pois é." "E o senhor vai ficar aqui para sempre?" "Não, eu vou embora quando colocarem o Leônidas entre os Anjos do Futebol. Mas até lá eu vou assombrar esse Museu." "Legal!" Aí o seu Diamante se despediu e sumiu. Logo depois o meu tio saiu do banheiro e disse: "Lelê, acho que a visita não vai poder ser hoje. Vou ter que fazer um segundo tempo lá em casa." Eu nem falei que já tinha visitado o museu. Assim ele me traz de novo e aí eu vejo o seu Diamante mais uma vez.
Obs.: Quem quiser pode me mandar uma foto e um textinho falando das suas férias, aí eu coloco uns aqui.
Escrito por Lelê às 10h23
![]() Lelê, o cupido
Essa semana, o meu avô e a dona Belarmina (que é mãe do Dirceu, que é meio meu pai, então ela é meio minha avó) estavam conversando aqui no sofá da sala. Eu estava brincando ali perto com um Neo Shifter, um boneco que eu ganhei e que é o maior difícil de montar, quando eu escutei o meu avô dizer: “Então, vamos pegar um cineminha?” “Oba!”, eu falei. “Quero ver o Madagascar 2!” “Mas eu estava falando com a..., é..., eu estava pensando em ver o ‘Café dos Maestros’, um documentário sobre tango”, ele falou. “Acho que você não vai gostar, Lelê.” “Então a gente vê outro”, eu disse. “Esse Café dos Maestros deve ser lindo”, falou a dona Belarmina. Aí, como eu não gosto de tango nem de café, eu falei um monte de vezes: “Madagascarmadagascarmadagascarmadagascarmada...” “Tá bom”, disse o meu avô. “A gente te leva nesse filme. Não é Belarmina?” “É, né...”, ela falou. Mas a dona Belarmina não parecia muito contente. Acho que é porque ela não viu o Madagascar 1 e pensou que não ia entender a história. Bom, aí a gente pegou o ônibus e foi para o cinema.
Lá eu comprei uma pipoca bem grande e na hora de sentar eu fiquei bem no meio dos dois. “Você quer ficar no meio mesmo?”, o meu avô perguntou. E eu respondi: “Claro, assim vocês dois podem pegar da minha pipoca. Minha mãe sempre fala que eu tenho que dividir as coisas.” Aí a gente viu o filme, que é bem legal, e eu saí de lá cantando a música, que é assim: “Eu me remexo muito, muito! Eu me remexo muito, muito!”. E acho que a dona Belarmina gostou do jeito que eu dançava, porque ela disse para o meu avô: “Ele tem tanta energia, né?” “Muita, muita!”, ele respondeu. E depois o meu avô virou para a dona Belarmina e perguntou: “Onde é que nós vamos jantar?” “Tem um bistrozinho aqui perto que é uma graça”, ela falou. Mas aí, como eu achei que eles iam gostar de uma coisa mais animada, eu comecei a falar bem rápido: “Lanchonetelanchonetelanchonetelancho...” “Você venceu, lanchonete!”, disse o meu avô. E aí a gente foi para a lanchonete.
Eu pedi hambúrguer com batata frita, o meu avô pediu milk shake a dona Belarmina pediu uma salada. “Já sei por que vocês pediram isso”, eu disse. “O meu avô pediu milk shake porque a dentadura dele é meio solta e a senhora pediu salada porque está gordinha, não é?” “Ele é tão perspicaz...”, ela falou. Eu não sei o que é perspicaz, mas deve ser uma coisa bacana. Depois, enquanto a gente esperava a comida, ela disse que precisava ir ao toalete. “Toalete é banheiro?”, eu perguntei. “É!”, o meu avô respondeu meio bravo. Eu achei que ele estava preocupado porque a dona Belarmina podia demorar muito, e aí a comida ia chegar e esfriar. Então eu perguntei: “A senhora vai fazer xixi ou cocô?”, que era para saber se ela ia ficar muito tempo no banheiro, porque cocô é mais demorado. Mas acho que a dona Belarmina nem escutou, porque ela só disse: “Eu volto já.”
Quando eu fiquei sozinho com o meu avô, ele disse assim para mim: “Lelê, você tem que bancar o cupido.” “Hein?” “Cupido é aquele anjinho com flechas que faz uma pessoa gostar da outra.” “Era para eu ter trazido as minhas flechas?” “Não! A gente não precisa delas. É só você contar umas coisas boas de mim para a dona Belarmina.” “Tipo o quê?” “Sei lá. Me elogia. Fala sobre alguma coisa que eu faça bem.” “Ah, tá.” Depois a dona Belarmina chegou, a comida também, e a gente começou a comer. Eu fiquei pensando no que que o meu avô era bom. Daí, quando eu estava no meio do hambúrguer, eu tive uma idéia e disse: “Ninguém tem um pum que nem o do meu avô! Ele é o maior craque em soltar pum. Ele solta de todo tipo. Barulhento e silencioso, aquele que faz treeeec e aquele só faz pufff. E é sempre bem fedidão!” O meu avô, que é o maior modesto, abaixou a cabeça e disse: “Não é nada demais, eu só tenho um probleminha de gases, sabe como é...” Aí eu falei: “Ela sabe como é esse negócio de gases, sim, porque a dona Belarmina é a maior boa no arroto.” “Eu?”, ela perguntou. “É, eu já vi umas vezes”, eu disse. “A senhora é a maior arroteira. A minha mãe até chama a senhora de Mulher-Trovão.” “Chama, é?” “É. E o Dirceu chama o meu avô de Bomba Atômica.” Bom, no resto jantar ninguém falou muita coisa. Depois a gente pegou um táxi para voltar. Estava meio frio, mas o meu avô e a dona Belarmina deixaram as janelas abertas. Acho que o meu avô vai acabar namorando com a dona Belarmina. Eu sou um cupido o maior bom!
Escrito por Lelê às 09h07
![]() Lelê, a Vovó Donalda e o Pateta
A passagem de ano foi o maior legal! Primeiro a gente comeu muito. Teve carne de porco, arroz com um negócio chamado lentilha, farofa, maionese e torta de linguiça. De sobremesa teve manjar, arroz doce e musse de limão. E sobrou um montão de coisa. Isso quer dizer que o tio Torero vai ficar aparecendo aqui em casa uns dias. Fora o meu tio, quem veio este ano foi: a minha mãe, o Dirceu, a Catarina, o meu avô e a dona Belarmina, que é mãe do Dirceu. Uma coisa legal que sempre acontece no ano novo é que a gente vê quem é que conseguiu os três pedidos para o ano velho. Bom, quem ganhou este ano foi o meu tio Torero. Ele disse que queria vender mais de dez mil livros (vendeu um pouquinho mais), ganhar cinco medalhas na natação (conseguiu oito) e que o blog dele tivesse mais visitas que o meu. E ele ganhou por um nadinha. Se eu tivesse saído na capa do UOL uma vezinha só a mais, eu tinha vencido ele (mas nunca me colocam na capa, droga!). Aí chegou a hora de a gente contar as três coisas que queria para 2009 (quem quiser ver os pedidos para 2008, é só clicar aqui). "Primeirão!", eu falei. E aí eu disse que eu queria aprender a tocar violão (no ano passado eu também queria isso, mas eu nem tinha violão e agora eu tenho), lançar mais um livro com as minhas histórias, e que a primeira palavra que a Catarina fale seja Lelê. Mas aí todo mundo começou a protestar, dizendo que ela ia falar primeiro o nome de cada um. "Se bem que eu sei que não tenho muita chance", disse a dona Belarmina. A minha mãe foi a segunda a fazer os desejos: "Eu quero perder quatro quilos, trabalhar bastante e tirar férias." Eu não entendo a minha mãe. Ela quer trabalhar ou tirar férias? E, se ela quer emagrecer quatro quilos, porque falou isso comendo um pedação de manjar? Adulto é complicado. O pior é que o Dirceu olhou para ela e disse: "Acho que os seus desejos não combinam com os meus, porque eu quero um irmão para Catarina." Aí eu falei: "Mas a Catarina já tem um irmão. Eu!" E a minha mãe disse: "A Catarina nasceu não tem nem cinco meses. Tem que dar um tempinho para eu descansar, tipo uns cinco anos." "Bom, vamos pensando no assunto", falou o Dirceu. E aí disse que os outros dois desejos dele eram reformar a loja de pneus e trocar de carro. "Minha vez!", disse o meu tio Torero. "Eu quero correr os 7 km de Bertioga, os 10 km de Santos, e a São Silvestre." "Por via das dúvidas, você podia fazer um testamento, disse o meu avô." "Eu fico com o carro", falou o Dirceu. "Quero o apartamento em São Paulo, falou a minha mãe." "A quitinete aqui de Santos fica para mim", eu falei. "Me contento com o notebook", disse a dona Belarmina. O meu tio olhou para todo mundo com uma cara estranha, depois olhou para o prato dele e falou: "Pela vibração de vocês, esse arroz doce deve estar envenenado." Depois foi a vez do meu avô. Ele começou dizendo que queria continuar vivo mais um ano, e aí todo mundo vaiou ele: "Uuuuuuuuuh", porque ele sempre faz drama. Depois ele falou que os outros dois desejos dele eram conseguir um bico e casar de novo. A dona Belarmina disse que queria aprender a mexer no photoshop, fazer uma viagem para o exterior e casar de novo, porque ela já estava viúva há muito tempo. E falou que, se ela conseguisse mexer no photoshop, ia ser fácil de conseguir as outras duas coisas. "Por quê?", perguntou o Dirceu. "Porque eu tenho um paquera na internet. Aí eu mando uma foto retocada para ele, a gente se conhece, se casa e vai passar a lua-de-mel no exterior." "Eu também tenho uma namoradinha virtual, mas pelas coisas que ela escreve, não é muito virtuosa, não", falou o meu avô. "O nick name dela é Vovó Donalda." Então a mãe do Dirceu arregalou os olhos e disse: "Ai, meu deus! Você é Pateta?" "Sou...", respondeu o meu avô. Aí todo mundo ficou quieto, mas depois de um tempinho eu falei: "Caramba, que confusão que ia ser se vocês casassem! O meu vô ia ser sogro e padrasto do Dirceu e o Dirceu ia acabar sendo irmão da minha mãe!" Depois disso o fim de ano foi meio esquisito. Mas o que eu sei é que no fim da festa o meu avô deu carona para a dona Belarmina. Será que eles vão namorar?
PS: Se você quiser, deixa aqui os seus três desejos anotados. E aí no ano que vem você olha e vê quantos conseguiu. Se você anotou os seus desejos no ano passado, escreve aqui se conseguiu.
Escrito por Lelê às 11h53
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