BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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O presente de Natal do Lelê

Esse Natal foi o maior legal! Eu ganhei uns presentes superbons.

A festa foi aqui em Santos. Tinha nove pessoas: o meu tio Torero, o meu avô, duas amigas da minha mãe (que se chamam Lourdes e Arlete), um amigo do Dirceu (que se chama Alfredo), e tinha a minha mãe, o Dirceu, a Catarina e eu. O meu pai não veio porque ele agora mora numa cidade chamada Porto Alegre.

Bom, a primeira parte do Natal foi a janta. Quer dizer, a primeira parte foi esperar a Lourdes e a Arlete chegarem, porque elas demoraram muito. O meu tio até falou: "elas só vão chegar para o Ano Novo, vamos começar a comer agora!"

Mas a minha mãe disse que a gente tinha que esperar, e aí a gente esperou até as onze da noite, que foi quando elas chegaram. Uma coisa legal foi que, quando a gente viu que ela estava chegando, o Alfredo falou: " Vamos fingir que a gente está morto?"

Aí, quando a Lourdes e a Arlete entraram e viram todo mundo caído, elas disseram:

"Xi, Arlete, a gente demorou demais e eles morreram de fome..."

"Poxa, que pena, Lourdes, porque eu trouxe uma mousse de limão que é uma delícia."

"E eu trouxe um pudim de leite que derrete na boca!"

Aí todo mundo levantou na hora, e elas disseram: "Olha, todo mundo voltou à vida!"

"Mais uma façanha da minha mousse."

"E do meu pudim."

Bom, depois a minha mãe colocou as coisas na mesa e tinha um monte de coisa mesmo: salpicão de galinha (que é a minha parte favorita), pernil de porco, bacalhau, salada, farofa e arroz (misturado com um monte de treco).

Enquanto a minha mãe trazia as comidas, o Alfredo pegou o garfo e a faca, começou a bater na mesa e a cantar assim: "Bacalhau, cadê você? Eu vim aqui pra te comer!" Todo mundo riu, mas aposto que, se fosse eu, tinha levado a maior bronca.

Bom, aí, quando já estava tudo na mesa e a gente ia começar a comer, a Arlete disse: "Nós vamos rezar antes, né?"

As pessoas responderam "claro!", mas ninguém fez cara de contente.

Então as pessoas deram as mãos e a tia Arlete rezou uma reza chamada Pai Nosso e a Lourdes rezou uma chamada Ave Maria.

Quando ela acabou, o meu avô disse: "Agora que a gente já rezou, vamos cometer o pecado da gula!", e começou a cortar o pernil. Mas a Arlete falou: "Calma. Eu sei que todo mundo está com fome, mas eu queria falar uma coisa antes."

O meu tio fingiu que se matou com a faca, o meu avô quase enterrou a cabeça no salpicão, o Dirceu tapou o rosto com as mãos e o Alfredo fingiu que se escondeu debaixo da mesa. Mas a minha disse: "Os rapazes vão se controlar ou vão querer comer na cozinha?". Aí eles ficaram quietos e a Arlete começou a falar assim:

"Eu só queria lembrar uma coisa que todo mundo esquece: que nós estamos aqui não é por causada comida, mas por causa de Jesus. É como se ele estivesse aqui jantando com a  gente."

"Então acho melhor tirar o pernil da mesa", disse o meu tio, "porque Jesus era judeu e não podia comer carne de porco."

"Ninguém mexe no pernil!", disse o meu avô pegando a travessa.

"Ninguém vai mexer no pernil", falou a Arlete. "Eu só queria lembrar que hoje é o aniversário de Jesus."

"Aniversário? Então vamos cantar parabéns para ele", disse o Alfredo.

E aí todo mundo começou a cantar assim: "Parabéns para você, nesta data queria..."

A Arlete ficou meio brava e disse que aquilo era um desrespeito, mas a Lourdes disse que tinha achado legal, porque parecia que o Jesus era parte da família.

Bom, depois do parabéns todo mundo começou a comer. Um monte de prato passava na minha frente. Mandavam o pernil para lá, passava o bacalhau para cá, ia a farofa, voltava o arroz, e todo mundo comeu muito.

"Acho que se eu engolir mais alguma a minha calça vai arrebentar", disse o meu tio Torero.

E a Arlete falou: " Xi, estou vendo que vou levar a minha mousse de volta."

"E eu vou levar o meu pudim", disse a Lourdes.

"É mesmo tem a mousse e o pudim. Bom, essa calça estava velha mesmo...", falou o meu tio.

Então trouxeram uns pratinhos, uma travessona de pudim e uma hipersuperultra tigela de mousse, e todo mundo começou a comer.

Teve gente que só comeu mousse, gente que só comeu pudim, gente que comeu primeiro um e depois e outro, e o meu tio botou as duas coisas no prato e comeu elas juntas. "Lá dentro mistura tudo mesmo", ele falou.

Depois disso, a gente foi para a sala e começou o amigo secreto.

Eu fui o primeiro a falar. Então eu disse assim: "O meu amigo secreto é muito legal. Ele é muito sabido e tem um pum bem fedido."

"É o vovô!", todo mundo gritou. E era mesmo. Aí ele se levantou e foi pegar o presente dele, que era um pijama que a minha mãe tinha comprado para ele.

O meu avô abriu a caixa, viu o presente e disse: "Ah, velho sempre ganha pijama... Mas tudo bem, é bom que assim eu faço uma surpresa para as minhas namoradas (o meu avô tem duas).

Aí ele entregou o presente dele para o amigo secreto dele, que era o Dirceu. E o Dirceu entregou o presente dele e foi assim até quase o fim. Eu comecei a ficar o maior nervoso, porque ninguém me tirava e eu tinha falado para todo mundo que eu queria ganhar uma guitarra para usar no Guitar Hero. O mais chato é que o meu tio ficava dizendo: "Caramba, acho que ninguém tirou você no amigo secreto... Devem ter esquecido de por o seu nome num papelzinho. Não faz mal, no ano que vem você ganha alguma coisa."

Aquilo não tinha a menor graça. 

Bom, a minha mãe foi a última pessoa. Então ela disse: "Olha, o meu amigo secreto é um sujeito muito especial. Mas muuuito mesmo. É o sujeito que eu mais gosto no mundo."

Eu fiquei pensando: "Será que ela gosta mais de mim, do Dirceu ou o do meu tio Torero, que é irmão dela?"

Mas ela olhou para mim e disse: "O que você está esperando, Lelê? Quem mais pode ser?"

Eu levantei e fui pegar o meu presente. Era um pacotinho pequeno. E o pior é que dentro dele só tinha um par de meias.

"Gostou?", ela perguntou.

Eu nem consegui responder nada, só fiquei olhando para ela, parado feito um bobo.

Aí ela riu e disse: "Você acha que eu ia de dar um par de meias? Vai olhar atrás do sofá."

Aí eu corri e fui olhar atrás do sofá. Sabe o que tinha lá?

Errou! Não era uma guitarra de Guitar Hero. Era um violão!

Um violão de verdade!

E eu acho violão o maior legal! No ano passado eu até tinha dito que queria aprender, mas não deu tempo. Agora, com o violão lá em casa, não vai ter jeito. Eu vou aprender mesmo. E violão é mais legal que a guitara do Guitar Hero, porque a guitarra é legal, mas não é de verdade, e violão é de verdade.

Foi o maior presente legal!

E eu comecei a tocar naquela noite mesmo.

O chato foi que, logo quando eu comecei a tocar, todo mundo foi embora. Só o meu avô é que ficou mais tempo.

Parece que ele gostou muito da minha música, porque ele olhava para mim e ria. E depois ele disse para a minha mãe: "Às vezes, usar aparelho de surdez é uma benção!"

Deve ser porque assim ele me escuta melhor.

Tchau!

 

Escrito por Lelê às 08h03
Lelê in concert

 


Essa semana, lá na escola, eu perguntei para o meu amigo Biel: "Biel, quer jogar Guitar Hero lá em casa?"

E ele respondeu: "Não posso."

"Por quê?"

"Por causa do concerto do piano."

Aí eu pensei: "Poxa, legal, o cara conserta piano", e perguntei: "Onde vai ser o conserto?"

O Biel disse: "No conservatório. Quer ir ver?"

"Sei lá. É legal ver conserto de piano?"

"É. Um monte de gente vai participar e no final tem um teatrinho."

"Legal! Então eu vou."

No dia, quando eu disse para a minha mãe que ia num conserto, ela me colocou uma roupa toda chique. Até me colocou uma gravata borboleta. Blargh! Eu não entendi nada, porque ela sempre diz que é para eu usar roupa velha quando é para eu me sujar, e roupa nova só quando é coisa chique.

Depois de um tempo, o Bié e a mãe dele passaram lá em casa para me buscar e a gente foi para o conservatório.

Quando a gente chegou lá, eu vi que tinha um monte de cadeira e um palco. E as cadeiras estavam cheias de gente. Daí eu pensei: "Caramba, consertar piano deve ser uma coisa muito legal para todo mundo vir para cá."

Então, quando abriram as cortinas, eu vi o piano e ele parecia direitinho.

Aí apareceu uma mulher que disse que era a professora da escola, que estava muito contente de que todo mundo estava ali, e que esperava que o conserto deste ano fosse diferente do do ano passado, que ela nem queria lembrar.

Então ela saiu e começaram a vir umas crianças (umas pequenas e outras da minha idade) e elas tocavam no piano. E, pelo som que saía, eu vi que ele precisava ser consertado mesmo.

Uma coisa que eu achei engraçada é que, depois de cada um tocar, mesmo que tenha tocado o maior mal, todo mundo batia palma. E sempre dava para saber quem eram os pais de quem tocou, porque eles batiam mais palmas que os outros. Ah, e os pais também ficam dando tchauzinho para os filhos. Um menino chamado Carlos até parou de tocar para dar tchau para a mãe dele.

E teve outras coisas bem legais que aconteceram.

Logo de cara, um menino de uns seis anos chegou até o palco e disse: "O meu nome é Rui e eu vou tocar um chorinho".

Só que aí o Rui tropeçou e caiu, e começou a chorar de verdade. A professora foi até lá, mas não adiantou nada. O Rui só parou de chorar quando a mãe dele subiu no palco. Mas aí ele não quis tocar mais nada. Em vez de chorinho, eu escutei foi um chorão.

Teve um chamado Paulo que chegou com a camisa toda manchada de geléia. A professora fez um sinalzinho para ele limpar a camisa, então ele passou a mão na camisa e depois tocou piano, e as teclas ficaram todas melecadas.

Teve um chamado Mateus que chegou com o cabelo todo duro, de tanto gel que a mãe dele deve ter passado.

Uma coisa que gostei é que teve umas meninas. A primeira que apareceu foi uma chamada Carla, e aí eu pensei: "Caraca, ela é o maior lindona e ainda toca piano! Acho que eu estou gostando dela."

Mas depois apareceu uma chamada Joceli e tocou melhor ainda, e eu pensei: "Puxa, agora eu gosto é da Joceli."

E as duas agradeceram de um jeito bem bacana, que era dando uma dobradinha no joelho e segurando a ponta das saias.

O Biel foi o maior bem. O piano nem parecia muito quebrado quando ele tocou.

Uma hora que eu achei legal foi quando uma menina tocou a música da Família Adams e todo mundo começou a estalar os dedos. Foi bem legal. E a menina tinha um cabelo preto e comprido. Parecia a Mortícia.

Aí veio uma velhinha bem velhinha e disse que o nome dela era Gertrudes e ela tinha oitenta anos e também estava aprendendo a tocar piano. Eu falei para a mãe do Bié que a velhinha devia tocar pandeiro, porque aí ela aproveitava que as mãos delas estavam sempre tremendo. Eu pensei que tinha dado uma baita idéia, mas a mãe do Bié me olhou com uma cara meio feia. Vai ver ela não gosta de pandeiro.

Bom, depois que todo mundo tocou piano, a professora disse que as crianças iam fazer uma peça musical, que é um tipo de teatrinho, só que com música.

Então eles fecharam as cortinas por um tempo e, quando abriram de novo, tinha um cenário lá no palco, com umas palmeiras e uns cocos (que eram umas bexigas de ar). A professora explicou que eles iam fazer um teatro com uma música chamada Passaredo, de um tal de Chico, e a dona Gertrudes ia tocar piano enquanto os outros tocavam triângulo, flauta e umas outras coisas. E aí a professora fez o sinal da cruz e saiu do palco.

A dona Gertrudes começou a tocar e o pessoal entrou vestido de pássaro, com umas penas na cabeça e um bico no nariz. Só o Biel é que estava de caçador e segurava um rifle.

Estava tudo meio chato, mas aí o Rui tropeçou, caiu e começou a chorar. Depois a mão do Paulo, que ainda estava com a mão cheia de geléia, grudou numa das árvores e a árvore caiu, derrubando as outras que nem eu faço com as pedras de dominó. E o legal foi que as bolas de ar se soltaram e começaram a voar. Se bem que umas bateram no cabelo duro do Mateus e estouraram, e a Carla e a Joceli começaram a rir sem parar e o Rui começou a chorar mais forte. O Carlos não ria nem chorava, só ficava dando tchau, e a velhinha, a dona Gertrudes, parou de tocar e começou a tomar uns remédios que ela tinha no bolso. O Biel brincou de dar um tiro na Mortícia, mas ela não gostou e deu um tapa nele, e aí ele deu um empurrão nela e todo mundo começou a brigar. Foi pena para tudo quanto é lado. Tinha uns pais que riam e uns que botavam a mão na cabeça, e a mãe do Carlos subiu e foi lá ficar com ele. E aí teve outros pais que também subiram, e ficou a maior confusão.

Para acabar, a diretora entrou no palco e disse: "Bom..., foi um prazer estar com vocês aqui, espero que no ano que vem a gente consiga fazer um concerto melhor..."Mas aí ela olhou para a confusão e disse: "Mas é claro que não vai dar...", e começou a chorar e saiu do palco. Deve ter ficado muito emocionada, porque o teatrinho foi o maior legal mesmo. Melhor que esse não dá para fazer.

Acho que até vou pedir para a minha mãe me botar num conservatório.

 

Escrito por Lelê às 13h25
Leletrospecto 2008

No fim de ano sempre passa uma coisa na televisão chamada retrospecto.

Retrospecto é quando a gente lembra das coisas que aconteceram, tipo enchente, medalha de ouro nas Olimpíadas, quem morreu e quem casou.

Mas, como eu vou fazer um retrospecto do que aconteceu comigo, não vai ser um retrospecto. Vai ser um Leletrospecto.

Este ano eu selecionei essas dez coisas aqui: 

 

1) O maior mico

 O maior mico foi quando eu fui jantar pela primeira vez com o Dirceu, que era o namorado da minha mãe (no ano passado ela separou do meu pai). A gente foi num restaurante e a comida lá ficava dentro de um navio viking. Aí eu quis subir no navio e gritar "Eu sou o rei do mundo!", que nem eu vi num filme, e o Dirceu me levou até lá. Só que aí eu caí em cima da comida e, em vez de ser o rei do mundo, eu virei o rei imundo. 

 


2) Lugar mais legal que eu fui

 No ano passado eu fui num monte de lugar legal, mas o mais legal de todos os legais foi um lugar chamado Coliseu. É quase que nem um estádio de futebol, só que já está meio estragado. Lá aconteceu uma coisa estranha e eu fui parar no tempo em que ele funcionava de verdade. Aí eu vi os gladiadores e o desfile dos bichos (tinha até girafa e rinoceronte). Mas teve uma parte ruim: é que eu caí dentro da arena e quase que virei picadinho de gladiador.

 

3) A maior mudança

 A maior mudança foi que eu mudei de casa. De casa e de cidade. É que o Dirceu e a minha mãe se casaram (mas não se casaram na igreja que nem nas novelas, eles só começaram a morar junto, e a minha mãe me explicou que isso é que é casamento). Aí a gente mudou para a casa dele, que fica numa cidade chamada Santos. E eu comecei a estudar numa escola chamada Lourdes Ortiz e conheci um monte de amigos novos.

 

 

4) Aventura mais aventurosa

 A minha aventura mais aventurosa foi quando eu me transformei no Super Lelê e enfrentei as estátuas gigantes. Foi um negócio bem legal, e eu só ganhei das estátuas porque eu sou o maior bom em joquempô, que é aquele jogo do papel, pedra e tesoura.

 

 

5) Viagem punzística mais doida

 De vez em quando o meu avô solta uns puns de pirlimpimpim. Eles são bem fedidos, mas, em compensação, eles são mágicos. Sempre que o meu avô solta um pum de pirlimpimpim, eu vou parar num lugar estranho ou num tempo diferente. Esse ano, o mais legal foi um que me mandou lá para o Kasatu Maru, que foi o navio que trouxe os primeiros japoneses para o Brasil. Aí eu fiquei amigo do Yassuo Doki, que é o avô do Doki que faz os desenhos aqui do blog.

 

 

6) Desenho mais legal do Doki de eu

 Eu acho que foi esse aqui, que ele fez quando eu fui no Museu do Ipiranga. Eu estava lá e o meu avô soltou um pum de pirlimpimpim, e aí eu fui parar no dia do Grito do Ipiranga. O legal foi que eu vi que as coisas do quadro lá do museu estavam todas erradas, porque ninguém estava em cima de cavalo, só de burros. Mas aqui no quadro do Doki está tudo certo como foi de verdade, até a minha espada de Guerra nas Estrelas.

 


7) Coisa mais chata

 A coisa mais chata foi que nesse ano eu tive bronquite umas vezes. Bronquite é um negócio muito chato, porque não dá para dormir, que a gente só consegue ficar sentado. Mas aí eu tomo um negócio chamado inalação e passa. Depois de um dia que eu tive bronquite, o Dirceu me comprou um monte de mel. Não melhorou muito, mas não faz mal, mel é gostoso.

 

 

8) Pior dia do ano

 O pior dia desse ano foi o dia em que o Branco morreu. O Branco era o nome do meu gato. Alguém deu veneno para ele. O meu avô enterrou o Branco no quintal da casa dele, e isso foi legal, porque cresceram umas flores onde ele foi enterrado, e essas flores (que são coloridas) são um pouco do Branco.

 

 

9) O segundo melhor dia do ano

 O segundo melhor dia do ano foi quando deixaram um saco preto no portão do meu avô. É que dentro do saco tinha duas gatinhas, uma branquinha e uma pintada. Aí eu fiquei com a pintada, que eu dei o nome de Pintada, e o meu avô ficou com a branca, que ele chamou de Branca.
 

 

10. O primeiro melhor dia do ano

 E o melhor dia do ano foi quando a Catarina nasceu. A Catarina é o maior legal!

 

 

(Se alguém quiser, pode dizer aqui qual foi o seu melhor dia do ano (ou o pior). Ah, e quem quiser ler as coisas da minha Leletrospectiva, é só clicar nos desenhos que já sai na página certa.)

Escrito por Lelê às 08h37
Um livro diferente

Esses dias, o meu tio Torero me deu um livro diferente. É um livro de dobraduras. Mas não é que ele é cheio de páginas dobradas. É que ele tem umas dobraduras de papel dentro dele e, quando a gente abre as páginas, essas dobraduras viram um negócio bem legal.

O nome do livro é Dinossauros, e quem fez foram uns caras chamados Robert Sabuda e Matthew Reinhart.

Por fora, o livro é assim:

Mas quando a gente abre, fica assim, ó:

E nos cantinhos também tem umas dobraduras:

Eu achei este tipo de livro legal. E ele conta um monte de coisa sobre os dinossauros. Eu ia gostar de ser um dinossauro. Dinossauro não tinha que escovar os dentes.

Escrito por Lelê às 11h24
Lelê e a risada de Catarina

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Quer dizer, todo mundo, não, porque ninguém me chama mais para nada. Agora só chamam a Catarina.

O negócio começou quando a gente estava lá em casa e a minha mãe gritou: "Dirceu, corre aqui!"

Aí o Dirceu correu até a minha mãe, que estava segurando a Catarina, e a minha mãe disse: "A Catarina riu!"

Eu não achei nada demais nisso, porque eu dou risada o tempo todo e ninguém corre para me ver.

"Ela riu de novo! Que lindinha...", disse a minha mãe.

"A minha filhota é tão sorridente... Como ela é simpática...", falou o Dirceu todo bobo.

Então eu pensei: "Acho que eles estão gostando desse negócio de risada. Vou até lá rir um pouco". Aí eu fui até os dois e fiquei ali, um tempão parado, rindo para eles.

Só que, em vez de eles acharem lindo, a minha mãe ficou olhando para mim com um jeito estranho e disse: "Por que você está fazendo essa cara? O que você quebrou dessa vez?"

"Garrafa ou vaso?", perguntou o Dirceu.

"Eu não quebrei nada!", eu falei. E depois saí dali com a maior raiva.

Bom, aí passou um tempo e chegou a hora do almoço. E eu fiquei pensando assim: "Vai ver eles não tinham gostado da minha risada porque eu tinha rido só um pouco, sem abrir a boca e jogar a cabeça para trás, que nem as pessoas fazem em comercial de televisão."

Então, quando o Dirceu falou uma coisa engraçada, que foi "Esse bife está meio 007, duro e com nervos de aço", eu ri com a boca bem aberta e joguei a cabeça para trás. Mas, em vez de a minha mãe dizer "Que lindinho...", ela falou: "Pára de rir de boca cheia, Lelê! Que coisa feia! A gente não precisa saber o que você está mastigando."

Poxa, aquilo foi o maior chato. Eles só gostavam da risada da Catarina. E ela nem tem dente! É risada de banguela.

O negócio piorou quando o meu tio Torero chegou lá.

"A Catarina já está rindo", a minha mãe falou logo para ele.

"Sério?", ele perguntou. E foi uma pergunta bem burra, porque ninguém ri sério. Mas a minha mãe respondeu: "É sério."

Então o meu tio começou a fazer umas coisas bem ridículas na frente da Catarina. Ele olhava para ela e ficava falando "Cadê, cadê, cadê? Cadê a risada da Catitinha, cadê?", e ficava apertando o queixo dela. Aí ela fez assim:

"Ela riu, ela riu!", ele gritou. E aí todo mundo ficou em volta dela falando: "Cadê, cadê, cadê?"

Mas a coisa ficou pior. No dia seguinte tinha um casamento de um amigo do Dirceu. Eu fui com terninho que eu odeio e colocaram um vestido branco na Catarina. E lá na igreja foi o maior saco. Cada vez que a Catarina ria para alguém, falavam "Ah, que lindinha...".

E o pior é que todo mundo ficava na frente dela, balançando a cabeça e falando umas bobeiras, tipo:

"Dá uma risadinha para a titia, dá..."

"Cadê o dentinho da neném?"

"Bapapipupu, bapapipupu!"

E ela ria para todo mundo.

Eu achei aquilo o maior chato. Ninguém pedia para eu rir. E se pedissem eu não ia rir, porque eu estava de saco cheio.

Depois a gente voltou para casa. Aí o Dirceu foi tomar banho e a minha mãe foi arrumar a mamadeira da Catarina. Então ela disse: "Olha um pouco a sua irmã para mim, tá, Lelê?"

Aí eu fiquei olhando para ela. E ela começou a rir. No começo eu pensei: "Nem adianta rir para mim, porque eu não vou cair nesse seu truque."

Mas ela continuou rindo. E riu e riu e riu, e riu até de boca aberta, que nem o pessoal do comercial.

Nessa hora a minha mãe entrou na sala e disse: "Nossa, Lelê! Olha como ela rindo para você! Ele deve te adorar, porque ela não ri assim para mais ninguém."

"Para mais ninguém?"

"Para mais ninguém. Essa risadona é só para você."

Aí eu olhei para ela e ela estava dando uma risadona assim:

E eu achei ela o maior bonita. Até inventei um nome novo para ela: Catarrisadinha. Porque ela gosta de dar risadinhas. Quer dizer, para os outros ela dá umas risadinhas. Para mim é risadona. Porque a Catarina me adora.


 

Escrito por Lelê às 09h41