
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Lelê no Coliseu
Bom, esta semana eu vou contar o que que me aconteceu lá no Coliseu. Primeiro a gente foi até o metrô, andou umas três estações e desceu.O legal é que a gente sai da estação e logo vê o Coliseu, que é o maior grandão!
Então a gente foi até a bilheteria e lá tinha uma baita fila! Bem compridona mesmo. E esperar em fila é o maior chato. Ainda mais quando a gente está para entrar num lugar divertido, porque aí parece que o ponteiro do relógio está com defeito e anda mais devagar. Depois de um tempão na fila a gente comprou o ingresso. E também podia alugar um audioguia ou um videoguia. O audioguia a gente já tinha usado num museu. É uma maquininha que fica falando o que a gente está vendo. Então eu pedi para o meu tio alugar o videoguia, que pelo menos ia ser diferente. Ele reclamou do preço mas alugou. Aí, logo que eu entrei no Coliseu, eu tirei essa foto aqui:
Então eu apertei o botão de “play” do videoguia e ele começou a mostrar umas fotos, uns trechos de filme, e a dizer que o Coliseu começou a ser construído no ano 72 d.C., por ordem de um imperador que se chamava Flávio Vespasiano. Mas ele morreu e, quando o Coliseu ficou pronto, o imperador era o Tito, filho do Vespasiano. Daí, em homenagem ao pai, o Tito colocou o nome de Anfiteatro Flaviano. Só que, como naquele lugar tinha uma estátua colossal de um tal de Nero, o pessoal começou a chamar o anfiteatro de “Colosseum”, que quer dizer Colosso. Bom, depois a gente desceu para olhar de perto os corredores que ficavam embaixo de onde as pessoas lutavam. O videoguia disse que ali é que ficavam os gladiadores e os animais antes das batalhas.
Outra coisa legal do videoguia é que a gente apontava ele para um lugar do Coliseu e via como ele era quando era novo. Então, em vez de ver as coisas despedaçadas e pretas, a gente via tudo construído e branquinho, porque antes o Coliseu tinha um monte de mármore branco nas paredes. Aí eu comecei a brincar com o videoguia, fazendo de conta que eu tinha um raio do tempo. Apontei para lá e para e cá; para cá e para lá; para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, para cima da direita e para baixo da esquerda, e eu virava tanto o videoguia que acabei apontando para mim! Então aconteceu um negócio meio estranho. Quando eu olhei para o lado, eu vi que eu estava no tempo que Coliseu funcionava de verdade. Tinha um monte de gente lá, umas cinquenta mil pessoas! E todo mundo usava umas roupas que pareciam uns lençóis amarrados. Daí aconteceu uma coisa que eu não esperava, que foi que levantaram uns paus, esticaram umas cordas e começaram a cobrir o Coliseu com umas lonas. Caramba! Ele era um estádio com cobertura! Eu achei isso o maior moderno.
Então, de uma ponta do Coliseu começaram a sair uns caras com uns tipos de armadura, só que não eram aquelas armaduras inteiras, só tinha armadura na cabeça e numas partes do corpo, tipo um braço e um pedaço do peito. O videoguia disse que aqueles homens eram os gladiadores, e cada um só lutava umas três vezes por ano (se eles não morressem, né?). Uma coisa que eu achei engraçada é que os gladiadores tinham umas armas diferentes. Eu pensei que todo mundo usava espada e escudo, mas eles também usavam umas coisas tipo lança, tridente e rede. Também não tinha só homens fortões. Tinha uns anões e umas mulheres que ficavam com um peito de fora, porque elas usavam roupas iguais aos dos homens. Acho que os gladiadores eram os jogadores de futebol de antigamente, porque uma mulher que estava do meu lado suspirou e disse: “Ah, os gladiadores são tão charmosos...” (ela falou isso em latim, mas acho que eu entendi por causa do raio do tempo do videoguia).
Bom, aí os gladiadores fizeram um desfile que foi muito legal, passeando por toda a arena, que é o nome do lugar em que eles lutam (o videoguia explicou que a arena se chama arena porque arena é areia em italiano, e também disse que o chão da arena era de areia para chupar o sangue que caía dos gladiadores). No fim do desfile, os lutadores pararam em frente a um cara que estava sentado num lugar especial, bem perto da arena. Ele era o único que usava um lençol vermelho. Acho que devia ser o tal do imperador. Aí os gladiadores disseram: “Salve, César! Aqueles que vão morrer te saúdam!”, e saíram. Eu pensei que o desfile já tinha acabado, mas aí é que veio a parte mais legal. Começou a entrar um monte de bichos, tipo leão, pantera, leopardo, elefante, girafa e até um rinoceronte. Era quase um zoológico. Então os animais deram uma volta, saíram e todo mundo bateu palmas. Foi quando voltaram uns gladiadores. Nessa hora eu pensei assim: agora é que vem a parte legal. Eles vão cortar as cabeças uns dos outros e vai ser a maior sangueira, que nem filme do Xuazenéguer (eu sei que não é assim que se escreve, mas eu estou com preguiça de procurar no Google). Todo mundo ficou o maior agitado quando os gladiadores entraram. Tão agitados que eu, que estava meio pendurado no muro, acabei caindo no meio da arena. Todo mundo fez “Oooooh!” quando isso aconteceu. Mas o pior é que o imperador levantou e disse: “Dêem um capacete e uma espada para este anão. Se ele entrou na arena, tem que lutar!” Aí me deram um capacete (que ficou meio grande) e uma espada meio curta, que se chama gládio. Como escudo eu tive que usar o meu videoguia mesmo. Então um gladiador grandão chegou perto de mim, levantou a espada e disse: “Prepare-se para morrer, anão!” E... Pá! Ele acertou um golpe bem no meu videoguia, e ele ficou estraçalhado. Eu fechei olho e fiquei esperando o outro golpe. Como ele demorou, eu resolvi dar uma olhada no que tinha acontecido e abri um olho. Então eu vi o meu tio com cara de raiva. E ele disse: “Bonito, hein? Quebrou o seu videoguia.” “Pois é, o videoguia quebrou e aí eu voltei para o meu tempo. Puxa, que sorte!” “Sorte? Eu vou ter que pagar uns cem euros porque você quebrou esse negócio! Tinha que ficar virando ele de um lado para o outro? Ah, Lelê...” Eu podia ter contado a história toda para o meu tio, mas ele não ia acreditar mesmo...
Escrito por Lelê às 19h58
![]() Lelê vai a Roma
Um dia desses o meu tio Torero chegou lá em casa e disse: “O que tem hoje para almoçar? Tomara que seja macarrão.” “Por quê?”, a minha mãe perguntou. “Para eu ir me acostumando a comer massa. É que eu ganhei duas passagens para Roma”. “Sério?” “Sério”, ele disse. E aí começou a cantar: “Volare, ô, ô, ô, ô, cantare, ô, ô, ô, ô...” “E para quem é essa passagem extra?”, perguntou a minha mãe. “Bom, eu tinha pensado numa pessoa que eu gosto muito, uma pessoa baixinha que não vai me deixar dormir direito. O nome dela é...” “Leocádio!”, eu disse. “Bom...”, falou o meu tio, “na verdade...” “... na verdade, essa é uma idéia excelente!”, a minha mãe disse bem rápido. “O Lelê vai aprender um monte de coisas nessa viagem e eu vou poder ter uma lua-de-mel decente com o Dirceu.” Aí o meu tio coçou a cabeça e falou: “Olha, eu gostaria muito...” “... de continuar filando a bóia aqui em casa, né?”, disse a minha mãe. “Pois é claro que você pode comer o quanto quiser aqui em casa. Como é que eu posso negar comida para alguém que vai levar o meu filho para Roma? Mas é claro que, se você não fosse levar o Lelê, as coisas iam ser diferentes... Aliás, hoje tem estrogonofe.” “Estrogonofe? Lelê, vai fazer as suas malas!”, gritou o meu tio. E eu fui mesmo. Uma semana depois a gente pegou o avião. Eu e o meu tio chegamos de noite e fomos direto para o hotel. No dia seguinte, quando a gente saiu, a primeira coisa que eu vi foi isso aqui, ó:
Era um gato meio tigroso dormindo na garupa de uma moto. E nos outros dias eu vi que ele sempre dormia lá. Eu já tinha ouvido falar em gato de botas, mas não sabia que tinha gato de moto. Bom, o primeiro lugar que o meu tio quis ir foi num treco chamado Fontana di Trevi. A gente andou por umas ruazinhas apertadas e aí, de repente, apareceu esse baita negócio:
Estava cheio de gente tirando foto, e a fonte é o maior bonitona mesmo. O cara da estátua do meio é o Netuno, que é o nome do Poseidon aqui em Roma. Eu conheci ele lá em Santos. Hoje ele trabalha de salva-vidas. Quem quiser ver um 360 da Fontana, é só clicar aqui. Aí o meu tio ficou procurando no bolso dele e disse: “Vamos jogar duas moedas na fonte, mas de costas. Dizem que quem faz isso volta para Roma.” “Oba! E a gente pode jogar uma moeda de dois euros? Assim a gente volta de primeira classe.” “Vamos voltar de econômica mesmo”, ele disse. Aí deu uma moeda de um centavo para mim e pegou outra para ele, e a gente jogou as duas. Depois disso o meu tio disse: “Jogar essa moeda foi uma atividade física muito forte. Vamos repor as energias.” E aí a gente foi tomar sorvete.
O sorvete lá em Roma é muito bom. Eu sei por que a gente tomou um monte. É que, depois de andar um pouco, o meu tio sempre dizia: “Vamos tomar um sorvetinho?”, e a gente pegava mais um. Eu sempre escolhia de limão e de pistache, que são os meus favoritos. E eles tinham bastante gosto de limão e de pistache mesmo. Uma coisa que eu achei legal no sorvete lá de Roma é que ele não é servido em bolinhas. O cara taca o sorvete na casquinha (ou no copinho) de qualquer jeito. Só que às vezes ele escorria e a minha mão ficava melada. Ainda bem que tinha bastante fonte por lá. Acho que os romanos gostam mesmo de água, porque naquela tarde a gente foi num lugar chamado Termas de Caracala, que era um lugar de tomar banho, e esse lugar é o maior grande.
Como eu comecei a fazer muitas perguntas quando a gente chegou lá, tipo assim: “Para que que isso servia?, Quanta gente ficava aqui?, Quem que fez esse negócio?, O que era aquela parte? e O que era aquela outra?”, o meu tio alugou um audioguia, que é um aparelhinho que conta a história do lugar. Aí o audioguia me contou como é que era aquele lugar há 1.800 anos. Ele disse que podiam ficar quase duas mil pessoas nas termas, e ali tinha piscinas de água fria, de água morna e de água quente. Também tinha dois vestiários bem grandes (a gente entrou neles e ainda dá para ver uns pedaços de piso), ginásio, uma espécie de sauna e até uma biblioteca. Parece que era um barulhão nas termas. Tinha os vendedores de salsicha, os vendedores de bebida, gente fazendo ginástica, o som dos tapas das massagens, o assobio dos depiladores, o grito das pessoas que era depiladas e o barulho das pessoas na piscina. Devia ser a maior confusão! Quando a gente saiu das termas de Caracala, o meu tio disse: “Esse ambiente de termas me deu uma fome... Vamos comer uma pizza?” E eu respondi “Claro!” Aí a gente foi jantar num restaurante chamado Baffetto. Dizem que é a melhor pizza que tem em Roma, mas eu gosto mais das daqui do Brasil, porque elas têm mais cobertura. Eu pedi uma de mussarela com presunto, e o meu tio pediu essa esquisitona aqui, ó:
No dia seguinte a gente foi para o segundo lugar mais legal de Roma, que é um lugar chamado Vaticano. É lá que mora o Papa. Ali tem a segunda maior igreja católica do mundo (só perde para uma da Costa do Marfim). Ela se chama Basílica de São Pedro e é o maior lindona. Dentro tem um monte de estátua. Parece até um museu. Mas o que eu achei mais legal é que dá para pegar um elevador, depois a gente sobe um monte de escada (um monte mesmo, e bem estreitinhas) e chega lá em cima da igreja. De lá que eu tirei essa foto:
Outra coisa legal que tem no Vaticano é um lugar chamado Capela Sistina. O teto dela é o maior legal. Me deu até dor no pescoço de tanto ficar olhando para cima. Quem pintou esse teto foi um tal de Michelângelo. Eu comprei um quebra-cabeças de mil peças com os desenhos do teto. Vai ser o maior difícil de montar. O meu tio disse que o Michelângelo trabalhava com uns assistentes, mas aí achou que o trabalho deles estava ruim e despediu todo mundo. Então ele fez todo o trabalho. Demorou quatro anos para fazer tudo. Mas parece que valeu a pena, porque três milhões de pessoas por ano vêm ver o teto do Michelângelo. O pedaço mais famoso do teto é esse aqui:
Por isso é que o Doki fez aquele desenho lá de cima, que eu achei o maior bom. Se o Doki pintasse uma capela, ela ia ser bem divertida. Bom, agora só falta falar do lugar mais legal de Roma: o Coliseu. Lá aconteceu uma coisa muito, mas muito estranha mesmo. Quer dizer, foi estranha mas foi legal. Só que agora acabou o espaço. Na semana que vem eu conto. Tchau!
Escrito por Lelê às 09h42
![]() Lelê e os porteiros gêmeos que não são tão gêmeos mas são de gêmeos
Eu estou com o meu tio numa cidade da Espanha chamada Alcalá de Henares. É que estão passando uns filminhos dele aqui. Mas não é disso que eu vou falar. Eu vou falar é dos porteiros do hotel. É que eles são gêmeos. Mas não são aqueles gêmeos iguaizinhos. São gêmeos diferentes. Eu sei disso porque uma vez, quando eu passei por eles, eu disse: “Poxa, vocês são parecidos.” E um deles respondeu: “É claro, nós somos gêmeos.” Aí eu perguntei: “Ué? Mas gêmeos não têm que ser iguaizinhos?” E o outro disse: “Nem sempre. Ainda mais no nosso caso, porque nós somos gêmeos mas de pais diferentes.” Aquilo pareceu muito esquisito, então eu falei: “Hein?” “Tudo começou...”, disse um. “Quando a nossa mãe estava tomando banho num lago...”, disse o outro. “Era o dia do casamento dela...”, disse um. “Mas aí Zeus passou por ali...”, disse o outro. Então eu falei: “Ah, eu sabia! Mais gregos!” “Sim, eu sou Castor.” “E eu sou Pólux.” “Caramba, toda hora eu encontro com um de vocês!” “Agora encontrou com dois”, disse o Castor. “É! A coisa está piorando.” “Então você não quer saber como nós somos gêmeos de pais diferentes?”, perguntou o Pólux. “É claro que eu quero. Conta aí”, eu falei. Então o Castor continuou com a história: “Bom, Zeus passou por lá, viu a nossa mãe tomando banho e se apaixonou.” “Aí se transformou num cisne.”
“A mãe pegou o tal cisne no colo e fez um carinho nele.” “Depois, naquela mesma noite, ela casou com o meu pai, o príncipe Tíndaro”, disse o Castor. “Uns meses depois, ela sentiu umas dores e do seu ventre saíram dois ovos.” “E desses ovos saíram quatro filhos.” “Eu e a Helena, que éramos imortais porque fomos gerados por Zeus...”, disse o Pólux. “... e eu e a Clitemnestra, que éramos gente comum, porque o nosso pai era o Tíndaro”, disse o Castor. “Que confusão!”, eu falei. “Para a gente, não”, disse o Pólux. “Nós nos dávamos muito bem. Eu e o Castor tivemos um monte de aventuras.” “E participamos de muitas batalhas.” “Vencemos muitos piratas...” “E matamos um javali gigante.” “Eu era muito bom nas lutas”, falou o Pólux. “E eu era ótimo para lidar com os animais”, disse o Castor.
“Mas aí, um dia...” “Ah, eu sabia!”, eu disse. “Nas histórias de vocês sempre sempre aparece um problema.” “Pois é”, falou o Pólux, a vida dos deuses gregos é uma tragédia grega.” “E o que que aconteceu?”, eu perguntei. “A gente se apaixonou por duas irmãs gêmeas”, disse o Castor. “A Febe e a Hilária”, explicou o Pólux. “E vocês se casaram com elas?”, eu perguntei. “Aí é que está o ípsilon do problema. Elas estavam prometidas para outros dois irmãos gêmeos, o Idas e o Linceu, que eram nossos primos.” “Xi, virou uma briga de família, né?” “Mais que briga”, disse o Pólux. “Virou uma batalha.” “É que, como elas estavam prometidas aos nossos primos, o único jeito era raptá-las”, contou o Castor.
“E aí o Idas e o Linceu vieram atrás da agente.” “Eles nos alcançaram num campo de guerra, e a gente lutou, dupla contra dupla, por vários dias.” “Mas aí...”, disse o Pólux baixando a cabeça, “eu me distraí por um instante e Idas acertou um golpe de lança no Castor.” “Entrou no meu pulmão e saiu pela garganta”, falou o Castor. “E ele morreu...”, disse o Pólux quase chorando. “Mas então como é que ele está aqui?”, eu perguntei. “Bom, quando eu vi que o Castor tinha morrido, eu pedi para Zeus, o meu pai, lhe devolver a vida. Mas Zeus disse que não podia fazer isso. Então eu disse que eu também queria morrer. Mas Zeus falou que isso também não podia, porque eu era imortal.” “Caraca, e aí?” “Aí Zeus encontrou uma saída: ele transformou a gente na constelação de Gêmeos. Assim todas as noites a gente pode ser visto juntos no céu”, falou o Castor.
“E, durante o dia, a gente faz um bico aqui no hotel”, disse o Pólux. Eu ia fazer mais umas perguntas, mas aí o meu tio me chamou e disse: “Vamos lá para o cinema que a gente está atrasado e o filme já vai começar.” E no caminho ele foi comendo uns pãezinhos. O meu tio come por dois. Vai ver ele é gêmeo dele mesmo.
Escrito por Lelê às 21h42
![]() Flavião
Esses dias eu entrei no Coliseu. Aí eu fiquei sabendo que o nome dele não é Coliseu. É Flávio. O meu tio disse que ele é que nem o Pacaembu e o Maracanã, que todo mundo chama de Pacaembu e de Maracanã, mas têm nome de gente, e são Paulo Machado de Carvalho e Mário Filho. Coliseu é o apelido do Coliseu, e vem de "colosseum", que quer dizer grandão. Se fosse um estádio de futebol no Brasil, o Coliseu ia se chamar Flavião.
Escrito por Lelê às 15h51
![]() Lelê e a vendedora de roupas que não era deusa (mas quase)
Eu estou aqui em Roma com o meu tio. Aí, como ele não trouxe muito casaco, a gente foi numa loja comprar um para ele. Ele ficou um tempão fazendo pechincha com o dono da loja. Aí eu cansei e fui olhar um casaco. Mas aí, logo o primeiro que eu peguei, tinha um fio saindo. Então uma vendedora chegou perto de mim e disse: “Ah, esses fios puxados são um perigo...” “Você fala português?”, eu perguntei. “Claro”, ela respondeu. “Por que, você é brasileira?” “Não, grega.” “Ah, já sei... Vai começar tudo de novo... Você é uma deusa grega, né?” “Eu? Claro que não!” “Ufa, que bom...” “Sou só uma personagem mitológica.” “Hein?” “Meu nome é Ariadne, muito prazer.” “O meu é Lelê.” Aí ela pegou o casaco com fio puxado e começou a consertar. “Não posso ver fio puxado que me dá nervoso.” “Por quê?” “Você não conhece minha história? Nunca ouviu falar no fio de Ariadne?” “Não.” “Bom, eu sou filha de Minos, o rei da Ilha de Creta. Teve uma época em que o meu pai ficou com raiva de Atenas, porque os atenienses mataram o meu irmão, e exigiu que todo ano eles mandassem sete moços e sete moças para alimentarem o Minotauro.” “Desse eu já ouvi falar, é um monstro, né?”
“Isso. O Minotauro era metade homem e metade touro, e morava num labirinto que o meu pai mandou construir. Ele era tão cheio de curvas, passagens, cruzamentos e corredores que ninguém conseguia sair de lá.” “Legal!” Mas aí, teve um ano em que um dos sete rapazes foi o Teseu, e eu me apaixonei por ele.” “Xi...” “Então eu falei para o Teseu que podia ajudá-lo, mas ele tinha que me levar para Atenas e casar comigo.” “E ele topou?” “Na hora! Aí dei duas coisas para ele: uma espada e um novelo de lã.” “O novelo de lã era para amarrar o Minotauro? Não era melhor uma corda bem forte?” “Não, é que eu fiquei segurando o novelo e o Teseu foi puxando uma ponta. Assim, depois que ele enfrentasse o Minotauro, era só seguir o fio que ele ia achar a saída.”
“Pô, que inteligente. E o Teseu ganhou do Minotauro?” “Com um só golpe ele cortou a cabeça do bicho.”
“E aí ele voltou até a entrada seguindo o fio?” “Sim.” “E vocês pegaram um barco para fugir da Ilha de Creta?” “Sim.” “E viveram felizes para sempre?” “Não.” “Não?” “Não. Geralmente o pessoal só conta a minha história até que o Teseu acha a saída do labirinto. Mas depois ainda acontece umas coisas terríveis e umas ótimas.” “Conta primeiro a parte terrível.” “Bom, quando a gente estava indo para Atenas, paramos na Ilha de Naxos para dormir. Mas aí, ele esperou que eu dormisse e foi embora!” “Que safado!”
“Pois é, todo mundo acha que o Teseu é um grande herói, mas eu é que tive a idéia do fio. E o cachorro ainda me abandonou numa ilha.” “E você ficou sozinha lá?” “Não fiquei. A minha sorte foi que Nexos era a ilha favorita de Dionísio, o deus do vinho e das festas. Quando ele me viu, se apaixonou por mim, me deu um presente lindo, que foi uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas, e a gente se casou.”
“Legal. Você trocou um homem por um deus.” “É, saí ganhando mesmo. A gente teve vários filhos e ele ficou comigo até o fim.” “Que fim?” “Bom, é que o Dioníso era um deus, mas eu, não. Então eu envelheci e morri. E, quando isso aconteceu, ele pegou a minha coroa e atirou-a para o céu. E as pedras preciosas viraram estrelas.” “Peraí! Se você ficou velha e morreu, como é que você está aqui? Você está me enganando? Você é só uma vendedora mesmo?” “Não, é que eu sou uma personagem mitológica e... Bom, é difícil de explicar. Pronto, arrumei o casaco! Vamos experimentar.” Aí eu levantei os braços e ela começou a colocar o casaco em mim. Mas ele estava meio apertado e, quando eu consegui tirar a cabeça para fora, eu não vi mais a Ariadne. Só o meu tio é que estava lá. E com um casaco vermelho igualzinho ao meu. Então eu perguntei: “Tio, o senhor viu uma moça que estava aqui?” E ele respondeu: “Não. Mas acho melhor você escolher outro casaco. Senão a gente vai parecer uma dupla caipira.”
Escrito por Lelê às 04h08
![]() Lelê e a veterinária que nunca casou
Essa semana a Pintada estava meio estranha, muito paradona (e ela é sempre meio doidona), então a minha mãe resolveu levar ela no veterinário. Como a gente não conhecia nenhum, o jeito foi olhar na lista telefônica. Aí eu vi um anúncio bem legal que tinha um cachorro uivando para a lua e disse: “Vamos levar a pintada nessa veterinária aqui?” A minha mãe olhou e falou: “Tudo bem, eu não conheço outra mesmo.” Então ela pôs a Catarina na cadeira dela, eu peguei a pintada no colo, a gente entrou no carro e foi para lá. Só que, quando foi a vez de a gente entrar, a Catarina começou a chorar e a minha mãe teve que dar de mamar para ela (a Catarina é o maior faminta). Então só eu que entrei com a Pintada. A veterinária era bem bonitona, tipo a Lara Croft, daquele jogo, o Tomb Rider.
Aí ela começou a examinar a Pintada e foi me fazendo umas perguntas, tipo: “Qual é o nome dela?”, “O que que ela tem?”, “Desde quando ela não está andando mais?”, “A Pintada andou comendo alguma coisa diferente?” etc, etc... (eu adoro “etc”, porque aí a gente nem precisa escrever o resto das coisas). Depois, quando ela estava mexendo nas patas da Pintada, a veterinária disse: “Achei o problema!”. Então ela pegou uma pinça e tirou um caquinho de vidro que estava na pata da Pintada. A Pintada nem se mexeu, só deu um “miau” quando o caquinho saiu, e esse “miau” queria dizer: “Puxa vida, até que enfim alguém viu esse caco de vidro na minha pata! Essa veterinária é ótima!” Aí eu falei para a veterinária: “A Pintada disse que a senhora é muito boa.” “É, eu entendi”, ela falou. “A senhora também entende os gatos?” “Claro.” “E aprendeu isso na faculdade de veterinariologia?” “Não. É que eu sou a deusa dos animais.” “Caramba, mais uma?! Como tem deus por aí!” “É, nós somos muitos mesmo.” “E qual que é o seu nome?” “Ártemis.”
“Você também é filha de Zeus.” “Sou. E sou irmã gêmea de um outro deus, o Apolo.” “Poxa, eu não sabia que podia ter deuses gêmeos.” “Pode. Mas foi um parto bem difícil. Coitada da minha mãe... Durou nove dias e nove noites.” “Aica!” “Eu nasci primeiro. E aí ajudei o meu irmão a nascer. Por isso eu também sou a deusa dos partos.” “Legal!” “Aí, quando eu nasci, o meu pai me deu de presente um arco e umas flechas de prata.” “Poxa, eu só ganhei uns ursos de pelúcia...” “Zeus sempre caprichou nos meus presentes. Teve um ano que ele disse que eu podia escolher o que eu quisesse. Então, como eu vi que a minha mãe tinha sofrido muito no parto, eu pedi que eu não me casasse nunca, e que sempre pudesse correr livre com os meus cães pela floresta.” “Você nunca se casou mesmo?” “Nunca. Teve uns caras que tentaram alguma coisa, mas eu não de moleza para eles. Um dia, um grande caçador chamado Acteon, estava num vale chamado Gargafia, procurando um lugar para descansar com seus cachorros. E ele me viu tomando banho nua, num lago que ficava dentro de uma gruta. Aquilo me deixou com tanta raiva que eu molhei as mãos na água e atirei umas gotas nele, transformando-o num veado. Ele saiu correndo, com seus chifres e suas quatros patas. Mas os cachorros não o reconheceram e acabaram despedaçando o Acteon.” “Poxa, que cruel!” “E teve também o Orion. Ele era meu primo, filho do tio Poseidon, e a gente caçava juntos. Mas um dia ele quis me agarrar, e aí eu fiz aparecer um escorpião gigante que perseguiu o Orion. Foi uma luta tremenda! A espada de Orion não conseguia feriar a carcaça do escorpião, e uma hora o monstro conseguiu acertá-lo no calcanhar com seu ferrão.”
“Coitado...” “Coitado, não! Quem mandou mexer comigo?” “Bom, isso é...” “Mas o meu pai achou aquela luta tão fantástica que transformou os dois em constelações. Mas colocou os dois inimigos separados. Assim quando Orion está no céu, o Escorpião não aparece. E quando surge o Escorpião, Orion some.”
Nessa hora chegou a minha mãe. Ela agradeceu, pagou, e a gente foi embora. Então, no carro, a minha mãe disse: “Bonita essa veterinária, hein?” “Ela é uma deusa!” “Também acho. A gente podia apresentar ela para o seu tio Torero.” “Não, de jeito nenhum!”, eu falei. E aí ela pensou um pouco e disse: “É, tem razão. É muita areia para o caminhãozinho dele.”
Escrito por Lelê às 06h19
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