BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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As Lelimpíadas!

Ontem de manhã, a minha mãe e o Dirceu foram levar a minha irmã Catarina no pediatra (pediatra não é médico de pé, é médico de criança).

Aí quem ficou cuidando de mim foi o meu avô, que veio passar uns dias aqui em casa. Eu gosto quando o meu avô cuida de mim porque ele diz “Não faz bagunça, hein, Lelê”, e aí vai dormir e eu posso fazer o que eu quiser.

Então eu liguei a tevê para ver a olimpíada. Só que aí eu lembrei que a olimpíada já tinha acabado. Por isso eu resolvi inventar uma olimpíada só para mim, a Lelimpíada.

As provas da primeira Lelimpíada foram essas aqui, ó:

Salto em distância no sofá
A gente vem correndo bem de longe e aí pula no sofá (mas pula nele assim de comprido, que nem se ele fosse a caixa de areia). Tem que deixar uma almofada marcando, e aí a gente continua pulando e vê até onde chega. Eu fui bem longe. O chato é que teve uma hora que a almofada estourou e saíram umas espumas que estavam lá dentro. Mas eu botei tudo de volta. Quer dizer, quase tudo, porque se eu catasse tudo ia perder muito tempo e não ia dar para fazer todas as provas.

 
Arremesso de bexiga de ar
Na olimpíada tem uma coisa legal que é quando o pessoal joga umas bolas de ferro bem longe. Eles seguram ela perto do pescoço, de costas para a pista, aí dão uns passinhos para trás, giram e jogam a bola bem longe. Mas como eu não tinha bola de ferro em casa, eu peguei umas bexigas de ar. O chato é que elas são tão levinhas que não vão muito longe. Mas aí eu comecei a assoprar e melhorou. O meu melhor arremesso foi quando eu engasguei e tossi.


Salto em altura no sofá
No sofá também dá para fazer outro salto bem legal, o salto em altura. Mas precisa virar o sofá. Ele tem que ficar com as costas para a gente. Aí é só pular por cima dele com o corpo meio de lado e cair na parte macia. 

 


Travesseirodô
Nas olimpíadas têm um monte de lutas, tipo judô e taecondô, e eu achei que nas Lelimpíadas também tinha que ter uma. Aí eu inventei o travesseirodô. É bem fácil. É só pegar um travesseiro e fazer de conta que ele é um cara, e aí você chuta ele, dá um monte de soco, rola pela cama e no fim levanta ele com as duas mãos em cima da cabeça e joga bem longe.

25 metros com obstáculos
Esse é bem legal. Tem que fazer um caminho bem doido pela casa, colocando umas coisas para atrapalhar. Aí a gente tem que pular cadeira, passar por baixo da mesa, desviar do vaso, rolar na cama, passar por cima de uns brinquedos e, no fim, se jogar no sofá.

Gatismo
Nas Olimpíadas tem o hipismo (quem devia ganhar a medalha não era o cavalo?), mas como eu não tenho cavalo, eu inventei o gatismo. É claro que eu não sentei nas costas da Pintada e mandei ela pular. Mas eu coloquei o travesseiro na frente dela e falei para ela saltar. Só que em vez disso ela subiu em cima do travesseiro e deitou. Então eu que fiz de conta que era um gato e pulei. Nas Olimpíadas ia ser mais legal se o homem desse os pulos em vez do cavalo.

Privadobol
É que nem o basquetebol, só que a gente tem que acertar umas bolas de papel higiênico na privada. Eu fiquei o maior bom nisso. Pena que a privada entupiu.

O salto com vassoura
Para fazer essa prova tem que ser chão de carpete, senão escorrega. Aí você pega uma vassoura, corre, coloca ela no chão, se apóia e se joga em cima do sofá. Eu sei que precisa de chão de carpete porque lá em casa não tem e aí a vassoura escorregou e eu caí. Mas nem chorei.

 


Ginástica lelímpica
A ginástica lelímpica tem que ser em cima da cama da minha mãe, porque lá tem espaço e a gente não se machuca. Na ginástica lelímpica a gente tem que pular, ficar de cabeça para baixo, dar cambalhota e fingir que leva um tiro e morre.


Bom, aí eu fiz todas as provas e, como não tinha mais ninguém competindo, eu ganhei nove medalhas de ouro.

Só que quando o meu avô acordou e viu a privada entupida, o sofá no meio da sala, a cama da minha mãe desarrumada e um monte de coisa no chão por causa da corrida de obstáculos, ele perguntou: “Lelê, o que aconteceu aqui?”

“As Lelimpíadas”, eu respondi. “Ganhei mais medalhas que o Phelps!”

“Poxa, você é bom mesmo. Mas quero ver é se você aguenta a maratona.”

“Que maratona?”

“A maratona de arrumar toda essa bagunça. Pode começar já!”

Aí eu comecei a arrumar a bagunça. Foi o maior chato. Quando eu crescer eu não quero ser maratonista.

 

PS: Se alguém tiver uma idéia para uma nova prova para as Lelimpíadas, pode mandar.

Escrito por Lelê às 01h07
Redasão em portulelês

Um menino chamado Carlos mandou essa piada. Se alguém tiver outra, pode mandar (blogdolele@uol.com.br). Mas tem que ter alguma coisa com o Portulelês.  

Redasão
 

"O mano"

Cuando eu tiver um mano, ele vai se xamar Errar, porque Errar é o mano. Fui!
 

Fim.

Escrito por Lelê às 10h31
Lelê e a reforma ortográfica

 

A Catarina já veio para casa. Ela não chora muito, só de vez em quando. E eu nem acordo. Quem acorda é a minha mãe. E o Dirceu, às vezes.

De tanto acordar de noite, a minha mãe anda meio descabelada e com olheiras. Ela ficou assim com uma cara de louca, mas ela não está chateada, não.

E ela até já está trabalhando um pouco. É que a minha mãe trabalha em casa. Ela é uma coisa chamada revisora. Quando o pessoal faz um livro, ela lê tudo e vê se tem algum erro de português. E sempre tem, porque português é muito difícil.

Aí, ontem de manhã, a minha mãe estava lendo um texto com a Catarina no colo, e então ela disse: “Catita, essa revisão ortográfica vai ser uma bobagem...”

Eu perguntei o que era essa tal de revisão ortográfica e ela respondeu:

“É que vão acabar uns acentos e outras coisinhas. Mas é muito carnaval por pouca coisa.”

“Quer dizer que a gente pode mudar o jeito de escrever as palavras?”, eu perguntei.

“Pode, sim. Já teve um monte de revisões ortográficas. Por exemplo, antigamente se escrevia paiz com zê. Pharmacia era com pê e agá, e um monte de outras coisas.”

Pharmacia

“E essa reforma é ruim?”

“Não. Mas é só uma mudancinha de nada. O bom é se fizessem uma reformona, deixando a língua mais fácil de escrever.”

Aí ela pegou a Catarina no colo e foi para o quarto dela.

E eu fiquei pensando nessa tal de reforma ortográfica e tive um monte de idéias. Acho que eu mexi tanto nas palavras que nem é mais português. É Portulelês.

O Portulelês vai ser bem mais fácil que o português, porque cada letra vai fazer um trabalho só. E umas até vão sumir.

Por exemplo, não vai ter mais cedilha (que é um cê com rabinho). Se já tem o “s”, por que as outras letras têm que fazer o trabalho dele? E um “s” já vai valer por dois. Aí a gente vai escrever assim: “A Catarina só fica no berso, na maior preguisa, ganhando abraso, e eu aqui, com cara de palhaso.”

S = Z

Aquela história de “s” com som de zê também vai acabar. Se já tem o zê, a gente tem que usar o zê, né? Daí vai dar para escrever assim: “Mãe, eu joguei bola dentro de caza, quebrei um vazo, derrubei aquele seu perfume cheirozo e rasguei a camiza. Mas não fica nervoza. O importante é que eu não sou mentirozo.”

E, como o zê vai ser só zê, no fim das palavras a gente vai ter que usar o esse. Assim ó: atris, infelis, chafaris, imperatris, velós e arrôs,

Outra coisa é que, no Portulelês, o “c” só vai ter som de “c”, que nem em “Catarina comeu cocô”. Não vai ter mais “c” com som de “s”, que nem em doce (de banana), cigarro (de chocolate), cebola (argh!), cinema (oba!) e cera (de ouvido).

E aí a gente também não vai mais precisar da letra “Q”. Então as palavras vão ficar assim:

“Cerido, cer um cindim?”

“Um só, não. Cero cinze!”

“Asim vosê vai engordar sinco cilos.”

“Tá serto..., tá serto..., então me dá só um pedaso de ceijo.”

 Tem jeléia na jenjiva da jirafa.

O gê, que tem dois trabalhos, vai ter só um. Ele trabalha de um jeito em “garagem”, “guerra”, “guincho”, “gol” e “guri”. E de outro jeito em “girafa” e “geladeira”. Mas no Portulelês ele só vai trabalhar do primeiro jeito. E aí nem vai mais precisar do “u”. Então a gente vai escrever assim: “Gilherme foi para a gerra de gincho.”

O outro trabalho do gê vai ser feito pelo jota (eu sempre troco essas letras mesmo). Daí vai ficar: jelo, jelatina, jeléia, jêmeos, jeneral, jirafa, jigante e jenjiva.

O Portulelês também vai acabar com o agá no começo das palavras. Se eles não servem para nada, para que que eles estão lá? Só para a gente gastar tinta?

Daí tem um monte de palavra que vai mudar, tipo: oje, olofote, omem, ora, onesto, onra, orrível, ortelã, erói, igiene (quer dizer, ijiene), idrante, umor, álito e armonia. Elas ficam parecendo meio banguelas, mas depois a gente se acostuma.

E o xis, que faz um monte de coisa (tem vez que ele é z, que ele é cs, e que ele é x), vai ser só xis mesmo, e aí não vai mais precisar do “ch”. Então as palavras iam ficar assim: “Comprei um xapéu bem xique e paguei com xeque.”

Eu achei essas idéias o maior boas e fui contar para a minha mãe. Mas ela estava dormindo. Então eu resolvi fazer uma surpresa para ela:

Eu peguei um monte de folhas do trabalho dela e corrigi do meu jeito.

Aposto que quando ela acordar vai me achar o maior gênio.

Quer dizer, jênio.

 

Escrito por Lelê às 08h41
Mais um super-herói

Esse aí em cima foi inventado pelo Gabriel Motta: "Meu super-herói é assim:ao conversar com um palhaço, e ao mesmo tempo cair um meteoro radioativo em cima de mim eu virei o...Tatatadaaaaa:'The Clown'. Ele não tem poderes, só habilidades, igual ao Batman. Ele tem três acessórios: uma luva de boxe que sai do peito, super molas no sapato e atira tortas nos inimigos. E ele pode fazer os inimigos rolarem de rir com as suas super-piadas.

 

Escrito por Lelê às 13h23
Lelê bate papo com Catarina

A minha irmã, que se chama Catarina, ainda não veio para casa. É que ela nasceu antes do que tinha que nascer e agora tem que ficar um tempo no hospital.

Então eu fui lá visitar a minha irmã umas vezes. O chato é que não me deixam segurar a Catarina. E eu só posso encostar nela depois que eu lavo as mãos.

Ela já faz umas caretas bem engraçadas. Tem hora que ela dá uns bocejões, tem hora que ela parece que está brava e tem hora que parece que ela ri.

 Um bocejão da Catarina.

Minha mãe disse que quando ela ri é porque está sonhando. Mas com o que que ela vai sonhar se ainda não aconteceu nada com ela? Com o peito da minha mãe?

Bom, a Catarina teve uma coisa chamada icterícia e está meio amarela. Por isso ela ficou numa caixa transparente e tem umas luzes em volta. Eu achei aquilo o maior legal. Parece uma coisa do espaço.

  

E, como ela fica embaixo da luz, puseram uns oclinhos e um gorrinho nela. A Catarina parece um mano.

 A mana Catarina.

Bom, mas agora eu quero contar a primeira conversa que eu tive com a Catarina.

Não foi assim uma conversa daquelas que a gente fala com a boca e escuta com a orelha. Foi uma conversa por telepatia (telepatia é que nem o Professor Xavier fala com os X-Men).

Só tinha eu, a Catarina e a minha mãe lá no quarto. Aí eu segurei o dedo da Catarina e  escutei:

“Oi, Lelê.”

“Catarina?!”

“É.”

“Caramba, você está falando comigo?”

“Falando, não, que eu ainda vou demorar para falar.”

“Então a gente está telepaticando?”

“Acho que é isso. Vai ver é porque a gente é irmão, então a gente nem precisa falar para se entender.”

“Legal! E aí, o que você está achando aqui do mundo?”

“Eu não conheço o mundo. Só esse quarto. Mas até agora está bacana. É quentinho. Quer dizer, a minha caixa transparente é quentinha. Lá tá sempre trinta graus.”

“Pô, a gente está no inverno e você está no verão.”

“É. Tô até tomando sol. Quer dizer, lâmpada.”

“É que você nasceu amarelinha. Aí essas luzes são para deixar você cor-de-rosa.”

“Por quê que eu tenho que ficar cor-de-rosa?”

“Sei lá. Deve ser para combinar com o quarto.”

“Ah...”

 Esse não é meu dedo, mas a mão é da Catarina mesmo.

“E o leite da mãe, é gostoso?”

“Uma delícia! Nunca provei coisa melhor!”

“Deve ser bom mesmo, porque toda hora você mama.”

“Pede pra a mãe deixar você experimentar.”

“Blargh! Eu não gosto de leite puro. Só com chocolate ou morango.”

“O que que são essas coisas: chocolate e morango?”

“São uns sabores diferentes. São o maior bons.”

“Então um peito da mãe devia ter leite com chocolate e outro com morango.”

“Pô!, você tem umas idéias legais, Catarina.”

“De leite, eu entendo.”

“O chato é que esse leite faz você fazer um monte de cocô.”

“Fazer cocô é chato. Tem que fazer força. E depois eu fico melecada. Mas aí eu choro e a mãe me troca.”

“A sua vida é a maior moleza, né? Dão comida na sua boca, você dorme um tantão e nem precisa ir no banheiro.”

“É, está legal.”

"E dos banhos, você gostou?"

“No começo eu detestei, aí eu chorava mesmo. Mas agora estou acostumando.”

“Lá em casa tem uma banheira pequeninha só para você.”

“Oba!”

“Mas eu já usei para colocar meus carrinhos lá dentro. Eu fiz de conta que tinha tido uma enchente e tava todo mundo morrendo afogado.”

“Legal!”

 A Catarina só abre os olhos de vez em quando.

“E por que que você nasceu com oito meses?”

“Pressa, né?”

“E era bom lá dentro?”

“Ô! Era quentinho, sem barulho e a comida já vinha mastigada. Mas vocês estavam aqui, então eu saí.”

“O que que você mais gostou daqui de fora até agora?”

“Quando a mãe me pega no colo. É tão bom...”

“Pô, ninguém me deixa te pegar no colo.”

“Daqui a pouco eles deixam. Espera eu crescer um pouco.”

 A Catarina é o maior pequena.

“Outra coisa chata é que eu tenho que lavar a mão para encostar em você.“

“É claro, né, porcão!”

“Ei, você já vai começar a xingar?”

“É um xingamento de brincadeira, seu bobo.”

“Opa, xingou de novo!”

“He, he...”

“Caramba, ter irmã é fogo!”

“Tá bom, então eu vou te fazer um elogio.”

“Oba!”

“O seu dedo é ótimo!”

“Sério?”

“Sério. A pele é bem macia.”

“Pô, brigado...”

“E é salgadinha.”

“Ei, tira meu dedo da boca!”

“Seu estraga-prazer! Ter irmão é fogo!”

Escrito por Lelê às 08h40
!!!!!!!!!!!!!!!!

Nasceu!!!!!!!!!!!!!!!

 

A Catarina nasceu!

 

Agora eu vou lá no hospital conhecer a minha irmã. Na semana que vem eu conto tudo.

Escrito por Lelê às 07h23
Lelê conhece Machadinho

O meu nome é Leocádio, mas ninguém me chama de Leocádio. Todo mundo me chama de Lelê. Qualquer dia eu vou até me esquecer que eu me chamo Leocádio.

É que eu sou meio esquecido. Teve um monte de vezes que eu esqueci de levar caderno para a escola, já esqueci meus óculos numa porção de lugares e sempre que eu saio de guarda-chuva a minha mãe diz: “Já sei que esse não vai voltar”. E o pior é que eu acabo deixando em algum lugar mesmo.

Esses dias eu esqueci de contar uma coisa aqui. Uma coisa o maior legal.

É que, quando eu estava voltando lá da viagem que eu fiz com o meu tio Torero para ver uns jogos de futebol, a gente passou no Rio de Janeiro e ele aproveitou para ir num lugar chamado Academia Brasileira de Letras, que não é uma academia de ginástica, é uma academia de livro.

 

A Academia é essa casona com aquele prédio do lado. E no meio da casa e do prédio tem uma estátua que é essa aqui.


 

O meu tio quis passar nessa academia porque tinha uma exposição sobre o cara dessa estátua, que é um escritor que ele gosta muito e que morreu faz uns cem anos.

Bom, nessa viagem que a gente fez, o meu tio comeu de tudo: peixe, marisco, lagosta, carne de boi, de porco, de frango, de bode, de carneiro e até de avestruz (a minha mãe disse que quando o meu tio come avestruz á canibalismo, mas eu não entendi o que ela quis dizer).

Bom, daí, quando a gente estava quase entrando no prédio, que é onde fica a exposição, a barriga do meu tio começou a fazer gruuummm, gruuummm.

Então eu disse: “Caramba, tio, parece que tem um trovão dentro da sua barriga.”

“E o pior é que a tempestade já vai começar. Me espera aqui!”, ele falou, e foi correndo para o banheiro.

Eu fiquei ali na porta, do lado de um livrão que a gente assina quando entra na exposição, quando apareceu um garoto vendendo doce. Como eu tinha duas moedinhas de um real, eu chamei ele e disse:

“Oi. Você tem chiclete?”

“Só tenho balas de alfenim.”

“Não conheço. É nova?”

“Não, é bem antiga.”

“Quanto custa?”

“Dois tostões.”

“Serve dois reais?”

“Tudo bem.”

Aí eu dei as moedinhas para ele e ele me deu umas balas. Depois ele me perguntou: “Vamos dar uma olhada nessa exposição?”

Então, como eu sei que o meu tio demora muito no banheiro, eu disse: “Vamos lá.”
 
 

Uma coisa que eu gostei de ver foi esse jogo de xadrez. Eu também tenho um, mas o meu é dos Simpsons.

Aí, enquanto a gente via as coisas, eu perguntei para o menino que vendia balas: “Como é que você se chama?”

“Eu me chamo Joaquim, mas todo mundo me chama de Machadinho.”

“E eu me chamo Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Eu sou de São Paulo, e você?”

“Eu nasci aqui no Rio mesmo, no morro do Livramento.”

“Legal!”, eu disse. E aí eu comecei a contar quem que eu era e falei que eu ia ter uma irmã.

“Eu tive uma”, ele falou. “Mas ela morreu quando eu tinha seis anos.”

“Poxa, que chato...”

“E a minha mãe morreu quando eu tinha dez e o meu pai quando eu tinha doze.”

“Caramba...”

“Mas o meu pai já tinha se casado de novo e a minha madrasta, a dona Maria Inês, é legal. Ela é doceira numa escola.”

“Poxa, eu queria que a minha mãe fosse doceira.”

“A minha era lavadeira. E o meu pai era pintor.”

“De quadro?”

“Não, de parede.”


 

Aí a gente andou mais um pouco e passou em frente a esse caldeirão aí em cima.

“Olha só, um caldeirão!”, eu falei. “Será que esse escritor era bruxo?”

“Não, esse caldeirão aí era para ele queimar uns papéis velhos. Aí os vizinhos viam ele fazendo isso e começaram a dizer que ele era o Bruxo do Cosme Velho.”

“Que Cosme Velho?”

“Era o bairro onde ele morava. Na casa daquela foto ali, ó.”

 

“Bacana.”

“É memesmo.”

“Você é gago?”

“Só um popouquinho.”

Aí eu ri, mas ele não ficou chateado. E depois a gente viu esses óculos aqui:

 

E eu disse: “Que óculos esquisitos, né Machadinho?”

“Até que eu gostei”, ele respondeu. “E eu devo estar precisando, porque anda difícil para eu ler umas coisas.”

“Que coisas?”

“Os livros de francês.”

“Você está na escola de francês?”

“Não, imagina, eu sou pobre. Quem está me ensinando é o forneiro de uma padaria lá em São Cristóvão.”

“Você quer ser professor de francês?”

“Quem me dera. Acho que eu vou é trabalhar numa tipografia, o lugar onde fazem os livros.”

“Pô, legal. Aí você vai ler um monte de livro de graça. Pode até virar um escritor.”

“Quem sabe, né? A vida, Lelê, é uma loteria.”

Bom, aí a gente acabou de ver as coisas, desceu as escadas e, quando a gente chegou lá embaixo, eu falei:

“Quer apostar uma corrida até a estátua?”

“Quero. Ao vencedor, as batatas!”

“Que batatas? A gente não tem nenhuma batata.”

“Ah, é. Então..., ao vencedor as balas de alfenim!”

E aí a gente saiu correndo. Ele era meio devagar e eu cheguei primeiro na estátua. Mas aí, quando eu olhei para trás, não vi mais o Machadinho.

Ele tinha sumido. E nem me deu as balinhas de alfenim...

Eu fui amigo do Machadinho por meia hora e dois reais.
 

 

PS: A minha mãe está com umas dores na barriga e agora a gente vai para o hospital. Ah, e ela já escolheu o nome da minha irmã. Vai ser Catarina!

Escrito por Lelê às 17h19
Uma heroína, um gato e um prédio

Essa é uma super-heroína que a Aline inventou. 

 

Quem mandou esse gato aí de cima foi a Alice.

E esse prédio com molas é do Gabriel Brito. O nome dele podia ser Edifício Póim.

 

Escrito por Lelê às 07h53
Lelê na escola nova (que tem 80 anos!)

Nessa semana teve um negócio chato que foi a volta às aulas. Só que eu voltei às aulas mas não voltei para a minha escola.

É que eu mudei de cidade, então essa semana eu comecei na minha escola nova, lá em Santos. O nome dela é Escola Municipal de Ensino Fundamental Lourdes Ortiz.

É uma escola bem velha, que vai fazer oitenta anos. Mas tem cara de trinta.

A história dessa escola é bem legal. Quem me contou foi a diretora, quando a gente foi lá fazer a minha matrícula (eu esqueci o nome da diretora, mas como ela tem um monte de boneco da Hello Kitty na mesa, eu chamo ela de dona Kitty).

Bom, a história é assim: Tinha um homem (que eu também esqueci o nome) que era casado com uma mulher bem bonita chamada Lourdes Ortiz. Eles tiveram um filho e a dona Lourdes trabalhava de professora. Parece que ela gostava muito de ser professora. Só que aí, quando ela tinha uns trinta anos, a dona Lourdes teve uma doença no coração e morreu.

O marido dela ficou bem triste e decidiu fazer uma coisa para ninguém esquecer da dona Lourdes. Então pegou um terreno que ele tinha, construiu uma escola, colocou tudo dentro (carteira, mesa, giz, apagador, essas coisas) e deu a escola para a prefeitura. Ele só pediu que ela se chamasse Lourdes Ortiz.

Eu achei isso bem legal, porque em vez de fazer uma estátua que só serve para passarinho fazer cocô, ele fez um negócio que serve para um monte de gente. E todo mundo que estudou lá conhece essa história.

Bom, depois ele mudou de cidade com o filho e ninguém mais sabe onde anda a família da dona Lourdes Ortiz. Mas não faz mal, porque a escola está lá. E vai fazer aniversário este mês.

 (No começo a escola era assim.)

 (Hoje ela é assim.)

Bom, aí eu fui para o primeiro dia de aula no Lourdes Ortiz. O chato de ir para uma escola nova é que a gente não conhece ninguém.

Daí eu entrei na sala e fiquei bem calado para ver se ninguém percebia que eu estava lá. Mas a professora, que se chama dona Valquíria, falou assim: “Pessoal, hoje nós temos um aluno novo.”

Na hora todo mundo olhou para mim. Eu senti a cara bem quente, que é o que acontece quando eu fico vermelho.

Para piorar, ela disse assim para mim: “Fica em pé e se apresenta para a classe.”

Caramba, aquilo me deixou com a maior vergonha, porque é esquisito a gente falar com um monte de gente que a gente não conhece. Mas aí, como não tinha jeito, eu fiquei de pé e falei assim bem rápido:

“OmeunomeéLeocádio.”

E sentei de novo.

Eu pensei que já tinha acabado, mas a dona Valquíria não achou, e disse: “Muito bem, pessoal, agora eu quero que vocês façam perguntas para conhecer o Leocádio.”

Ficou o maior silêncio. Ninguém fez pergunta nenhuma.

“Ninguém quer saber nada dele?”, ela insistiu.

E ninguém perguntou nada.

Aquilo me deixou o maior triste. Pô, ninguém queria saber nada de mim?

Só que aí a diretora dona Kitty bateu na porta da classe, colocou a cabeça para dentro e disse: “Professora Valquíria, eu preciso da senhora um instantinho.”

“Ah, claro, estou indo”, e aí, quando ela estava na porta, disse para nós: “Quero todo mundo sentado, hein, pessoal?”

Mas logo que ela saiu, todo mundo levantou e ficou em volta de mim, perguntando um monte de coisa: de onde eu era, por que que eu mudei, quem era a minha mãe, para que time eu torcia e um monte de coisa. E aí foi legal.

Depois, durante a semana eu fui conversando com o pessoal. Eu ainda não conheço todo mundo, mas já sei o nome de um monte de gente:

Tem o Gabriel, que é meio gordinho e adora ler (mas ele não usa óculos).

Tem o Edgar, que adora carro e diz que quando crescer vai querer ser piloto de Fórmula 1 ou motorista de caminhão de lixo, porque assim ele pode ficar dirigindo o dia todo.

Tem a Glaucia, que diz que quer ser professora quando crescer e por isso vive apagando a lousa, pegando as canetas e ajudando a professora (ela é meio puxa-saco).

Tem a Marilene, que é o maior forte.

Tem o Alemão, que tem esse apelido porque tem olho azul e cabelo amarelo, e parece um alemão mesmo. Quer dizer, alemão, não, porque ele é baixinho. O Alemão é um aleminho.

Tem o Pérsio, que é craque no futebol.

Tem o Fernando, que é um pouco CDF.

Tem a Cecilia, que é muito CDF e tem um monte de sardas.

Tem o Roberto, que é o maior altão e magricelo.

Tem o Sílvio, o Sidnei e o Silmar, que são trigêmeos.

Tem a Priscila, que usa um cabelo meio esquisito.

Tem a Renata, que tem cara de brava,

Tem a Camila, que tem umas bochechas bem cor-de-rosa,

Tem a Sheila, que gosta de bicho e por isso tem estojo de bicho, lápis de bicho, borracha de bicho e sapato de bicho. Ela disse que quando crescer vai ser veterinária ou dona de um zoológico.

Tem o Davi, que é meio japonês e fica fazendo piadinha.

Tem a Laura, que parece que está sempre com sono.

E tem a Tainá, que tem cabelo vermelho e ri muito.

Bom, essa é a minha nova escola e a minha nova turma. Semana que vem eu conto mais. Tchau!

 

Escrito por Lelê às 14h53