BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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O Zooilógico do Lelê

Tem uns bichos que são o maior legal, tipo o cachorro e o coelho, mas tem uns outros que eu acho o maior horrível, tipo a minhoca e o rato (que só é legal em desenho).

Ai eu pensei assim: “Se eu fosse Deus, que bichos será que eu tinha criado?”

Daí, eu inventei esses aqui:

Joanaronte: O joanaronte é uma mistura de rinoceronte com joaninha. O rinoceronte é muito feioso com aquela casca durona, então o meu joanaronte ia ter o tamanho de um rinoceronte, só que com aquelas cores legais das joaninhas. Acho que ia ficar o maior legal. Não é porque o bicho é grandão que ele tem que ser feio.

Tatigre-dente-de-sabre: É uma mistura de tatu com o tigre-dente-de-sabre, que é um tigre que não existe mais mas que tinha uns dentões maiores que os da Mônica. O tatigre ia ser o maior bom para cavar buraco, porque o tatu já é o maior craque nisso, mas aí, com os dentões do dente-de-sabre, ia ficar melhor ainda. Podia até fazer metrô.

Zebravão: O zebravão ia ser um bicho muito bonito. Ele ia ter o corpo da zebra, todo listrado, e um rabo que nem o do pavão, todo colorido. Ah, e aquelas peninhas na testa também. Às vezes eu vejo na televisão umas fanfarras com uns cavalos todo enfeitados. Mas com o Zebravão nem ia precisar ter aquele trabalho todo de fantasiar o cavalo. Ele já é um cavalo enfeitado. Pode até sair em escola de samba.

Saparé: Esse bicho ia ser o maior divertido. Ele ia ter a boca mais feia do mundo, porque ela ia ser grande que nem a do jacaré, mas largona que nem a do sapo. Quando o saparé fosse dar risada, ia ficar uma coisa tão engraçada que todo mundo ia rir junto, rá, rá, rá!

Girafante: O elefante é um bicho meio gordão, então eu acho que, para dar uma melhorada, ele podia ter umas pernas mais finas, tipo que nem as da girafa ou as das modelos. Ele ia ficar altão e aí eu acho que ia resolver o problema de peso dele. Pelo menos é o que o meu tio Torero diz. Ele fala que não precisa emagrecer dez quilos, só tem que crescer dez centímetros.

Pinguru: O pinguru ia ser meio pingüim e meio canguru. Ele ia andar daquele jeito engraçado do pingüim, mas ia levar o filhote na barriga. O filhote ia chacoalhar um montão!

Tamanducobra: Eu ia ficar milionário se eu inventasse o tamanducobra, porque ele ia ser um bicho mais legal que aspirador de pó. O tamanducobra ia ter o corpo de uma cobra, só que com o focinho e a língua que nem do tamanduá. Aí, ele ia conseguir entrar em qualquer canto da casa e ia ficar comendo as formigas e aqueles bichinhos que se escondem onde a gente não consegue chegar. Todo sítio ia ter um tamanducobra.

Beijapótamo: O problema do hipopótamo é que ele é tão pesadão que nem consegue andar direito. Por isso que ele fica dentro da água. Mas, se ele tivesse umas asas que nem a do beija-flor, que se mexem o maior rápido, ele até conseguia dar umas voadinhas. E ia ficar mais bonito.

Dragato: O dragato é uma mistura de dragão com gato. O dragão é um bicho legal, mas ele é muito grande para a gente ter em casa. Daí eu queria que tivesse um dragão pequeno, do tamanho de um gato, que a gente pudesse deixar no quintal. Ele ia ter um rabo bem peludo e aquelas orelhas legais de gato, que a gente pode ficar dobrando porque não elas quebram. O dragato não pode soltar muito fogo pela boca, senão vai queimar tudo. Mas pode soltar um fogo fraquinho, só para acender o fogão ou para a gente esquentar as mãos quando está frio.

Macagaio: Esse bicho ia ser bem legal. É uma mistura de macaco com papagaio. Ele ia ser um bicho com duas mãos, ia saber ficar de pé, ia fazer um monte coisa engraçada, bem ridícula mesmo, e ainda ia falar. Se bem que eu acho que esse bicho já existe.

Bom, se eu fosse um deus, ou cientista genético, eu inventar esses bichos. E você, ia inventar algum? Se tiver uma idéia, escreve aqui.

 


PS: Ah, s se você desenhar um bicho bem doido, manda o desenho para o blogdolele@uol.com.br.

Escrito por Lelê às 14h20
O fim da Princesa que soltava pum!

(Hoje eu vou contar o final da história da semana passada. Quem não leu o começo, é só ler lá embaixo. Para quem leu mas é meio esquecido, eu vou lembrar que o Dragão chegou no Reino e disse que queria comer uma princesa, senão ia botar fogo em tudo.)  

 

VI

Depois da ameaça do Dragão, o Rei chamou o Chefe da Guarda, a Rainha e a Princesa para uma reunião urgente.

“O que podemos fazer?”, perguntou o Rei.

“Deixe comigo”, falou o Chefe da Guarda. “Meus soldados vão acabar com este monstro.”

“O senhor acha mesmo que seus homens podem dar conta deste dragão?”, perguntou a Rainha desconfiada. 

“É claro, majestade. Soldados podem resolver qualquer coisa.”

“Então está bem. Ataquem o Dragão!”, decretou o Rei.

 

VII

Os bravos soldados se prepararam com apuro para atacar o Dragão. Colocaram suas armaduras, puseram seus capacetes, pegaram seus escudos e prepararam suas melhores flechas, lanças e espadas.

O Chefe da Guarda juntou todos os soldados no pátio do castelo e gritou:

“Homens, vamos acabar com este Dragão. Marchem!”

Então a ponte levadiça do castelo baixou e os soldados começaram a marchar para fora do castelo.

Quando estavam a uma certa distância do Dragão, o Chefe da Guarda falou: “Atenção, arqueiros!”

E todos os arqueiros pegaram uma flecha.

“Preparar!”

E todos os arqueiros colocaram suas flechas nos arcos.

“Apontar!”

E todos os arqueiros apontaram para o Dragão.

“Fogo!”

Mas aí, quando o Chefe da Guarda disse “Fogo!”, quem soltou fogo primeiro foi o Dragão, e ele transformou as flechas e os arcos dos soldados em cinzas.

O Chefe da Guarda não se deu por vencido e disse: “Soldados, vamos usar as lanças. Preparar!”

E os soldados preparam suas lanças.

“Apontar!”

E os soldados apontaram suas lanças.

“Já!”

E os soldados atiraram suas lanças.

Quando o dragão viu aquele monte de lanças vindo em sua direção, soltou uma enorme labareda de fogo e queimou as lanças no ar. Elas viraram uns gravetinhos queimados e caíram no chão.

Mais uma vez o Chefe da Guarda não se deu por vencido e disse: “Soldados, preparem suas espadas!”

E os soldados prepararam suas espadas.

Então ele disse “Atacar!”, e todos saíram correndo em direção ao Dragão. Todos mesmo, inclusive o Chefe da Guarda.

Mas, quando eles estavam chegando perto do Dragão, o monstro soltou uma chama de fogo enorme em cima dos soldados. Como as armaduras deles eram de ferro, elas ficaram muito quentes, pelando mesmo, e os soldados (inclusive o Chefe da Guarda), tiveram que se atirar no fosso do castelo para esfriá-las.

O Dragão achou aquilo muito engraçado e ficou rindo um tantão: “Rá, rá, rá”, e a cada risada dele saía fumaça do seu nariz.

Mas, de repente, ele fez uma cara bem séria e disse: “Agora chega de brincadeira. Ou eu almoço a princesa, ou eu queimo a cidade inteira.”

Ouvindo isto, a Princesa ergueu o queixo e disse: “Se é para o bem de todos e sobrevivência geral da nação, digo ao povo que serei o almoço do Dragão.”

O Rei e a rainha começaram a chorar.

“Não vá, minha filhinha...”, diziam os dois. Mas a Princesa estava decidida. Ela sabia o que devia ser feito. Então foi até a janela e disse: “Estou aqui, senhor Dragão. Sirva-se.”

Quando a viu, o Dragão pegou um lençol que estava num varal e amarrou-o no pescoço como se fosse um guardanapo. Daí estendeu a mão, segurou a Princesa e levou-a até a boca.

 

VIII

Porém (nestas horas tem sempre um “porém”), quando ele já estava quase abocanhando a Princesa, ela concentrou-se o mais que podia, caprichou o mais que podia, e aí soltou um pum que fedia o mais que podia.

Um punderoso pum!

Quando o Dragão sentiu aquele cheiro, largou a Princesa na hora. Ela só não se estatelou no chão porque segurou no lençol que servia de guardanapo para o Dragão.

O Dragão tossiu, revirou os olhos, abanou-se com o rabo, prendeu a respiração e ficou mais roxo do que já era. Depois, quando conseguiu voltar a respirar, perguntou: “Caramba! É assim que as princesas cheiram?”

“É claro! Todas nós somos assim.”

“Então eu desisto dessa idéia de comer princesas. Vou voltar para os meus brócolis.”

E, dizendo isso, o Dragão foi embora e nunca mais comeu uma princesa. Virou vegetariano. Ou melhor, brocoliano.


IX

O feito da Princesa correu o mundo. Nunca antes uma princesa tinha conseguido escapar sozinha das garras (e dos dentes) de um dragão.

Fizeram poesias músicas e até peças de teatro sobre ela. Se já tivessem inventado o cinema naquele tempo, teriam feito um filme também.

Por conta disso, ela ficou muito famosa e príncipes de todos os cantos do mundo começaram a mandar cartas pedindo-a em casamento.

O Rei resolveu organizar as coisas e marcou um dia para que todos os príncipes viessem falar com a Princesa, e aí ela escolheria aquele que seria seu marido.

No dia marcado havia uma imensa fila de príncipes na porta do palácio. Eram príncipes de tudo quanto é lugar, de tudo quanto é cor, de tudo quanto é tamanho.

Estavam lá, por exemplo:

-Moustache, o príncipe francês que tinha bigodes que chegavam até o chão (mas que ele usava como cachecol),

-Falatutti, príncipe italiano que falava o tempo todo e só parava de vez em quando para respirar,

-Ching Dong, príncipe chinês que tinha unhas tão longas que podia coçar o pé em pé,

-Calvino, príncipe espanhol que ficava polindo sua careca todo o tempo (e nem usava coroa para não tampar sua lustrosa cabeça),

-e até o Príncipe Encantado, que tinha acabado de se separar da Branca de Neve (parece que ela preferiu voltar para os sete anões).

Mas o primeiro da fila, quem diria, era o Príncipe Loiro.


 
Quando chegou até a Princesa, que estava sentada em seu trono, ele colocou um pregador no nariz e disse com a voz anasalada:

Princesa, agora que você é famosa, vou lhe dar uma segunda chance. Eu, o lindo e loiro Príncipe Loiro, aceito me casar com você.”

A Princesa ficou muda por um segundo. E depois caiu na gargalhada. Quando finalmente conseguiu parar de rir, falou: “Eu nunca vou querer alguém como você, Príncipe Loiro. Dê meia-volta e saia daqui antes que eu solte um pum tão forte que esse seu pregador não vai adiantar nada!”

E o Príncipe Loiro saiu correndo.

Então vieram os outros príncipes. Quase todos eram altos, belos e fortes. Mas, depois de conversar com todos, ela acabou escolhendo um que não era nem alto, nem belo, nem forte, e muito menos loiro. Na verdade, era meio baixinho, meio feio, meio fracote e tinha um cabelo castanho bem comum. Aliás, esse era seu nome. Príncipe Castanho.

Mas ele tinha uma qualidade muito rara: sabia arrotar. E foi assim que ele conquistou a Princesa. Eu explico:

É que, quando chegou sua vez de conversar com ela, em vez de declamar uma poesia ou fazer uma declaração de amor como todos os outros, ele deu um arroto. Só que não foi um arroto comum. Foi um arroto musical!

Isso mesmo, um arroto musical. O Príncipe Castanho conseguia dar seus arrotos em vários tons diferentes, do mesmo jeito que a Princesa conseguia com seus puns.

Foi amor à primeira vista. Ou melhor, ao primeiro ouvido.


X

O casamento foi marcado para dali a alguns meses.

Mas dessa vez a cerimônia não foi na igreja. Ela aconteceu no campo de futebol da cidade (sim, naquele tempo já tinha futebol, e o time da aldeia era o PEC (Pum Esporte Clube).

E não convidaram só os reis e as rainhas. A Princesa fez questão de chamar todo o povo da cidade.

No dia da cerimônia, o estádio estava lotado. As pessoas tinham levado faixas, cornetas e estavam fazendo uma bagunça muito feliz.

Porém, todos fizeram silêncio depois que a Princesa entrou. E até as moscas pararam de zunir quando o padre perguntou ao noivo: “Você aceita a mão da Princesa em casamento?”

Sabem o que aconteceu nesta hora?

Isso mesmo. A Princesa estava tão nervosa que soltou outro pum.

Prummmm!

Todo mundo ficou esperando a reação do príncipe. Será que ele também iria abandonar a Princesa no altar?

Mas, para surpresa de todos, o Príncipe Castanho respondeu: “É claro que aceito. Todo mundo solta pum. E todo mundo arrota.” E aí soltou um tremendo arroto de felicidade, tão tremendo que o estádio tremeu.

Por um momento houve um grande silêncio. As pessoas ficaram olhando para a cara uma das outras sem saber o que fazer. Mas então um menino gritou “Eu também solto pum e arroto”, e soltou um pum e arrotou ao mesmo tempo.

O estádio inteiro caiu na gargalhada, e aí os reis, as rainhas e todas as pessoas da aldeia começaram a soltar puns e dar arrotos (até o padre, mas só depois de dizer “Eu vos declaro marido e mulher”).

 

XI

E assim, soltando puns e arrotos, todos viveram felizes para sempre (menos a aldeia vizinha, quando ventava muito).

 

Escrito por Lelê às 07h00

Por causa daquele texto sobre puns que eu fiz um dia desses, o meu tio me contou uma história que é assim:

 

A princesa que soltava pum!


I

Quase sempre as histórias de princesa acabam quando elas entram na igreja para se casar com o príncipe e a gente lê aquela frase: “e viveram felizes para sempre.”

Essa aqui, não. Essa começa quando as outras acabam.

Quer ver?

Então vamos lá:

Era o dia do casamento da Princesa!

O sol ensolarava, os pássaros passaravam e as flores floreavam. A Princesa, que era morena e por isso era chamada de Princesa Morena, ia se casar com um príncipe. Ele era alto, belo, forte e loiro. Tão loiro que era chamado de Príncipe Loiro.

A igreja estava enfeitada com fios de seda que iam de um lado ao outro.

Reis e rainhas vieram de todas as partes do mundo para assistir ao casamento.  Estavam lá:

-o rei Krug, que era anão e usava sapatos com saltos de um metro,

- a rainha Maiara com seu enorme cocar de penas de pavão,

-o rei Balabalu com sua coroa de dentes de elefante,

-as rainhas Li-Tsen-Lu e Lu-Tsen-Li, que eram gêmeas siamesas e usavam uma mesma capa feita de pele de tigre,

-a rainha Gelásia com seu cetro de gelo,

-e o rei Abdul com seu turbante que tinha todas as cores do arco-íris,

Então a orquestra começou a tocar a marcha nupcial e o Príncipe Loiro foi para perto do padre.

Logo depois apareceu a Princesa, num lindo vestido branco, cravejado de pérolas e diamantes. Quando ela entrou na igreja, todos disseram “Oh!”, de tão linda que ela estava.

Então a Princesa foi até o altar, deu a mão para o príncipe e o padre começou a cerimônia.

Era uma emoção só. As rainhas choravam e os reis fingiam que não choravam.

Mas, quando chegou o momento em que o padre pergunta ao noivo: “Você aceita a mão da Princesa em casamento?”, aconteceu uma coisa que ninguém esperava. Uma coisa que nunca tinha acontecido em nenhum casamento de princesa. Essa coisa foi que ela... soltou um pum!

Isso mesmo, um pum.

E foi um pum daqueles bem barulhentos, que não dá para disfarçar. O vestido da Princesa chegou a levantar um pouco, de tão forte que tinha sido o vento do seu pum.

Mas isso não foi o pior. O pior foi que a ventosidade da Princesa espalhou-se pela igreja e tinha um cheiro tão forte que Abib Narigus, um califa que tinha um nariz enorme, quase desmaiou.

As rainhas, espantadas com o barulho do pum, colocaram a mão na boca. Os reis, espantados com o cheiro do pum, colocaram a mão no nariz.

Ninguém sabia o que fazer. O Príncipe olhava para o Padre, o Padre olhava para a Princesa, e a Princesa, envergonhada, olhava para o chão.

Foi aí que uma criança gritou “A princesa soltou um pum!” e começou a rir. E, como uma risada puxa a outra, logo começou uma risadaria gigantesca.

O Padre pigarreou e repetiu sua pergunta: “Príncipe Loiro, você aceita a mão da Princesa Morena em casamento?”.

O Príncipe olhou para trás, viu todo mundo rindo da Princesa, e pensou assim: “Todo mundo está rindo da Princesa. Se eu me casar com ela, todo mundo vai rir de mim.”

Então o Príncipe estufou o peito e falou bem alto, para que todo mundo ouvisse:

“Não, não aceito casar com uma princesa que solta pum!”.

E aí deu meia volta e saiu da igreja.

A Princesa não conseguiu sair do lugar. Ficou lá, parada, paralisada, olhando para a ponta dos seus sapatos.

Todos os convidados foram saindo devagar.

Os pais da Princesa não sabiam o que fazer. Estavam em dúvida entre:

a-) Ir atrás do Príncipe e exigir que ele se casasse com a Princesa.
b-) Xingar os convidados porque eles haviam rido de Princesa.
c-) Abraçar a Princesa.

Acabaram optando pela opção “C”.

 

II

Se tem uma coisa que se espalha mais rápido do que o cheiro do pum é a fofoca. Por isso, logo o povo todo ficou sabendo o que tinha acontecido na igreja.

A Princesa, coitada, nos primeiros dias ficava na janela, olhando para o horizonte e se lamentando. Mas aí as pessoas passavam e gritavam:

“Oi, Punliana!”

“Oi, Punzelda!”

“Oi, Rapumpunzel!”

E duas lágrimas caíam de seus olhos, uma de raiva e outra de tristeza.

Ela também nunca mais foi convidada para bailes e festas. Todo mundo tinha medo que ela soltasse puns e estragasse o baile.

Até os reis e rainhas, quando visitavam os pais da Princesa, faziam alguma piadinha, usando palavras que tinham “pum” no meio:

“Como vai a pundonorosa Princesa?”

“Oh, que situação pungente...”

 

III

O Príncipe Loiro nunca mais deu notícias.

Os pais da Princesa tentaram conseguir outro marido para ela, mas nem mesmo príncipes menos cotados, como Tanko, o manco, e Klesgo, o vesgo, queriam saber da Princesa.

A gota d’água foi quando começaram a chegar turistas de outras cidades para vê-la.

Eles vinham em longas carruagens, ficavam com binóculos em volta do castelo e, quando a Princesa aparecia no alto da torre, apontavam para ela e gritavam:

“É a princesa que solta pum! É a princesa que solta pum!” 

Na rua em frente ao castelo começaram até a surgir alguns pilantras que vendiam vidrinhos cheios de ar, garantindo que ali havia legítimo pum real.

 

IV

A Princesa foi ficando cheia daquela situação. Foi ficando tão cheia, mas tão cheia, que um dia, depois de escutar mais uma vez os gritos de “É a princesa que solta pum! É a princesa que solta pum!”, ela foi até a murada do castelo e gritou:

“Eu solto pum mesmo! Toda princesa solta! E vocês também soltam! Aposto que todo mundo aí embaixo já soltou um pum hoje, é ou não é?”

Ninguém respondeu nada.

A Princesa continuou: “Eu sabia! Vocês não responderam porque já devem ter soltado um pum mesmo. Seus punzeiros, seus peidófilos, seus flatulentos! Vocês não vêem que soltar pum é uma coisa comum? Não vêem que isso não é motivo de vergonha para ninguém?”

E para encerrar o seu discurso, a Princesa apertou os olhos, fez uma tremenda força e soltou um pum tão forte que ecoou feito um trovão por todo o reino.


 
V

Desse dia em diante nunca mais houve excursões de punturismo, que é o nome do turismo feito por causa do pum da Princesa.

Mas a grande mudança aconteceu com a própria Princesa. Ela parou de segurar seus puns.

Mais que isso: ela passou a soltar puns de todos os jeitos: sonoros, silenciosos, em dó maior, em sol menor, com cheiro bom, com cheiro ruim e até sem cheiro. Virou uma especialista em puns, uma espuncialista.

Se ela queria andar de patins, soltava uns puns bem fortes e ia a jato.

Às vezes, quando estava no chão, ela dava uns puns e fingia que estava levitando.

Aprendeu até a soltar puns coloridos: amarelos, roxos, verdes e azuis.

A Princesa transformou o pum numa arte, o punzismo.

A partir daí ela ficou muito mais feliz, e esse até poderia ser o final da nossa história.

Mas o final não vai ser aqui.

Sabe por quê? Porque apareceu um dragão no reino.

Isso mesmo, um dragão. E era um daqueles dragões típicos: coberto de escamas e soltando fogo pelo nariz. A única diferença é que ele falava, o que é relativamente raro em se tratando de dragões.

O dragão chegou avançando cidade adentro, com seus pés imensos que deixavam buracos enormes nas ruas.

As pessoas entraram em suas casas e ficaram espiando pelas fechaduras.

De vez em quando o Dragão soltava uma enorme labareda de fogo para o alto, só para mostrar sua força.

Mas ele não queria destruir o reino. Ele queria outra coisa: comer.

Só que tinha que ser um prato muito especial

E quando chegou em frente ao castelo, que ficava bem no centro da cidade, o Dragão gritou:

“Quero comer uma princesa!”

O Rei foi até a sacada, pegou um megafone e perguntou: “Uma princesa? Não serve outra coisa? Você não gosta de mais nada?”

O Dragão respondeu: “Eu adoro brócolis.”

“Ótimo, então vou lhe mandar uma tonelada de brócolis.”

“Não, obrigado. Quero uma princesa mesmo. É que eu vi num livro que os dragões comem princesas, e eu nunca experimentei uma princesa.”

“Este livro deve ser muito antigo. Comer princesa está fora de moda”, argumentou o Rei.

“Não tente me enrolar. Se não me entregarem uma princesa em uma hora, botarei fogo no reino”, respondeu o Dragão.

E, só para mostrar que ele não estava brincando, jogou uma labareda numa carroça que estava cheia de milho e foi pipoca para todo lado.

 


(Xi, acabou o espaço. Na semana que vem eu conto o final da história. Vai ter batalhas, fogo, puns e até arroto.)

Escrito por Lelê às 07h59
Li outro livro

Estes dias eu acabei de ler esse livro aí em cima, que se chama "Dragonologia - o livro completo dos dragões".

Ele é bem grande e é o maior bonito. Lindão mesmo. Mas é bem caro. Foi mais de sessenta reais.

Ele não tem muitas páginas, mas elas são bem grandes e têm um monte de coisas sobre dragão. Até cansa de ler (o que eu acho que não é muito bom).

Uma coisa legal é que em cada página tem uma coisa colada. Por exemplo, nessa aí de cima, no canto esquerdo, tem um negócio rosa que é uma amostra de pele de dragão. Tem outras que é um envelope, outros tipos de pele de dragão e até um olho de dragão.

O meu tio gostou tanto que disse que vai fazer uma história de dragão um dia desses.

Escrito por Lelê às 07h56
Unidos do Lelê

O meu nome é Lelê. Por isso, a minha música de carnaval preferida é aquela assim: “Olerê, olará, pega no ganzê, pega no ganzá”. Só que eu canto ela assim: “Ô, Lelê, olará, pega no ganzê, pega no ganzá”, porque aí parece que ela foi feita para mim (quem quiser escutar a música, é só clicar "aqui" e escolher o cantor).

A minha mãe me disse que essa música tinha quase quarenta anos e era de uma escola de samba chamada Salgueiro.
 
Escola de samba é uma escola bem legal, porque é uma escola onde não tem que fazer lição. Se bem que deve dar mais trabalho fazer aquelas fantasias todas.

No carnaval, toda noite tem escola de samba na tevê. No começo eu acho legal, mas depois eu acabo dormindo.

Uma coisa bacana nas escolas de samba é que elas sempre têm um tema. Às vezes é assim uma coisa meio histórica, tipo a independência do Brasil, e às vezes é uma pessoa, tipo o Monteiro Lobato.

Bom, aí, quando eu estava vendo o desfile das escolas de samba lá no sofá da sala, eu comecei a ficar com sono, com sono, com sono... e tive um sonho que foi o maior doido!

É que eu sonhei que tinha uma escola de samba chamada Unidos do Lelê, e ela estava fazendo um desfile sobre mim!

A comissão de frente (que é aquela turma que vem cumprimentando todo mundo) era um monte de anões. Só que eles estavam vestidos de bebês, usando fralda (porque eu já fui bebê e usei fralda, só que eu não me lembro) e segurando uma chupeta gigante que tinha uma luz que piscava.

Depois vinha o carro abre-alas, que era uma estátua gigante do Branco, o meu gato. E em volta dele vinha um monte de gente fantasiada de gatos de todas as cores.

Depois apareceu uma turma que era a “Ala dos vovôs”, que só tinha uns homens supervelhos que nem o meu avô. A fantasia deles era um pijama listrado e eles seguravam umas bengalas bem coloridas. Mas o mais engraçado é que na bunda de cada um tinha uma maquininha daquelas que soltam fumaça, e aí de vez em quando eles apertavam um botão e saía fumacinha colorida, porque o meu avô solta um monte de pum.

Tinha umas alas especiais sobre os meus amigos.

Na Ala do Aurelius, que é o maior CDF, todo mundo desfilou com um livro na mão. O engraçado é que eles ficavam lendo em vez de dançar.

E, na Ala dos Zepas, todo mundo estava com uma fantasia que tinha uma barriga falsa para deixar o pessoal bem gordo. Ah, e cada um segurava uma barra de chocolate gigante (mas que era de isopor, senão melava tudo).

O meu pai era o mestre-sala e a minha mãe, a porta-bandeira. Eles davam umas piruetas superbacanas!

Tinha um carro alegórico que era o maior legal: uma cama gigante! E em cima dela tinha um monte de goleiros de verdade: o Dida, o Taffarel, o Rogério Ceni, o Marcos e o Fábio Costa, e eles ficavam pulando na cama para pegar umas bolas, que nem eu faço na cama da minha mãe.

A ala mais bonita era a “Ala das meninas que o Lelê conheceu”. E lá tinha a Blimunda, a Taís, a Naná, a Alice, a Mariana, a Suellen, a Bia, a Ana Clara e a Emily, que é alemã e deve dançar o maior mal.

 

A dona Lígia, que é a diretora da minha escola, era a Diretora de Harmonia. E a rainha da bateria era a Dona Maria Rosa, que é a minha professora. Era uma rainha bem diferente, porque ela é meio gorda e um pouco velha. E estava vestida.

Tinha um carro alegórico que era uns óculos gigantes. Na lente do olho esquerdo passava um filme todo desfocado, mas na lente do olho direito passava um filme todo certinho. E em volta desse carro ficava um pessoal com uns óculos bem doidos.

Como eu gosto muito de viajar, ia ter a “Ala das malas”, onde todo mundo ia estar vestido de mala, só com os pés, as mãos e a cabeça para fora.

Ah, e tinha um carro alegórico que eu acho que ia ser proibido se o desfile fosse de verdade. É que no ano passado eu fiz uma operação de fimose para tirar uma pelezinha do pinto, então ia ter um pinto gigante (mas sem a pelinha). Acho que um monte de gente vai reclamar que isso é coisa feia e não se faz. Mas parece que no carnaval sempre tem que ter uma coisa que todo mundo reclama, que nem aquele carro do Holocausto.

Tinha a Ala dos Dokis, só com japoneses. E atrás deles vinha a ala mais legal, a ala “Eu leio o Lelê”, que tinha o pessoal que lê o blog, cada um com a sua fantasia.

Eu só vinha no final, dentro de um prato gigante cheio de mingau de chocolate, que é a minha comida favorita. Aí eu dançava nessa piscina chocolatal e ia me lambuzando todo. Às vezes o pessoal das arquibancadas pedia um pouco de mingau, e então eu enchia a mão atirava para eles.

Ah, e todo mundo cantava “Ô, Lelê, o-la-rá, estamos com você, queremos é brincar!”

Eu estava nesse sonho o maior bom quando a minha mãe me acordou e disse: “Lelê, vai dormir na cama.”

Como a gente fica meio bobo quando acorda, eu perguntei: “A minha escola ganhou?”

“Que escola?”

“A Unidos do Lelê!”

“Quê?”, ela perguntou.

E aí eu contei o meu sonho para ela.

A minha mãe escutou tudo com um olho meio fechado, que quer dizer “Será que o meu filho é doido?”, e depois disse: “Lelê, acho que ver todos estes desfiles não está fazendo bem para a sua cabeça. Vai dormir, vai.”

“Ah, pô, mãe, deixa eu ver só mais uma escola...”

Ela me encarou com aquele jeito de quem vai dar a maior bronca. Mas aí ela deu uma olhada na tevê, pensou um pouco, e depois cantou assim: “Ô, Lelê, olará, vai já pro seu quarto, senão vai apanhar!”

E aí eu fui.

Escrito por Lelê às 14h09
Palavra cantada

Ontem eu fui ver um show o maior legal, chamado "Carnaval Palavra Cantada". Acho que é para criança menor que eu, mas mesmo assim eu gostei. O ruim é que eu não conhecia nenhuma música, mas deu para aprender rápido e elas são bem engraçadas. A roupa deles também é legal.

Para ver uma música deles no youtube, é só clicar aqui

E, para ver o site, é aqui

Ah, uma coisa legal do show é que teve um monte de criança que foi fantasiada. Perto de mim tinha dois Batmans, dois Super-Homens, um Homem-Aranha e um Mega-Man, que é esse aqui, o Yves.

 

Eu também quis ir de fantasia, mas a minha mãe disse que estava sem dinheiro. Então eu respondi que podia ir de Hulk, só com uma calça rasgada, mas aí ela disse que se eu não parasse com aquela história de fantasia, ela ia puxar a minha orelha até ela esticar muito, e aí eu ia de Homem-Elástico.

Então eu fui fantasiado de normal mesmo.  

Escrito por Lelê às 14h54
A missão de Lelê


Eu estava brincando com a minha pistola laser desintegradora atômica quando o meu pai falou assim para mim: “Lelê, você quer ir para uma Missão?”

“Uma missão espacial? Que nem astronauta? Claro!”

“Não, é outro tipo de missão.”

 “Uma missão secreta? Que nem agente secreto? Quero!”

 “Não, não é isso...”

“É uma missa comprida? Então eu vou ficar em casa. Acho que fiquei meio gripado...”

“Não é missa, é um lugar. Eu vou lá fazer um trabalho.”

Bom, eu não entendi o que era missão, mas, como eu gosto muito de viajar, eu fiquei bom e respondi que queria ir.

Aí a gente pegou um avião, um ônibus e chegou num lugar chamado São Miguel das Missões, que fica no Rio Grande do Sul.

Lá tinha o esqueleto de uma igreja o maior grande. Essa aqui:

Eu achei aquele esqueleto legal. Também tinha um museu cheio de estátuas, uma cruzona, e uns índios que estavam lá vendendo colar, pulseirinha, essas coisas. Eu gostei de um arco-e-flecha e pedi para o meu pai comprar, mas ele falou que aquilo era arma e criança não pode brincar com arma.

Mas, pô, será que ele pensa que eu ia matar alguém com aquelas flechinhas mixurucas? Adulto é meio exagerado.

Isso me deixou o maior chateado e eu fui andar lá no meio da igreja sozinho. Fiquei passeando ali, naquele lugarzão, e justo naquela hora ficou a maior neblina. Aí, quando eu entrei numa sala meio escura, levei o maior susto!

É que lá dentro tinha uma menina, assim da minha idade, de olho meio puxado e um cabelão preto bem liso.

Ela parecia com os índios que estavam vendendo umas coisas lá fora, mas ela não estava de camiseta e short que nem os outros. Ela estava toda pintada de marrom e vermelho. E usava um monte de brincos e colares feitos de pedras e penas de passarinho.

Aí eu fiz que nem nos filmes de mocinho. Levantei a minha mão e disse: “Rau! Mim ser homem branco amigo, menina pele-vermelha.”

Ela ficou olhando um tempo para mim, de um jeito meio estranho, como se eu fosse maluco, e depois perguntou: “Você não sabe falar português direito?”

Aí eu disse: “Sei, sim. O meu nome é Lelê.”

“Eu sou a Naná.”

“Você é índia?”

“Sou uma guarani.”

“Guarani não é aquele time que joga contra a Ponte Preta?”

“Não, é um tipo de índio.”

“Ah! E você mora por aqui?”

“Bem aqui.”

“Nesse esqueleto de igreja.”

“É.”

“Você viu a igreja quando ela estava inteira?”

“Vi. E aqui em frente tinha uma cidade com um monte de casas. A gente era uns sete mil guaranis.”

“Caramba!”

“Eu lembro até quando o padre chegou na minha aldeia. Era ali pelo ano 1700.”

“Poxa, você nem parece tão velha!”

Ela nem ligou para o que eu disse e continuou falando: “A gente nunca tinha visto um homem branco antes. Nem cavalo. Daí, como o padre chegou num cavalo, eu pensei que era um bicho só. Com quatro pernas. Mas, quando ele desceu, a gente viu que ele era normal. Só que muito branco. E usava uma roupa preta em vez de andar pelado.”

Eu olhei para ver se ela estava pelada e ela estava, mas tinha bastante pena de passarinho e não dava para ver nada. A Naná continuou falando:

“O nome desse padre era Inácio, e ele, antes de começar a falar, tocou um pedaço de pau com uns furinhos e de lá saiu uma música linda. Aí a gente ficou prestando atenção nele. Depois ele tirou dois panos com uns desenhos da bolsa. Um era de um lugar horrível chamado inferno. O outro, de um lugar muito lindo chamado céu. Ele disse que a gente ia acabar no inferno se não fizesse as coisas do jeito certo. E ele queria ficar na aldeia para ensinar esse jeito certo para a gente.”

“E ele ficou?”

“Ficou. E aí começou a dizer que os nossos deuses não existiam, que existia um só, que era o dele. Também disse que a gente tinha que plantar para não ficar com fome, que tinha que criar gado, e que não podia mais morar todo mundo junto. Cada família tinha que ter uma casa separada.”

“Vocês moravam tudo junto?”

“É. Era bem legal. E eu tinha um pai e muitas mães, porque o meu pai tinha um monte de esposas. Mas o padre Inácio disse que ele só podia ficar com uma.”

“Devia ser legal ter muitas mães.”

“Era mesmo. Mas depois do Padre Inácio, tudo ficou diferente por aqui. Ele até fez um negócio chamado escola.”

“Ah, isso eu sei o que é.”

“Mas a escola era só para os meninos. Eles aprendiam um monte de coisa. Até música. As meninas só aprendiam a costurar e bordar. O maior chato.”

“E você gostava mais como era antes do padre ou como ficou depois?”

“Sei lá. Antes da missão a gente passava fome. Mas depois não podia fazer um monte de coisa.”

“Só tinha essa missão aqui?”

“Não. Tinha outras. Umas trinta. Aqui, no Paraguai e na Argentina.”

“Tudo isso?”

“É.”

“E por que que esse negócio das missões acabou?”

“Parece que o lugar em que a gente morava não era da gente, era de um país chamado Espanha, mas aí a Espanha trocou a terra em que a gente estava por outra, que era de Portugal, e aí expulsaram a gente.”

“Mandaram vocês embora? Que sacanagem!”

“Pois é. E quem não saiu, eles mataram. Porque teve um monte de guaranis que preferiu ficar e lutar contra os portugueses e os espanhóis. O líder da gente foi o Sepé Tiaraju. Mas ele morreu logo numa das primeiras batalhas.”

“Poxa...”

“E aí a gente perdeu. Também a gente só tinha arco-e-flecha, e eles tinham canhão, arcabuz, essas coisas... É que nem o meu pai dizia: ‘Na guerra não ganha quem tem razão, ganha quem tem arma melhor’.”

Nessa hora acabou a neblina e eu escutei o meu pai gritando: “Lelê!, Lelê!”. E logo depois ele apareceu. Mas aí a Naná tinha sumido. Acho que ela ficou com vergonha porque estava sem roupa.

Então o meu pai me entregou um cocar de penas e disse: “Olha o que eu trouxe para você.”

“Legal!”, eu falei. “Um cocar que nem o do Sepé Tiaraju.”

“Como é que você conhece essa história?”

“Me contaram.”

Daí o meu pai perguntou: “Você não está chateado por que não ganhou o arco-e-flecha?”

“Não. Tudo bem. Arco-e-flecha não adianta nada mesmo. Os guaranis precisavam é de umas pistolas laser. Na guerra não ganha quem está certo, ganha quem tem arma melhor.”

O meu pai me olhou com uma cara estranha e disse: “Você ouviu essa frase num filme?”

Então, como eu não queria contar toda a história da Naná para ele, eu falei: “É, eu escutei isso num filme de bangue-bangue. E eu sempre vou torcer para os índios.”

Aí eu coloquei o meu cocar e disse: “Rau!”


Escrito por Lelê às 08h41