
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Leletrospecto 2007: nove coisas boas e uma ruim.
No final do ano, na tevê passa um negócio chamado “retrospecto”, que mostra as coisas mais chatas e mais legais que aconteceram no ano, tipo furacão e cachorrinho salvo na enchente, avião que cai e gente pobre que ganha na loteria, e bomba que explodiu e o Brasil ganhando da Argentina no futebol (só que lá na Argentina esse jogo passa na parte das coisas chatas). Então eu achei que também tinha que fazer o meu retrospecto do ano. Só que, como o retrospecto é meu e eu me chamo Lelê, vai ser um “Leletrospecto 2007”.
A coisa mais esquisita
Menina mais diferente
Coisa mais legal que eu aprendi
O melhor livro
O desenho mais legal do Doki de mim
A boa ação
Aula mais engraçada: inglês
Escrito por Lelê às 08h41
![]() Meu presente de Natal
O meu presente de natal foi um telefone do Homer. Eu achei o maior legal! O Homer se mexe e diz umas frases em inglês que eu não entendo nada. Mas o telefone funciona mesmo! E vocês, ganharam o quê?
Escrito por Lelê às 19h56
![]() O dia em que Lelê fez cocô com o Papai Noel de verdade
Esta semana eu fui no shopping com a minha mãe. Estava o maior lotado. Tinha um monte de gente com sacola na mão e uma fila gigante de crianças para falar com o Papai Noel. “Posso entrar na fila?”, eu perguntei para a minha mãe. E ela respondeu: “Lelê, você sabe que esse Papai Noel não é de verdade. Vamos só fazer as compras, tá bom?” “Tá bom...”, eu resmunguei. Então a gente foi fazer as compras. Eu tinha um monte de paçoquita no bolso, e, enquanto eu andava pelo shopping, eu ia comendo elas.
Por causa disso, depois de um tempo me deu a maior dor de barriga e eu tive que ir no banheiro. Então eu sentei na privada e aí, quando eu estava descomendo as paçoquitas, um cara sentou no banheiro do lado. Como era daqueles banheiros que não têm a parte de baixo, deu para ver que ele usava umas botas pretas e tinha uma calça vermelho brilhante. Aí eu pensei: “Caramba! O Papai Noel vai fazer cocô do meu lado!” Daí eu bati na parede e disse: “Oi, senhor Papai Noel!” “Oi...”, ele respondeu. “O senhor está fazendo cocô?” “Bem...” “Posso aproveitar e fazer umas perguntas para o senhor?” “Não é a melhor hora, meu filho...” “Mas lá fora tem muita gente e nunca que eu vou conseguir falar com o senhor direito.” “Tudo bem..., pergunte.” “O senhor é o Papai Noel de verdade?” “Olha...” “Já sei. É um ator fazendo um Papai Noel.” “É...” “E qual é o seu nome de verdade?” “NIcolau Pereira dos Santos. Mas o engraçado é que Nicolau também era o nome de verdade do Papai Noel.” “Sério? Ele se chamava Nicolau?” “Foi o nome que deram para ele lá pelo ano 350, quando ele nasceu na cidade de Patara, que ficava onde hoje é a Turquia. O Nicolau viajou pelo Egito e pela Palestina e logo se tornou bispo da igreja católica. Dizem que ele era rico, generoso e adorava dar presentes para as crianças. Por isso é que começaram a dar presentes no dia de São Nicolau, que é o dia 6 de dezembro.” “E ele era um velho de barba branca com roupa vermelha?” “Bom, os bispos podiam se vestir de vermelho, e pode ser que ele tivesse barba. Mas o primeiro desenho de Papai Noel que se tem notícia era em preto e branco mesmo. Foi feito pelo sueco Thomas Nast e publicado no semanário "Harper's Weekly" em 1866.”
“Então ele não tinha roupa vermelha?” “Dizem que a roupa vermelha ficou famosa por causa dos comerciais da Coca-Cola nos anos trinta, que usavam a figura do Papai Noel. Mas ela foi inventada antes.”
“Antes quando?” “Em 1822, num poema chamado "A Visit from St. Nicholas”, que quer dizer “A visita de São Nicolau. Ele foi escrito por um tal de Clement Moore. Aí é que apareceram várias coisas do Papai Noel que acabaram ficando para sempre, como a barba branca, a jaqueta vermelha, o gorro, o dia em que ele visita as crianças, o trenó, as renas...” “Quantas renas são?” “Segundo o poema, são nove: Rodolfo, Corredora, Dançarina, Empinadora, Raposa, Cometa, Cupido, Trovão, Relâmpago. O Rodolfo é o que tem o nariz vermelho.” “E o Papai Noel desce mesmo pelas chaminés?”, eu perguntei. “Ah, isso é outra lenda. Parece que veio do costume de, no final do ano, limpar as chaminés para que bons fluidos entrassem.” “Eu vi nuns filmes que a gente tem que pôr meia na lareira ou na janela para ele deixar os presentes.” “Bom, isso pode ter vindo de outra tradição. Existe um deus escandinavo chamado Odin que também tem barbas brancas. E esse Odin comandava algumas caçadas pelo céu montado num cavalo de oito patas, que pode ser comparado às renas.” “E daí?” “Daí que as crianças enchiam suas botas com cenouras ou açúcar para o cavalo de Odin, e ele deixava doces ou presentes em forma de agradecimento.” “Caramba! Então o Papai Noel se chamava Nicolau, morava num lugar quente, era bispo, as renas foram inventadas por um poeta, a roupa foi desenhada por um sueco, o negócio da chaminé é uma lenda e o treco das meias é do Odin? Poxa, o Papai Noel de verdade é bem diferente do Papai Noel de verdade!" "Ah, meu garoto, a verdade é que não existe verdade, não é verdade?" Eu não entendi aquela frase, então eu continuei fazendo pergunta: “Seu Nicolau, essa roupa esquenta muito?" "Você nem imagina!" "E essa barba coça?" "Quase me deixa louco." "Então por que o senhor está trabalhando aqui no shopping?” “É que o meu netinho me pediu uma bicicleta de presente. Mas, como eu sou aposentado e a minha pensão é muito chocha, eu tive que fazer este bico.” "Ah, sei... Bom, eu acabei. Tchau!" "Tchau." Depois eu dei a descarga, lavei a mão e saí do banheiro. Então a minha mãe perguntou: “Lelê, por que você demorou tanto?” E eu respondi: “É que eu estava conversando com o Papai Noel." "Lelê, eu já te disse que o Papai Noel de verdade fica lá no Pólo..." "Eu sei mãe. Mas esse Papai Noel é até mais de verdade que o de verdade.”
Escrito por Lelê às 08h53
![]() As meninas do Leblon não olham mais para o Lelê
Essa semana eu fui lá na ótica pegar os meus óculos. O seu Sérgio me deu um tipo de um estojo com ele dentro, aí a minha mãe pagou e a gente saiu. Depois de andar um pouco, a minha mãe perguntou: “Você não vai experimentar os óculos?” E eu respondi: “Vou, mas não aqui na rua, na frente de todo mundo.” “Deixa de ser bobo, Lelê. Põe, logo esse negócio. Aposto que você vai ficar lindo!” “Tá bom....”, eu disse. E aí eu tirei os óculos do estojo e coloquei nos olhos.
Poxa!, mas aí foi demais! Eu nem acreditei! Eu estava vendo tudo! Antes eu não enxergava direito onde as coisas acabavam. Elas ficavam meio embaçadas nas pontas. E eu pensava que as coisas eram assim mesmo. Mas com aqueles óculos eu estava vendo as pontas das coisas! E também dava para ler placas das lojas. E eu via o rosto das pessoas de longe. E dava para ver cada fio de cabelo da minha mãe. Antes eu via o cabelo dela assim como se fosse uma coisa só. Eu achei aquilo demais! Então eu comecei a levantar os óculos e a colocar de volta, só para ver a diferença. E fiquei assim, levantando e abaixando os óculos o caminho inteiro até chegar em casa.
Eu estava gostando daquele negócio de óculos, mas, quando a gente estava jantando, eu comecei a pensar que no dia seguinte eu ia ter que ir para a escola, e lá iam tirar o maior sarro de mim. O jeito era eu não usar os óculos na escola. Mas eu não sabia se podia. Então eu perguntei para a minha mãe: “Mãe, eu tenho que usar os óculos o dia todo?” E ela respondeu: “Não, Lelê. Só dezesseis horas por dia”, e deu uma risadinha. Eu achei isso o maior bom, porque, se eu dormisse de óculos, eu ia ter que ficar só oito horas acordado com eles. E aí não precisava usar na escola. No dia seguinte, quando a minha mãe veio me acordar, ela falou: “Que é isso, Lelê? Dormiu com os óculos?” “Dormi.” “Para quê? Para enxergar o sonho direito? Anda, vamos rápido que você já está atrasado.” No caminho eu fiquei de óculos, mas logo que ela me deixou na escola, eu coloquei eles dentro da mochila. O chato é que eu sentei numa carteira no meio da sala, e de lá não dava para ver direito a lousa. Então eu comecei a apertar os olhos que nem japonês. Quando a professora me viu fazendo assim, ela falou: “Leocádio, você ainda não foi ao oculista?” “Fui.” “E aí?” “Ele disse que eu tenho que usar óculos.” “E cadê os óculos?” “Na mochila.” “E é a mochila que tem que enxergar direito?” O pessoal começou a rir de mim. O pior é que, quando eu coloquei os óculos, o Zepa (que é gordo e gosta de pôr apelido em todo mundo) disse: "Olha o Lelê Quatro Olhos!", e aí riram ainda mais. Eles só pararam quando a professora falou: “Chega! Não tem nada de mais em usar óculos. E não quero ouvir piadinhas na classe sobre isso.” Ninguém falou mais nada, mas eu sabia que na hora do intervalo o pessoal ia pegar no meu pé. Acho que foi a única vez que torci para o sinal demorar para bater. Mas ele bateu. E aí gente foi para o pátio. Então o pessoal ficou em volta de mim e as piadinhas começaram. Foi a maior chateação. Eles ficaram me chamando de cegueta, de fundo de garrafa, de toupeira, essas coisas. Mas o pior foi quando o Zepa (um gordinho que gosta de tirar sarro de todo mundo) começou a cantar: “As garotas do Leblon não olha mais para mim, eu uso óculos!”. E foi pior porque todo mundo começou a cantar junto. Eles fizeram tipo um coral e ficaram cantando: “As garotas do Leblon não olham mais para mim, eu uso óculos!” Aí eu fiquei com a maior raiva, dei um empurrão no Zepa e ele caiu. Na mesma hora todo mundo parou de cantar. O Zepa levantou, fechou as mãos e disse: “Quer brigar, Lelê Quatro Olhos?” Eu também fechei as minhas mãos e respondi: “Quero! Zepançudo! Só não pode me acertar na cara por que os meus óculos custaram o maior caro. Só vale acertar na barriga.” “Aí também não vale, porque a minha barriga é grande e vai ser fácil de acertar ela.” “Se não vale acertar na cara e na barriga, onde a gente vai bater?”, eu perguntei. A gente ficou parado um tempo, pensando, até que ele perguntou: “Vamos deixar pra lá?” E eu respondi: "Tá." Então a gente desfechou as mãos e cada um foi para um lado. Eu fiquei num banco, sozinho. Só que depois de um tempo uma menina sentou do meu lado e disse: “Oi.” E eu respondi: “Oi.” “O meu nome é Marina. Eu também comecei a usar óculos esses dias.” Só aí eu olhei direito para ela e vi que ela era o maior bonitona. A Marina tinha uns óculos quadrados, quase invisíveis. E eu podia ver ela bem direito porque eu estava de óculos. Daí eu perguntei: “Quando você começou a usar óculos, ficaram fazendo piada de você?” E ela respondeu: “Não. Acho que isso é coisa de menino.” “Acho que é.” “Mas eu achei que você ficou o maior bem de óculos”, ela disse. Eu senti a minha cara ficar bem quente, que é o que eu sinto quando ela fica vermelha. “É mesmo?”, eu perguntei. “É mesmo”, a Marina respondeu. “Você parece o Harry Potter. Só que os seus óculos são vermelhos, que são ainda mais legais.” Depois ela se levantou e disse: “Tchau, a gente se vê.” E eu disse “Tchau.” Aí o sinal bateu e eu voltei para a classe bem contente. As meninas do Leblon podem não olhar para mim, mas a Marina olhou.
Escrito por Lelê às 06h23
![]() Reclamação
Poxa, vão acabar com o Sítio. Logo agora que ele estava mais legal. Que chato...
Escrito por Lelê às 11h28
![]() Os óculos de Lelê
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que esta semana o meu tio Torero entrou lá em casa gritando assim: “Mister Magoo, vim te buscar!” Mister Magoo é um personagem de desenho que é meio cego. O meu tio riu da piada, mas eu não vi graça nenhuma. Ele foi lá em casa porque ele que ia me levar na loja de óculos (na semana passada eu fui no oculista e ele descobriu que eu sou míope). Eu estava o maior chateado com essa história de óculos, então eu entrei no carro e nem falei nada. Daí o meu tio disse: “Você já está sem falar há trinta segundos. É um novo recorde!” Eu continuei calado. “Acho que também vamos ter que comprar uns óculos para a sua língua.” Eu continuei calado. “Pô, Lelê, deixa de história, não tem nada de mais em usar óculos. Eu também precisei quando tinha a sua idade.” “É, mas se fosse bom você não tinha feito aquela operação para não usar mais.” “Que nada, sabe que eu até me arrependo daquela operação? Os óculos deixam a pessoa mais inteligente. Quando eu usava, eu ganhava um monte de prêmios de literatura. Agora que eu parei, parece que eu escrevo que nem um garoto de oito anos.” Aquilo não me convenceu muito, não. Para piorar, quando a gente estava estacionando, o meu tio disse: “Olha, e já vou avisando que nesta ótica só tem coisas normais. Nem adianta pedir óculos com formato de olho de mosca, com telefone embutido que nem de espião, com uma lente de cada cor... Nada disso!” “Nem com infravermelho para enxergar de noite?” “Nem.” “Assim vai ser difícil...” “Criança é fogo...”, o meu tio resmungou.
Quando a gente entrou na ótica, um moço chamado Sérgio veio falar com a gente. “Qual dos dois precisa de óculos?” “Eu”, eu falei. “E que tipo você quer?” “Tem invisível?” “Invisível-invisível, não tem, mas tem um que é quase.” Aí ele me mostrou uns óculos que tinham só um pouco de metal, e quase não dava para ver mesmo. “Esse é legal”, eu falei. “Quanto custa?”, o meu tio perguntou. “Mil e quatrocentos”, respondeu o Sérgio. Aí o meu tio olhou bem para mim, que estava com os óculos na cara, e falou: “Acho que esses aí são de menina.” “Como é que dá para saber que é de menina?” “Pelo preço. Óculos de menino não pode custar mais de duzentos. Duzentos e cinquenta, vá lá.” “É, Sérgio?”, eu perguntei para o Sérgio. E ele respondeu: “Parece que é...”
Aí o Sérgio separou uns óculos de menino e eu fiquei ali experimentando. Experimentei uns vermelhos, uns amarelos, uns pretos, uns de metal, uns de plástico, uns redondos, uns quadrados, uns grandes, uns pequenos, uns de duas cores, uns transparentes, uns de gatinho, uns de velhinho, de tudo quanto é jeito. O meu tio até perdeu a paciência uma hora e disse: “Para quê tanta demora? Ele não vai durar nem uma semana mesmo.” “É que óculos são uma coisa terrível”, eu expliquei. “Eles me deixam com cara de velhinho ou de cientista maluco. Assim não dá!” “Ah, criança é fogo...”, o meu tio resmungou.
Eu já estava com vontade de desistir e ficar cego mesmo (assim pelo menos eu ia ganhar um cachorro). Mas aí chegou uma velhinha na loja com uma menina e um menino. E os dois estavam o maior animados. A menina, que se chamava Suellen, tinha ido buscar os óculos novos dela, e o menino, que se chamava Leonardo, disse que queria usar óculos, mas que ele tinha azar porque os olhos dele eram muito bons. Mesmo assim ele ficou experimentando um monte de óculos lá.
Aí, como eles estavam o maior animados, eu achei que esse negócio de óculos podia ser divertido. Então eu experimentei mais uns cinquenta e achei um legal. Daí eu disse para o Sérgio: “Eu vou levar esse aqui, Sérgio.” “Ótimo! Mas não dá para você levar agora. Eu tenho que pegar a receita do médico para fazer as lentes. Daqui a uns dias que ele vai estar pronto.” Então eu fui falar com o meu tio para a gente ir embora. Só aí que eu vi que ele estava do outro lado da loja escolhendo uns óculos para ele. Aí eu fale: “Tio, por que você está escolhendo óculos se já fez operação para não usar óculos?” “Porque a minha operação me fez enxergar bem de longe, mas agora eu ando enxergando mal de perto. As letras dos livros estão ficando pequeninhas demais.” Aí ele ficou experimentando um monte de óculos: coloridos, pretos, redondos, quadrados, de metal, de plástico... Experimentou mais óculos que eu. Quando eu já estava cansado de esperar, eu disse: “Pô, tio, por que você demora tanto?” “É que todos os óculos me deixam com cara de velhinho ou de cientista maluco. Assim não dá!” E aí eu resmunguei: “Ah, gente grande é fogo...”
PS: Domingo eu vou lançar o meu livro lá em São Paulo. Vai ser num lugar chamado Livraria da Vila, que fica numa rua chamada Fradique Coutinho, 915, num bairro chamado Pinheiros. Vai começar às 14h30 e vai até às 17h00. Ah, uma amiga do meu tio, que é atriz e se chama Denise Fraga, vai ler umas histórias. Acho que vai ser o maior legal!
Escrito por Lelê às 21h42
![]() De olho no olho de Lelê
Uma coisa muito importante é escolher direito o lugar que você senta na classe. Por exemplo, o Aurelius, que é o maior CDF, senta lá na primeira carteira. Já o Zepa, que é o maior bagunceiro, senta na última. Eu sento ali pelo meio da classe, do lado do Zóio. Mas aí teve um dia que eu estava conversando muito e a professora, que se chama Dona Maria Rosa, falou assim: “Leocádio, desse jeito não dá. Eu não paro de escutar a sua voz. Fica um barulho no meu ouvido mais chato que música de elevador! Pegue suas coisas e sente lá atrás.” Quando eu cheguei lá atrás, o Zepa falou: “E aí, Elelevador?” Só que, quando eu comecei a ver a aula lá de trás, aconteceu uma coisa estranha. As palavras na lousa ficaram meio esquisitas, meio esfumaçadas. Não dava para ler nada. Para enxergar alguma coisa eu tinha que apertar os olhos. Quando a Dona Maria Rosa me viu daquele jeito, ela perguntou: “O que foi, Leocádio?” “Acho que ele quer virar japonês!”, disse o Zepa. E toda a classe riu de mim. Eu fiquei bem sério e falei: “É que o seu giz deve estar com defeito, professora. Ele está escrevendo embaçado.” Ela olhou para o giz por um tempo e depois disse: “Troca de lugar aqui com o Aurelius.” O Aurelius fez a maior cara de chateado, porque ele é CDF e CDF não gosta de sentar lá no fundo, mas trocou de lugar comigo. “Está enxergando agora?”, a Dona Maria Rosa perguntou. “Estou. Acho que consertaram o seu giz.” Bom, aí eu fiquei naquele lugar até o final da aula. Mas, quando bateu o sinal, antes de eu sair a professora me deu um bilhete e falou: “Entregue isso para a sua mãe.” “Caramba, só por que eu conversei um pouco com o Zóio eu vou levar bilhete para casa?” “Não, Lelê, neste bilhete está escrito que você deve consultar um oculista.” Eu voltei para casa o maior preocupado. O que será que era um oculista? Eu sabia que dentista era o médico de dente. Então oculista devia ser o médico de... Ah, sei lá. Quando eu cheguei em casa e dei o bilhete para a minha mãe, na mesma hora ela ligou para um tal de Dr. Oswaldo e marcou hora para mim. No dia seguinte a gente foi lá. Demorou um tempão para eu ser atendido. Eu não sei por que médico sempre demora para chamar a gente. E o pior é que nunca tem gibi para a gente ler, só aquelas revistas tipo Caras e Veja. Blargh! Bom, depois que eu já tinha lido uma pilha de revistas chatas, mandaram a gente entrar. Lá dentro, o seu Oswaldo fez um monte de pergunta. Meu nome, quantos anos eu tinha, se eu sentia dor de cabeça, blá, blá, blá. Aí ele pegou um tipo de uma lanterninha e veio para perto de mim. “Opa, onde o senhor vai colocar isso?”, eu perguntei. “É para ver melhor os seus olhos”, ele explicou. “Então tá.” Depois a gente foi para uma outra sala cheia de máquinas legais, onde eu colocava o queixo num lugar e ficava olhando por uns buracos, e o Dr. Oswaldo ficava do outro lado olhando os meus olhos (ainda bem que antes de sair a minha mãe mandou eu lavar bem o rosto para ficar sem remela). No fim a gente foi para a máquina mais legal. Era uma cadeira e tinha um tipo de visor espacial que ficava na frente da minha cara. Só que, em vez de planetas, eu enxergava letrinhas. O visor era assim:
Aí o doutor Oswaldo perguntou o que dava para ler, mas estava tudo esfumaçado, assim
Depois a coisa ficou pior ainda, porque eu vi tudo assim, cheio de pingos.
O doutor Oswaldo ficou preocupado, mas aí eu expliquei que eu tinha espirrado no visor. Depois que o doutor Oswaldo enxugou tudo, ele foi mexendo nas lentes até que eu enxerguei tudo direitinho. Aí ele perguntou: “O que você lê aqui na terceira linha?” E eu respondi: “Diflatresve.” “Como?” “Diflatresve!” Aí ele começou a rir sem parar e falou: "Não precisa formar uma palavra, é só dizer o nome das letras." E aí eu disse: “De, efe, ele, a, três, dabliu, e.” “Isso!”
Então ele afastou o visor espacial de mim, chamou a minha mãe e disse: “É miopia mesmo.” “Eu vou ter que usar um tapa-olho de pirata?”, eu perguntei. “Se eu tiver que usar, tudo bem”. Mas o médico fez cara de sério, respirou fundo, e me disse uma coisa terrível: “Não, Leocádio, você vai precisar é de óculos.” “Óculos!!!!!”, eu disse (e desse jeito mesmo, com um monte de pontos de exclamação). Caramba, eu nunca pensei que eu ia ter que usar óculos! Eu nem sou CDF! Aquilo me deixou o maior triste, porque eu pensei que os meninos iam me chamar de quatro-olhos e as meninas iam me achar feio. Aí os caras não iam mais querer ser meus amigos e as meninas nunca que iam namorar comigo, e eu ia ficar feio e sozinho para sempre. Uma lágrima até caiu do meu olho. Mas acho que foi por causa do colírio que o médico colocou. Bom, na semana que vem eu já vou estar de óculos. Tchau.
Escrito por Lelê às 08h24
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