BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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Este blog é atualizado às sextas.
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Vai lá!

Amanhã, que é sábado, vai ter o lançamento do meu primeiro livro, que se chama Primeiras Histórias do Lelê.

Lançamento não é quando a gente atira ele longe (se bem que se alguém achar ruim, pode atirar). Lançamento é assim que nem quando uma criança nasce. Só que ele não vai estar todo gosmento.

O lançamento vai ser às 19h00 na livraria Realejo (que fica no Shopping Miramar, que fica na rua Euclides da Cunha, 21, que fica em Santos, que fica no estado de São Paulo, que fica no Brasil, que fica na Terra, que fica no sistema Solar. Pronto, dei o endereço completo!).

Vai ser legal porque vai ter uma mulher que vai contar umas histórias do livro e ela é engraçada.

Quem quiser pode trazer os pais.

 

(PS: Em São Paulo vai ser no dia 9)

Escrito por Lelê às 06h44
Lelê e a casa perfeita

Uma coisa que eu acho que eu ia ser o maior bom é arquiteto. Arquiteto é quem inventa as casas.

Eu ando pensando em ser arquiteto porque eu ganhei uma régua verde que tem um monte de desenhos geométricos, e aí eu inventei uma casa bem bacana.

O chato das casas é que tudo (quarto, banheiro, cozinha e sala) é sempre quadrado ou retângulo. Mas a casa que eu inventei é diferente, porque ela tem quartos-triângulos (um escaleno, um equilátero e um isósceles), dois banheiros-círculos, uma cozinha-trapézio e uma sala-paralelogramo (paralelogramo é uma palavra que, se a gente fala muito rápido, parece que a língua vai dar um nó).

Eu acho que ia ser bacana uma casa assim. E eu também inventei umas coisas para cada lugar de dentro da casa.

 (A minha casa por dentro)

A cozinha: Sempre que eu ajudo a minha mãe a enxugar a louça, eu deixo cair alguma coisa no chão. Quando é garfo ou colher, tudo bem, porque aí faz tlintlim e não quebra. Mas quando é copo é meio ruim. Faz crash e espedaça tudo. Eu já quebrei tantos copos que a minha mãe nem briga mais comigo, só me olha e faz uma cara de “De novo, Lelê...?”. Por isso, para a cozinha eu inventei um tapete hiperultrassupermacio, porque assim as coisas caem nele, fazem puff e não quebram. Acho que eu vou ficar o maior rico com o meu tapete hiperultrassupermacio.

A sala: Para uma sala ser bacana, ela tem que ter um sofá bem grande, porque o sofá é a coisa mais importante da sala. Ele tem que ser meio leve, porque assim dá para virar e fazer de cabana quando a mãe da gente sai de casa. E ele também pode virar uma rede de futevôlei quando um primo vem visitar a gente. É só colocar bem no meio da sala e pronto. Só que aí pode acontecer de a bola bater num vaso. Mas eu já pensei nisso: os meus vasos vão ser todos presos no teto por uns fios, assim, se a bola bater neles, eles não caem. Falando nisso, as cadeiras também podiam ficar presas no teto, que aí a gente fazia elas de balancê. Casa tem que ser divertida.

O quarto: O chão do meu quarto ia ser um chão-colchão. Quer dizer, o chão todo ia ser de colchão, porque aí eu podia ficar me atirando nele e brincar de guerra, de goleiro (a cama da minha mãe é boa para isso, mas o chão-colchão ia ser melhor) e de faroeste, tudo lá. Eu não sei por que chão tem que ser duro.

 (A minha régua nova)

O banheiro: O banheiro já é um lugar muito legal porque dá para fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, dá para fazer cocô e ler, e dá para tomar banho e brincar de Namor, o príncipe submarino. Mas ele pode ser mais bacana ainda. Eu acho que todo banheiro tinha que ter uma banheira, porque é o maior legal ficar dentro da água, ainda mais se tiver uns brinquedos junto (só tem que tomar cuidado com os bonequinhos de forte-apache, porque tem uns que descascam e aí eles ficam pelados e viram índios). Outra coisa que eu acho que podia ter no banheiro é duas privadas, porque aí eu podia fazer cocô junto com o meu pai e a gente ficava conversando. Ia ficar o maior fedor, mas ia ser legal.

Quintal: Quintal é importante porque brincar só dentro de casa é chato. Ainda mais se tem sol. O quintal não precisa ser grandão, mas tem que ter um pouco de mato, porque aí dá para brincar de selva. Se tiver uma árvore é melhor, porque aí dá para colocar os bonequinhos lá e brincar que eles estão num planeta de árvores gigantes, cheia de animais gigantes (que nem o meu gato Branco) e gigantes de verdade (que sou eu, que no final da brincadeira chego e destruo tudo).

Quartinho mágico: No fundo do quintal tem que ter um quartinho que serve para colocar um monte de tralha: geladeira que não funciona, brinquedo quebrado, máquina de costura que ninguém sabe de quem era, lata de tinta velha, bicicleta de ginástica que não funciona mais, revistas do meu avô, ferramenta enferrujada, coisas assim. O bom do quartinho é que sempre que você precisa de qualquer coisa, lá tem. É só procurar. Por isso que é um quartinho mágico.

Também ia ser legal se a casa tivesse uma chaminé (não é por causa do Papai Noel, é por causa do desenho, que fica mais legal) e uma torre, tipo daquelas de princesa, que aí dá para enxergar longe.

Ia ser o maior legal morar nessa casa. Pena que eu moro num prédio.

Bom, se alguém quiser me contratar para arquiteto, é só mandar um email e esperar um pouco até eu me formar.

Tchau!

 (Esses são os meus lápis de cor)

 
PS: Quem quiser, pode dar uma idéia para a minha casa. O Doki já deu uma, porque ele desenhou ela com um escorregador para saídas de emergência. Legal!

Escrito por Lelê às 16h02
Meu livro!

O meu livro ficou pronto. Eu achei que ficou o maior legal. E a cor da capa é verde-da-Prússia. Uma vez a minha mãe me comprou uma caixa de lápis de cor que tinha 36 cores, e a cor que eu mais gostei foi o verde-da-Prússia. Vou pôr a capa aqui embaixo:

Mas ele ainda não está nas livrarias. É que pessoal da gráfica (que é onde imprime o livro) só fez dois para ver se ia dar certo, e na semana que vem que é que eles vão fazer um montão.   

Daí só tem dois livros desses no mundo. Um está aqui na minha frente (já meio amassado, de tanto que eu li) e  outro o meu tio deu para o Gabriel, que foi ver uma palestra dele.

O Gabriel parece comigo (ou será que sou eu que pareço com ele?) Ah, sei lá. Tchau!

Escrito por Lelê às 16h28
Lelê e o Leocádio real

O meu nome é Leocádio. E ontem eu conheci um sujeito que também se chama Leocádio.

Foi assim:

Neste feriado, a minha mãe, o meu pai, o meu avô, o meu tio e eu fomos até um lugar chamado Museu Imperial. O meu tio disse que é o Museu mais bacana do Brasil (quem quiser ver o site, é só clicar aqui no aqui).

Ele fica nessa casona que fica numa cidade chamada Petrópolis.

O meu pai me explicou que essa casona era onde o Imperador D.Pedro II passava o verão, e ele pagou a construção da casona com o próprio dinheiro.

Uma coisa que eu gostei foi que, para andar dentro desse museu, a gente tem que colocar o pé dentro de umas almofadinhas. Acho que por isso que o chão de lá brilha tanto.

O Museu tem um monte de salas legais, uns quadros bem grandes e uns armários cheios de coisas de cristal.

Quando a gente passou na frente dum armários cheio de copos coloridos, a minha mãe falou: “Se o Lelê morasse aqui, não tinha sobrado nem uma tacinha.”

Todo mundo riu, menos eu.

Bom, aí a gente foi andando pelas salas, saindo de uma e entrando noutra. Mas os adultos andam muito devagar, olhando cada coisinha, e andar assim é o maior chato. Então eu fui sozinho para a sala seguinte, e depois para outra e para outra.

Quando, eu vi, eu estava na Sala da Coroa, que é o maior lindona.

Tinha um velhinho com cara de Papai Noel limpando ela. Aí eu falei para ele:

“Oi, o meu nome é Leocádio.”

“Que coincidência! O meu também”, ele disse.

Aí eu comecei a gostar dele, porque a gente sempre gosta de quem tem o nome igual ao da gente. Depois eu perguntei: “Essa era a coroa do rei?”

“Rei, não”, ele disse. “Imperador.”

Então eu perguntei por que que a gente não tinha mais imperador, e ele falou assim:

“Porque no dia 15 de novembro de 1889 houve um golpe militar e derrubaram o império.”

“O meu pai sempre diz que golpe militar é uma coisa ruim.”

“Também acho. Mesmo sendo por uma nobre causa como a República. Sabe, eu até gosto da idéia de república. Acho que votar para presidente é melhor do que ter um rei ou um imperador. Mas não precisavam ter dado um golpe. O povo não queria isso. Tanto que, nas eleições daquele tempo, os políticos republicanos não conseguiam nem 10% dos votos. O povo era mais monarquista que republicano.”

“Ué? Se todo mundo gostava do imperador, por que deram um golpe nele?”

“É que não era todo mundo que gostava do imperador. Os donos de escravos, por exemplo, tinham muita raiva dele, porque a filha do imperador, a Princesa Isabel, assinou a Lei Áurea, aquela que acabou com a escravidão. E os militares queriam falar na imprensa sem ter que pedir permissão para ele, e os religiosos também não queriam mais obedecer ao imperador, só ao Papa.”

“Quanto problema! Será que ser imperador era legal?”

“Era. Se bem que a infância dele foi muito triste. A mãe de D.Pedro II morreu quando ele tinha um ano e o pai dele foi expulso do Brasil quando o menino tinha cinco anos.”

“E quem ficou cuidando do imperadorzinho? Uma tia?”

“Não, um homem chamado José Bonifácio. E três anos depois passou a ser um homem chamado Manuel Inácio de Andrade Souto Maior, o marquês de Itanhaém.”

 (Esse é o D.Pedro II com uns cinco anos)

“E o imperador ia para a escola que nem os outros meninos?”

“Não. Os professores é que vinham até ele.”

“Tipo aula particular?”

“Isso. D. Pedro II teve aulas de literatura, português, francês, alemão, inglês, latim, matemática, geografia, ciências naturais, música, dança, pintura e equitação. Ah, e de esgrima também. Com o Luís Alves da Lima e Silva, que depois ia ser o Duque de Caxias.”

“Caramba! Ele devia ser o maior CDF.”

“Era mesmo.”

“E o que que ele fazia quando não estava estudando?”

 “Bom, ele acordava às sete e almoçava às oito, com a presença de um médico para não comer muito.”

“Médico?”

“É que tinham medo que ele ficasse gordo que nem o avô. Aí, das nove até às onze e meia, ele estudava, e depois podia brincar até a uma e meia.”

“Brincar com quem?”

“Com os filhos dos professores dele. Uma vez, um dos meninos brigou com ele e foi proibido de entrar no Palácio.”

“Pelo menos não cortaram a cabeça do menino.”

“É verdade. Bom, D.Pedro II jantava às duas da tarde. E a conversa do jantar devia ser sempre sobre assuntos científicos e de beneficência. Às quatro e meia tinha passeios pelo jardim e leitura. Às oito, oração, ceia às nove e cama às nove e meia.”

“Poxa, que dia cheio!”

“Ele tinha que se preparar rápido, porque logo ia ser imperador.”

“Com quantos anos ele começou a mandar no Brasil?”

 (Aqui ele tem uns catorze)

“Com quinze. E ficou no trono até os sessenta e três anos.”

“Mataram ele?”

“Não. No dia que proclamaram a República, mandaram o imperador embora do Brasil. Dois anos depois ele morreu em Paris, num hotel bem simples.”

Aí nessa hora chegaram o meu pai, o meu avô, o meu tio e a minha mãe. Quando eu fui apresentar o seu Leocádio para eles, ele tinha sumido e a coroa já estava no lugar, bem limpinha. Daí a gente continuou o passeio pelo museu e eu vi um quadro que tinha um homem bem parecido com o seu Leocádio. 
 
Então o meu avô falou: “Olha aí o seu Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Habsburgo.”

“Ele também se chamava Leocádio?”, eu perguntei.

“Era um dos nomes dele”, o meu avô falou.

E aí eu disse: “Caramba, que nome mais comum! Tá cheio de Leocádio nesse museu!”

Escrito por Lelê às 20h10
Despintei o Branco!

Como quase todo mundo disse para eu despintar, quer dizer, castrar o Branco, eu falei com a dona Letícia e hoje de manhã a gente foi lá no veterinário, que se chama Gustavo (e tem uma assistente bonita chamada Amanda).

Foi tudo o maior rápido.

O chato é que parece que o Branco vai ficar o dia todo meio molenga. Mas o legal é que ele não morreu.

  (Esses aí são o Gustavo e a Amanda. Mas não é o Branco que está sendo operado. Eu não tive coragem de olhar a operação dele porque eu fiquei o maior nervoso)

Ah, e amanhã eu vou fazer uma viagem com todo mundo: o meu pai, a minha mãe, o meu avô e o meu tio Torero. A gente vai para um lugar bem bacana. Sexta-feira eu digo como é que foi.

Escrito por Lelê às 10h11
Despintar ou não, eis a questão.

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Quer dizer, todo mundo menos o Branco, que me chama de "Miau".

Branco é o nome do meu gato. Ele fica lá na casa do meu avô. Este fim de semana eu fui lá ficar com ele. A gente estava brincando com uma bolinha de papel (ele fica o maior doido atrás de uma bolinha de papel!) quando tocou a campainha. O meu avô olhou pelo olho mágico e disse: “É a vizinha, a dona Letícia. Ela é um pitéu. E acho que está de olho no velhinho aqui.”

Depois ele abriu a porta e disse com uma voz meio esquisita, assim meio mole: “Tudo bom, dona Letícia? Que bons ventos a trazem? Veio tomar um chazinho?”

“Não, não”, disse ela entrando na casa. “Vim falar de um assunto muito sério.”

Aí o meu avô me deu uma piscadinha meio disfarçada e perguntou para ela: “E que assunto seria esse?”

“Bom, é um pouco estranho falar disso com o seu neto aqui...”

“Sei, sei..., eu compreendo, dona Letícia”, disse ele pondo a mão em cima da mão dela.

Aí ele virou para mim e disse: “Lelê, você pode brincar com o Branco lá em cima? Eu e a dona Letícia vamos ter uma conversa séria. Coisa de gente grande.”

Eu falei “Tá bom, tá bom...” e subi as escadas com o Branco. Mas aí, em vez de ficar brincando, eu fiquei é bem na pontinha da escada para escutar a conversa deles.

Então o meu avô falou: “Agora estamos só nós dois, dona Letícia, pode abrir seu coração.”

“É que..., eu vim fazer uma proposta para o senhor...”

“Eu já imaginava”, falou o meu avô com uma voz meio de convencido.

“Já imaginava?”

“Já. Eu vi a senhora olhando umas vezes aqui para casa quando eu estava brincando com o Branco.”

“Ai, meu deus, como eu sou indiscreta!”, ela falou botando as mãos em cima dos olhos. “O senhor me desculpe, viu?”

“Não tem de quê. Mas a senhora não quer fazer logo a sua proposta?”

“Eu nem sei como falar...”

“Realmente, trata-se de um assunto delicado”, disse o meu avô segurando a mão da dona Letícia com as duas mãos dele.

“Pois é...”

“Olha, nem precisa falar nada, dona Letícia, é claro que eu aceito a sua proposta."

“Ah, que bom. Tem gente que nem gosta de falar sobre castração.”

“O quê?”, falou o meu avô largando a mão da dona Letícia e pondo as mãos no colo.

“É isso. Eu vim fazer uma proposta de castração.”

“Dona Letícia, eu sou velho mas...”

“Deixe de brincadeira!”, falou ela rindo. “O senhor sabe que eu estou falando do seu gato.”

O meu avô fez uma cara de alívio, mas aí eu é que fiquei preocupado. Então peguei o Branco no colo, desci as escadas e perguntei:

“Que história de castração é essa?”

“Você estava escutando a conversa dos outros?”, meu avô perguntou.

“É que vocês falam alto”, eu disse. Mas acho que ninguém acreditou.

Então a dona Letícia disse assim: “Castração é...”

“Cortar o piu-piu do Branco”, completou o meu avô.

“O quê? A senhora quer despintar o meu gato?”, eu perguntei.

“Não, não é nada disso!”, ela disse olhando meio irritada para o meu avô. “Castrar não tem nada a ver com despintar o Branco. O pintinho dele vai continuar lá.”

“Vai?”

“Vai. A castração é quando a gente tira os testículos do gato. Aí ele não pode mais fazer filhotes.”

“O que é testículo?”

“São as bolinhas do saco”, falou o meu avô.

“A senhora quer cortar as bolinhas dele?”

“É uma operaçãozinha simples, feita no veterinário. Dura uns dez minutos. E ele vai tomar anestesia.”

“Eu sei. Eu já operei o pinto. Mas por que o Branco não pode ter filhotes?”

“Olha só”, ela disse, pegando um papel e uma caneta. “Se ele engravidar uma gata, daqui a três meses ela vai ter quatro filhotes. Vamos supor que dois desses filhotes sejam fêmeas. Dali a pouco a mãe e as duas filhas vão procriar de novo, e aí já são mais doze gatos. Depois serão 36 e por aí vai.”

“Caramba!”, disse o meu avô.

“Pois é. Segundo a Sociedade Mundial de Proteção Animal”, explicou a dona Letícia, “em dois anos uma gata pode ter duzentos descendentes. E só um em cada doze é adotado por alguém. Ou seja, em pouco tempo a gente ia ter uma tremenda gataida na rua.”

“Isso é legal, eu adoro gato”, eu falei.

“Eu também!”, ela disse. “Por isso é que eu sou a favor da castração. Você não acha uma judiação os gatinhos morrendo atropelados ou de fome?”

“Mas o Branco nem gosta muito de gatas, se é que a senhora me entende...”, falou o meu avô.

“Isso é só até ele encontrar uma gata no cio. Aliás, também dá para castrar gatas. E cachorros e cadelas, onde o caso é ainda mais sério. Em seis anos uma cadela pode ter 200 mil descendentes!”

“Mas o Branco não vai sofrer nada mesmo?”, eu perguntei.

“Pelo contrário. Os animais castrados têm menos chance de ter tumores e infecções na região genital.”

“Quer dizer que ele pode viver mais tempo se fizer a operação?”

“Muitos gatos morrem disso. É uma doença a menos para ele ter”, explicou a dona Letícia.

"E ele pode morrer?"

"Bom, existe uma chance muito pequena, mas existe. Só que ela é beeem pequena."

Aí eu olhei bem para o Branco, pensei um pouco e disse: “Branquinho, você quer ser despintado?”

Ele respondeu com um "miau" que queria dizer: "Você é quem sabe, Lelê."

Então a Dona Letícia disse para eu pensar e, se eu quisesse fazer a castração, era só falar, que ela conhecia um veterinário muito bom.

Eu respondi que esse era um assunto muito sério e que por isso eu ia colocar uma pergunta no meu blog para ver o que as pessoas achavam. E a pergunta é: "Eu devo despintar o Branco?". 

Depois a dona Letícia foi embora e eu perguntei para o meu avô: “A dona Letícia é bonitona. O senhor vai namorar com ela?”

“Depois dessa conversa, não sei, não, Lelê. Acho que fiquei meio intimidado”, ele disse meio cabisbaixo.

 


PS: Dia 14, quarta-feira (sete e meia da noite), o meu tio Torero vai participar dum negócio chamado "Sempre um Papo". Ele vai falar sobre livros e roteiro e futebol (aposto que ele vai ficar nervoso e se enrolar todo), e lançar três livros para crianças (o do Reizinho, o do Nuno e o da Naná). Acho que o meu vai ficar pronto justo neste dia, e aí eu mando um para ele sortear lá. O endereço do Papo é Av. Paulista, 119.


 

Escrito por Lelê às 07h35
Lelê e o Ralouim

Esta semana lá na escola teve uma festa de um negócio chamado Halloween (se escreve desse jeito esquisito, mas se fala Ralouim. Será que não era mais fácil escrever do jeito que se fala? Bom, eu vou escrever Ralouim mesmo).

Essa festa de Ralouim é legal porque todo mundo se veste de monstro e de outras coisas ruins, tipo vampiro.

Antes da festa mandaram umas cartinhas para os pais avisando que a gente podia usar fantasia no dia de Ralouim. Aí eu pedi para a minha mãe uma fantasia de dragão que soltava fogo de verdade, mas ela disse que estava sem dinheiro para fantasia e eu ia ter que ir com uma roupa comum mesmo.

“Mas todo mundo vai de fantasia...”, eu disse.

“Dessa vez não vai dar, Leocadinho.”

Quando ela me chama de Leocadinho é porque ela até quer fazer o que eu peço, mas não dá mesmo. 

Aí eu fiquei tão triste, mas tão triste que nem deu vontade de chorar, só de ficar quieto.

Então o meu tio, que estava lá jantando porque ele não sabe cozinhar nada, falou: “Mas você tem uma fantasia excelente aqui em casa mesmo!”

“Eu?”, eu perguntei.

“É, vem aqui.”

Aí nós três fomos até o meu quarto. Então o meu tio abriu as minhas gavetas e tirou um par de chuteira, um short e uma camisa preta. Depois olhou nos meus brinquedos e achou um apito meio velho (que tinha vindo com um capacete de polícia) e disse: “Pronto, você vai de juiz-ladrão. Não tem monstro mais terrível que juiz-ladrão! Aposto que ninguém vai ter uma fantasia igual.”

“E eu ainda vou te fazer uma arma poderosa: um cartão vermelho!”, disse a minha mãe (que depois fez o cartão com um pedaço de cartolina).

Eu achei aquela fantasia legal. Não soltava fogo, mas era bem diferente.

Bom, quando chegou o dia de Ralouim, enfeitaram a escola com um monte de cabeças de abóbora.

Os meus amigos também tinham umas fantasias: a Neiva foi de bruxa (e levou até uma vassoura), o Aurelius foi de Frankenstein, o Zepa foi de fantasma, o Zóio foi de diabo e o Rony foi de esqueleto.

A gente corria para todo lado, brincando de assustar os outros e estava o maior legal. Mas aí eu vi um menino num canto que tinha uma fantasia diferente e estava meio quieto.

Eu fui lá e perguntei: “Você está vestido de quê?”

“De Saci Pererê”, ele respondeu.

“E o que que é um Saci?”, eu perguntei.

“Pois é, por isso é que eu estou triste. Ninguém sabe o que é um saci. Aposto que você também não conhece Curupira e Mula-sem-cabeça, né?”

“Não conheço mesmo.”

“Assim não dá pé...”, disse o menino. E aí olhei para os pés dele e vi que ele só tinha um. Então eu perguntei: “Você nasceu com uma perna só?”

Ele respondeu: “Não, perdi a perna numa luta de capoeira.”

“E esse gorro e esse cachimbo?”

“Fazem parte da minha roupa. O cachimbo é africano, e o gorro é europeu. O Saci é uma coisa bem misturada.”

“E o que que o Saci faz?”

“Muitas travessuras!”

“Legal!”

“Ele assusta o pessoal nas ruas escuras, esconde coisas nas casas (tipo tesourinha, chave e óculos), faz barulhos no mato para assustar cavalo, azeda o leite, embaraça novelo de linha, bota mosca nas sopas... Teve um escritor que disse que ‘ele não faz maldade grande, mas não tem maldade pequena que ele não faça’.”

“Que escritor?”

“Um tal de Monteiro Lobato. Ele tinha umas sobrancelhas que pareciam duas taturanas. E também tem um outro que gosta de mim, um tal de Ziraldo. Ele até fez umas historinhas chamadas ‘A turma do Pererê’”.

”E o Saci sabe voar?”

“Mais ou menos. Ele anda dentro de uns redemoinhos de vento.”

“Pô! E ele tem alguma fraqueza, tipo assim que nem a kryptonita do Super-Homem?”

“Claro. Para prender o Saci Pererê é só você jogar uma peneira em cima do redemoinho. Depois tem que tirar o gorro e jogar o Saci dentro de uma garrafa. E aí ele vai obedecer o proprietário.”

“Caramba!, essa sua fantasia é o maior legal. Pena que ninguém conhece esse tal de Saci.”

“É, ninguém... Mas isso não vai ficar assim. Eu vou me vingar!”

Aí, justo nessa hora bateu o maior vento e eu tive que fechar os olhos. Quando eu abri de novo estava tudo a maior confusão: as abóboras tinham caído, o chapéu da Neiva tinha sumido, o lençol do Zepa tinha voado para cima do bolo e a máscara de Frankenstein do Aurelius estava na nuca dele.

Pena que o menino vestido de Saci tinha sumido. Ele ia achar isso o maior engraçado.

Escrito por Lelê às 23h36