
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Lelê e o samurai fantasma
Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Todo mundo menos a dona Kioko, que me chama de Rerê. Mas isso só vai acontecer no meio da história e é melhor eu começar do começo, que foi quando o meu tio Torero passou lá em casa e disse: “Se arruma, Lelê, eu vou te levar para cortar o cabelo lá no Marcelo.” O Marcelo é um cabeleireiro careca que tem lá perto de casa. Eu acho o maior chato cortar o cabelo porque a gente tem que ficar parado um tempão, sem mexer a cabeça nem sair do lugar, e isso é bem difícil. Mas tem uma coisa que eu gosto que é que enquanto a gente espera dá para ler um monte de revistinhas. Bom, a mulher do Marcelo é a dona Kioko, aquela que eu falei lá em cima. Ela é japonesa. O meu tio diz que o Marcelo é um japonista, porque gosta de tudo que é do Japão: ele faz aikidô, adora sushi e casou com a dona Kioko. O salão dele é cheio de coisa do Japão, tipo vaso, umas letras estranhas na parede, uns panos e até uma espada. Quando a gente chegou lá, a dona Kioko apertou os olhinhos puxados dela, sorriu e falou: “Oi, Rerê. O Marcero está só acabando de cortar o cabero daquera garotinha e depois já corta o seu. Aí eu vi que o Marcelo estava cortando o cabelo de uma menina o maior bonita.
Depois olhei direito para a dona Kioko e vi que a barriga dela estava o maior grande. Então eu falei: “Dona Kioko, a sua barriga está maior que a do meu tio.” O meu tio fez cara feia, mas a dona Kioko riu, apertou a minha bochecha e falou assim: “É que eu estou esperando neném. Vou ter uma firia!” “Legal! Qual vai ser o nome dela?” “A gente ainda não escoreu.” A menina que estava cortando o cabelo falou: “Põe Ana Clara que nem o meu!”
E eu falei: “Leocádia também é legal!” A dona Kioko deu outra risadinha e disse: “Ana Crara e Reocádia são nomes muito bonitos, mas eu quero pôr nome japonês na minha firia.” Naquela hora, a Ana Clara acabou de cortar o cabelo e a dona Kioko foi fazer as unhas dela. Então o Marcelo falou para eu subir na cadeira de cortar cabelo. Aí ele pegou uma espada que estava na parede e disse: “Você quer que eu corte com tesoura, máquina ou espada?”
Poxa, eu nunca tinha visto um barbeiro cortar com espada. Então eu falei: “Com a espada, é claro!” Mas aí ele explicou que era brincadeira. Aquela espada de samurai era só de enfeite. Então eu perguntei: “O que é um samurai?” Ele foi respondendo enquanto cortava o meu cabelo: “Bom, a palavra samurai significa ‘aquele que serve’. O samurai, no começo, era só um empregado do imperador do Japão. Mas ali por volta do século X eles passaram a ter uma função militar, passaram a ser guerreiros.” “Aí que eles usavam essa espada?” “Isso. O nome dela é katana.” “E com essa katana eles lutavam contra o Godzilla?” “Na verdade eles só lutavam contra os inimigos do imperador. Mas acho que o Godzilla ia ter medo deles.” “Por que eles eram bons de briga, tipo o Wolverine?”
“É, isso mesmo. Aliás o Wolverine gosta muito dos samurais. Para o samurai, mais valia morrer com honra do que viver com vergonha. Quando eles se sentiam desonrados, ficavam tão tristes que pegavam a katana e praticavam o harakiri.” “Gostei dessa palavra: harakiri. Por que o senhor não põe esse nome na sua filha?” “Não dá, Lelê! Harakiri é uma coisa triste. Harakiri significa cortar a barriga.” “Ops!” “Mas não pense que os samurais eram só uns valentões. Eles sabiam ler e praticavam artes como a caligrafia, a pintura e os arranjos florais, porque isso ajudava a dominar a mente.” “Eu pensei que eles só brigavam.” “Bem, essa era a especialidade deles. Muitas das lutas que eles praticavam como treinamento foram adaptadas e se transformaram em esportes como o judô.” “E eu posso ser um samurai?” “Há mais de cem anos os samurais deixaram de existir como homens de guerra e viraram uma coisa só para cerimônias. Mas, mesmo assim, os meninos só se transformavam em samurais quando faziam quinze anos. Aí eles ganhavam uma katana e um novo nome, um nome de adulto.”
Aí o Marcelo terminou de cortar o meu cabelo e o meu tio falou: “Vamos embora, Lelê?” Mas eu não queria ir embora. Eu queria fazer alguma coisa para a Ana Clara pensar que eu era o maior legal. Então eu falei assim: “Seu Marcelo, será que eu posso pegar a katana um pouquinho? Sabe, eu estou pensando em virar samurai.” “Isso tem cara de desastre...”, disse o meu tio. Mas a dona Kioko falou: “Não tem probrema. Deixa menino brincar um pouquinho.” Então o seu Marcelo deu a katana para eu brincar, mas disse para eu não tirar da bainha. Aí eu levantei a espada assim e falei: “Eu sou um samurai e vou matar os inimigos do imperador!” Só que aí a espada bateu num armário e um talco que estava lá no alto caiu bem em cima de mim. A Ana Clara caiu na gargalhada. E eu fiquei com tanta vergonha que olhei para baixo e falei: “Que mico!” Nessa hora a dona Kioko arregalou os olhos e perguntou: “Que foi que você disse, Rerê?” Eu olhei para ela e repeti: “Que mico...” Aí ela disse para o Marcelo: “Adorei esse nome!” E ele falou: “Eu também! Ótima idéia! É esse nome que nós vamos dar para a nossa filha!” “Mas ‘Que Mico’ não é meio ruim?’, eu perguntei. “Kimiko, em japonês, quer dizer pessoa nobre”, a dona Kioko explicou. “E a gente ficou tão feriz com a sua idéia que nem vamos cobrar esse corte de cabero.” “Boa!”, comemorou o meu tio. Então o Marcelo falou assim: “Antes de sair, lava sua cabeça ali na ducha.” E a Ana Clara, rindo de montão, disse: “Se você sair assim na rua, vão achar que você é um samurai fantasma!”
Escrito por Lelê às 09h09
![]() Lelê e a sofalha da China
Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Até o seu Passarinho Alegre. Acho melhor eu explicar que Passarinho Alegre é esse. É que ontem a minha mãe ganhou um vaso ming. Um vaso ming é um vaso o maior bonito, todo cheio de desenhinhos pequenos. Ela ficou tão feliz com o vaso que ela falou que queria comemorar, e aí a gente foi comer comida chinesa num restaurante chinês. Quando a gente sentou, um garçom de cara redonda e olhos apertados veio falar com a gente: “Bem-vindos ao Lestaulante Esmelalda.” Naquela hora me deu a maior vontade de rir, porque o sotaque dele era muito comédia. Mas aí ele perguntou “Quelem o caldápio?”, e eu não agüentei: "Rá-rá-rá!" “Do que você está rindo, Lelê?”, minha mãe perguntou. Eu tentei parar, mas aí o homem disse: “Não bliga com menino Lelê, senhola. Toda cliança acha englaçado meu sotaque. Pessoa chinês, como eu, não fala dileito a letla elle.” Eu ri mais ainda. Então ele se abaixou para falar comigo: “Cliança, meu nome Huan Xiaosheng. Sabe o que significa Huan Xiaosheng? Huan Xiaosheng significa Passalinho Alegle.” Eu achei tão legal uma pessoa se chamar Passarinho Alegre que até parei de rir. Daí eu perguntei: “O senhor é da China, seu Passarinho?” “Clalo.” “E a China é aquele lugar ali?”, eu perguntei apontando para um quadro na parede onde tinha um lugar com um muro bem grande.
“Sim, aquela é a Glande Mulalha.” “Grande o quê?” “Mulalha. Demolou muito tempo para fazer aquilo.” “Por quê? Os chineses são preguiçosos?” “Não, menino, é que Mulalha é muito complida. Por isso demolalam uns dois mil anos pala constluir tudo.” “Calamba!, quer dizer, caramba!” “Muitos leis e impeladoles fizelam a Mulalha, mas o mais famoso foi Qin Shihuang, que foi o plimeilo impelador da China, e isso duzentos anos antes de Clisto.
“Puxa, como ela é velha. Deve estar caindo aos pedaços!” “Uns pedaços caílam mesmo, polque uns anos atlás fizelam uma lefolma luim. Hoje em dia, dois telços da Mulalha estão em luínas.” “Que chato. E ela é altona?” “Enolme! Tem sete metlos e meio de altula e uns seis de lalgula.” “Ela é muito comprida?” “Mais complida que Blasil. De Oiapoque a Chuí, Blasil tem quatlo mil e tlezentos quilômetlos. Mulalha tem seis mil. Dava para sepalar o país de menino Lelê em duas paltes e ainda soblava.” “O senhor andou nela, seu Passarinho?” “Sim, muitas vezes. É muito bonito. Dizem que tem umas qualenta mil tolles!” "Tolles?" "Sim, que nem peça de xadlez. Lei, lainha, tolle..."
“Ah, entendi. Mas tem mais uma coisa que eu queria saber...” “Pelgunta, cliança.” “Para que ela servia?” “Mulalha bom pala defesa de China polque não deixava inimigo entlar. E, quando inimigo tentava ataque na Mulalha, soldado lá do alto da tolle avisava pessoas da China e aí pessoas da China se plepalavam pala guella.” Eu ainda queria fazer um monte de perguntas, mas a minha mãe olhou meio brava para mim e eu entendi que era hora de fechar a boca. Então ela pegou um cardápio e pediu a comida: “Por favor, senhor Huan, traga um arroz misto e um frango xadrez.” “Celto. Alloz misto e flango xadlez. Aceita lolinho plimavela de entlada?” “Sim, por favor.”
Cinco minutos depois, o senhor Huan voltou trazendo os pratos. Nós comemos tudo e voltamos para casa. Aí a minha mãe foi tomar um banho e eu comecei a brincar de goleiro no sofá. Só que aconteceu uma coisa terrível! Quando eu espalmei a bola, (quer dizer, a almofada) ela bateu no vaso ming novinho que a minha mãe tinha ganhado. O vaso foi caindo devagarinho, devagarinho... e pou! Caiu no chão. E virou um monte de caquinhos. Eu sabia que eu ia levar uma bronca e ficar de castigo depois que a minha mãe saísse do banho. Mas então eu lembrei daquela história de Muralha da China e tive uma idéia. Peguei o sofá da sala, virei ele do outro lado e fiz uma muralha com ele. Uma muralha não, uma mistura de sofá com muralha: uma sofalha. Quando a minha mãe desligou o chuveiro eu pensei assim: “Tomara que a sofalha funcione, senão eu vou levar umas palmadas.” Mas não funcionou. Ela passou por cima da sofalha o maior fácil, como se ela fosse um monstro gigante, a Mãezilla. Ela não me bateu, mas quase estourou os meus tímpanos, de tanto que falou alto. E o pior é que eu vou ficar duas semanas sem ver tevê. Uma por causa do vaso e outra por causa da bagunça na sala. Dloga!
Escrito por Lelê às 08h42
![]() A Declaração Universal dos Direitos do Lelê
Bom, como hoje é dia das crianças, durante a semana lá na escola o pessoal falou de uma coisa chamada Declaração Universal dos Direitos da Criança. Mas eu achei esses direitos muito complicados, então eu peguei e fiz a Declaração Universal dos Direitos do Lelê, que são esses aqui:
1-) Direito a um apelido. Toda criança pode ter um apelido. O meu é Lelê porque o meu nome é Leocádio. O do meu amigo Luís é Zóio porque ele tem olho grande. E o meu pai tem um amigo que todo mundo chama de Vinte e Um porque ele tem um dedo a mais (o Vinte e Um deve ser um goleiro muito bom). Apelido é legal porque parece que a gente tem duas identidades, que nem super-herói.
2-) Direito a usar roupas esquisitas. Todo mundo tem que poder usar umas roupas esquisitas de vez em quando, porque roupa esquisita é o maior engraçado. A gente tem que poder colocar o chapéu do pai, os óculos da mãe, a calça do pijama listrado do avô e a camisa xadrez do meu tio Torero. E se usar tudo isso junto fica mais legal ainda.
3-) Direito a um bicho de estimação. Pela minha Declaração de Direitos, toda criança tem direito a ter um bicho de estimação, tipo gato, cachorro e tartaruga. Elefante, tigre e leão também iam ser legais, mas acho que os pais da gente não iam deixar porque o cocô deles deve ser muito grande.
4-) Direito a fazer melecas. A gente tem que poder usar as coisas da cozinha para inventar umas comidas diferentes, misturando tudo para ver no que que dá. Mas para isso tem que ter coisa na geladeira. Então para ter o direito de fazer melecas tem que ter o direito de ter geladeira cheia. E tem que poder fazer sujeira também, porque não dá para fazer comida sem fazer sujeira.
5-) Direito a chorar sem ser chamado de mulherzinha. Poxa, às vezes, quando a gente se machuca, dói mesmo. E aí não dá para não chorar. Ainda mais que, quando a gente chora, a mãe da gente chega mais rápido. O único jeito de não chorar era se a gente tivesse uma roupa de plástico-bolha. Eu já pedi isso para a minha mãe, mas ela disse que não ia adiantar nada, porque todo mundo ia querer ficar me apertando para estourar as bolhas e isso ia doer mais ainda. Minha mãe é o maior inteligente.
6-) Direito de brincar. Brincar é uma coisa muito séria, porque é que nem se fosse o trabalho da criança. Mas tem criança que, em vez de brincar, trabalha de verdade, e aí é chato. Um dia desses, quando a minha mãe estava me levando para o colégio de carro, eu conheci um menino chamado Anderson. Ela vendia jujuba no farol de trânsito. Eu perguntei para ele se vender jujuba era legal e ele disse que no começo era, mas que depois de uns dias ficava ruim, e ele preferia estar empinando pipa. Eu ia perguntar outras coisas para ele, mas o sinal abriu. Qualquer dia eu voltou lá e falo com ele.
7-) Direito de quebrar alguma coisa de vez em quando. Tem umas coisas que são muito fraquinhas. Por exemplo, os vasos. Eles são o maior moles, caem por qualquer coisinha e ainda fazem o maior barulhão quando quebram (o que é ruim porque todo mundo escuta e nem dá para disfarçar). E vidro então? Que coisa mais fracota! Quem inventou o vidro podia ter feito um negócio mais forte. Qualquer boladinha e o vidro já quebra. E o pior é que eu acho que os vidros são assim um tipo de ímã para as bolas de futebol, porque você nunca mira neles, mas a bola vai na direção deles mesmo assim.
8-) Direito a gritar. Todo mundo grita. O meu avô grita na fila do banco, o meu tio grita no trânsito, o meu pai grita no jogo de futebol e a minha mãe grita em tudo quanto é lugar. Só eu é que não posso. Se eu grito com um amigo meu, a minha mãe me chama de selvagenzinho e diz que isso não se faz. E às vezes eu nem grito porque eu estou brigando, é só porque faz parte da brincadeira. Por exemplo, se eu levo uma flechada de um índio ou uma rajada de raio MXK de um alienígena, eu tenho que gritar, né?
9-) Direito a férias legais. Depois do natal e do aniversário da gente, as férias são os dias mais legais do ano. Mas o bom é que as férias têm muitos dias, e aniversário e natal têm um dia só. Só tem uma coisa nas férias que eu não entendo, que é que quando elas começam parece que elas vão demorar um tempão, mas, quando elas acabam, parece que foi um tempinho de nada. Para ter férias tem que ir na escola. Mas tudo bem, vale a pena.
10-) Direito a ter pai e mãe. Por essa minha lei, todo mundo tem que ter pai e mãe, mesmo que eles se separem. Pai e mãe são o maior legal, porque eles gostam da gente mesmo que a gente faça bagunça, e qualquer porcaria que a gente desenha eles acham o maior lindo. Eu acho que pai e mãe têm que cuidar da gente até a gente ficar bem grande, com uns cinqüenta e oito anos. E eles não têm o direito de morrer, porque ficar sem pai e mãe deve ser a coisa mais triste que tem.
Escrito por Lelê às 07h37
![]() Lelê e o gato do gato
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Nome é uma coisa muito importante, tanto que eu demorei uma semana para escolher o nome do meu gato, mas acabei escolhendo um bem legal: “Branco”! Eu escolhi o nome de Branco porque o meu gato é branco, mas o meu tio disse que teve um cara chamado Napoleão que deu o nome de Branco para o cavalo dele, só que o cavalo era marrom. Bom, na semana passada eu fui de novo na casa do meu avô, que é onde mora o meu gato (a minha mãe não deixa a gente ter bicho no apartamento porque ela diz que é judiação, mas a gente mora lá). Aí, quando eu cheguei, eu perguntei para o meu avô: “Vô, cadê o Branco?” “Que Branco?” “Branco é o nome do meu gato branco.” “Ah, ele está passeando por aí”, o meu avô respondeu. “De vez em quando ele sai para dar umas bandas, mas sempre volta.” Aí eu fui até o quintal e fiquei chamando “Branco, Branco!”, mas então eu pensei que ele ainda não sabia que esse era o nome dele e aí não ia adiantar nada eu ficar chamando, por isso eu desisti e fui ver televisão com o meu avô, que vê tevê o dia todo e sabe tudo o que passa em todos os canais. Depois de um tempo, o Branco apareceu. E tinha um gato malhado com ele. “Que gato é aquele que está com o Branco?”, eu perguntei para o meu avô. “É o Cacau”, respondeu o meu avô, “o gato da vizinha.”
Aí o meu avô chamou o Branco fazendo um chiadinho com a boca e ele veio até a gente. Depois eu fui brincar com ele. Teve uma brincadeira muito boa que eu e o Branco inventamos. A gente ficava atrás da cortina, fazendo um tubo com ela e aí, quando entrava uma mosca, a gente perseguia ela. Eu também achei legal passar a mão nas costas dele, porque, quando a gente passa a mão nas costas dele, elas parecem que sobem e descem. Outra coisa que eu achei legal foi segurar o Branco pelas patas de trás e fazer ele andar só com as da frente. E também é bom segurar as da frente, porque aí a gente fica cara a cara com ele e dá para conversar direito. Então eu segurei ele desse jeito, olhei bem nos olhos dele e disse: “Oi, Branco, o seu nome é Branco.” Ele respondeu um ‘miau’ que eu acho que na língua dos gatos queria dizer: “Tá bom, eu me chamo Branco, mas me solta que esse negócio de ficar em duas patas me deixa o maior cansado.” Bom, aí eu achei que os bigodes do Branco estavam muito compridos, peguei uma tesoura e cortei a pontinha deles que nem o meu pai faz com o bigode dele, e o Branco disse um ‘miau’ que queria dizer: “Poxa, obrigado, Lelê, o meu bigode ficou bem melhor assim. Ele estava tão comprido que eu parecia um ladrão mexicano de filme de bangue-bangue.”
E aí eu respondi; “Não foi nada. Agora deixa eu dar uma olhada no que o meu avô está fazendo.” Aí eu soltei o Branco e fui ver o que o meu avô estava fazendo, e é claro que ele estava vendo tevê. Depois, da janela do meu avô, eu vi o Branco e o Cacau brincando. E o meu avô disse: “O Branco e o Cacau andam o tempo todo juntos. Acho que eles são namorados.” Aí eu falei: “Mas como é que eles podem ser namorados se os dois são gatos? Para ser namorado precisa de um gato e de uma gata.” “Não é assim, não, Lelê. Tem gato que gosta de gato e gata que gosta de gata.” “É?” “É. Isso é muito comum. Faz parte da natureza. Eu até vi um documentário sobre isso naquele canal, o Animal Planet. Ou será que foi no Discovery? Se bem que pode ter sido no National Geographic. Ah, sei lá!, mas eu lembro que isso é bem comum em flamingos, pingüins, lontras, girafas, baleias, abelhas, insetos e até num tipo de macaco. “Poxa!” “E também é comum nos cachorros. Aquela sua pequinês, por exemplo: ela rosnava para os machos e gostava mesmo é de brincar com outras cachorras.” “A Lady?!” “É. A Lady gostava de ladies.” “Caramba! E a Madalena, minha tartaruga?” “Ah, não faço a menor idéia do que a Madalena gostava. Nem sei se ela era Madalena ou Madaleno.” “E agora, o que a gente faz com o Branco?”, eu perguntei. “Nada”, o meu vô respondeu. “Ele continua sendo o mesmo gato, não é?” E eu respondi: “É.” Depois, quando o Branco voltou, eu segurei ele pelas patas da frente e perguntei: “Então você está namorando com o Cacau, é?” E ele respondeu um miau que queria dizer: “Estou. Ele é um gato.” Eu achei a piada dele o maior boa e ri. Quando eu parei, o Branco perguntou em gatês: “E você vai gostar menos de mim por causa disso?” E eu respondi: “Claro que não, seu gato burro!” E aí a gente foi caçar moscas.
Escrito por Lelê às 05h58
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