
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Os bichos do Lelê
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Quer dizer, todo mundo, não, porque eu tive uma cachorra que me chamava abanando o rabo. O nome dela era Lady. Ela era uma pequinês preta. Eu tive a Lady há uns dois anos, quando eu ainda morava numa casa. A Lady era o maior simpática. E ela tinha umas orelhas que pareciam um casaco de pele e deixavam ela com uma cara muito chique, por isso é que eu botei o nome dela de Lady. Eu achava legal dar banho nela porque, quando ela entrava na bacia, o pêlo grudava no corpo e ela ficava bem magrinha. Ela lutava muito comigo e com a minha mãe no banho, e a gente ficava molhado e isso era legal. Mas o mais engraçado é que, depois do banho, às vezes ela conseguia escapar da toalha e ia para a sala e se chacoalhava, molhando tudo. Aí a minha mãe dizia: “Isso é coisa que se faça? Você é uma cachorra mesmo, hein, dona Lady?” Ela era boa para fazer ginástica, porque eu corria atrás dela e ela corria atrás de mim. E a Lady também era meio professora, porque eu aprendi um monte de coisa com ela. Por exemplo, quando eu brigava com ela, ela me lambia a cara e eu parava de brigar. Aí eu fiz isso com a minha mãe um dia. Ela me deu uma bronca e eu dei um beijo nela e ela desbravejou na hora. Eu também aprendi a fazer cara de pedir coisa, que é assim: você vira um pouco a cabeça de lado, abaixa as sobrancelhas e faz uma boca triste. Sempre dá certo. A Lady parecia gente. Então depois eu até aumentei o nome dela. Ficou: Lady Fernanda Paes de Barros. Se a gente tem sobrenome, por que cachorro não pode ter? Mas um dia a Lady fugiu. O meu pai abriu o portão para colocar o carro na garagem, ela aproveitou e saiu. A gente correu atrás, mas acho que ela pensou que a gente estava brincando de pega-pega e correu mais ainda. Aí ela virou umas esquinas e desapareceu. Eu fiquei esperando ela voltar um tempão. Mas ela não voltou. Acho que ela se perdeu. Então eu fiquei o maior triste e disse que nunca mais queria ter um cachorro. A minha mãe falou “Tudo bem”, e o meu pai disse “Ufa!”. Mas aí eu expliquei: “Eu não quero ter um cachorro porque eles correm muito. Agora eu quero é uma tartaruga.” E aí eles me compraram uma tartaruga. Eu coloquei o nome dela de Madalena porque, quando ela chegou em casa, a vizinha estava escutando uma música onde o cara ficava repetindo esse nome. A Madalena não era muito divertida, porque ela não corria atrás de mim. Quer dizer, até corria, mas era fácil escapar. O bom é que ela era bem calma, e a gente não precisava dar banho nela. Eu até quis encerar o casco da Madalena, mas a minha mãe disse que não, de jeito nehum!, porque senão daqui a pouco eu querer pintar o casco dela também. Aí eu falei: “Boa idéia!”, mas a minha mãe me olhou com uma cara brava e falou: “Você ia gostar se eu pintasse as suas costas?” “De que cor?”, eu perguntei. Então a minha mãe olhou para o lustre e falou para ele: “Senhor, dai-me paciência.” E aí olhou para mim e disse que eu não ia pintar o casco dela e pronto. Eu achava engraçado pôr a Madalena de cabeça para cima porque aí ela ficava balançando as perninhas. Mas depois eu colocava ela do jeito certo. O estranho é que mesmo sendo muito devagarosa, de vez em quando ela sumia por uns dias. Aí a gente ia encontrar ela no meio do jardim, num lugar onde não dava para ver. Então eu falava para a minha mãe: “Tá vendo, se a gente tivesse pintado o casco dela de cor-de-rosa ia ser fácil de achar.” Mas um dia a Madalena sumiu de vez. Acho que alguém roubou ela do jardim de casa. E aí não dava para encontrar, porque as tartarugas são muito parecidas. Se eu tivesse pintado o casco dela ia ser fácil. Bom, eu estou contando a história dos meus bichos velhos porque eu ganhei um bicho novo. Um gato! Quem me deu foi o meu avô, que é pai do meu pai. Ele agora mora numa casa e, no fim de semana, quando eu fui visitar ele, o meu avô me deu esse gato branco bem grandão que ele achou na rua. Quer dizer, na verdade o gato é que achou o meu avô, porque ele foi ficando na casa dele, ficando, ficando, e ficou de vez. Só que eu não vou poder levar o gato para casa porque a minha mãe diz que bicho em apartamento é judiação (será que também é judiação gente morar em apartamento?). Por isso o gato é meu mas vai ficar na casa do meu avô. Esse gatão branco é muito legal. Ele vem perto da gente para a gente passar a mão nele, se enrosca nas minhas pernas e, quando eu vou brincar com ele, ele deita de barriga para cima e fica dando tapa nas minhas mãos, mas ele é tão educado que nem usa as unhas, só as almofadinhas da pata (eu queria ter umas almofadinhas daquelas. E as garras também). Ele é um gato tão legal que até parece cachorro, por isso eu acho que ele é de uma nova raça, a raça dos gachorros. Ter bicho é o maior legal, só que eu não seu se eu que tenho ele ou se ele que tem eu, porque eu fiquei dando água para ele, e leite e comida. Quer dizer, eu que sou escravo dele. Agora falta eu dar um nome para ele. Alguém pode dar um palpite?
Escrito por Lelê às 07h49
![]() Lelê no altar
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Mas será que se eu me casar um dia, o padre vai falar assim: Lelê, você aceita a mão de...? Não, acho que ele vai me chamar de Leocádio mesmo. Eu pensei nisso porque na semana passada eu fui num casamento, e eu nunca tinha ido num. Quer dizer, a minha mãe disse que eu fui no casamento dela, mas lá da barriga não dá para ver muita coisa. Quem casou agora foi uma prima da minha mãe e do meu tio Torero, a Daniela. Uns dias atrás ela foi lá em casa e pediu para o meu tio ser o motorista dela. O meu tio até engasgou com o bolo de maçã que ele estava comendo. “Eu?”, ele disse. “Mas motorista tem que usar terno...” “Ah, por favor...”, ela pediu fazendo cara de cachorro com fome (eu também sei fazer essa cara, e quase sempre eu consigo fazer a minha mãe me comprar um carrinho). Mas o meu tio foi durão: "Não dá, Daniela, eu detesto usar terno." Daí ela insistiu: "Vai ter aquele doce que você gosta, o bem-casado. Separo um monte para você." E o meu tio disse: “Tá bom..., tá bom...” Então eu falei: “O tio Torero se ferrou! Ele não gosta de usar terno, não gosta de dirigir e vai ter que fazer as duas coisas!” E ele respondeu: “Está rindo, né? Mas quem você acha que vai ser o meu co-piloto?” “Que ótima idéia!, você vai fazer companhia para o seu tio”, disse a minha mãe. “Vou até te comprar um terninho”. Aí eu parei de rir. Bom, no dia do casamento foi assim: O tio Torero passou lá em casa e me pegou. Ele estava com um terno bacana e até a minha mãe elogiou: “Eu não sabia que você tinha este terno chique.” “E eu não tenho mesmo”, ele respondeu. “É alugado. O meu ficou muito apertado.” Depois a gente pegou o carro e foi lá onde a Daniela estava se arrumando. Foi o maior chato, porque a gente teve que esperar um tempão. Ela ainda fez as unhas, arrumou o cabelo (com uns bóbis engraçados), foi maquiada e colocou o vestido. Ainda bem que tinha um monte de revistinhas.
“Por que você não falou para eu vir umas duas horas mais tarde?”, o meu tio perguntou para a Daniela. “Eu tinha medo que você atrasasse”, ela respondeu. E aí o meu tio entortou o canto da boca e fez uma cara engraçada, a mesma que ele faz quando o Santos toma gol Bom, aí a gente foi para a igreja. Mas lá também demorou, porque a noiva do casamento de antes da Daniela estava atrasada, então a gente teve que ficar dando umas voltas até que ligaram para o celular da Daniela avisando que ela já podia chegar. A igreja estava o maior legal:
Eu só achei o Cristo meio triste. Parecia que ele não estava gostando do casamento. Se eu casar um dia, vou pedir para colocarem uma estátua dele bem alegre. Então uns caras com umas roupas engraçadas tocaram umas cornetas compridas e os noivos entraram. Eles estavam bem bonitões. Aí eu fiquei pensando numa coisa: Naquele dia os noivos estavam o maior arrumados, mas depois eles vão ficar que nem gente comum e aí um nunca mais vai ver o outro tão bonito. Se eu casar, eu vou para a igreja bem feio, porque aí a minha mulher vai me achar mais bonito no resto dos dias. Depois que os noivos entraram eu vi uma menina encostada na igreja, essa aqui:
Eu achei ela o maior bonita, e aí eu disse assim: “Oi, eu sou o Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê.” E ela disse: “Eu me chamo Beatriz, mas todo mundo me chama de Bia.” Depois o padre falou um monte de coisas que eu não prestei atenção e o casamento acabou. Quer dizer, acabou, não, porque aí veio a melhor parte: a festa! A festa foi num salão grandão. Um salãozão. E o mais legal é que tinha uns brinquedos para as crianças. Se toda festa tivesse brinquedos, a gente não atrapalhava. Ah, e também tinha muita comida. Quando o meu tio viu aquela mesa cheia de coisas, ele falou: “Lelê, espera aqui que eu vou receber o meu salário”. E encheu o maior pratão. Acho que o terno velho dele nunca mais vai servir. Eu fiquei brincando com a Bia nas bolinhas. Quer dizer, brincando, não. Eu empurrava ela e ela me empurrava. Era uma briga de brincadeira. Será quen isso que é namoro? Bom, aí começaram a tocar música e distribuíram óculos, perucas, uns colares e umas pulseiras coloridas para todo mundo. Eu não sabia que tinha disso em casamento. Pensei que era uma coisa mais chata. Teve até a dança do siri, e eu dancei com a Bia.
Depois eu perguntei para a Bia: “Você gostou do casamento?” Ela disse: “Gostei.” E eu perguntei: “Será que a gente vai casar um dia?” Ela pensou um pouco, botou umas pulseiras nos olhos e respondeu: “Sei lá”, e saiu correndo. Eu achei uma resposta muito inteligente, porque não dá mesmo para saber.
Aí, na volta para casa, eu perguntei para o meu tio: “Tio, se eu casar com a Bia, você também vai ser meu motorista?” Ele tirou um bem-casado do bolso, enfiou ele de uma vez na boca e respondeu: “Hum..., tá bom. Mas você paga o aluguel do terno.”
Escrito por Lelê às 06h31
![]() O dia em que Lelê virou múmia
Na semana passada, a minha professora de história, a dona Clotilde, mandou a gente pesquisar sobre os egípcios. Mas aí aconteceu o seguinte: Eu deixei para fazer a pesquisa no fim de semana, só que deu preguiça e eu deixei para segunda; só que na segunda eu fiquei muito ocupado brincando de carrinho e deixei para terça; só que na terça eu estava meio esquecido e só lembrei na quarta; só que na quarta eu tinha muita lição de casa e deixei para quinta; só que na quinta o meu amigo Gabriel veio aqui em casa e aí eu deixei para sexta, só que sexta era o dia entregar a pesquisa, e eu só lembrei quando já estava no carro da minha mãe, indo para a escola. Aí eu torci para o carro estar sem gasolina que nem na semana passada, quando a gente parou para abastecer num posto e uma frentista chamada Maia me ensinou uma porção de coisas sobre os maias (eles têm esse nome mas não são parentes dela). Então eu falei para minha mãe: “A gente não vai encher o tanque naquele posto?” “Não. O tanque está cheio”, a minha mãe respondeu: Aí eu pensei: “Caramba! Vou tirar zero!” Mas então eu tive uma idéia e disse: “Mãe, eu queria fazer xixi, dá para parar naquele posto?” “Não dá, hoje eu estou com pressa.” Então eu abri o porta-luvas e disse: “Tudo bem, eu faço aqui”. Mas aí ela gritou: “Não! A gente dá uma paradinha.” E aí a gente parou no posto. Então eu fui até o banheiro do posto e chamei a Maia com o dedo. Ela chegou com um monte de folhas de papel higiênico na mão e disse: “Pronto, toma.” Eu peguei o papel e falei: “Não, eu não preciso disso. Eu quero é saber alguma coisa sobre os egípcios.” “Sobre os egícpcios?” “Você não sabe umas coisas sobre eles? O seu pai não era professor de história?” “Bom”, disse a Maia, “eu sei que eles foram o povo mais desenvolvido do mundo antigo e fizeram muitas pirâmides.”
“Isso é pouco. Assim eu vou tirar só dois.” “Deixa eu ver... Eu também sei que a sociedade deles se formou uns três mil anos antes de Cristo, em torno de um grande rio chamado Nilo. Quando chovia, esse rio transbordava e, depois, quando ele voltava ao tamanho natural, a terra já tinha ficado cheia de matéria orgânica. Isso fazia o solo ficar fértil, e aí era só plantar. As coisas cresciam que era uma beleza.” “Então eles eram ricos?” “Muito. Foi por isso que eles puderam fazer construções como as pirâmides.” “E o que que tinha dentro delas?” “As pirâmides eram túmulos para os reis deles, os faraós. Quando os faraós morriam, eles eram colocados ali dentro. Lá também tinha comida, objetos, mapas, moedas e muitas obras de arte. Tudo para o faraó.” “Mas pra que isso tudo se o faraó estava morto?”
“É que os egípcios acreditavam em vida depois da morte. Eles achavam que iam se encontrar com um deus chamado Osíris, que punha o coração das pessoas numa balança e pesava. Se a pessoa tivesse o coração pesado, cheio de más ações, ele a mandava para um lugar feio. Se tivesse o coração leve, ele mandava para um lugar bonito chamado Iaru.” “Esse tal de Osíris era o deus deles?” “Ah, eles tinham um monte de deuses! Tinha Hórus, que era o deus do céu; Rá, que era o deus do sol; Chu, que era o deus da luz; Anúbis, que era o deus do submundo...” “Anúbis é um nome legal. Eu queria me chamar Lelúbis.” “Lelúbis? Aí você ia ser o deus do mensalão!” E depois ela riu um monte. Acho que essa é uma piada de gente grande, porque eu não entendi nada.
Depois que parou de rir, a Maia falou: “Ah, tem mais uma coisa legal! É que antes de colocar os faraós nas pirâmides, os sacerdotes passavam uma substância no corpo deles e os enrolavam com umas tiras. Era assim que eles viravam múmias.” Eu estava pensando que devia ser bacana ser múmia (é que aí, se eu me machucasse, já ia ter um monte de esparadrapo) quando a minha mãe buzinou. Então eu disse “Obrigado e tchau” para a Maia e voltei para o carro. “Que xixi demorado!”, a minha mãe falou. Eu não respondi nada. Fiquei quieto que nem uma múmia. Depois ela me deixou na escola e eu entrei na classe. Então a dona Clotilde disse: “Bom, como na semana passada o Lelê foi muito bem, eu vou deixar ele falar primeiro hoje.” Então eu fiquei de pé e falei tudo o que a Maia tinha falado para mim. Das pirâmides, das múmias, da balança do coração e daquele monte de deuses. A professora ficou o maior impressionada e perguntou para mim: “Poxa, Lelê, como é que você sabe tanto sobre os egípcios?” Eu não queria dizer que tinha aprendido tudo num posto de gasolina, porque o legal é a gente dizer que a gente pesquisou na biblioteca. A sorte é que eu lembrei do papel higiênico que a Maia tinha me dado no posto. Então eu tirei ele do bolso, enrolei na cabeça e falei: “Eu sei isso tudo porque eu sou uma múmia.” E aí botei os braços para a frente e saí andando pela classe fazendo “Buuuuuu!”
Escrito por Lelê às 07h07
![]() O dia em que Lelê tirou onze
Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que a minha mãe, quando vai me dar bronca, me chama de Seu Leocádio. Por exemplo, ontem eu demorei para acordar, então a minha mãe entrou no quarto e falou assim: “E aí, Seu Leocádio, vai levantar para ir para a escola ou vai ficar na cama?” “Oba!, eu posso escolher?” “Não.” “Tá..., então eu vou acordar.” Aí eu levantei, me arrumei e, como eu já estava o maior atrasado, a minha mãe me levou na escola de carro. Só que, quando a gente já tinha saído, eu lembrei que a professora tinha mandado fazer uma pesquisa. A gente tinha que descobrir qual o povo que construiu pirâmides mil e quinhentos anos atrás. Quando eu ia perguntar isso para a minha mãe, ela falou: “Nossa!, o carro está quase sem gasolina.” “Tudo bem, vamos voltar para casa”, eu disse bem rápido. “Nada disso, Seu Leocádio! Nós vamos dar uma parada no posto e depois vamos para a escola.” Bom, aí quando a gente chegou no posto, ela abriu a porta do carro e falou: “Espera um pouquinho que eu vou comprar uma coisa na loja de conveniência e já volto.” Aquele posto era meio diferente dos outros postos. Tão diferente que o homem que punha gasolina no carro era uma mulher. Ela chegou na janela e perguntou como era o meu nome: “Lelê. E o seu?”, eu respondi e perguntei. “O meu é Maia.” “Maia? Por quê? Era para ser Maria e esqueceram de pôr o erre?” “Não, era para ser Maia mesmo.” “Por que você nasceu em maio?” “Não, nasci em setembro.” “Então você devia se chamar Setembrina.” “Não, é que o meu pai era professor de história e era fã dos maias.” “De quem?” “Dos maias. Foi uma civilização que nasceu há uns dois mil anos atrás e acabou há uns quinhentos. Eles viviam num pedaço do México e nuns países pequenos chamados El Salvador, Guatemala e Belize.” “Denise?”
“Não, Belize. E os maias eram muito desenvolvidos. Sabiam até escrever. Os livros deles eram feitos numa folha só, que era dobrada que nem uma sanfona,e eles tinham um alfabeto lindo!”
“Pô, eles eram dez!”, eu disse. E ela falou: “Dez, não. Vinte! É que eles tinham um sistema numérico baseado no número vinte. E os maias conheceram o número zero antes da Europa.”
“Poxa, os caras deviam ser o maior bons em matemática.” “Eram mesmo. Mas acho que o mais legal era a arquitetura deles. Sabia que eles até construíram pirâmides?” Quando eu escutei aquilo, eu fiquei o maior aliviado, que nem quando a gente quer ir no banheiro e chega em casa e vai correndo para a privada. Então eu perguntei: “E essas pirâmides eram altonas?” “Chegam até a setenta metros. E uma delas, a de Chichen Itzá, tem 91 degraus em cada um dos seus quatro lados. Isso dá 364. Mais o patamar que fica lá em cima, dá 365, o mesmo número de dias do ano. Eles eram gênios!”
“E o que que os maias fazem hoje? São astronautas?” “Ah, eles já não existem mais. Parece que os maias faziam muitas queimadas na floresta. Isso foi esgotando o solo e eles foram ficando pobres e fazendo guerras entre eles. Esse negócio de ecologia é um problema antigo.” “Coitados...” “É... E, quando eles já estavam bem fracos, ainda por cima chegaram os conquistadores espanhóis. Aí acabou tudo de vez.” Nessa hora, a minha mãe chegou, pagou a gasolina e me levou para a escola. Quando a professora entrou na classe, ela perguntou: “E então, pessoal, vocês descobriram quem fez as pirâmides há mil e quinhentos anos?” Todo mundo gritou “Os egípcios!”, mas eu berrei: “Os maias!”. Aí toda a classe apontou para mim e começou a rir da minha cara, e isso é o maior chato. Me deu vontade de ser teletransportado para a minha cama. Mas então a professora falou assim: “Parabéns, Leocádio! Você acertou! Os egípcios fizeram suas pirâmides há uns dois mil e quinhentos anos atrás. Quem construiu há mil e quinhentos anos foram os maias mesmo. Era uma pegadinha.” Aí eu me senti o maior sabido e falei: “Pois é, professora, os maias fizeram pirâmides no México, em El Salvador, em Guatemala e na Denise.” “Belize, Leocádio, Belize.” “Isso!” Bom, e como só você acertou, eu vou te dar nota onze. Eu fiquei o maior contente e olhei para o resto da classe com cara de “vocês são bobos”. Depois a professora deu outra pesquisa para a semana que vem, e agora vai ser sobre os egípcios mesmo. Tomara que a gasolina da minha mãe acabe de novo. Tchau!
Escrito por Lelê às 08h45
![]() Os últimos passos de Lelê em Passo Fundo
Bom, daqui a pouco eu vou pegar o avião e vou embora de Passo Fundo, então eu vou contar como é que foi o final da Jornada. Na sexta-feira de tarde o meu tio foi falar em quatro tendas, meia hora em cada uma, e ele foi horrível de novo (teve uma hora que ele falou que torcia para o Santos e aí todo mundo vaiou ele e gritou “Grêmio, Grêmio!”. Então ele gritou “Boca, Boca, Boca!” e vaiaram mais ainda).
O meu tio Torero ficou o maior complexado porque não sabe falar direito e até escreveu sobre isso no blog dele. Depois, de noite, teve o encerramento e foi legal. A Elisa Lucinda e o Mário Pirata falaram umas poesias e também teve uns discursos, mas foram curtos e eu nem dormi. Aí veio uma orquestra e tocou um monte de música do tipo que a minha mãe gosta e que se chama música clássica. Quando a minha mãe fica escutando essas músicas, eu acho chato, mas ver o pessoal tocando de verdade é bem bom.
Então a gente foi jantar e o meu tio ficou conversando com um cara chamado Domingos Pellegrini, que é legal e conta umas histórias engraçadas, e um outro chamado Ferréz, que me ensinou um monte de palavras novas. O Ferréz é o maior mano firmeza. No sábado é que foi chato, porque não tinha nada para fazer e só ia ter avião hoje, que é domingo. Então o meu tio ficou trabalhando no computador e eu só fiquei olhando pela janela do nosso quarto, que era assim.
Só de noite é que a gente fez uma coisa legal, que foi ir num CTG (que eu acho que quer dizer Centro de Tradições Gaúchas). O meu tio foi lá porque tinha churrasco e ele adora comer, mas o mais legal é que era um lugar bem animado. Todo mundo estava vestido com umas roupas diferentes, tinha um conjunto tocando música e o pessoal dançava no meio do salão, assim:
Uma coisa que eu achei legal é que todos os homens (e os meninos também) estavam com uma calça chamada bombacha. Essa calça é legal porque é bem larga. Dá até para colocar umas coisas dentro, tipo uma maçã, uma laranja, uns carrinhos de ferro, uns chocolates, uma bola pequena, um caderno, umas canetas... É uma calça-sacola, quer dizer, calçacola. Eu pedi para o meu tio comprar uma dessas bombachas para mim, mas ele disse que isso custa muito caro e que ele vai me dar uma calça velha dele, que também vai ficar bem larga. É o maior difícil fazer o meu tio gastar dinheiro. Bom, e agora de manhã a gente tomou um café da manhã que foi assim:
O meu tio comeu pão, salame, requeijão, queijo, café com leite, café sozinho, musli com leite, mamão, melão comum, melão esquisito, um croassã recheado de geléia, e, para terminar, dois pedaços de merengue. Depois, quando a gente voltou para o quarto do hotel e ele foi pôr a calça, ela nem fechou. Então eu disse: “Xi, tio, depois desse comida toda você só cabe numa bombacha!” Ele não respondeu nada. Só fez uma cara bem séria. Pelo jeito, acho que eu vou ficar um tempo sem viajar com o meu tio.
Escrito por Lelê às 10h36
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