
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Escritor é tudo bobo
Ontem eu fui ver o meu tio falar para o pessoal sobre dois livros dele, o "Nuno descobre o Brasil" e o "Naná descobre o céu". Não foi muito legal porque o meu tio é meio ruim para falar (escrevi meio ruim porque eu sou legal, porque, de verdade, ele é o maior ruim). Vou botar aqui uma foto do pessoal olhando para ele:
Ainda bem que tinha uma escritora chamada Elisa Lucinda que sabia falar direito. E ela contava umas poesias, dançava, era show. Mas o meu tio..., coitado..., é melhor ficar calado mesmo. Bom, depois teve um palestra daquele cara com penteado de ventilador, que se chama Carlo Ginzburg. Também foi chato, porque ele falava numa língua estranha, que eu acho que era inglaliano, uma mistura de inglês com italiano, e aí era traduzido para o português por outro cara. Isso era o maior devagar e eu dormi. Palestra é muito bom para dormir. O meu tio nem me acordou, porque ele disse que é muito bom dormir nas palestras, porque aí você fica acordado no jantar, que é a parte mais divertida, porque o pessoal senta numas mesas grandes e fica contando piada. Depois do Ginzburg aconteceu uma coisa legal. O seu Mindlin, que parece um vovô de historinha, recebeu um prêmio. Ele é o maior bacana. Mas o que eu gostei mais é que todo mundo que foi dar o prêmio, que era o pessoal da universidade, entrou com umas roupas muito engraçadas, mais legais que a do X.P.T.O. Vou colocar uma foto aqui:
Depois, todo mundo foi jantar, e aí que é a parte mais legal, porque ele ficam contando as besteiras que eles fizeram nos outros encontros, que nem a mulher que disse que pegou um elevador com o Chico Buarque e, quando eles chegaram no térreo, ela disse sem querer: “Droga, o elevador não quebrou”, e que nem o cara que tentou se matar pulando de um lugar alto, mas acabou caindo de perna aberta em cima de um muro e machucou o piupiu. Escritor parece gente séria, mas é tudo bobo, que nem todo mundo.
Escrito por Lelê às 10h42
![]() Lelê dá o primeiro passo em Passo Fundo
O avião não caiu. E era um avião meio velho. Eu perguntei para o meu tio qual era a marca dele e ele disse que devia ser 14-Bis. Uma coisa legal foi que o meu tio Torero deixou eu ficar na janelinha porque ele tem o maior medo de altura. Eu gostei porque janela de avião é assim que nem uma tevê, só que em vez de gente tem nuvem, e cada uma é de um jeito (e elas me dão vontade de comer algodão doce).
A viagem foi meio chata porque o avião não balançou e aí não teve emoção. Se bem que, só de brincadeira, eu perguntei para o meu tio se sempre saía fumaça do motor e ele arregalou o olho e foi ver. Ele caiu direitinho. O meu tio não é muito esperto. Bom, o avião só se atrasou duas horas para sair e a viagem demorou uma hora e quarenta. No avião tinha um velhinho bonitinho que parecia avô de historinha para criança, e o nome dele era Seu Mindlin, e tinha um cara chamado Carlo Ginzburg que parece que penteia o cabelo com ventilador, porque fica tudo para cima. Depois eu tiro uma foto deles. NO avião também tinha um monte de escritor no avião e foi engraçado que depois que o avião subiu, cada um lia um livro (só o meu tio que lia uma revista do Asterix). Quando a gente chegou aqui em Passo Fundo, tinha um ônibus esperando os escritores. Todo mundo entrou no ônibus e foi para um restaurante. Acho que escritor deve passar muita fome, porque eram umas cinco da tarde e a gente já tinha comido no avião e ia jantar depois, mas mesmo assim todo mundo foi comer. Aí de noite teve uma palestra meio chata e eu dormi. Mas hoje de manhã foi legal, porque teve uma peça de teatro muito bacana de uma turma chamada X.P.T.O. Eles cantam bastante, se mexem muito (teatro parado é chato) e as roupas deles são legais. Olha só:
Agora de manhã eu não vi nenhuma palestra, porque palestra me dá sono, mas eu vi uma coisa que eu achei legal: um ônibus que não é um ônibus. Ele é assim por fora:
Ele ficou pronto hoje. Parece que ele vai ficar na frente de cada escola da cidade por uma semana, cheio de livro para criança e para adulto, e aí quem quiser pode entrar e pegar um livro emprestado. Eu achei a idéia legal, só que deve cair tudo quando o ônibus faz curva (eu perguntei para a moça que cuida do ônibus e ela disse que cai mesmo). Bom, agora eu tenho que ir embora porque o meu tio vai falar numa das tendas. Depois eu conto como foi (se eu não dormir).
Escrito por Lelê às 10h55
![]() A Jornada de Lelê
Hoje eu acordei o maior cedo. Antes das seis eu já estava de pé. É que hoje vai ser um dia muito diferente, e quando o meu dia vai ser muito diferente eu acordo cedo para o dia começar logo. O dia vai ser diferente por causa de duas coisas: uma é que eu não vou para a escola, e isso é o maior legal (quer dizer, eu gosto de ir para a escola, mas também gosto de não ir, e eu só gosto de não ir porque eu vou, porque se eu não fosse nunca, aí não ir não ia ter graça), e a outra coisa é que hoje eu vou viajar. E de avião! É que o meu tio vai participar de um negócio chamado Jornada Literária numa cidade chamada Passo Fundo, que ele diz que é o melhor lugar do mundo porque lá todo mundo lê. E ele vai me levar junto. Esse lugar deve ser bem diferente mesmo, porque o meu tio tem o maior medo de avião e só viaja quando ele acha que a coisa vai ser bem legal. Na vez que a gente foi para a Copa da Alemanha, antes do avião começar a voar ele perguntou para a aeromoça: “Ainda falta muito?”. O meu tio tem problemas. Ele vai no banheiro um monte de vezes, tenta ler mas não consegue, tenta dormir mas só fica de olho arregalado e, quando o avião dá uma tremidinha, ele aperta a minha mão e diz que é para eu não ficar com medo, mas quem está com medo é ele. Bom, amanhã, se o avião não cair, eu conto como é que foi a viagem (só escrevi isso para o meu tio ler e ficar com medo, he, he). Tchau!
PS: Eu vou escrever todos os dias lá de Passo Fundo, de hoje até sábado. E vou tirar um monte de fotos também.
Escrito por Lelê às 06h47
![]() Receitas do Lelê
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. E, se um dia eu tiver um restaurante, ele vai se chamar Le Lelê. Eu comecei a pensar nisso depois da semana passada, quando o meu pai fez um mexidinho para mim. Eu achei aquilo o maior bom. Mas é difícil ter mexidinho em restaurante, porque restaurante só tem coisa chique. Só que o Le Lelê vai ter uns pratos diferentes, desses que são o maior bons mas que só tem em casa, e até uma criança pode fazer. Então hoje eu decidi colocar aqui como é que vai ser o cardápio do Le Lelê. E vou pôr as receitas também, que assim qualquer um pode fazer em casa. O primeiro prato se chama “Cocô de bebê”. É uma delícia! Você pega um abacate, tira ele da casca, joga açúcar, põe limão, e depois amassa tudo com o garfo. Fica parecendo um cocô de bebê, mas não é. Quer dizer, eu nunca experimentei cocô de bebê, mas, pelo cheiro, acho que deve ser bem diferente. Outra coisa que vai ter é a “Lagoa deliciosa”. Você abre uma lata de leite condensado e vai derramando num prato (mas tem que ir fazendo umas voltinhas e uns desenhos, senão não fica bom) até fazer uma lagoinha. Depois molha o pão ali e vai comendo. Mas tem que ser daquele pãozinho comum. Se colocar outro pão, tipo pão de forma, não dá muito certo, não. Um prato que sempre vai ter no Le Lelê é a “Meleca de morango”. Eu chamo de meleca de morango porque eu sempre faço a maior sujeira quando eu faço esse negócio. É assim: eu pego uns morangos, corto na metade (os grandões eu corto em quatro pedaços), pego uns suspiros, esmigalho tudo (essa parte é muito legal, porque é divertido esmigalhar as coisas) e depois eu coloco aquele creme chantili de spray que vende no supermercado. Então eu misturo tudo até ficar a maior meleca (se a minha mãe não estiver em casa, eu misturo com a mão mesmo, e depois fico lambendo os dedos). O meu restaurante também vai funcionar de manhã, e o café da manhã vai ser pão com manteiga com café com leite. Mas não é para comer separado. O bom é pegar o pão e ir molhando no café com leite bem quente. Aí ele fica molinho e é o maior gostoso. Esse quem me ensinou foi o meu avô, que não tem dente e por isso ele gosta das coisas bem molinhas. Como a minha mãe diz que fruta é muito saudável, no Lelê vai ter um prato que se chama “A canoa dos coitados”. Vou dar a receita (quer dizer, não é bem receita, porque a fruta já vem pronta, mas é um jeito diferente de comer a fruta). É assim: eu pego um mamão daqueles pequenos, que chamam de papaya (“mamão e papaya” não parece “mamãe e papai”?), corto pela metade, e aí corto uma banana em rodelinhas e coloco dentro do mamão. E o bacana é que o mamão parece um barquinho, e os pedaços de bananas são as pessoas, então eu finjo que sou um monstro, o Lelezila (que é uma mistura de Lelê com Godzila) e com a colher eu fico pegando as pessoas e uns pedaços do barco. Ah, e eu faço “grrroou” quando eu ataco a canoa dos coitados. Também dá para comer sem brincar, mas brincando é mais legal. Uma coisa muito boa, mas que eu não sei fazer direito (a minha mãe vai ter que me ajudar no começo do Le Lelê) é queijo quente. Ela pega um tantão de queijo, coloca na frigideira, e aí o queijo vai queimando. Mas o bom mesmo é quando ficam uns pedacinhos duros de queimado. Isso é o maior difícil de fazer, mas a minha mãe é a maior craque e consegue (eu não consigo, o meu queijo queima todo). Lá no Le Lelê vai ter também o “Vulcão amarelo”. É assim: você frita o ovo e deixa a gema dele mole. Depois, faz um furinho na gema, e aí o amarelo sai e parece que é a lava de um vulcão. Então você pega um pão e vai molhando o miolo do pão na gema. Depois, para não jogar o resto fora, faz uns sanduichinhos com a casca do pão e coloca a clara dentro. O bom é quando a ponta da clara fica escura porque queimou um pouquinho. O melhor da clara é o pedaço que não é claro, é escuro. Xi, isso não ficou claro. Ah, e como às vezes tem pai que leva bebê no restaurante, eu vou fazer um prato especial para eles. O nome vai ser “Rasprasprasp”. É o maior fácil de fazer. É só pegar uma maçã, cortar no meio, tirar as sementes, e aí ficar raspando com a colher, fazendo um creminho de maçã. A minha mãe diz que eu adorava isso quando eu era criancinha, mas até hoje eu como quando não tem ninguém em casa vendo, porque senão iam me chamar de neném. Ah, e depois dá para comer a casca, que fica bem durinha. Mas o prato mais chique do Lelê vai ser um que eu inventei ontem. É que eu adoro mingau de aveia, e também gosto de banana com aveia, então, quando a minha mãe estava fazendo o mingau para mim, eu pedi para ela jogar uma banana lá dentro, e aí ela picou a banana e jogou. Ficou o maior ótimo! E o mais bacana é que fui eu que inventei! Ninguém disse nada para mim! Bom, esse é o cardápio do Le Lelê. Acho que eu vou ficar bem rico. E agora eu vou parar por aqui, porque escrever todas essas coisas me deu a maior fome. Vou ver o que tem lá na geladeira. Tchau!
PS: Quem tiver a idéia de um prato bacana para o Le Lelê pode colocar nos comentários. Mas tem que ser coisa fácil, porque se for difícil eu não vou saber fazer.
Escrito por Lelê às 06h12
![]() Lelê quebra ovos
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que o meu pai me dá tanta comida que eu acho que um dia vão me chamar é de Lelezão. O meu pai e a minha mãe se separaram, e na semana passada ele foi me pegar na escola. Era a primeira vez que eu via ele depois de um tempão. Eu achei isso o maior legal, porque é o maior ruim ficar sem ver o pai da gente. E é engraçado que quando a gente vê o pai todo dia nem vê que vê todo dia, mas depois que não vê mais, aí vê que não vê. Aí, quando ele chegou, eu pulei em cima dele e ele me carregou até o carro que nem se eu fosse um saco de batata, e ele me carrega assim desde que eu era pequeno, quer dizer, menor, porque pequeno eu ainda sou. Então a gente foi até a casa nova dele, que não é casa, é apartamento, e bem pequeno, com um quarto só. Estava tudo meio desarrumado e eu gostei disso, porque aí eu podia fazer bagunça que não ia ter problema. Como já estava na hora do almoço, o meu pai perguntou: “Vamos comer fora?” (O meu pai adora me ver comendo. Tinha dia que ele trazia um monte de danone e deixava em cima da mesa só para eu ver e comer. E aí a minha mãe brigava com ele e dizia que aquelas coisas tinham que ficar é na geladeira.) Aí eu respondi perguntando: “Por que o senhor não faz aquele mexidinho?” (O meu pai faz um mexidinho que deve ser a melhor comida do mundo. Ele mistura arroz, feijão preto e ovo, mas mistura de um jeito que fica muito bom e só ele que sabe fazer daquele jeito, porque quando outra pessoa fez, nunca fica tão bom.) Aí ele falou: “Tá bom, mas você tem que me ajudar.” E eu respondi: “Tá bom.” Então a gente foi para a cozinha (que devia chamar cozinhinha, porque é muito pequena) e começou a fazer o mexidão. Ele já tinha arroz e feijão pronto, e disse que a minha missão era quebrar os ovos. Eu nunca tinha quebrado um ovo (quer dizer, já quebrei doze uma vez, quando eu estava ajudando a minha a carregar as compras, mas aí não vale, porque foi sem querer). Então eu fui até a geladeira e peguei três ovos (tinha uns brancos e uns meio marrons, e eu peguei os marrons). Daí o meu pai disse para eu bater um ovo na beirada da frigideira, só para ele quebrar um pouquinho. Eu bati e ele fez esse barulho: toc Não aconteceu nada. Aí eu bati de novo e ele fez... toc e não aconteceu nada de novo. Aí eu falei para o meu pai: “Uma vez eu vi um filme que tinha um ovo de outro planeta e ninguém conseguia abrir eles e tinha um monstro lá dentro.” E ele disse: “Esse é um ovo comum. Os de monstros são os brancos.” E eu falei: “Ah, tá.” E ele disse: “É só bater do jeito certo. Pode colocar um pouquinho mais de força.” Aí eu falei tá bom e bati o ovo com força na frigideira. E aí ele fez: Splash! e se quebrou todo. Foi a maior lambança. Ficou ovo espalhado pela cozinhinha inteira. Eu olhei para o meu pai, e disse: “Não era um ovo alienígena mesmo.” Depois ele limpou tudo e falou, vamos tentar de novo. Mas aí ele pegou na minha mão e a gente bateu o ovo junto. E dessa vez deu certo! O ovo deu só uma quebradinha e depois ele pegou e separou as duas metades da casca e colocou o ovo na frigideira, que já estava com azeite (o meu pai adora azeite). Aí ele disse: “Agora quebra o outro sozinho.” E eu peguei o ovo e quebrei quase direito. E foi quase porque o quebradinho fiquei pequeno e eu tive que enfiar os dedos nele para quebrar, e só uns pedacinhos é que caíram na frigideira. Então ele jogou sal no ovo, pôs o arroz e o feijão, e misturou tudo. Depois ele colocou um montão no meu prato e só um pouco para ele, porque ele disse que andava meio sem fome e que gostava quando eu comia bastante. E eu comi tudo mesmo. Depois, no sábado, a gente foi no shopping e ele me comprou quatro carrinhos vermelhos, e eu fiquei brincando com eles de noite. Os carrinhos são esses aqui.
E no domingo a gente foi ver o filme Ratatouille, que eu já tinha visto com o meu tio, mas que foi mais legal ver com o meu pai, porque ele também é um cozinheiro o maior bom, que nem o ratinho. E todos os dias que eu fiquei com o meu pai, ele fez mexidinho para mim, e ele disse que vai fazer o mexidinho para sempre, mesmo que ele nunca mais more com a gente, e eu achei isso bom, muito bom.
Escrito por Lelê às 08h55
![]() Lelê is on the table
O meu nome é Leocádio, só que todo mundo me chama de Lelê. Mas agora também podem chamar de Read-read. Vou explicar. É que as férias acabaram e eu tive a minha primeira aula de inglês. Foi bem bom! Quer dizer, foi well good! A professora, quer dizer, a teacher, entrou e falou assim: “Hi, people. My name is Jurema. I´m your teacher.” Só que eu entendi assim: “Blá, blablá. Blá bláblá blá Jurema. Blá blablá teacher.” (depois ela escreveu a frase na lousa e eu copiei) A dona Jurema é o maior bonita (very beautiful). Ela é alta, tem cabelo quase loiro, olho azul, um sorriso cheio de dente e cabelo bem comprido, que ela prende num rabo de cavalo. Ela disse que ficou sem dar aula no primeiro semestre porque ela teve um probleminha nos nervos e foi para um lugar descansar, mas que agora já estava tudo bem e a gente ia recuperar o tempo perdido. Então, antes de começar a aula de verdade, ela perguntou: “Vocês querem fazer alguma pergunta?” Aí todo mundo começou a fazer perguntas ao mesmo tempo, tipo se ela era casada, se tinha filho, qual era a comida preferida dela, quantos anos ela tinha e se ela já tinha ido pra Disney. Mas aí, em vez de a dona Jurema responder as perguntas, ela falou: “Stop! Acho melhor a gente começar direto com a matéria.” E depois começou a escrever uns pronomes na lousa, e eles eram assim: I - YOU – HE – SHE – IT – WE – YOU – THEY. AI – IU – RI – XI – IT – UÍ – IU – DEI. Mas o Aurelius explicou: “Não, é que as letras têm outro som em inglês, seus istiupidis!” O Aurelius é o maior CDF. Aí a professora falou o que era cada uma daquelas palavras: I é eu, you é você, he é ele, she é ela, it é para coisa, we é nós, o outro you é vocês e they é eles. Então o Zépa levantou a mão e perguntou: Teacher, se eu quiser falar ‘uma menina’ é ‘xi’, né?” “Isso mesmo”, ela respondeu. E ele disse: “Então, duas é xixi?” A classe toda começou a rir e a professora ficou vermelha, só não sei se era de vergonha ou de raiva. “Teacher?”, perguntou o Aurelius, “quando eu falar do Adolfo Paes Leme, eu uso HE ou IT?” “Quem é Adolfo Paes Leme?”, ela perguntou. “É o meu cachorro”, disse o Aurelius. “Ele tem nome e sobrenome.”
A professora bufou e respondeu: “Então é IT.” Aí todo mundo começou a perguntar: “E papagaio?”, “E gato?”, “E leão?”, “E peixinho?”, “E camelo?”, “E ameba?” “People!, Ela gritou. “Assim vocês me deixam crazy, quer dizer, louca. É o seguinte: para animal é sempre IT.” “E se o bicho for grande, tipo um elefante, é ITÃO?”, eu perguntei. Todo mundo ficou em silêncio para a escutar a resposta, porque a minha pergunta tinha sido o maior boa. A professora andou até a minha carteira e perguntou: “Como é mesmo seu nome, dear?” Eu respondi: “É Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê.” “Lelê, mesmo que o animal seja grande, tipo uma baleia ou um dinossauro, é IT, tá bom?” “Tá.” Então o Zepa fez uma pergunta bem difícil para ela: “E o Homem-Aranha, que é meio homem e meio aranha, é IT ou HE?” Ela bufou de novo, pensou e respondeu: “O Homem-Aranha é HE.” Então todo mundo começou a perguntar: “E o Homem-Cobra?”, “E a Mulher-Gato?”, “E o Homem-Pássaro?”, “E o Menino-Sapo?”. A professora sentou, botou as duas mãos nas bochechas e respirou fundo. Então disse: “Depois a gente continua com os pronomes. Agora eu quero ensinar para vocês umas frases que vocês vão usar muito.” Aí a gente começou a falar ao mesmo tempo de novo. O Zepa, que é meio guloso, disse: “A frase que eu mais falo é ‘Me dá mais um pouco de doce’.” A Carolina disse: “Como é que eu explico que eu quero uma Barbie nova?”
E o Aurelius perguntou: “Como é que se fala: Eu quero mais lição de casa?” Então A Mariana, que é meio preguiçosa e detesta lição de casa, olhou feio para ele e disse: “A gente nunca fala isso, seu bobo!”, e aí todo mundo começou a vaiar o Aurelius e a atirar borracha nele. “People! Olha a bagunça! Vamos parar com isso, OK?”, falou a teacher. “OK!”, a gente respondeu (essa todo mundo sabia). A dona Jurema parecia meio cansada. Aí ela olhou para a janela e falou: “Ah, tomara que eu ainda tenha uns daqueles calmantes...” Depois ela pegou o giz, foi para a lousa e disse: “Olha, algumas coisas na aula eu sempre vou pedir para vocês. Vou pedir para que vocês peguem os livros, que façam exercícios, que escutem o CD. Mas aí não vou pedir em português, vou pedir em inglês. Querem ver?” Ninguém disse que queria, mas ela continuou assim mesmo. “O que vocês acham que LISTEN AND REPEAT quer dizer?” “Que a gente tem que repetir alguma coisa”, o Aurelius disse. “Isso mesmo!”, ela falou. “Isso mesmo!”, a gente repetiu. “Não, vocês não entenderam!”, ela disse. “Não, vocês não entenderam!”, a gente repetiu. “Ai, meus Deus...” “Ai, meu Deus...” Aí ela gritou “Xarope!” e todo mundo ficou quieto. Então a dona Jurema fechou os olhos, tomou um pouco de ar, e disse: “Dears, vamos lá. Um verbo muito importante é o verbo TO READ, que quer dizer Ler. Por exemplo, se eu quiser falar “Lê o texto, Lelê”, eu vou dizer “Read the text, Lelê”. “Não é assim, não, professora!”, disse o Zepa, que gosta de botar apelido em todo mundo. “Como que é então?”, ela perguntou. E o Zepa respondeu: “Read the text, Read-read.” E aí a classe toda riu e começou a gritar: “Read-read! Read-read!”, e eu achei big legal, porque agora eu tinha um apelido em inglês. Só a professora é que ficou meio esquisita. Ela sentou, abaixou a cabeça, botou as mãos nos ouvidos e falou: “Ai, que saudade da clínica de repouso...”. Aí bateu o sinal e todo mundo saiu correndo. Mas a melhor coisa do dia foi que, quando eu cheguei no portão, eu tive uma surpresona. É que, em vez da minha mãe, o meu pai é que foi me buscar. Eu estava com a maior saudade dele, então pulei com tudo em cima dele e ele quase caiu. Aí a gente entrou no carro e o meu pai disse que, como ia ter o dia dos pais, eu ia ficar o fim de semana todo com ele. E eu contei que já sabia falar inglês e que meu apelido era Read-read. Depois eu perguntei como é que era pai em inglês, e ele disse que era “father”. E eu falei que, então, “papai” devia ser “fafather”. Inglês é o maior fácil!
Escrito por Lelê às 06h53
![]() Lelê vira Lê & Lê
O meu nome é Leocádio. Mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que eu queria mesmo é ser Lê & Lê.
Vou explicar direito. Na semana passada, eu tinha ido lá no aeroporto com o meu tio para pegar a minha mãe e o meu pai. Mas, quando eu cheguei lá, só tinha a minha mãe. E ela disse que ela e o meu pai tinham se separado. Eu nem acreditei quando escutei aquilo. Eu pensei até que eu tinha entendido errado, por isso eu perguntei: “Quer dizer que vocês se separam e cada um veio num avião, porque se caíssem os dois juntos eu ia ficar sem pai nem mãe?” E ela respondeu: “Não, Lelê, a gente se separou mesmo.” “Mas vocês não estavam de férias? Férias não é para brigar!” “Pois é, mas acho que nos dias normais a gente acabava se falando pouco, e na viagem deu para conversar bastante e a gente viu que era melhor separar mesmo.” Depois eu, ela e o meu tio entramos no carro e todo mundo ficou calado até chegar em casa. Aí eu fui para o quarto e fiquei deitado, só pensando em como ia ser chato ficar sem o meu pai em casa. Quem é que ia ver jogo comigo na tevê? Com quem que eu ia jogar bola lá embaixo no prédio? Quem é que ia me carregar para a cama depois de eu dormir? Então eu fiquei meio cansado de ficar pensando nisso, porque pensar em coisa triste cansa muito, e fui para o banheiro fazer uma coisa que eu sempre fazia com o meu pai. É que quando ele ia se barbear, eu também punha espuma na cara até ela ficar bem cheia, quase que nem o Papai Noel, e depois eu pegava um aparelho velho da minha mãe, que não tinha lâmina, e tirava a minha barba. Então, quando eu já estava com a cara cheia de espuma, a minha mãe bateu na porta do banheiro: “Lelê, está tudo bem?” “Tá”, eu respondi. “Você ficou muito quieto, me deixou preocupada. Abre a porta um pouquinho.” Aí eu abri e ela viu a minha cara cheia de espuma e arregalou uns olhões. Depois ela sentou no bidê, fez eu sentar em cima da tampa da privada e disse: “Você está com saudade do seu pai, não é?” “Tô.” “Você quer fazer alguma pergunta?” “Não.” “Não mesmo?” “Tá, quero.” “Então pergunta.” “Por que que vocês se separaram?” “Por quê? Bom, já fazia um tempo que a gente não estava se dando muito bem...”, ela disse. E eu sei que isso era verdade, porque tinha noite que eu escutava os dois brigando. Eles até gritavam baixinho para eu não escutar, mas eu escutava assim mesmo. Daí eu perguntei: “Você não gosta mais dele?” “Gosto”, ela respondeu, “mas não sei se gosto do jeito que eu gostava antes. E acho que com ele aconteceu a mesma coisa.” “Todo mundo deixa de gostar do outro um dia?” “Não. Só às vezes. E tem gente que continua gostando mas tem que se separar, e tem gente que não se gosta mais e continua junto, que é a pior coisa. Isso de casamento é uma coisa meio complicada. “E o vô, vai ficar com a gente?” “Ele é pai do seu pai. Acho que vai morar com ele.” “Droga! E quando é que eu vou ver eles? Nunca mais?” “Imagina, Lelê! Vocês podem se ver sempre que vocês quiserem. Vocês vão se ver a vida toda.” “E o pai pode vir na minha festa de aniversário?” “Claro. E você vai ganhar dois presentes, o meu e o dele.” Isso eu até que não achei ruim e eu sei que é verdade, porque os pais do Murilo, lá da minha classe, se separaram, e agora ele ganha dois presentes. Daí eu perguntei: “E por que eu vou ficar com a senhora e não com ele? Ele não quis ficar comigo?” “Claro que quis. A gente até discutiu muito por causa disso.” “Legal!” “Nós dois gostamos muito de você, e, se a gente pudesse, a gente te dividia ao meio para cada um ficar com um pedaço.” Aí eu fiquei pensando em como ia ser se eu fosse dividido em dois. Em vez de Lelê eu ia ser Lê & Lê. Acho que ia ser legal, porque eu ia fazer muito mais coisa ao mesmo tempo. Eu ia brincar e fazer lição de casa, ia tomar banho e me sujar, ia jogar Playstation comigo mesmo, e o mais legal de tudo é que uma parte ia ficar com a minha mãe e a outra com o meu pai. Então a minha mãe disse: “Lelê, você está me ouvindo? Parece que você está pensando em outra coisa.” “Eus estamos prestando atenção”, eu respondi. “Eus?”. Ela fez uma cara estranha mas continuou falando: “Bom, então, seu pai e eu conversamos bastante e ele acabou aceitando a idéia de você ficar comigo, porque, no final das contas, eu trabalho em casa e posso dar mais atenção para você.” “E eu não posso escolher com quem eu vou ficar?” "Agora, não. Mas no futuro, pode." "Não posso ficar um dia com cada um?" "Ia ser muito complicado." "É..." “Mas fica tranqüilo, nós dois gostamos muito de você e não vamos te deixar em paz, seu barbudo!”. Aí ela me deu um monte de beijo, ficou com a cara toda cheia de espuma e saiu. Depois eu fui fazer a minha barba de novo. Com a espuma do meu pai e o aparelho da minha mãe.
Escrito por Lelê às 06h30
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