BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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Lelê e as duas lágrimas

Estes dias foram péssimos! Horríveis! E por causa de duas coisas. Uma delas foi ruim mas no final foi boa e outra foi boa mas no final foi ruim.

Primeiro eu vou falar da primeira.

É que choveu muito e aí eu tive que ficar em casa. Mas isso não foi o pior. O pior foi que a televisão quebrou. E os meus pais e o meu avô estão viajando, e aí eu fiquei com o meu tio sem fazer nada.

A pior coisa que tem é ficar em casa sem tevê e num dia de chuva. Dá um negócio ruim na gente. Parece que tem muita energia e a gente vai explodir, que nem o Peter Petrelli do Heroes.

Aí eu falei para o meu tio Torero: “Tio, eu quero fazer alguma coisa!”

“Por que você não dorme um pouco?”, ele disse.

Aquilo me deixou com a maior raiva, porque o meu tio sempre gosta que eu durma, que nem a Bela Adormecida. Se bem que eu acho que ele queria mesmo é que eu ficasse congelado por um tempão, que nem o Capitão América.

Aí eu fui jogar bola no quarto da minha mãe, mas o meu tio disse que não podia. Eu quis montar uma cabana com o sofá e uns cobertores, mas ele disse que não podia. Quis derreter uns bonequinhos no microondas e ele disse que não podia.

Aí eu pensei que ia explodir mesmo, que nem a Fênix dos X-Men.

Mas o meu tio disse: “Calma! Eu tenho uma caixa de primeiros-socorros-para-dia-de-chuva!”

E aí ele me deu uma caixa onde tinha três coisas. A primeira era um livro muito bacana, chamado “O chupa-tinta”, que é esse aqui:

Aí eu fui no banheiro ler o livro (eu adoro ler livro no banheiro. Às vezes eu fico um tempão lá).

“O Chupa-tinta” é bem legal. É a história de um menino que não gosta de ler, e um dia, na livraria do pai dele, ele vê um cara esquisito. É um vampiro, o Chupa-tinta, só que, em vez de chupar sangue do pescoço dos outros, ele chupa a tinta dos livros. O menino segue o Chupa-tinta até o cemitério e aí acontecem umas coisas iradas mas que eu não vou contar porque senão estraga a história.

Bom, depois eu peguei a segunda coisa, que era um CD, e fui escutar. Ele é bem legal e as músicas são bem diferentes. Cada uma é de um jeito. Tem uma chinesa, uma da formiguinha e aquela que diz que todo mundo já foi criança, até o Hitler, mas a que eu gostei mais foi a das perguntas, porque tem um monte de perguntas que eu já fiz mas que ninguém respondeu.

O CD é esse aqui embaixo, e tem um site legal, que é o www.adrianapartimpim.com.br.

E a terceira coisa era um carrinho. Quer dizer, era um carrinho-aviãozinho. E o mais legal é que ele era transparente, que nem o da Mulher-Maravilha.

E como ele era transparente (eu adoro coisa transparente, em casa tem um telefone e um monte de canetas transparentes), para mim era um avião espacial.

Aí eu brinquei que eu viajei com ele até outro planeta, um planeta que não se chamava Terra, mas Estrada, e lá não existia gente, só carros. Os velhos eram calhambeques, os pobres eram fusquinhas, os ricos era limusines, os gordos eram kombis e tal. Mas aí aconteceu um problema no planeta Estrada: começou a faltar gasolina. Então eles aprenderam a usar álcool e todos os carros acabaram bêbados e ninguém mais conseguia andar reto. Legal!

Justo quando eu acabei a história, o meu tio gritou: “Lelê, vamos buscar o seu pai e a sua mãe no aeroporto!”

Eu achei aquilo o maior legal, porque eu estava com a maior saudade deles e ficar falando só por telefone não tem graça.

Então a gente foi até o aeroporto. Eu estava meio com medo, porque os aviões andam batendo e às vezes não conseguem brecar (com o meu avião transparente isso não acontece).

Mas deu tudo certo e o avião pousou. Só que aí aconteceu a segunda coisa horrível.

Quando a minha mãe saiu, ela veio correndo me abraçar e disse: “Meu Lelezinho, que saudade!”.

Depois que ela me lambuzou toda a cara de beijo, eu fiquei olhando para a saída da sala de desembarque. Mas o meu pai não apareceu. Então minha mãe disse:

“O seu pai não veio comigo, Lelê.”

“Não?”

“Não. A gente teve uns problemas nos últimos dias.”

“E ele ficou com raiva e veio noutro avião?”

Então ela se abaixou, ficou com a cara na altura da minha cara, e disse: “A gente se separou.”

Aí eu nem falei nada, mas saiu uma lágrima de cada olho meu.

Escrito por Lelê às 07h58
Lelê e os capitães

Bom, eu não vou dizer de novo que eu estou passando as férias com o meu tio. Mas eu estou. E esta semana ele me levou para Santos, onde ele tem uma quitinete. Quitinete é um apartamento bem pequeno, que tem uma saquarzinha, que é uma mistura de sala, quarto e cozinha, tudo numa coisa só.

A gente ia na praia lá em Santos, só que o tempo estava feio e então a gente teve que ficar na quitinete. Ainda bem que eu levei uma bola, porque aí deu para ficar jogando na saquarzinha.

Primeiro eu fiquei tabelando com a parede, depois eu treinei pontaria acertando a bola no meio das pernas das cadeiras, e aí, quando eu comecei a treinar cabeçadas e acertei o lustre, que ficou balançando mas não caiu, o meu tio disse: “Chega, vamos sair. Isso está muito perigoso.”

Então a gente foi andar no jardim da praia e parou no Zezinho do Churro, que é um cara que tem um carrinho que vende churros. Aí eu comi um churro com recheio de doce de leite e o meu tio comeu um igual ao meu, um com chocolate, outro com goiabada e mais um em que ele misturou tudo: doce de leite, chocolate e goiabada, e ele chamou esse recheio de goicholeite. O meu tio também gosta de inventar palavras.

Bom, aí a gente andou mais um pouco e chegou num lugar chamado...

Esse museu fica num prédio bacana, que parece muuuuito velho:

Então a gente comprou o ingresso, que é bem barato (R$ 2,00 para o meu tio e R$ 1,00 para mim) e entrou. Mas aí o meu tio fez uma cara estranha e disse: “Xi, Lelê, acho que aquele recheio de goicholeite não caiu muito bem. Eu vou ter que me desrechear.”

“Tá, tá, tio, já sei, pode ir no banheiro que eu espero aqui.”

Aí, quando eu estava esperando o meu tio, apareceram dois caras engraçados. Um tinha um gancho no lugar duma mão e outro tinha um pedaço de pau no lugar duma perna.

“Oi, meu nome é Gancho”, disse o do gancho enquanto passava o lado do gancho na minha cabeça.

“E o meu é Ahab”, disse o da perna, me dando um chute de brincadeira.

Aí eles disseram que eram capitães e que iam me mostrar o museu.

O primeiro lugar que a gente viu foi sensacional! Era uma sala cheia de tubarões, e eles pareciam que estavam voando. Eram tubarões voadores!

Lá o Capitão Gancho disse assim: “Detesto tubarões. Pior que isso, só crocodilo.” E aí ficou olhando para o gancho dele de um jeito estranho.

O legal é que todos esses tubarões são de verdade, só que eles estão mortos. O Capitão Ahab me explicou que eles foram empalhados, quer dizer, tiraram as tripas deles e colocaram umas palhas, e aí eles viraram umas estátuas deles mesmos.

O meu tio me disse uma vez que quando ele morrer não quer ser enterrado. Quer ser empalhado e que deixem ele lá nas arquibancadas da Vila Belmiro, assim ele vai estar em todos os jogos do Santos.

Bom, depois a gente viu um monte de coisa bacana. Tinha uma raia gigante que era maior que eu, tinha esqueleto de tartaruga, tinha lula gigante, tinha barquinhos de miniatura, tinha piranha, peixe elétrico, pingüim, leão marinho, tinha uma sala com tudo quanto é tipo de conchinha e tinha um armário doido com um monte de potinho com areia, cada um de uma praia.

Depois a gente foi ver a coisa mais legal do museu. Quando eu vi a coisa que é a mais legal do museu, eu disse:

“Caramba, um dinossauro de baleia!”

Os capitães riram e me explicaram que aquilo era um esqueleto de baleia, e que dinossauro é outro bicho.

Eu nem liguei e fiquei andando em volta do dinossauro de baleia (esse da foto não sou eu, é um garoto que entrou na frente justo quando eu ia fazer a minha fotografia). Num cartaz estava escrito que o dinossauro de baleia tinha 123 ossos, media 23 metros, pesava 7 toneladas e foi montado em 1942.

Aí o Ahab disse: “Ah, pena que estes ossos não são da Moby Dick... Eu odeio aquela baleia!”

“Não comece com esta história, se não eu vou falar do Peter Pan”, disse o Gancho.

“Está bem, está bem, já não está mais aqui quem falou”, falou o Ahab.

Então a gente entrou numa sala diferente, chamada Sala do Capitão, e lá tinha uma direção de navio, que se chama timão.

Mas, quando eu olhei para trás, o Gancho e o Ahab tinham sumido, e eu só vi duas meninas. Elas eram o maior bonitas. Eu disse para elas: “Oi, eu sou o Lelê.”

Aí uma falou “Eu sou a Isabel”, e a outra disse “Eu sou a Isabela”.

“Vocês são irmãs?”, eu perguntei.

“Não, seu bobo”, respondeu a Isabel.

“São uma dupla caipira?”

“Não, seu tonto”, respondeu a Isabela.

Então a gente ficou brincando naquela sala, que tem umas pontes de madeira legais, e aí eu tirei uma foto delas, que é essa aqui (elas estão mostrando umas tartaruguinhas de madeira que elas compraram na lojinha do museu):

Depois eu fui lá para a porta do banheiro e o meu tio saiu. Eu contei para ele que já tinha visto o museu todo com o Capitão Gancho e o Capitão Ahab, e que conheci a Isabel e a Isabela.

Aí ele riu e disse que eu tinha muita imaginação, porque o que devia ter acontecido é que eu tinha brincado com a Isabel e com a Isabela, e que cada uma fingiu que era um dos capitães.

Eu fiquei o maior chateado porque ele não acreditou em mim, mas eu nem falei nada, porque gente grande é muito teimosa e pensa que sempre está certa.

Mas aí, quando a gente chegou em casa, o meu tio pegou a minha máquina para ver as fotos que eu tinha tirado e viu essas duas aqui:

        

Aí ele me perguntou: “Lelê, o que são essas fotos aqui?”

Então eu olhei bem para ele e disse: “Essa é a mão da Isabel e essa é a perna da Isabela.”

 

Escrito por Lelê às 03h42
Lelê e o maior armário do mundo

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. E ontem eu me chamei de Kid Lelê.

Nestas férias, o meu pai, a minha mãe e o meu avô foram viajar, então quem está cuidando de mim é o meu tio Torero, que se mudou aqui para casa. Ele fica o dia todo escrevendo e comendo a comida que a minha mãe deixou no freezer. E eu fico brincando.

Agora a minha brincadeira preferida é ensaiar duelo de bang-bang na cama da minha mãe. É que ela tem um espelhão na penteadeira do quarto, então eu fico em cima da cama dela com a minha roupa de mocinho de bang-bang (que é um revólver de chocolate e um chapéu do meu pai), finjo que atiro em mim mesmo e aí eu morro. E eu sou o maior bom para morrer. Tem vez que eu morro bem devagar, falando “ai”, “ui” e “você me acertou, Kid Lelê”, e tem vez que eu morro bem rápido, dando um pulo na cama. E tem vários tipos de pulos. Para o lado, para trás, para frente e com uma girada.

Tinha o maior tempão que eu já estava ensaiando quando eu vi o meu tio na porta do quarto. Aí, para ele não pensar que eu sou louco, eu expliquei para ele: “Eu estou duelando comigo mesmo.”

“E quem está ganhando?”, ele perguntou.

“Eu”, eu respondi, e aí eu dei um tiro no espelho e morri com uma girada.

Então o meu tio coçou a cabeça e disse: “Acho que a gente precisar sair um pouco dessa casa.”

“Oba! Aonde a gente vai?”

“No Museu da Língua Portuguesa.”

Então eu disse: “Pô! Quê horrível, tio!? O lugar é museu e ainda é de Língua Portuguesa! Eu prefiro morrer!” E aí eu dei um tiro na cabeça e morri com um pulo para trás.

Então o meu tio disse: “Deixe de bobagem, caubói. O lugar é muito legal. E a gente ainda vai almoçar num restaurante grego bem diferente.”

Eu continuei me fingindo de morto, mas o meu tio falou que, se eu não me levantasse logo, ele ia contar para a minha mãe como é que a cama dela tinha ficado toda melecada de chocolate. Daí eu levantei bem rápido e disse: “A bala só pegou de raspão. Já estou vivo de novo.” E depois a gente saiu.

Primeiro a gente foi almoçar no tal restaurante, que se chama Acrópoles, e o engraçado é que, em vez de a gente pedir as coisas para o garçom, a gente vai até a cozinha e escolha a comida.

O meu tio ficou em dúvida entre uma coisa chamada mussaca, que é uma mistura de berinjela com carne, e um carneiro com batatas. Aí pegou uma de cada. Eu escolhi uma coisa chamada lula recheada, que tem uns camarões dentro. Mas eu não agüentei comer tudo. Ainda bem que o meu tio estava lá, porque aí ele comeu os pratos dele e ainda comeu o resto do meu.

Depois a gente foi para o Museu, onde tinha uma fila grande, assim:

Enquanto a gente estava lá, a barriga do meu tio fazia uns barulhos estranhos, tipo GROOOOUCH, RUUUNG e BRRRRRRUG. Eu perguntei o que era aquilo e o meu tio disse que estava grávido de um monstro.

Depois de uma meia hora, a gente entrou. Só que, logo que a gente passou a porta, o meu tio disse: “Xi, Lelê, acho que terei que fazer um parto de emergência. Espera aqui que eu já volto.”

Então eu fiquei pensando: “Poxa, que chato. O meu tio me traz num museu de gramática e eu ainda tenho que ficar esperando...”

Mas aí chegou uma menina e disse: “Oi. Quer conhecer o museu?”

“A minha mãe me disse para eu não falar com estranhos”, eu falei.

“Então você nunca vai falar com alguém, porque todo mundo é meio estranho.”

Aí eu pensei que ela estava certa e disse: “Acho que a minha mãe quis dizer que eu não posso falar com quem eu não conheço.”

“Então é fácil”, ela falou, “é só a gente se apresentar. O meu nome é Clarice e eu gosto de galinha, de carnaval e de chiclete, porque parece que ele não vai acabar nunca”

Aí eu disse: “O meu é o Leocádio, mas pode me chamar de Kid Lelê. E eu gosto de gato, de Natal e de revólver de chocolate, porque é comida e brinquedo ao mesmo tempo.”

Aí ela falou: “Pronto, agora a gente já sabe tudo um do outro e não é mais estranho. Vamos lá?”

“Vamos!”

E aí a gente pegou um elevador e entrou no Museu.

Eu pensei que lá dentro ia ter uma monte de professoras velhinhas explicando regras de gramática, mas não tinha nenhuma.

Ele tem é umas coisas muito doidas.

Uma é esse negócio aqui embaixo, que é tela mais comprida do mundo. Ela tem mais de 100 metros. Eu fiquei numa ponta, a Clarice na outra, e a gente ficava dando tchau um para o outro.

Nessa tela ficam passando uns filmes legais e curtinhos.

Depois a gente foi num lugar de caçar palavra, que é uma mesa com umas palavras de luz. A gente tem que cercar a palavra com as mãos e aí, quando a gente consegue, uma voz diz o que ela quer dizer.

Mas o que eu mais gostei foi de uma sala bem esquisita. No começo ela é só uma sala de cinema que passa um filminho legal. Mas depois a tela gira, que nem se fosse uma passagem secreta, e a gente entra numa sala toda escura. Então a gente senta e começa a ver umas luzes na parede e a escutar umas vozes que lêem umas coisas. É como se fossem uns fantasmas legais. Achei a coisa mais bacana do museu.

Ah, e depois, nessa sala, o chão fica iluminado e a gente pode ler ele. Eu achei isso legal. Eu já li livro, jornal e revista, mas chão eu nunca tinha lido. 

Depois disso, a Clarice me levou para uma sala cheia de gavetas. Mas cheia mesmo, em todas as paredes e até o teto. E o teto era bem alto. Acho que aquele era o maior armário do mundo. E o mais legal é que a gente podia abrir as gavetas e dentro delas tinha um monte de coisa: carta, livro e documento, tudo de uma escritora que também se chamava Clarice.

Aí eu falei para ela: “A escritora também se chama Clarice, Clarice. Que coincidência!”

E ela respondeu: “O que não é coincidência na vida?”
 
Depois ela me deu um livro, que é esse aqui, e disse “Tchau”, e eu respondi “Tchau.”

Aí eu voltei para a porta do banheiro e ainda esperei um tempão pelo meu tio.

Quando ele saiu, eu perguntei: “E o parto de emergência, tio?”

E ele respondeu: “Nasceu, mas acho que são gêmeos. Vamos ter que voltar para casa. O Museu fica para outro dia.”

“Tudo bem”, eu disse.

Aí ele viu o livro na minha mão e perguntou.

“E quem te deu esse livro?”

“Foi a Clarice”, eu respondi.

E aí ele me olhou com uma cara o maior estranha. Acho que era por causa da dor de barriga.

 

Escrito por Lelê às 06h33
Lelê e os calhambeques

A minha mãe e o meu pai chamaram o tio Torero para almoçar aqui em casa e é claro que ele veio, porque ele sempre vem quando tem comida boa, e naquele dia tinha camarão na moranga e o meu tio adora isso.

No meio do almoço, o meu pai falou assim para o tio Torero: “Eu e a sua irmã estamos pensando em passar as férias na Bahia. Uma segunda lua-de-mel, sabe?”

“Ótimo”, disse o meu tio.

“E eu estou pensando em ir para Porto Alegre ver uns parentes”, falou o meu avô.

“Ótimo, disse o meu tio.”

“Então o Lelê vai ficar as férias todas com você”, falou a minha mãe.

Aí o meu tio não disse “Ótimo”, ele disse “Grunfsch”, porque ele engasgou.

Depois que o meu pai deu uns tapas nas costas dele, o tio Torero falou: “Puxa, o que eu fiz para merecer essa... honra?”

“Você é o padrinho”, disse o meu avô.

“Ele é o seu único sobrinho”, disse o meu pai.    

“E você pode ficar aqui em casa o mês inteiro porque eu vou deixar o freezer cheio”, disse a minha mãe.

“Bom, se é assim, vai ser um prazer ficar com o Leocádio. Me passa mais um camarão?”

Eu achei legal ficar com o meu tio porque ele sempre me leva para passear. Um dia eu perguntei por que que ele sempre me levava para passear, mas acho que ele não entendeu o que eu perguntei, porque ele botou a mão na minha cabeça e falou: “Certos representantes da fauna selvagem são mais perigosos quando ficam enjaulados.”

Bom, aí eu dei a maior sorte, porque logo no primeiro fim de semana ele tinha que ir para Curitiba, dar uma palestra sobre roteiro (roteiro é o filme quando ainda é papel), e eu fui junto.

Eu vi a palestra e não entendi nada. Mas o legal é que depois a gente foi num restaurante comer um negócio chamado “barreado” (que é uma carne o maior boa e o meu tio comeu muito) e aí foi num lugar chamado Museu do Automóvel, que tem um monte de carro velho, quer dizer, antigo (velho é uma coisa meio estragada, antigo é uma coisa velha mas que parece nova. O meu avô é velho, mas quando ele vai no baile sexta-feira à noite, ele se arruma e vira antigo).

Eu gostei que na frente do Museu tem um carro na vitrine, assim:

Aí a gente comprou o ingresso e entrou. Mas nem deu para começar a ver os carros, porque o meu tio fez uma cara estranha e disse: “Lelê, acho que aquele barreado vai virar um trocadilho. Me espera aqui que eu já volto.”

Aí ele entrou no banheiro e eu fiquei ali. Então apareceu um cara com uma roupa que parecia do tempo daqueles carros, e perguntou:

“Está gostando do museu?”

E eu disse: “Parece legal. O senhor é o guia daqui?”

“Digamos que eu apareço de vez em quando. Você gosta de carro?”

“Gosto, eu tenho um monte.”

“Sério?”

“Mas é um monte de Hot Wheels, né? Aqueles carrinhos de brincar.”

“Já é um começo. E você sabe qual foi o primeiro carro da história?”

“Eu não. Mas o meu avô deve ter dirigido ele, porque ele diz que montava em dinossauro quando era pequeno.”

O cara riu e me mostrou essa foto aqui:

Ele disse: “Parece que esse foi o primeiro carro. Ele era movido a vapor e foi inventado por um militar francês chamado Nicolas Joseph Cugnot, em 1770. E o tal do Cugnot também inventou a batida, porque ele bateu na parede do quartel em que ele trabalhava. Sorte dele que esse carro só chegava a 4 quilômetros por hora.”

“Poxa, andando a gente ia mais rápido.”

“É verdade. E me diga uma coisa: olhando daqui, qual o carro que você gosta mais.”

Aí eu dei uma olhada e vi esses aqui, que eram bonitões:

Vi esse aqui, que só tem três rodas e é simpático, porque parece um baixinho gordinho.

E esse aqui, que é bem pequeno e deve ser para anões.

Mas do que eu mais gostei mesmo foi desse calhambeque aqui:

“Muito bem escolhido!”, disse o homem com roupa antiga. “Esse é um Ford T, versão utilitário. Foi o carro que transformou o Henry Ford no maior fabricante de carros do mundo!”

“Quem?”, eu perguntei.

“O Henry Ford. Sabe que ele montou o primeiro motor dele na cozinha? E ele morava numa fazenda e só frequentou escolas rurais até os quinze anos.”

“Ele fez faculdade de carrologia?”

“Não, ele estudou numa escola de comércio, mas gostava mesmo era de mecânica. Aí ele conseguiu uns investidores e em 1903 fundou a Ford. Cinco anos depois ele começou a fabricar o Ford T em série, e isso foi uma revolução. É que antigamente se fazia um carro de cada vez, mas o Henry Ford teve a idéia de fazer o Ford T numa linha de montagem. Olha só uma foto:”

E aí ele me mostrou essa foto aqui:

Depois ele continuou a falar: “Por causa dessa produção em série, o carro ficou muito mais barato. Só para você ter uma idéia, de 1908 a 1927 foram vendidos 15 milhões de Fords T.”

“Caramba!”

“Só que eram carros menos luxuosos, tanto que quase todos os Fords T eram pretos. O Henry dizia sempre assim:  "Você pode ter o carro da cor que quiser, desde que ele seja preto".

“Que chato”, eu disse.

“É, mas foi graças a essa produção em série que hoje em dia nós temos 800 milhões de carros circulando pelo planeta. Como o mundo tem 6,5 bilhões de habitantes, a gente pode dizer que dá para colocar metade da população do planeta dentro dos carros. Eu só não sei se isso é bom ou mau.”

“E qual é o seu nome?”, eu perguntei.

“Pode me chamar de Agá Efe”, ele disse. “São as minhas iniciais.”

Aí nessa hora o meu tio saiu do banheiro e eu disse: “Oi, tio, esse aqui é o meu amigo. Ele sabe tudo sobre carro. Acho que o nome dele é Heitor Francisco.”

Mas aí, quando a gente olhou, o Heitor Francisco tinha sumido. Acho que ele fugiu porque quando o meu tio abriu a porta do banheiro veio um cheiro o maior horrível.

Depois, quando a gente estava voltando para casa, pensando no meu tio e no Henry Ford, eu tive a idéia de fazer um carro que, em vez de banco do motorista, tem uma privada. Acho que eu vou ficar o maior milionário com essa idéia. 

 

 

OPS: Bom, esse foi o meu primeiro passeio nas férias. Cada semana eu vou contar um passeio aqui. Tchau!

Escrito por Lelê às 06h05