
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Este blog é atualizado às sextas.
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O novo pinto, quer dizer, pipiu, de Lelê
Hoje já é semana que vem, então eu vou contar como é que foi a minha operação. Bom, de manhã, eu e a minha mãe entramos no carro e fomos para o hospital (o meu pai não foi porque ele não gosta de hospital e desmaia quando vê sangue). O caminho até lá foi muuuuito comprido. Acho que isso era porque eu estava com medo. Aí, quando eu cheguei no hospital, me levaram para um quarto e eu fiquei esperando um tempo, porque o médico que ia me operar estava fazendo outra operação. Enquanto eu esperava, eu fiz xixi umas três vezes. Acho que era porque eu estava nervoso. Ah, e cada vez que eu fazia xixi, eu olhava bem para o meu pinto para lembrar como ele era (xi, escrevi “pinto”, e teve uma leitora que disse que não gosta dessa palavra. Então daqui para a frente eu vou procurar umas palavras no dicionário e não vou mais escrever “pinto”. Xi, escrevi de novo.). Bom, aí veio uma enfermeira que falou para eu tomar banho e me deu uma roupa esquisita. Era um tipo de uma camisola, só que ela abria por trás. Eu achei aquilo muito esquisito, porque eu não ia operar a bunda, quer dizer, o bumbum. Mas a minha mãe disse que era assim mesmo. Depois que eu tomei banho e botei a camisola engraçada, a enfermeira voltou com uma amiga dela e elas me puseram numa cama de rodinhas chamada maca. Eu achei aquela cama legal porque dá para descer ladeira com ela. É que nem se fosse uma mistura de cama com carrinho de rolimã. No meu aniversário eu vou pedir uma maca de presente. Uma coisa engraçada é que, quando a gente vai indo para a sala de operação, a gente fica olhando o teto e vê as luzes passarem. Parece que a gente está entrando num túnel ou numa espaçonave. É que nem montanha russa, dá medo mas é legal.
Quando eu cheguei na sala da operação, o médico, que se chamava Paulo, falou para mim: “Então, campeão, vamos lá?” E eu respondi: “Ainda dá para desistir?” “Agora é muito tarde”, ele disse. “Então tá, né...” Depois chegou um outro médico que ia me dar a anestesia. Ele falou assim: “Oi, Leocádio. Eu vou colocar essa máscara em você e daqui vai sair um cheirinho gostoso que vai fazer dormir. Eu quero que você conte até cem, tá bom?” “Moleza”, eu disse. Aí eu comecei a contar, “um, dois, três, quatro, cinco”, e vi que não estava com sono nenhum, então eu pensei “Xi, acho que eu não vou dormir nada. Eu vou ficar acordado e ver toda a minha operação. Legal! Seis, sete, oito...” Mas aí eu dormi. E foi bem rápido, porque eu nem lembro que eu fiquei com sono. Eu dormi direto, que nem o meu avô depois do almoço. O estranho é que eu não sonhei nem nada. É como se eu nem tivesse existido nesse tempo que eu estava com a tal da anestesia. Será que morrer é isso?
Bom, a coisa que eu me lembro depois da anestesia é que eu acordei num quarto onde tinha outro cara do meu lado. Devia ser o menino que foi operado antes de mim. “Oi”, ele disse. “O meu nome é Luiz.” “O meu é Leocádio”, eu respondi, mas eu não sei se eu falei direitinho assim, porque eu estava com o maior sonão. Eu devo ter falado assim: “Oiomeunomeéleocádio...” “Você já viu como ficou o seu negócio?”, ele perguntou. Aí eu levantei o lençol e vi o meu totó novo (viu?, não usei a palavra “pinto”). Ele estava sem aquela pelezinha e eu achei bem legal. Agora ele parecia com o desenho que eu vi na porta de um banheiro da escola. Mas depois eu fiz a maior burrice. Eu queria ver como é que era e apertei ele. Doeu muito. Mas muito mesmo! Eu até soltei um “ai!”. Então o Luiz falou “Não pode encostar”, e eu disse: “Podia ter avisado antes.” Então a enfermeira entrou e perguntou se a gente já estava bem. O Luiz disse que estava e eu falei: “Eu também, eu também!” “Você? Mas já?”, ela perguntou. “Eu sou o maior forte”, eu respondi.
Então levaram a maca do Luiz para um quarto e a minha para o meu. Mas logo que eu saí no corredor, a minha mãe já estava lá, e ela queria saber como é que eu estava. “Legal”, eu falei. “Doeu”, ela perguntou. “Não sei, eu estava dormindo”, eu respondi. Então a gente chegou no quarto, ela me ajudou a me vestir, e a gente começou a sair. Só que aí, quando a gente estava no corredor, aconteceu um negócio muito estranho. As minhas pernas ficaram fracas, bem molinhas, e eu, pou!, não consegui ficar mais de pé. Sorte que a minha mãe estava ali e me segurou. Ela me pegou no colo e me levou até a lanchonete (às vezes a minha mãe fica o maior forte, meio que nem o Hulk, só que, em vez de ficar verde, ela fica vermelha). Ela não estava assustada (a minha mãe nunca se assusta com nada) e disse assim, bem calma: “Fica tranqüilo, isso é da anestesia. Vamos comer uma coisinha que passa.” Aí eu tomei um suco de laranja, comi uma esfiha e fiquei bom. No caminho de volta para casa, eu dormi de novo no carro. E, quando eu cheguei em casa, estava todo mundo lá: meu pai, meu avô e o meu tio Torero, e eles queria ver a minha pimbinha nova (pimbinha quer dizer “pinto”). Eles acharam que ficou o maior legal. Eu também. Por isso, em casa, agora eu só ando de cueca. A minha mãe diz que eu virei o Capitão Cueca. Legal!
Escrito por Lelê às 03h49
![]() Lelê vai operar o pinto, quer dizer, o pipiu
O meu nome é Leocádio mas todo mundo me chama de Lelê. Quer dizer, quase todo mundo, porque a doutora Ana me chama de Lelelindo. Ela é o maior bonita e é a minha médica. O meu pai e a minha mãe me levaram lá no consultório da doutora Ana (consultório é o escritório onde se faz consulta) e ela disse: “Oi, Lelelindo! Tudo bom?” E eu respondi: “Não, né?". Eu não entendo por que os médicos perguntam se está tudo bom. Se a gente está lá, é porque tem alguma coisa errada. “Você usou a pomada?”, a doutora Ana perguntou. “Usei”, eu respondi. “Mas acho que ele está igual.” “Vamos ver. Tira o short.” "Tirei." “A cueca também.” “Droga...” Essa é a hora que eu mais detesto. Dá a maior vergonha tirar a roupa na frente da doutora Ana. Ah, mas deixa eu explicar por que que eu tive que tirar a roupa. É que eu tenho uma coisa chamada fimose, que a doutora explicou que é que aquela pelezinha na ponta do pinto (xi, acho melhor não falar pinto porque tem gente que pode achar a palavra pinto feia, então em vez de pinto eu vou falar pipiu) fica meio grudada e isso atrapalha na hora de limpar. Então ela me deu uma pomada para passar, eu passei por uns dois meses, mas não deu certo.
Aí ela viu o meu pinto, quer dizer, pipiu, e disse: “É, não deu certo mesmo. A gente vai ter que operar.” “Operar?!” “É, Lelelindo, mas é uma operaçãozinha bem simples. Dura só uma meia hora e você vai estar dormindo.” “Vão esperar eu dormir para me operar? Então eu vou ficar acordado para sempre!” “Não, ninguém vai esperar você dormir. Você vai colocar uma máscara bem bacana, respira um cheirinho que dá sono, tira uma sonequinha e, quando acordar, já vai estar tudo pronto.” “Tudo o quê?” “A gente vai cortar o prepúcio.” “Prepúcio não é o nome daquele cara, o Américo Prepúcio?” “Não, aquele é Américo Vespúcio. Prepúcio é essa pelezinha que fica na ponta do seu pintinho.” “Mas se vai tirar um pedaço, não vai ficar muito pequeno? Poxa, ela já não é muito grande... O do meu pai é bem maior.”
Aí o meu pai fez uma cara de contente e disse: “Esse menino diz cada coisa...” Então a doutora Ana explicou que só tirava a pele, mas que ele ia ficar do mesmo tamanho. “E tira com uma faca?”, eu perguntei. “É uma espécie de faca”, ela explicou. “Não é perigoso? E se o médico dá um espirro bem na hora? Aí ele vai cortar errado e eu vou virar menina!” Todo mundo riu e eu fiquei com a maior raiva, porque se fosse com o pinto, quer dizer, com o pipiu deles, aposto que ninguém ia achar graça. Mas a doutora Ana explicou que isso não tinha perigo de acontecer, que essa é uma operação bem simples e que um em cada sete homens no mundo tiram o prepúcio. “Tudo isso?”, eu perguntei. “É. E todos os judeus tiram logo nos primeiros dias de vida da criança.” “Então eu não vou virar menina mas vou virar judeu?” “Não, Lelelindo, você vai continuar igualzinho ao que você é.” “E eu vou ter que ficar muitos meses no hospital? Poxa, logo agora que vai ter férias...” “Fica tranquilo, você não vai perder as férias. É entrar no hospital de manhã e sair no final da tarde.” “Bom, pelo menos eu vou poder faltar na escola. Isso é legal!” “Nãnãnão. Você vai ser operado na sexta e na segunda já pode ir para a escola.” “Droga... Mas pelo menos eu vou ter que tomar sorvete, né?” “A gente toma sorvete quando tira as amídalas, porque ajuda a cicatrizar.” “Xi, então eu vou ter que passar sorvete no...”
“Não!”, disse a doutora Ana dando um tapa na testa. “Ué, se ajuda a cicatrizar eu passo sorvete. É melhor picolé ou de massa?" "Vamos esquecer esse negócio de sorvete." "E eu vou poder jogar futebol logo?” “É bom esperar umas duas ou três semanas.” “Para a escola eu posso voltar rapidinho, mas o futebol tem que esperar, né? Isso não é justo.” “Mas é assim, meu Lelelindo.” “É a senhora que vai operar?” “Não, é outro médico.” “Bom, já que eu vou ter que operar, a senhora pode pedir uma coisa para ele?” “Claro.” “Será que dava para fazer uns outros furinhos no pinto? É que aí o meu xixi vai sair num monte jatinhos. Vai ser o maior legal! Aposto que vão até me convidar para ir na televisão. Vão dizer que eu sou o menino-chafariz!” Todo mundo ficou me olhando com uma cara estranha e sem falar nada, até que o meu pai disse: “Lelê, vamos continuar com o modelo tradicional mesmo. É um projeto que dá certo há muito tempo.” Gente grande não gosta de novidade. Bom, aí eles marcaram a operação. E é amanhã! Amanhã!!!!!!!!!!!!! Eu estou com o maior medão. Tomara que eu não vire menina, porque as minhas roupas são todas de menino. Bom, na semana que vem eu conto como é que foi. Tchau!
Escrito por Lelê às 05h28
![]() O casamento de Nhô Lelê
Na semana passada eu joguei uma borracha na cabeça do Zepa e aí a professora me mandou falar com a diretora. A diretora da minha escola se chama Dona Lígia. Ela é meio gordinha e está sempre bem arrumada. A Dona Lígia é mais nova que o meu avô mas é mais velha que a minha mãe. A Dona Lígia é legal, mas é diretora, então ninguém gosta de ir falar com ela porque sempre que a gente vai falar com ela é porque a gente vai levar uma bronca. Bom, aí eu fiquei esperando do lado de fora da diretoria, num banquinho que é o banquinho-de-espera-para-falar-com-a-Dona-Lígia. É o maior horrível sentar nesse banquinho, porque todo mundo que passa já sabe que você fez alguma coisa e vai levar bronca. Bom, depois de um ficar lá um tempão (deve ter sido um tempinho, mas naquele banquinho qualquer tempinho parece um tempão), a Dona Lígia me chamou. “Muito bem, senhor Leocádio, o que foi dessa vez?” “Nada.” “Nada?” “Quase nada. É que eu joguei uma borracha na cabeça do Zepa porque ele me chamou de Lelércules e depois de Lelécrates, e o meu apelido certo é Lelê e eu detesto quando me chamam com um apelido errado, mas a senhora pode me chamar de senhor Leocádio que eu não vou reclamar.” “Sei... Então ele inventou um apelido e você atirou uma borracha nele? Você não acha que exagerou, não?” “É..., acho...” “Você vai ter que pedir desculpa para ele.” “Tá bom...” “E depois eu vou pensar num castigo bem cruel para você. Agora pode ir.” Até que a conversa não foi tão terrível, porque a Dona Lígia não mandou nenhum bilhete para a minha mãe. E ela sempre diz esse negócio que vai dar um castigo cruel, mas sempre esquece. Bom, aí eu fui para o pátio, porque já estava na hora de ensaiar a quadrilha para a festa junina da escola.
Festa junina é muito legal porque tem comida diferente, porque a gente usa umas roupas esquisitas e porque tem dança de quadrilha, que é um negócio engraçado. Aí a professora, que se chama Tia Rosângela, falou: “Antes de começar a quadrilha, vamos falar um pouco sobre festa junina. Quem sabe quais são os doces dessas festas?” O Zepa, que é gordo, levantou a mão bem rápido e respondeu: “Eu sei! É curau, canjica, pamonha e pipoca.” “Muito bem, Zepa”, disse a Tia Rosângela. “E quem sabe o que essas comidas têm em comum?” O Zepa levantou a mão de novo e respondeu: “É que elas são gostosas!” Ela riu e disse: “É verdade, elas são gostosas, mas não é isso que eu quero saber.” Então o Aurelius, que é o maior CDF e está usando um aparelho nos dentes que deixa ele com um jeito engraçado de falar, disse: “É que elhes xão feitos de milho, porque xunho é o mês da colheita do milho.” “Isso mesmo, Aurelius”, disse a Tia Rosângela. “E quem sabe por que a festa junina chama junina?” “Eu sei!”, disse o Zepa. “É porque ela foi inventada por um cara chamado Júnior!” Todo mundo riu da besteira do Zepa, menos o Aurelius, que disse: “Eu lhi que é porque elhas comexaram em homenaxem a Xão Xoão e xe chamavam festas xoaninas.” “Isso mesmo, festas joaninas”, disse a Tia Rosângela. “Eu não sei as coisas mas pelo menos eu falo direito”, falou o Zepa. Então a Tia Rosângela disse que a gente ia ensaiar a quadrilha e cada um tinha que escolher um par. Eu andei até a Blimunda bem rápido e disse: “Oi, Blimunda, quer dançar a quadrilha comigo?” Então ela disse a coisa mais linda que uma menina já me disse: “Tá.” Acho que eu até fiquei vermelho.
Depois que todo mundo tinha um par (o Zepa ficou com a Terezinha, que é uma japonesa bonitinha, e o Aurelius ficou com a Márcia, que também é CDF e usa uns óculos grandões), a gente começou a ensaiar a quadrilha. Quadrilha é legal porque a gente faz um monte de coisa divertida. Quando a pessoa fala “Anavan”, a gente anda balançando os braços, quando fala "Returnê" a gente volta para o lugar, “Trocar de cavalheiro” é para trocar de par, mas dessa parte eu não gostei porque eu fiquei longe da Blimunda, o “Túnel” é o maior legal, porque parece que a gente passa por dentro de uma caverna, tem o “Olha a cobra!”, que a gente grita e dá meia volta, o “Caracol”, que é quando a gente se enrola, e o "Galope", que é a corridinha do fim. Mas o que eu mais gostei é que uma porção de tempo eu ficava de mão dada com a Blimunda. E a gente ensaiou quatro vezes, duas terças e duas quintas, na aula de Educação Física. Isso quer dizer que eu fiquei um tempão de mão dada com a Blimunda. Um tempão! E tem mais um negócio: quem eram os noivos? Eu e a Blimunda! Eu e a Blimunda!!!!! Bom, aí chegou o dia da apresentação, que foi ontem. Eu enchi a minha mãe até ela me arranjar uma roupa bem bacana. A minha mãe disse que eu estava bonitão e que, se ela não fosse a minha mãe, ela casava comigo. Isso ia ser engraçado, porque aí eu acho que a gente ia ter um filho que nem o meu pai. Bom, estava tudo o maior perfeito, mas aí aconteceu um problema. Uma coisa terrível. A pior coisa do mundo! A Blimunda não foi. Logo que eu cheguei na escola, a Dona Lígia veio falar comigo e disse: “Lelê, a mãe da Blimunda ligou e disse que ela não vem porque está com febre.” “E agora?”, eu perguntei. “Agora a gente vai fazer a quadrilha sem noivo e noiva. Sinto muito, Lelê...” Eu fiquei o maior triste porque..., poxa..., eu ia casar com a Blimunda. Eu sei que era de mentirinha, mas de mentirinha também ia ser bom. Então eu fiquei lá num canto bem quieto. Não comi pipoca, não comi curau e só peguei um pouco de canjica porque canjica é a melhor coisa do mundo. Aí, quando faltava pouco para começar a quadrilha, a Dona Lígia chegou perto de mim e disse: “Então, foi abandonado no altar?” “É...” Aí ela passou a mão na minha cabeça e disse: “Bom, sabe aquele castigo cruel que eu te prometi? Já pensei num.” Quando eu escutei aquilo, eu fiquei o maior chateado. Poxa, a Blimunda não veio e eu ainda ia ser castigado? “Qual vai ser o castigo?”, eu perguntei. Aí a Dona Lígia disse: “Você vai dançar a quadrilha comigo.” Caramba! Aquilo me pegou de surpresa. Como assim? Eu ia dançar com a diretora? Que negócio esquisito. Eu nem sabia o que falar. Então eu fiquei calado. “Você ficou mudo, Lelê?”, perguntou a Dona Lígia. “Pode ficar tranqüilo porque eu ainda lembro de todos os passos.” “Mas a senhora é a diretora...” “Não me chame de diretora. Me chame de noiva. Opa!, estão chamando os casais! Vamos lá!” Então ela me puxou pela mão e a gente foi para a quadrilha. Foi o maior engraçado dançar com a Dona Lígia, porque ela é a diretora e porque ela é grandona. E a Dona Lígia lembrava mesmo de todos os passos. Não errou nenhum. Só que na hora dela passar pelo túnel, o pessoal teve que levantar a mão bem lá no alto. Todo mundo riu e eu até esqueci que a Blimunda não tinha vindo. Bom, essa foi a minha festa junina. Ela foi meio esquisita, mas até que foi legal. Tchau!
Escrito por Lelê às 07h00
![]() Lelércules!
Meu nome é Leocádio, mas quase todo mundo me chama de Lelê. E é 'quase' porque tem gente que me chama de Léo. Mas eu não gosto, porque apelido é uma coisa muita séria e se o meu apelido é Lelê, é Lelê. Bom, ontem na escola aconteceu uma coisa que foi ruim, depois foi boa, depois foi ruim, depois foi boa e depois foi ruim, porque eu acabei indo para a diretoria. Xi, ficou a maior confusão. Vou explicar direito. Quando a dona Diana entrou na classe, ela falou que a gente tinha que ir para o pátio porque a sala que a gente estava era pequena e não ia dar para fazer o trabalho que ela queria dar. Todo mundo pegou uma cadeira e levou debaixo do braço. Todo mundo menos eu, porque eu levantei a minha bem no alto da cabeça. Quando a professora viu aquilo, ela falou: “Nossa, Lelê, assim você parece o Hércules!” Aí o Zepa, que um é gordinho metido a engraçado (às vezes ele é engraçado mesmo) disse que o meu apelido ia mudar, que em vez de Lelê ia ser Lelércules. E começou a rir e a repetir: “Lelércules, Lelércules!” Eu já disse lá em cima que eu não gosto que me chamem de um apelido que não é o meu apelido, então eu fiquei o maior bravo e gritei: “Eu não sou Lelércules!” Só que isso foi pior, porque aí todo mundo começou a falar: “Lelércules!, Lelércules! Lelércules!” Aquilo me deixou muito bravo, e aí eu fiquei vermelho e eu comecei a fungar e o mais mau de tudo foi que eu comecei a chorar. A dona Diana me chamou e perguntou: “Que foi, Lelê?” E eu falei: “Que foi? Que foi que a culpa é da senhora. A senhora me chamou de Hércules e agora eles ficam aí me chamando de Lelércules”. “Calma, Lelê”, a dona Diana falou. “Você devia ficar orgulhoso de te compararem com Hércules”. “Por quê?” “Porque o Hércules foi um herói muito forte, tão forte que enfrentou um leão, um gigante e até uma cobra de sete cabeças”.
“Uau! Existe cobra de sete cabeças?” "Não, Lelê. Nem o Hércules existiu de verdade. Quem inventou ele foram os gregos. Aliás, a Grécia foi o berço da nossa civilização.” “Tinha um berço gigante lá?” “Não, tinha muitos pensadores. E eles desenvolveram a medicina, a filosofia, o esporte, o teatro, a música e a arquitetura. O Parthenon era a coisa mais linda do mundo.”
“Poxa, os gregos eram intelingentões.” “Eram. E eles foram um dos primeiros povos a dar um grande valor à educação”. “Os gregos que inventaram a escola?”, eu perguntei. “Malditos!”, reclamou o Zepa. “Mais ou menos, Lelê. Tinha lugares em que os jovens ouviam os ensinamentos dos grandes filósofos e aprendiam a pensar sobre as coisas. Quase todos os jovens aprendiam ginástica, música e gramática”. “Legal!”, eu disse. “Legal por quê?”, a dona Diana perguntou. “Porque tinha aula de ginástica”, eu expliquei. “E porque não tinha matemática”, falou o Zepa. A dona Diana deu uma olhadinha para o lado, respirou fundo e disse: “Ah, Zepa, até um grego ia perder a razão com você..." Então eu falei: "Eu sei o que é razão. É uma coisa que o meu pai nunca tem e a minha mãe tem sempre, porque depois que eles brigam o meu pai sempre fala assim: 'Tá bom, você tem razão, você tem razão...'” “É mais ou menos isso, Lelê. A razão, que foi uma coisa muito valorizada pelos gregos, é você raciocinar e chegar a uma conclusão sobre um assunto. É pensar sobre uma coisa, examinar uma situação e aí tomar a decisão racional.” “O Hércules usava a razão?”, eu perguntei. “Olha, acho que ele usava era a força mesmo. Quem era famoso por usar a razão era um outro grego, um filósofo chamado Sócrates.” Aí o Zepa pegou e disse: Sócrates com Lelê dá Lelécrates! E começou a repetir: "Lelécrates! Lelécrates! Lelécrates!" Eu fiquei com a maior raiva e me deu vontade de brigar com ele. Só que aí eu lembrei daquele negócio de razão. Então eu fiz que eu era inteligente que nem o Sócrates e pensei bem no que estava acontecendo. Aí eu tomei uma decisão bem racional: peguei a minha borracha e atirei com força de Hércules na cabeça do Zepa. E deu certo, porque ele parou de falar na hora. Só que aí a dona Diana me mandou para a diretoria. Esse negócio de razão não dá muito certo.
Escrito por Lelê às 07h25
![]() Lelê pede palpites
O meu tio Torero disse que dá para escolher uns textos aqui do blog e fazer um livro de verdade, com papel e capa e um monte de desenho. Eu queria botar tudo que eu escrevi, porque escolher uns e não escolher outros é o maior triste (eu sempre fico chateado quando me escolhem por último no futebol), mas o meu tio disse que só dá para entrar uns doze. Então, se alguém quiser me ajudar, pode escrever aqui qual o texto que acha que tinha que entrar no livro. Tchau!
Ops: Agora que eu vi. Anteontem fez um ano que escrevo aqui. Legal!
Escrito por Lelê às 11h31
![]() Lelê fica banguela
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê (menos o doutor Rony, que me chama de Cadão). Bom, ontem, a minha mãe estava na sala dormitevendo (que é uma mistura de dormir e ver tevê ao mesmo tempo), então eu aproveitei, peguei uma bola de plástico com a bandeira do Brasil e fui brincar de goleiro na cama dela. Brincar de goleiro na cama da minha mãe é o maior legal, porque você joga a bola na parede e pula na cama, que é bem grandona, e aí cai no macio. Dá para fazer umas pontes da hora! Só que dessa vez aconteceu uma coisa o maior ruim. Eu bati a boca naquela ponta de madeira e ela quebrou. Mas o pior não foi isso. O pior foi que o meu dente caiu! Poxa, quando eu peguei o meu dente e olhei aquele sangão, eu vi que eu só podia fazer uma coisa: chorar. E eu chorei. Bem alto. Buááá! (eu chorei, mas não é que eu sou mimado, é que doeu mesmo) A minha mãe veio correndo e perguntou o que tinha acontecido. Aí eu mostrei o dente para ela. Ele tinha saído inteirinho, até a raiz. Então ela me abraçou, falou “Tadinho do meu Lelezinho...”, e eu comecei a parar de chorar. Daí eu perguntei: “Será que vai demorar para nascer outro?” E a minha mãe disse: “Não vai nascer outro.” “Mas quando o dente que estava antes desse caiu, nasceu esse.” “Mas aquele era um dente de leite. Esse já é permanente.” “Não tem uma terceira turma?” “Não.” Aí eu falei “Eu vou ficar banguelo para sempre...” e comecei a chorar de novo: “Calma, Lelê, a gente vai dar um jeito.” “Eu não quero usar dentadura que nem o meu avô!” “Não, não precisa, a gente vai já no doutor Rony para ele colocar o dente de volta.” “Dá para colar?” “Não é bem colar, é reimplantar. E você tem que colocar o dente no lugar para ele ficar quente, protegido e hidratado.” Eu não sabia o que era hidratado, mas mesmo assim eu coloquei o dente na boca. A gente entrou no carro correndo (a minha mãe nem trocou de roupa e eu nem tirei as luvas de goleiro que o meu pai me deu) e foi para o dentista. O caminho até lá foi o maior comprido, e eu fui lembrando que eu já tinha perdido um monte de dente. Quando caiu o dente da frente, eu fiquei com uma janelinha. Janelinha, não, janelona! O legal é que dava para tomar suco de canudinho pelo buraco. Teve uns dentes que caíram sozinhos. Eu ficava mexendo neles com a língua para lá e para cá, e eles acabavam caindo. Mas teve uns que foram mais difíceis. Aí a minha mãe tinha que arrancar. Ela é a maior boa nisso. Minha mãe devia ser dentista que nem o doutor Rony. Teve um dente que ela arrancou assim: ela enrolou um lenço na mão e ficou mexendo no meu dente enquanto ia conversando comigo. Aí, de repente ela deu um puxãozinho (que é um puxão forte mas meio fraco) e pimba!, tirou o meu dente. Teve outro que foi o maior legal, porque ela amarrou um fio dental no meu dente e ficou falando comigo assim: “Lelê, você sabia que eu fiz balé quando eu era pequena? Pois é, eu adorava dançar, pena que o seu pai é um perna-de-pau. Se ele não fosse tão desengonçado, de vez em quando a gente podia sair para dançar um pouco. Eu gosto mais é de tango. Tem um passo que é assim...” E aí ela deu giro e o meu dente foi junto. Eu levei o maior susto, mas não doeu e foi legal. Também teve um que ela amarrou meu dente na maçaneta e bateu a porta, mas esse doeu. Ah, e teve que um que não foi ela que tirou, foi um sanduíche. Eu estava comendo um cachorro-quente bem quente e de repente eu vi que o meu dente (quanto “ente”!) não estava mais lá. Eu fiquei o maior desesperado e disse: “Mãe, engoli o meu dente! O que que vai acontecer agora?” Ela começou a rir e disse: “Ele vai mastigar a comida lá dentro da sua barriga. Quá, quá, quá!” Eu achei engraçado mas fiz cara de chateado, porque eu não gosto de rir quando estão rindo de mim. Bom, aí a gente chegou no doutor Rony e eu parei de lembrar dos meus dentes. Ele pegou as minhas luvas de goleiro, mandou eu sentar na cadeira e disse: “Nem precisa contar como é que isso aconteceu, Cadão. Essas luvas já dizem tudo. Mas ainda bem que você colocou o dente na boca, senão ele podia ficar desidratado, seco, e aí, baubau.” Então o doutor Rony ficou lá mexendo na minha boca um tempão. Dessa vez ele não precisou ligar aquele negócio que gira rápido e faz um barulhão. Aquilo dá o maior arrepio. Tem vez que ir no dentista dói mais no ouvido que no dente. Bom, aí, quando acabou, ele falou para a minha mãe. “Coloquei o dente de volta, mas pode ser que um dia ele dê problema. Vamos ficar de olho. E o Cadão teve sorte que o dente saiu com a raiz inteira, aí deu para reimplantar.” Então eu perguntei: “Se o dente tem raiz, em vez de reimplantar, a gente não devia dizer ‘replantar’?” Eles começaram a rir do que eu falei, quá, quá, quá, mas eu fiz cara de chateado porque eles estavam rindo de mim. Então a minha mãe disse: “Dá uma risadinha, Lelê, mostra seu dente replantado.” Aí eu ri.
Escrito por Lelê às 06h49
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