BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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Lelê no xadrez

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo mundo me chama de Lelê. Até o meu amigo Gabriel, que todo mundo chama de Biel.

Ontem o Biel foi lá em casa e levou um jogo muito bacana. Um jogo de xadrez! Mas o mais bacana é que era um jogo de xadrez dos Simpsons. Em vez de rei, torre, dama, peão e essas peças, o jogo dele tem o Homer, a Meg, a Margie, a Lisa e o Bart. O Biel e o xadrez dele são assim, ó:

Só que eu não sabia jogar xadrez, então o Bié, que aprendeu a jogar lá na escola dele (por que será que não ensinam na minha?), me explicou como é que é.

Para começar, ele arrumou as peças assim:

 

A regra é que ganha quem matar o rei do outro. E cada peça se mexe de um jeito. Por exemplo, o Rei, que é o Homer, vai para qualquer lado, mas como é gordo, só anda uma casa de cada vez. Assim: 

A Margie, que trabalha muito e é a Rainha, se mexe na vertical, na horizontal e na diagonal quantas casas quiser (vertical é que nem a gente fica de pé, horizontal é que nem a gente dorme, e diagonal é que nem o meu pai chega na sexta-feira, depois que sai com os amigos dele).

O cavalo, que é a Meg, anda duas casas e dá um pulinho para o lado, e deve ser assim porque a Meg cai toda hora (desse eu não achei um desenho bacana).

O bispo, que é o Vovô Simpson, só anda assim meio de lado. Acho que é porque ele tem labirintite que nem o meu avô.

A Lisa, que é a torre e é o maior certinha, se mexe reto, na horizontal ou na vertical, quantas casas quiser.

E o Bart, que é o peão, anda para frente uma casa por vez (menos na saída, quando ele pode andar duas). Mas o engraçado é que ele anda para frente mas come as outras peças na diagonal, como se fizesse uma curva de skate (quem quiser ver direito o movimento das peças pode clicar aqui).

Antes, o meu tio já tinha tentado me ensinar xadrez, mas eu não tinha aprendido. Agora, com essas peças legais, ficou mais fácil.

Bom, aí, depois que o Gabriel me ensinou como é que mexia as peças, a gente começou a jogar.

Quando ele mexeu a primeira peça, o meu avô passou pela gente e disse:

“Puxa, que bacana, vocês estão jogando xadrez! Eu já fui muito bom nesse negócio. Aliás, vocês sabiam que o xadrez provavelmente nasceu na Índia? Pois é. Ele é filho de um outro jogo chamado Chaturanga, que quer dizer ‘dividido em quatro’. O Charatunga era jogado por quatro pessoas, cada uma com um exército.”

“Não, vô, eu não sabia. Agora deixa a gente jogar?”

Ele nem ligou para mim e disse: “Depois da Índia, parece que o jogo começou a ser usado na Pérsia, onde passou a se chamar Chatrang. Aliás, na Pérsia, quando um jogador vencia o outro falava ‘xá mat’, que quer dizer rei morto. E daí veio o ‘xeque-mate’, que é o golpe final.”

“Tá bom, vô, mas deixa a gente jogar o nosso Chatrang dos Simpsons.”

Ele não deu a menor bola e continuou falando: “Então, quando os árabes conquistaram a Pérsia, aprenderam o jogo e aí, quando invadiram a Europa, levaram o xadrez para lá, onde ele foi se modificando. Só ali pelo século dezoito é que o xadrez ficou desse jeito que é jogado hoje.”

Aí eu disse: “Tá bom... tchau, vô”, e ele foi embora.

Então eu mexi um peão para frente.

Só que aí, antes de o Gabriel jogar de novo, a minha mãe passou por lá e falou:

“Vocês estão jogando xadrez? Que gracinha! Aliás, vocês sabiam que no princípio as peças de xadrez representavam os personagens de uma guerra? Só depois, quando ele chegou na Europa, é que as peças ganharam um ar de côrte real. A rainha, antes era um vizir, o bispo era um elefante, que era muito usado nas guerras lá do oriente, e a torre era um barco ou uma carruagem. Além disso, outra coisa interessan...”

“Sei, mãe, isso foi legal, agora deixa a gente jogar?”

“Tá bom, tá bom...”

Aí ela foi embora e o Gabriel avançou outro peão. Mas antes de eu fazer a minha jogada, apareceu o meu pai e disse:

“Xadrez? Olha só! Eu jogo muito contra o computador. E quase sempre eu perco. Aliás..."

Eu detesto quando adulto fala "aliás", porque depois dessa palavra sempre vem uma história comprida.

"...vocês sabiam que, no ano 2000, o grande enxadrista Gary Kasparov enfrentou um computador chamado Deep Blue e perdeu? Isso foi uma coisa muito séria, porque foi a primeira vez que um computador ganhou de um mestre de xadrez. O significado disso é que finalmente o cérebro mecânico superou o cérebro huma...”

“Pai!, será que a gente pode continuar a nossa brincadeira?”

“Tá bom, tá bom... Eu vou jogar xadrez na internet.”

Aí a gente começou a jogar de verdade. Só que estava muito devagar. O Gabriel demorava um tempão para mexer as peças dele. E o pior é que ele estava comendo as minhas. Então eu disse:

“Biel, sabe esse peão?”

“Sei.”

“Na verdade, ele é o Homem-Bala, só que está disfarçado. Pou!”. E aí eu dei um peteleco no Bart e ele derrubou um monte de peças do Gabriel.

O Gabriel arregalou o olho e parecia que tinha ficado com a maior raiva. Mas então ele pensou e disse assim:

“Ah, é? Então esse aqui é o Homem-Dinamite. Pou!”. E ele deu um peteleco no peão dele que derrubou um monte de peças minhas.

Aí eu dei mais um peteleco numa peça, ele também, e eu de novo, e ele de novo, e aí foi a maior guerra mesmo, e ficou um monte de peça espalhadas pela casa e o jogo terminou empatado, porque não ficou nenhuma peça de pé, nem o Rei Homer.

Xadrez é o maior legal!

Escrito por Lelê às 06h15
Lelê e as galinhas gigantes

O meu nome é Leocádio mas todo mundo me chama de Lelê (menos um amigo do meu pai, o seu Dirceu, que me chama de Perigoso. Sempre que ele me vê, ele fala, “E aí, Perigoso, aprontando muito?”).

Bom, o seu Dirceu tem uma fazenda e convidou a gente para passar o fim de semana lá.

Ele deu um mapa para o meu pai e a gente viajou até a fazenda. A minha mãe foi dirigindo, do lado dela foi o meu pai, e atrás tinha o meu avô de um lado, o tio Torero de outro, e eu fui espremido no meio dos dois.

A viagem demorou umas duas horas, uma hora e meia pelo asfalto e mais meia hora pela terra, que foi a parte mais legal, porque o nosso carro levantava a maior poeira e parecia que a gente estava num filme. Só o meu pai que não gostou, porque ele tinha acabado de lavar o carro.

Quando a gente chegou lá, tinha uma casa legal para a gente ficar, com uma varandona e uns móveis bem velhos.

Mas o mais bacana da fazenda é que lá mora um monte de bicho de verdade.

Tinha um lugar bem nojento cheio de porco, um monte de galinha espalhada, uns bois e umas vacas (que são bem grandes e se mexem bem devagar), e tinha até um lago onde o seu Dirceu criava uns peixes para vender.

Aí eu fui dar de comer para os bichos.

Primeiro eu dei capim para uma vaca chamada Giselda. Ela mastigou bastante, que nem a minha mãe manda eu fazer.

Aí joguei uns tomates para os porcos, e eles devem ter pensado assim: “Pô, esse cara é um amigão!”

Depois eu atirei pão para os peixinhos, e isso foi legal porque eles devem ter pensado que eu era o deus deles e estava mandando comida do céu.

Mas o que eu mais gostei foi de jogar milho para as galinhas, porque elas me cercaram e depois me seguiam para onde eu ia, e eu me senti o rei das galinhas.

Então, na hora da janta, a mulher do seu Dirceu fez uma coisa chamada frango ao molho pardo.

O meu tio, que é o maior guloso, pegou logo um pedaço e disse: “Hum, adoro molho pardo. Você sabe como é que ele é feito, Lelê?”

Como eu não sabia, eu falei “Não sei”.

O meu tio explicou: “Cortam o pescoço da galinha e depois usam o sangue para fazer o molho. Fica ótimo!”

Eu achei aquilo horrível! O maior cruel! Super blargh!

Então eu falei: “Não quero comer isso!”

Aí o seu Dirceu falou: “Tudo bem, Perigoso, a gente faz outra coisa rapidinho. O que você prefere? Uma bistequinha de porco? Um bifinho acebolado? Um peixinho à milanesa?”

Poxa, ele queria matar todos os meus amigos! Ele é que era perigoso!

Então eu saí da mesa e fui para a cama, porque eu fiquei muito triste com aquele negócio de matar os bichos.

O pior é que eu tive um pesadelo horrível! Sonhei que as pessoas eram pequenas e as galinhas eram gigantes. Elas ficavam andando no meio das cidades fazendo cocorococó e de vez em quando bicavam uma pessoa e comiam ela inteira, como se a gente fosse minhoca.

Mas o pior do pior foi no final do sonho! Uma galinha gigante me cercou  num beco sem saída e disse: “Vocês não comem a gente? Pois agora eu vou comer você.” E aí o bico gigante dela veio para cima de mim.

Ainda bem que eu acordei nessa hora.

No café da manhã eu disse para a minha mãe: “Mãe, nunca mais vou comer nenhum bicho.”

“Então você vai comer o quê?”

“Pipoca. Para sempre!”

"Você vai virar vegetariano?"

"Não. Pipoquiano."

“Mas isso faz muito mal, Lelê.”

“Pelo menos assim eu não mato nenhum dos meus amigos.”

“Tá bom, tá bom..., a gente vai dar um jeito.”

Aí a gente voltou para casa e eu fiquei uns dias comendo só umas saladas estranhas que a minha mãe começou a fazer. Não teve nada de pipoca.

Mas ontem ela fez uma sacanagem: ela fez purê de batata com carne moída, e purê de batata com carne moída é a coisa que eu mais gosto no mundo.

O meu pai, a minha mãe, o meu avô e o meu tio Torero, que sempre aparece em casa quando tem comida boa, estavam comendo o purê e a carne moída com a maior vontade. E eu só com um chuchu com ricota que a minha mãe me fez.

Então ela disse: “Não quer experimentar um pouquinho, Lelê? A carne tá moída, nem parece que era uma vaca.”

Eu falei “Tá bom...” e comi. E repeti. E rerrepeti. Purê com carne moída é a melhor coisa do mundo!

Daí eu deixei de ser vegetariano, mas eu ainda acho que o certo é não comer bicho, só que eu não consigo.

Será que aquela carne moída era da Giselda? Tadinha...

Mas ela estava tão gostosa!

Escrito por Lelê às 06h14
Lelê e o tapete que não era voador

Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que, quando o meu pé entorta um tapete, a minha mãe me chama de Lelê Pé de Gancho. Mas são os tapetes que grudam no meu pé. O que mais gruda é um que a minha mãe chama de tapete persa. É um tapete com um desenho bem legal. Quando a minha mãe não está em casa, eu sento nele e finjo que é um tapete voador.

Bom, ontem aconteceu uma coisa o maior horrível. E foi com esse tapete.

A minha mãe foi visitar uma amiga noutra cidade. Ela só ia voltar à noite. Aí quem ficou em casa fui eu, o meu pai, o meu avô e o tio Torero. Tudo homem. Então a gente pensou: hoje é dia de bagunça!

A primeira coisa que a gente resolveu fazer foi comer sorvete. A minha mãe é brava, ela não deixa comer doce antes do almoço.

Eu enchi tanto a minha taça que nem dava para ver a minha cabeça atrás daquelas bolas com calda de chocolate, groselha, leite condensado, farofa, Bis e jujubinhas coloridas.

Mas aí, quando eu fui dar a primeira colherada, eu tropecei e pou! Caiu tudo no tapete da minha mãe.

“Ai, o tapete persa!”, o meu pai falou. “O que eu vou escutar hoje à noite...”

“Sorte sua!”, disse o meu tio Torero. “Pior é o Lelê, que vai ser esfolado vivo...”

Mas o meu avô, que sempre não fica nervoso, falou assim: “Calma, gente, é só uma mancha. Eu vou ligar para o meu amigo Hassan”.

Não deu nem uma hora e o tal do Hassan chegou. Ele era um homem alto, de bigode e muuuuito narigudo.

Quando ele entrou, se curvou e falou assim: “Salamaleque. Eu, Hassan.”
 
Então eu também me curvei e disse: “Salamaleleque. Eu, Lelê.”

O seu Hassan era um tirador-de-manchas-de-tapetes-persas profissional. Como eu não tinha lição para fazer e queria saber se aquele negócio ia dar certo, fiquei ali do lado dele. Aí eu perguntei:

“Seu Hassan, por que chamam esse tapete de tapete persa?”

“Lelê fez pergunta para pessoa certa. Hassan nasceu na Pérsia. Quer dizer, Irã, porque ninguém mais chama de Pérsia de përsia, só de Irã.”

“A Pérsia trocou de nome?”

“Pérsia é velho nome do Irã. Lá é um lugar muito antigo. Para Lelê ter idéia, já tinha cidades grandes lá dois mil anos antes de descobrirem o Brasil.”

“Uau!”

“Uau mesmo. E naquele tempo Pérsia tanto cresceu que acabou virando um império. Durou trezentos anos. Foi muito rico, muito poderoso.”

“Foi poderoso, mas acabou?”

“Acabou. Todo império acaba. O que importa é que ele deixou coisas bonitas.”

“Tipo o quê?”

“Palácios e cidades que deixavam todo mundo de olhos arregalados. Um dia nós vamos para Irã e Hassan vai mostrar para Lelê as ruínas de Persépolis, que têm mais de dois mil e quinhentos anos."

 

"Legal!"

"E Hassan também vai ensinar para Lelê o Zoroastrismo.”

“Zoro o quê?”

“Astrismo. É uma religião criada por um homem chamado Zaratustra há uns três mil anos. Quando ele nasceu, riu em vez de chorar. E também nasceu de uma virgem.”

“Zatarustra..., Zatrarusta..., caramba, na Pérsia tinha cada nome...”

“Zoroastrismo foi primeira religião que acreditou num Deus só. Depois ele foi imitado por judeus, por cristãos e por muçulmanos. Mas quem primeiro acreditou num Deus só e nas forças do bem e do mal foram os persas. E até hoje tem gente que pratica o zoroastrismo”.

“Por que o senhor veio para cá?”

“Porque há uns trinta anos os religiosos tomaram o poder no Irã, e eles proibiram muitas coisas. Até andar de short e camiseta na rua. E Hassan gosta muito de andar de short e camiseta.”

Isso era verdade, porque naquela hora ele estava usando um short e uma camiseta do São Paulo. Então eu perguntei: “E todo mundo lá na Pérsia tem que andar de turbante?”

E ele respondeu: “Não. Mas as mulheres têm que usar véu.”

“Para proteger da areia do deserto?”

“Não, por causa da religião. E lá não tem só deserto. Também tem neve, que nem no monte Damavan, que é muito lindo, e tem cidades grandes. Teerã é muito parecida com São Paulo. Tem quase o mesmo tamanho.”

“Vocês comem camelo frito? A corcunda é gostosa?”

“Rá, rá”, riu o seu Hassan. “A gente come carne de vaca, de frango e peixe. O meu prato preferido era o koresh fesenjan, um cozido de frango com molho de romãs e amêndoas. Hum..., Hassan ficou com água na boca.”

“Cuidado para não deixar cair no tapete. Ah, e os tapetes de lá voam mesmo?”

“Só se tiverem dentro de um avião. Mas eles são muito especiais mesmo assim. Os pastores tiram a lã dos carneiros e depois tingem. Aí as mulheres deles separam os fios e vão costurando com as mãos, sem máquina, só com uns aparelhos estranhos."

"E com esses aparelhos estranhos elas fazem desenhos lindos que Lelê está vendo. Pronto!”

“Pronto o quê?”

“Hassan terminou”.

Naquela hora, que era meio-dia, eu fui correndo chamar o meu pai, o meu avô e o tio Torero.

Só que, quando a gente olhou o tapete, a mancha ainda estava lá.

O meu pai falou: “Mas seu Hassan, ainda dá para ver a mancha.”

“É claro. Produto demora doze horas para fazer efeito. Mas depois disso pode olhar que não vai ter nada. Perfeito, perfeito.”

Então o meu pai pagou o seu Hassan e ele foi embora.

O meu tio Torero olhou para mim, passou a mão na minha cabeça e disse: “Tadinho..., eu gostava tanto de você...”

Mas aí o meu avô teve uma idéia.

Quando a minha mãe chegou em casa à noite, nós três estávamos parados no portão, de banho tomado e roupa de sair.

“O que vocês estão fazendo aqui?”, a minha mãe perguntou.

“Surpresa!”, nós falamos todos juntos.

“Vocês estão malucos! Me deixem entrar, eu estou morta de fome”.

Aí o meu pai falou: “Você não vive reclamando que a gente nunca sai? Pois hoje nós vamos num restaurante, o Despacios.”

“Mas é do outro lado da cidade e vocês sempre reclamam que a comida demora um tempão para ficar pronta.”

“Não faz mal. Domingo é dia das mães e você merece”, falou meu avô.

“E quem tem pressa?”, disse o meu tio.

A minha mãe ainda quis entrar em casa para tomar um banho e trocar de roupa, mas nós botamos ela no carro daquele jeito mesmo.

Então a gente foi, comeu e fez tudo bem devagar.

Mas, quando a gente voltou, bem tarde da noite, ela entrou na sala, ficou em cima do tapete, olhou para ele de um jeito estranho, e disse: “Tem alguma coisa errada com este tapete.”

A minha garganta fez ‘glup’.

Aí a minha mãe falou: “É que ele não está com a ponta virada. Parece que o Lelê Pé de Gancho se comportou muito bem hoje.”

Ufa...

 

 

 

PS: Aí embaixo está o tapete do meu quarto. Ele não é persa. E já caiu um monte de comida nele.

 

Escrito por Lelê às 06h05
Lelê por dentro do corpo humano

Esta semana eu fiz uma excursão!

Excursão é a coisa mais legal que a gente faz na escola porque a gente sai da escola.

Quando o ônibus chegou foi engraçado porque todo mundo quis entrar ao mesmo tempo e sentar na cadeira da frente, e aí ficou o maior bolo de gente se empurrando. Mas então a professora, a dona Maria Rosa, deu um berrão assim: “Chega! Quem vai na cadeira da frente sou eu!”

E ela foi. Aposto que ela fez isso para parecer brava, mas ela queria mesmo era ir na cadeira da frente.

Bom, aí a gente andou um tempão de ônibus e eu dormi.

Só acordei quando o ônibus parou. A gente estava em frente a um treco que parecia uma espaçonave de outro planeta mas que não era, porque o treco era de concreto e todo mundo sabe que espaçonave é de ferro.

O lugar se chamava Oca e fica dentro do Parque do Ibirapuera, que fica em São Paulo, que fica no Brasil, que fica na Terra (botei o endereço inteiro para ninguém errar).

Antes da gente descer, a professora falou assim: “Pessoal, nós vamos ver uma exposição chamada “Corpo Humano – Real e fascinante”. Lá tem um monte de corpos de verdade. Eu quero que vocês se comportem direitinho, sem fazer algazarra e sem quebrar nada. Tá certo?”

A gente respondeu “Tááááá!”, mas a gente não estava acreditando muito nisso.

Aí dividiram a gente em grupos. Na minha turma ficou o Zé Paulo, que é gordo, o Marcus, que é CDF, o Luísão, que é fortão, e a Neiva, que fica vermelha quando tem que ir na lousa.

Cada grupo ficou com um monitor. Monitor é um cara que sabe tudo da exposição. O nosso se chamava Gabriel. Ele tinha cabelo mais comprido que o da minha mãe, um brinco igual o da minha mãe, mas tinha uma barbicha que a minha mãe não tem. O Gabriel é legal. Ele chamava a gente de “galerinha” e depois de cada coisa que ele ensinava ele perguntava: “Beleza?”

Então a gente subiu uma rampa dentro do disco voador de concreto e chegou numa sala onde tinha uma coisa incrível! Um monte de corpos de gente morta! Um monte! E sem a pele! A gente podia ver eles por dentro, como se a gente tivesse olhos de raio-x!

E eles não estavam feiosos. Estavam bem legais. Pareciam de brinquedo. E não fediam.

A primeira coisa que a gente viu foram os ossos da cabeça. Eu pensava que a cabeça tinha um osso só, mas tem um monte! Vinte e dois!

O Gabriel falou que os ossos de cima da cabeça nascem meio separados, e aí vão se juntando depois. Por isso que bebê tem moleira.

Os ossos da minha cabeça já estão bem juntos e são bem duros, porque eu já bati ela um monte de vezes e nunca aconteceu nada.

Depois a gente viu um esqueleto, mas esqueleto tem em qualquer lugar. Até num chaveiro do meu tio, que ele dizia que era o esqueleto de um microanão, mas eu sei que era de plástico.

Eu não gostei muito dos ossos, mas gostei dos músculos, que nem os desse cara aí embaixo.

O Gabriel explicou que quando o corpo está frio, os músculos tremem para a gente ficar mais quente. E aí o Luisão falou que ele devia tremer mais porque ele tinha mais músculos.

Depois a gente viu os nervos, que saem lá da cabeça e de uma tal de medula espinhal, e se espalham pelo corpo todo. Eu entendi que eles são assim que nem a internet, porque é pelos nervos que mandam a mensagem para os músculos fazerem alguma coisa.

O meu tio tem dor num nervo chamado ciático. Aí um dia eu disse que ele tinha dor porque estava ficando velho e ele ficou o maior nervoso por causa do nervo.

Bom, depois a gente foi ver uns cérebros. Eles são bem enrugados, que nem a pele do meu avô. O cérebro pesa só 1,3 quilos, mas mais de 20% do nosso sangue são só para ele. Vai ver é porque ele parece uma esponja.

Aí eu, o Zé Paulo, o Luís e a Neiva começamos a falar que o cérebro do Marcus também ia parar numa vitrine, porque ele é o maior CDF e deve ter um cerebrão. Então ele começou a chorar, dizendo que o cérebro dele ia continuar dentro da cabeça dele, e a gente começou a cantar: “Cabeçudo!, cabeçudo!”. Mas aí o Gabriel falou: “Olha o barulho, galerinha”, e a gente parou.

Uma coisa que eu achei bem nojenta foi quando a gente viu o pulmão de um cara que fumava. Ele é todo preto. Parece podre.

O Gabriel disse que o que deixa o pulmão preto é uma coisa que tem no cigarro chamada alcatrão. Depois de ver aquele pulmão eu não quero fumar nem cigarro de chocolate. Blargh!

Ah, a coisa mais bonita que eu vi na exposição foi isso aqui:

Para deixar esse cara desse jeito botaram um tipo de um plástico nas veias dele, aí derreteram ele e só sobrou o tal do sistema circulatório. A gente tem mais de cem mil quilômetros de veias, que o Gabriel chama de vasos sanguíneos.

O Gabriel usa uns nomes diferentes para chamar as coisas. As tripas ele chama de sistema digestório (o sistema digestório do Zé Paulo deve ser bem grandão) e o pinto ele chama de pênis. Só que o saco ele chama de saco mesmo, mas coloca um sobrenome e chama ele de saco escrotal. A Neiva ficou o maior vermelha quando ele falou isso. O sistema circulatório deve ter levado muito sangue para as bochechas dela.

A coisa que eu achei mais engraçada foi esse cara aqui:

É um homem fatiado. O Zé Paulo chamou ele de Homem Pão Pulmann. O Zé Paulo sempre pensa em comida. E aí ele disse que falar em pão deixou ele com fome e ele perguntou se tinha lanchonete ali dentro, mas não tinha e então ele tirou um resto de Chokito melado do bolso e comeu.

Bom, aí a gente chegou no fim da exposição, onde tinha esse cara aqui, que estava lendo um livro sobre o corpo humano.

Eu achei isso uma piada legal, porque é um corpo humano estudando o corpo humano, e a gente nessa exposição também é um monte de corpo humano vendo um monte de corpo humano.

No final, o Gabriel falou que o importante da exposição é que a gente valorize a saúde e aprenda que o corpo é muito importante, porque a gente vai ficar com ele a vida toda. E aí eu pensei que a gente não está dentro do corpo, a gente é o corpo, porque quando ele pára de funcionar, a gente também pára. E por isso a gente tem que cuidar direito dele e eu acho que hoje eu vou até comer salada. 

 

FIM

 

 

 

 

 PS: Esqueci de escrever uma coisa. É que depois da exposição tem uma lojinha que vende umas coisas, que nem essa camisa aqui.

Só que ela é o maior cara. Custa cinqüenta reais! Eu falei isso para o meu pai e ele disse: "Poxa, nessa exposição arrancam o couro de todo mundo mesmo. Até dos fregueses!" 

Escrito por Lelê às 07h14