
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Lelê Lorota e a bebeteca
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Menos a minha professora, que esses dias me chamou de “Lelê Lorota” e me deu zero num exercício. E tudo por causa de uma amiga da minha mãe que é mãe de um filho que não é dela. Xi, ficou estranho. Vou explicar direito. É que lá na escola a professora falou que a gente tinha que fazer a nossa árvore ginecológica, quer dizer, geológica, quer dizer, genealógica. Essa palavra é o maior difícil. Essa tal de árvore genealógica é uma árvore onde a gente coloca o nome da gente, e em cima coloca o nome dos pais da gente, depois os dos pais dos pais da gente, depois os dos pais dos pais dos pais da gente, depois os dos pais dos pais dos pais dos pais da gente e vai assim até chegar no Adão e na Eva. Eu vou colocar uma árvore dessa aqui embaixo, e aí quem quiser pode fazer a sua.
Bom, eu estava desenhando a minha árvore para colocar os nomes quando a amiga da minha mãe, que se chama Solange, chegou lá em casa. Só que ela não chegou sozinha. Chegou com um menino de três anos chamado Miguel. Eu achei isso o maior estranho, porque eu nunca vi a Solange barriguda e toda mulher antes de ter filho fica bem barriguda que nem o seu Zé Paulo lá da padaria. E tinha outra coisa estranha: a Solange e o marido dela, o Paulo, são bem branquinhos. Mas o Miguel era bem pretinho. Aí eu fiquei pensando: Será que a Solange comeu muito chocolate quando ele estava dentro dela? Para entender essas duas estranhices, eu peguei os meus carrinhos e fiquei brincando perto da minha mãe e da Solange, só para escutar o que elas estavam falando. Eu acho legal ouvir a conversa dos outros. Eu sempre faço isso e disfarço o maior bem. Bom, a conversa foi mais ou menos assim: A Solange disse: “Pois é, demorou mas o Miguelzinho chegou.” E a minha mãe perguntou: “E vocês se adaptaram bem?” “Muito. Sabe que eu tenho a impressão de eu nasci para que ele existisse?” “Ser mãe é isso. E já está tudo certo com a papelada?” “Não, ainda não. Ainda tem algumas coisas para fazer. E isso toma um tempão! Mas vai dar tudo certo.” “E como é que você escolheu ele?” "Ops!, que negócio é esse de ‘escolheu’?", eu pensei. A gente escolhe é livro na biblioteca. Será que existe uma biblioteca de criança, uma bebeteca?” Então eu fiquei prestando mais atenção ainda. Acho até que a minha orelha fez que nem orelha de cachorro e ficou em pé.
A Solange respondeu: “Olha, o processo demorou bastante. Mas um dia a assistente social ligou dizendo que tinha um menino, só que era mais velho do que eu queria. Ele já tinha três anos e eu tinha pedido um de no máximo dois anos.” “E como é que foi quando você viu ele pela primeira vez?”, a minha mãe perguntou. “Ah, foi amor à primeira vista. Tinha uma moça lendo um livro para as crianças e ele era o que prestava mais atenção. Depois a gente não conseguiu parar de pensar nele. Para você ter uma idéia, teve um dia que o Paulo nem lembrou que tinha jogo de futebol. E olha que ele não fez isso nem no dia do nosso casamento...” “Os homens são todos iguais...” disse a minha mãe meio resmungando. Eu fiquei com medo de que ela começasse a reclamar do meu pai e a Solange parasse de contar a história, mas a Solange continuou: “A gente foi visitando o Miguel todos os dias e, no final de semana, levou ele para casa.” Aí eu pensei: “Como assim, levou pro final de semana? Ela fez um teste com o filho?!”. Nessa hora eu não aguentei e perguntei: “Eu também fui comprado numa bebeteca?” “Bebeteca?”, disseram as duas juntas. “É, bebeteca, o lugar onde vendem criança”, eu expliquei. Então as duas começaram a rir muito, como se estivessem dizendo “Tadinho do Lelê, é tão criança e tão burrinho...”. Isso me deu a maior raiva, mas eu não falei nada porque eu queria entender a história. Aí a Solange disse: “Não é bebeteca, é orfanato. E lá não se vende bebê. É onde eles ficam até serem adotados.” “O Miguel morava lá?”, eu perguntei. “Morava”, disse a Solange, “ele e um monte de crianças.” “Deve ser a maior farra!”, eu disse. A minha mãe fez cara séria e falou: “Essas crianças não moram lá porque querem, Lelê. É que elas não têm quem cuide delas. O pior é que existem umas oitenta mil crianças assim no Brasil.” E a Solange disse: “Elas querem ter pais, só que tem que esperar que apareça alguém querendo adotar uma criança.” “Foi isso que você fez?” “Foi. Eu não podia ter filhos, então eu adotei o Miguel. Ele não é filho de barriga mas é filho de coração.” Eu comecei a pensar que esse negócio de adotar é legal, porque a mãe da gente não escolhe a gente, mas a Solange escolheu o Miguel, e por isso ela deve gostar mais dele do que a minha mãe gosta de mim. Aí eu fiquei preocupado e perguntei: “Mãe, você queria ter eu?” “Claro que queria, Lelê!” “Mas você não me visitou.” “Não.” “E o pai não perdeu nenhum jogo de futebol por minha causa.” “Não.” “E ninguém me escolheu?” “Não. Você veio e pronto.” Aí eu disse: “Droga! Eu queria ter sido adotado!”, e fui para o meu quarto. E aí de raiva eu não fiz a minha árvore genealógica. Quando a professora perguntou por que que eu não tinha feito, eu peguei e disse que era porque eu tinha sido adotado. Aí ela falou: “Péssima desculpa, rapazinho! Eu conheço a sua mãe e lembro muito bem quando ela estava grávida de você. Nota zero, Lelê Lorota.” Zero! É isso que dá a gente não ser adotado.
Escrito por Lelê às 06h42
![]() Lelê, o quindim e os vikings
Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Foi assim que a minha mãe me chamou ontem à tarde, quando ela disse: “Lelê, vamos dar uma passadinha lá na dona Guadalupe”. Eu achei 10 quando ela falou aquilo, porque a dona Guadalupe, que é nossa vizinha, sempre faz uns doces que são o maior bons. Mas dessa vez não foi 10. Foi 5. Porque a dona Guadalupe ainda ia fazer um quindim e, enquanto o quindim não ficava pronto, ela e a minha mãe ficavam conversando conversa chata de adulto. Eu já estava com a maior vontade de ir embora quando a dona Guadalupe olhou para mim e falou: “Lelê, querido, vai lá na despensa e pede para o Lars um pouco de açúcar.” Lars é o marido da dona Guadalupe. Ele é de um país chamado Suécia. Numa parede da casa dele tem uma plaquinha onde está escrito: “Lars, doce Lars”. O seu Lars e a dona Guadalupe são um casal gozado. Ele é alto, loiro e magrão. Ela é baixinha, de cabelo preto e gordinha. Mas eles se dão o maior bem. Quando eu entrei na despensa, o seu Lars estava arrumando as coisas e cantando uma música assim: “Onde o arco-íris é ponte, onde vivem os imortais. Do trovão é seu guarda-mór. O barra-limpa, o grande Thor!” Aí eu falei: “Pô, que música bacana!” (se alguém quiser ouvir, é só clicar aqui) E o seu Lars disse: “É a música do Thor. Estou limpando umas revistinhas velhas dele aqui. Olha só.”
Aí ele me deu a revista e eu falei: “Obrigado. Legal!” “Ele foi um deus viking”. “Vi quem?” “Não. Viking. Vi-quim-gui. Você não sabe o que é um viking?” “Não.” “São os meus antepassados. Eles habitavam a Escandinávia.” “Não é Escondinávia, tipo assim, um lugar bem escondido?” “Não, é Escandinávia mesmo. Onde ficam a Noruega, a Suécia e a Noruega. E os vikings adoravam passear de barco e viviam pescando bacalhau”. “Pensei que as pessoas só comiam bacalhau na Semana Santa?” “Eles não, eles comiam bacalhau o ano inteiro”. “Blargh!” “A vida dos vikings era muito difícil. Eles moravam em casas simples e tinham que trabalhar duro na primavera e no verão para ter o que comer no outono e no inverno. Mas às vezes faltava comida.”
“E aí o que que eles faziam?” “Aí eles entravam nuns barcos chamados drakar, que quer dizer “dragão”, e iam atacar os outros povos do continente europeu”.
“Pô!” “Põe ‘pô’ nisso, Lelê! Mas os vikings têm uma fama injusta. Eles não eram só um povo bruto. Eles também tinham livros, poemas e uma sociedade muito organizada. Vem cá, eu vou te mostrar o alfabeto deles”. O seu Lars então pegou um livro e me mostrou o alfabeto dos vikings, que se chama rúnico e parece um joguinho de varetas.
“E eles também tinham uma religião", disse o seu Lars. "Os vikings acreditavam num paraíso que se chamava Valhala. Lá que morava o Thor”. “E era legal esse tal de Valhala?” “Era, mas só entravam lá os guerreiros fortes e valentes. Quando você chegava no Valhala, você era recebido pelas valquírias. Elas eram umas cavaleiras loiras, altas e fortes que te levavam até o paraíso”.
“Tem uma menina chamada Valquíria na minha classe. Só que ela é morena e morre de medo de cavalo.” “Já não se fazem mais valquírias como antigamente.” “E os vikings tinham rei?” “Tinham. Mas não tinham nobres do tipo duques e barões. Abaixo do rei vinham os ‘karls’, que tinham bastante dinheiro e terras, depois os ‘jarls’, que eram os pequenos comerciantes e lavradores, e aí tinha os ‘thralls’, que eram os escravos.” “Eles moravam em fazendas pequenas, numa vida comunitária. E todo mundo se ajudava e cada um tinha seu trabalho. Uns eram ferreiros, outros trabalhavam na terra e outros eram pescadores, porque essas fazendas sempre ficavam perto do mar ou de um lago.” “Eles gostavam mesmo de água.” “Muito! Tanto que foram os vikings que descobriram a América.” “Não foi o tal do Colombo?” “Não. Foi um sujeito chamado Leif Eiriksson. Ele sabia navegar muito bem e lá pelo ano 1.000 chegou até o Canadá. E ele chamou os índios que moravam lá de “skraelings”, que quer dizer feios. É que os vikings eram altos e loiros, e os índios do Canadá eram muito diferentes deles, e muita gente acha que o que é diferente é feio.”
“A dona Guadalupe é bem diferente do senhor.” “Mas eu sou um viking moderno e acho a Lupe a coisa mais linda do mundo.” Aí a minha mãe gritou lá da cozinha: "Lelê, cadê o açúcar?” E o seu Lars disse: “Tá ali no armário.” Então ele virou de costas para mim e continuou cantando aquela música: “Onde o arco-íris é ponte...” Enquanto ele cantava, eu peguei um vidro no armário e enchi a xícara com aquele pozinho branco. Depois eu voltei correndo para a cozinha e joguei o açúcar na massa do quindim. Quando a gente voltou para casa, o meu pai já tinha chegado do trabalho, o meu avô já tinha tirado a sonequinha da tarde e o tio Torero já tinha aparecido por ali para ver se comia alguma coisa de graça. Aí a minha mãe pegou uns pratinhos e deu um quindim para cada um. Todo mundo comeu o quindim na mesma hora. E todo mundo cuspiu ele depois. Até eu. O pior é que a culpa foi minha. É que na hora de pegar o açúcar eu estava tão distraído com a música do seu Lars que acabei pegando sal em vez de açúcar. E aí, quando eu contei isso, todo mundo olhou para mim e fez uma cara o maior skraeling.
Escrito por Lelê às 06h11
![]() Lelê e Alice (que não é a do País das Maravilhas)
Um dia a minha mãe leu para mim um livro bem doido chamado “Alice no País das Maravilhas”. Mas isso não tem nada a ver com a história que eu vou contar hoje. Quer dizer, até que tem, porque é a história de uma menina que também se chamava Alice. Bom, eu estava lá em Santos com a minha mãe. Aí gente foi tomar sorvete no jardim da praia e a minha mãe ficou com vontade de fazer xixi. A minha mãe sempre tem vontade de fazer xixi. Ela é o maior xixizenta. Então a gente andou até um banheiro que tem lá no jardim da praia, perto do lugar que vende sanduíche. A minha mãe disse para eu entrar com ela no banheiro, mas eu disse que não, que eu já era grande e não podia mais entrar em banheiro de mulher. Aí ela falou: “Tá bom, então me espera aqui fora. Mas não conversa com nenhum estranho. E, se acontecer alguma coisa, você grita que eu venho correndo.” Eu falei “Tá bom” e ela foi fazer xixi. Aí chegou uma menina perto de mim e disse: “Oi.” Ela era do meu tamanho, estava com uma roupa bem velha e sem sapato. Eu tinha prometido para a minha mãe que não ia falar com estranhos, mas como ela era normal, eu respondi: “Oi”. E ela disse: “O meu nome é Alice.” E eu perguntei: “Que nem a Alice no país das maravilhas?” “Quê?” “Nada. O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê.” “Dá um pedaço do seu sorvete, Lelê.” “Pode pegar.”
Aí ela pegou o sorvete e eu fiquei pensando assim: Se eu estou aqui fora porque a minha mãe está fazendo xixi, ela deve estar aqui porque o pai dela está fazendo cocô. Então eu perguntei: “O seu pai está fazendo cocô?” E ela respondeu: “Eu não tenho pai.” “Então é a sua mãe que está fazendo xixi?” “Não. Ela nem sabe que eu estou aqui.” “Não?” “Não. Eu fugi de casa.” “Fugiu?” “Já faz um mês. Eu e o meu irmão. Ele tem catorze anos. É aquele ali que está deitado no banco.” “Por que que vocês fugiram?” “Porque a minha mãe bate na gente.” “Bate por que vocês fazem muita bagunça?” “A gente faz bagunça, mas não é tanto. Ela bate muito. Ela é meio nervosa. Acho que é porque ela fica o dia inteiro em casa, cuidando da minha irmã que tem problema na cabeça.” “Que problema?” “Ela não pensa direito. E aí a minha mãe tem que ficar cuidando dela e não pode trabalhar, e a minha mãe ganha um dinheiro do governo para fazer isso, mas é bem pouquinho.” “Faz muito tempo que você fugiu?” “Dessa vez já faz um mês.” “Dessa vez?” “Já fugi cinco vezes. É que depois de um tempo a polícia me pega, manda para um abrigo, e o abrigo me leva para casa. Aí quando a gente chega lá, a gente apanha mais. E aí foge de novo.” “Como é que você fugiu?” “Lá onde eu moro, que se chama Itapevi, passa muito trem de carga. Aí eu entrei num deles e fugi. Eu e o meu irmão.” “E onde é que vocês dormem?” “Em qualquer lugar.” “E pra comer?” “Eu peço para as pessoas, que nem que eu fiz com o seu sorvete. Mas tem vez que eu fico pedindo dinheiro para as pessoas e aí eu compro comida novinha. Agora eu já tenho sete reais nesse saco.”
Aí eu vi que ela tinha um saco plástico e que tinha mais coisa lá dentro, e eu perguntei se era brinquedo. “É cigarro.” “Cigarro de chocolate?” “Não. De verdade.” “Você fuma?” “Fumo.” “É bom?” “Eu tusso. Mas o meu irmão já fuma direitinho.” “E é bacana não ter casa?” “É bom e ruim. É bom porque a gente faz o que dá vontade. Mas dormir e comer na rua é ruim.” “Você é assim, que nem fala no Jornal Nacional, criança de rua?” “Claro que não. Eu não tô na rua, eu tô na praia. Então eu sou criança de praia.” “E o que você vai ser quando crescer?” Aí ela pensou um tempão e depois respondeu: “Nada.” E aí a Alice, que não é a do país das maravilhas porque ela existe de verdade, foi embora.
Escrito por Lelê às 06h39
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