
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Lelecoatl, o imperador dos astecas (e dos chocolates)
Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê (menos a dona Guadalupe). E hoje eu vou contar uma história que começa na escada e termina no banheiro. Bom, a dona Guadalupe é nossa vizinha. Ela é de um país chamado México, tem cabelo bem preto e parece um pouco índia. Um dia eu estava vindo da escola e ela estava chegando na mesma hora, bem cheia de compras. Então eu perguntei se ela queria ajuda. Ela respondeu: “Sí, gracias, Lelecito” e me deu dois sacos bem pesados para eu carregar. A dona Guadalupe fala uma língua misturada, meia português e meia mexicana. Acho que essa língua devia se chamar mexiguês. Bom, depois que eu levei os sacos de supermercado até a casa dela, a dona Guadalupe falou: “Tengo que pagarte.” Aí eu pensei: “Oba, dinheiro!” E ela disse: “Mas não vai ser com dinero.” Aí eu pensei: “Bah...” E ela disse: “Vai ser com chocolate.” Aí eu falei: “Oba! Se a senhora me desse dinheiro eu ia comprar tudo em chocolate mesmo!”. Aí ela soltou um rá-rá-rá bem alto e falou: “Caramba, Lelê!”, ela falou. “Eu não sabia que você gostava tanto de chocolate”. “É a melhor coisa do mundo! Se eu fosse de chocolate, eu já tinha me comido todo.” “Rá-rá-rá”, riu ela de novo. “Sabe que quando eu era do seu tamanho, eu tenia um pé de cacau no meu quintal, lá no México.”
Aí eu pensei na dona Guadalupe criança, e só consegui imaginar ela igual que nem hoje, só que bem pequena. Uma dona Guadalupinha. Eu nunca consigo imaginar gente adulta com cara de criança. Eu acho que elas sempre foram assim do jeito que elas são agora, só que menorzinhas. Bom, aí a dona Guadalupe abriu uma caixa de chocolate que ela tinha comprado e disse: “Olha o seu pagamento. Pode comer à vontade.” E eu sentei e comecei a comer. Fiquei um tempão ali sem falar nada, comendo um chocolate atrás do outro, e a dona Guadalupe me olhando. Aí uma hora ela cansou de ficar só me olhando e disse “Você sabia que o chocolate foi inventado em México”. “É?” “É. Mas naquele tempo o México não chamava México. Lá tenia um montón de povos índios, e os mais poderosos eram os astecas. Eles é que inventaram o tchocolatl”. “Tchocolatl é chocolate em mexiguês?” “Mexiguês? Não, os astecas fablavam uma língua chamada náhuatl. E o chocolate era tão importante para os astecas que às vezes o cacau era usado como dinero.” “Que legal! Se eu tivesse uma loja eu ia fazer assim também. Uma camisa ia custar dez Diamante Negros e uma calça ia ser vinte Sonhos de Valsa. E o troco eu ia dar tudo em Bis, que é bem pequenininho”. “Ah...”, eu disse sem prestar muita atenção. “E eles tinham dezoito deuses. O mais supimpa era o Quetzacóatl, que era uma mistura de serpente e pássaro.” “Ah...”, eu disse sem prestar muita atenção. “E eles faziam sacrifícios humanos.” “Quê?!”, eu disse prestando a maior atenção. “É, eles matavam animas, homens e até crianças para oferecer aos deuses.” “Poxa, que selvagens!” “Era o costume deles. Mas eles não eram selvagens. Sabiam escrever, tinham calendário, construíram grandes cidades de pedra, com escolas e palácios com paredes decoradas com ouro. Fizeram até pirâmides”. “Que nem os egídios?” “Egídios?” “Os caras das múmias.” “Ah, você quer decir egípcios!” “Isso.” “Eram umas pirâmides diferentes. E lá no alto é que eles faziam os sacrifícios.”
“Que doido, dona Guadalupe! E a senhora é asteca?” “Não, Lelê, os astecas não existem mais”. “Como assim: não existem?” “Faz tempo, chegaram no México uns navegadores espanhóis. Eles viram aquele ouro todo e ficaram com vontade de roubar. Então os espanhóis começaram a guerrear contra os astecas”. “Por que os astecas não deram uma surra nos espanhóis?” “Eles eram um povo desenvolvido, mas não tinham canhões, nem espingardas, nem pistolas. Aí os espanhóis ganharam a guerra e acabaram com eles”. Eu estava achando o maior incrível aquela história de astecas, mas aí aconteceu uma coisa ruim. Eu senti uma pontada na barriga e ela fez assim: "Glup!". E depois: "Bloooou!". E depois: "Buluf!" Então eu disse tchau para a dona Guadalupe e saí correndo. Quando eu cheguei em casa, fui direto descomer o tchocolatl. Depois é que eu vim aqui no computador escrever. Mas tenho que parar agora. Vou de novo no banheiro fazer cocotl. Tchau!
Escrito por Lelê às 07h43
![]() O que Lelê vai ser quando crescer?
Ontem foi o maior chato. É que eu tive que ir numa festa de adulto porque a minha mãe não tinha com quem me deixar. E festa de adulto é o maior chato. É chato porque não tem outras crianças para brincar, porque a tevê fica desligada, porque não tem videogueime e porque não tem cachorro-quente nem sorvete, só uns pãezinhos pequeninhos com umas gosmas em cima. Mas o pior é que em festa de adulto eles falam com a gente como se a gente fosse meio abobado. Por exemplo, quando eu perguntei onde era o banheiro, a dona da casa respondeu: “O banheiro é ali.Você já vai sozinho?” Depois um cara com cara de velho mas com cabelo bem preto me perguntou: “Quantos anos você tem? Seis ou sete?” E uma mulher com unha comprida falou: “Sabe que você está a cara da sua mãe?” Deu vontade de responder: “A cara da minha mãe?! Então eu vou fazer plástica, porque eu sou menino e ela é mulher!” Para o homem de cabelo preto eu ia dizer: “Eu tenho quase nove, mas um dia vou ter cento e vinte que nem você!” E para a dona da casa eu ia falar: “Não, não sei ir no banheiro sozinho. Eu uso fralda!” Pô, adulto não sabe conversar direito! Mas o pior mesmo é que todo mundo quer saber o que você vai ser quando crescer. Parece que é só o que eles sabem falar: “O que você vai ser quando crescer?”, “O que você vai ser quando crescer?”, “O que você vai blá-blá-blá...” Teve um casal que chegou perto de mim e aí ela falou assim: “O que você vai ser quando crescer, Leocádio? Acho que você vai ser médico. Aposto que você vai ficar superbem de branco.” E aí o marido dela disse: “Que nada! Ele vai ser é jogador de futebol.” “Médico!” “Jogador de futebol!” “Médico!!” “Jogador de futebol!!” “Médico!!!” “Jogador de futebol!!!” E aí eles começaram a brigar e eu saí dali, porque eu sei que não vou ser nenhuma dessas coisas, porque eu sou grosso no futebol e quando eu uso roupa branca eu sempre fico o maior sujo. Bom, eu ainda não sei o que eu quero ser quando crescer, mas eu já pensei numas coisas: -eu podia ser palhaço, porque é legal fazer os outros darem risada; -podia ser astronauta, porque fazer viagens espaciais é bacana; -podia ser escritor que nem o meu tio, porque ele trabalha em casa e sempre dá uma paradinha para jogar Playstation; -e podia ser motorista de táxi, porque eles passeiam o dia todo e ainda ganham dinheiro para isso (sem falar que eles devem ser o maior inteligentes, porque sempre sabem a solução para tudo).
Depois eu fiquei pensando que, quando os adultos perguntam o que você vai ser quando crescer, eles querem saber é “em que você vai trabalhar quando crescer.” Mas isso é esquisito, porque a gente não é um trabalho. Os adultos não querem saber se eu vou querer morar numa praia ou num morro, se eu vou querer ter um monte de filho ou nenhum, se eu vou ser engraçado ou sério, se eu vou querer ler muitos livros ou ver muita tevê, se eu vou ser alegre ou triste, se eu vou ser alto ou baixinho. Eles só querem saber no que que eu vou trabalhar. Então eles tinham que perguntar “No que você vai trabalhar?”, e não “O que você vai ser?”. Da próxima vez que um adulto me perguntar o que que eu quero ser quando crescer, eu não vou responder uma profissão, porque eu não quero ser um trabalho, eu quero ser outras coisas também. Quando eu crescer eu quero ser sabido (que nem motorista de táxi), quero saber fazer piada (que nem palhaço), viajar muito que nem astronauta (pode ser aqui na terra mesmo), e jogar Playstation que nem o meu tio (que nem ele, não, melhor, porque ele é meio ruim). E também quero ser altão, alegre, morar na praia, ler livro e ver tevê ao mesmo tempo. Ah, e eu quero ser legal. Mesmo que eu não seja palhaço, astronauta, escritor ou motorista de táxi.
Escrito por Lelê às 07h36
![]() Pedala, Lelê!
O meu avô diz que a obrigação de todo menino é jogar bola, empinar pipa e andar de bicicleta. “Sem isso um menino não é um menino! É uma samambaia!” Eu já tinha jogado bola e tinha empinado pipa, mas não sabia andar de bicicleta. Eu até ganhei uma no Natal, mas ela só ficava encostada na parede, quietinha. Eu falava para a minha mãe que eu não queria andar para não estragar ela, mas é que eu tinha o maior medo de cair e me machucar. Daí um dia a minha mãe botou a bicicleta no carro, a gente foi até a praia e aí ela disse: “Hoje você vai aprender a andar de bicicleta!”
“Mas e se eu me machucar?” “A areia é macia. Você pode cair à vontade.” Então a gente chegou lá, eu subi na bicicleta e perguntei: “E agora?” “Agora é só andar”, ela disse. “Mas eu não tive aula disso.” “Andar de bicicleta não se ensina. É um negócio que a gente aprende fazendo.” “Mas como é que eu vou aprender fazendo se eu não sei fazer?” Aí ela olhou para o céu, que é o que ela sempre faz quando perde a paciência, e disse: “Vamos fazer assim, eu vou te dar um empurrão, depois você pedala, e aí fica mais fácil.” Então ela segurou no guidão e no banco e começou a me empurrar. Aí, quando eu já estava com embalo, ela me soltou. Só que eu esqueci de pedalar. Então a bicicleta foi andando mais devagar, mais devagar..., e pou! Eu caí. “Você tem que pedalar, Lelê!”, a minha mãe gritou. Ela pegou e me empurrou de novo. E de novo eu andei um pouquinho, esqueci de pedalar e pou!, caí com tudo. A gente ficou um tempão assim. Ela me empurrava, eu andava um pouquinho, esquecia de pedalar, e pimba!, caía no chão. Depois de um tempo, a minha mãe já estava o maior cansada. Então ela disse: “Ufa..., só, ufa..., mais, ufa..., uma, ufa..., vez.” E ela me empurrou de novo. E o que foi que aconteceu? Eu caí de novo. E me ralei um montão. O meu joelho ficou sangrando. Aí eu decidi que andar de bicicleta era uma coisa muito difícil e que eu nunca ia conseguir, então eu ia ter que ter uma moto triciclo. Uma mototricleta. Só que passaram uns dias e uma amiga da minha mãe, a dona Litz, foi lá em casa e levou o filho dela, o Dirceu, que tem seis anos. Quando ele viu a minha bicicleta, ele disse: “Posso andar?” Eu pensei “Rá, andar de bicicleta é o maior difícil. Ele vai se esborrachar.” Então eu falei: “Claro que pode, Dirceuzinho.” Ele subiu na bicicleta e começou a andar. Assim, como se fosse a maior moleza! Aquilo me deu uma baita raiva! Como é que um menino de seis anos andava de bicicleta e eu, com oito, não andava?! Então, quando eles foram embora, eu pedi para minha mãe: “Mãe, me ensina a andar de bicicleta?” “Agora não dá para a gente ir para a praia”, ela disse. “Pode ser aqui em frente de casa mesmo.” “No asfalto?” “É.” “Tá bom.” Aí a gente foi para frente de casa, ela me deu um empurrão, eu comecei a pedalar bem forte e... não caí! Eu andei de bicicleta! E era o maior fácil! Então eu fui andando e a minha mãe ficou gritando “Aí, Lelêêêêêêêêêêê!” Foi uma coisa muito legal. Muito mesmo! O vento batia na minha cara e eu estava me equilibrando só naquelas duas rodas. Eu fui indo em frente, pedalando bem rápido e o maior feliz. Só que a minha rua é sem saída. Acaba num muro. Eu não sabia fazer curva. E se eu parasse de pedalar eu ia cair. Então eu achei que era melhor continuar pedalando, porque aí pelo menos eu demorava mais para cair. E eu vi o muro chegando, chegando, chegando..., e pou! Bati nele com tudo! O meu joelho começou a soltar sangue de novo. Mais do que na praia, porque o chão da rua é mais duro que o chão da areia. Eu já ia começar a chorar, mas aí a minha mãe lá de longe gritou assim: “Agora volta!” Então eu dei um jeito de não chorar, peguei a bicicleta, coloquei ela de pé, sentei e comecei a pedalar. E deu certo! Eu andei de novo. E sem ninguém me empurrando. E quando eu cheguei perto da minha mãe eu gritei: “Me segura que eu não sei parar!”, e ela me segurou e eu não caí. No dia seguinte eu andei de novo e até fiz curva, e hoje eu sei andar o maior bem. Acho que esse é o fim da história. E se essa fosse uma historinha de fadas, daquelas que tem moral no final, acho que a moral ia ser assim: “Se a gente parar de pedalar, a gente cai.”
Escrito por Lelê às 06h50
![]() A primeira não-namorada de Lelê
Hoje eu vou contar uma história que é o maior triste. É a minha história com a Elizete, a minha primeira não-namorada. Eu conheci ela faz um tempão, uns três anos, quando a gente estava no pré. Nos primeiros dias lá na escola, a gente ficava quatro em cada mesa, brincando de pintar e de montar coisas com Lego. Na minha mesa quem ficou fui eu, a Elizete, o Roberto, e o Sérgio, que era o maior chato porque quando tinha aula de ginástica ele sempre corria mais que todo mundo. O Roberto era legal. Era o meu melhor amigo. E a Elizete era linda! Ela era meio japonesinha e tinha uma risada legal, porque ela ria muito e baixinho, e eu ficava fazendo gracinha só para ela rir. Às vezes ela ria até quando eu falava sério, pensando que eu tinha falado bobagem de propósito. Aí eu não gostava tanto, mas mesmo assim se ela ria era bom. No pré, quando a gente entrava na classe tinha que fazer duas filas, uma de meninos e outra de meninas, e aí a gente dava as mãos. Eu tentava sempre ficar do lado da Elizete, mas era difícil, porque a fila era por ordem de tamanho e ela era meio alta e eu era baixinho, e por isso eu ficava sempre em segundo lugar na fila (só o Roberto é que era mais baixo que eu). Mas às vezes eu roubava e ia lá para trás e dava a mão para ela. Quando isso acontecia, a minha mão ficava o maior quente e eu ficava bem alegre, daquele jeito que a gente ri sozinho, que nem o meu pai quando o time dele ganha. Nos dias em que eu conseguia dar a mão para a Elizete, eu até andava mais devagar, só para ficar mais tempo de mão dada com ela. Bom, aí, como ela sempre ria para mim, eu pensei: acho que ela gosta de mim. Então eu juntei a maior coragem e um dia, quando a gente estava sozinho na mesa porque o Roberto e o Sérgio tinham ido pegar mais pecinhas, eu perguntei bem rápido: “Quer namorar comigo?” Primeiro ela fez cara de assustada e depois deu uma risadinha. Só que ela ficou calada, não disse não nem sim. Aí eu reperguntei: “Quer?” Ela continuou calada. Eu rerreperguntei: “Hein?” E aí ela riu, baixou a cabeça e disse: “Não.” Poxa, aquilo foi horrível! Como é que ela não queria namorar comigo se ela ria do que eu falava? Ela tinha me enganado! E o pior é que eu fiquei com a maior vergonha, porque eu gostava dela mas ela não gostava de mim. Naquele dia eu não falei mais nada. E no dia seguinte eu mudei de mesa. Aí o Roberto veio perguntar por que que eu tinha mudado de mesa, eu disse que era porque a Elizete não queria namorar comigo. E ele disse: “Nem comigo...” “Você também queria namorar com ela?” “Claro.” “E ela não quis?” “Não.” Pô, não tinha ninguém mais legal que eu que o Roberto na classe, por que ela não queria namorar a gente? Isso não estava certo. Então no recreio a gente conversou e resolveu que ia dar outra chance para ela. Aí a gente foi até o balancê onde ela estava brincando e eu disse: “Oi. Você quer namorar comigo ou com ele?”. E ela respondeu: “Com nenhum.” “Você não gosta de ninguém?”, o Roberto perguntou. E ela disse: “Gosto. Do Sérgio.” Aí a gente disse: “Do Sérgio!?”, e foi falar com ele. “Oi, Sérgio.” “Oi.” “Você sabia que a Elizete gosta de você?” “Sabia.” “Sabia?” “Sabia.” “E você não vai namorar com ela?” “Não.” “Por quê?” “Eu não gosto dela.” Aquela resposta deixou eu e o Roberto com a mesma cara que o meu pai faz quando vê a conta de telefone. Como é que ele podia não gostar da Elizete?! A gente ficou com a maior raiva. Eu só não sei se era porque a Elizete gostava do Sérgio ou se era porque o Sérgio não gostava da Elizete. Então eu olhei para o Roberto e o Roberto olhou para mim e a gente viu que só tinha uma coisa que a gente podia fazer: bater no Sérgio. E a gente saiu correndo atrás dele. Pena que ele corria muito.
Escrito por Lelê às 05h52
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