
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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O carnaval de Lelê no sítio (que não é o do Pica-Pau Amarelo)
Carnaval é legal porque eu não preciso ir para a escola, porque todo mundo fica contente e porque a gente pode usar fantasia. Se a gente pudesse usar fantasia todo dia, a rua ia ficar o maior animada, cheia de índios e piratas. Bom, nesse carnaval, eu, o meu pai e a minha mãe fomos para um sítio de um amigo do meu pai. Sítio é uma casa meio velha, que fica no meio do mato e não tem chuveiro quente. E logo que a gente chegou no sítio aconteceu uma coisa horrível! É que, quando a gente entrou, eu fui direto ligar a televisão. E aí, o que aconteceu? Nada. Nada mesmo! A tevê não ligou. O meu pai mexeu em tudo quanto é botão mas não adiantou. A tevê estava quebrada. Também, ela era o maior antigona. Se ela ligasse, a gente só ia ver programa velho. E depois aconteceu outra coisa horrível! Começou a chover. Daí não tinha nada para fazer. Nadica de nada, que nem o meu avô fala. E eu comecei a ficar chateado e andar para um lado e para o outro, e a minha mãe disse: “Meu deus, a gente vai ficar os quatro dias aqui sem tevê! O Lelê vai subir pelas paredes”. Mas eu não ia, porque eu não sou o Homem-Aranha. Se eu fosse o Homem-Aranha pelo menos eu ia poder atirar minhas teias no teto e ficar balançando. Foi então que a minha mãe viu uma estante de livros cheios de poeira e disse: “Pronto! Problema resolvido! Aqui tem uns livros ótimos! Toma esse, Lelê!” Aí ela me deu um livro bem velho, cheio de poeira, que era esse aqui.
E eu perguntei: “Eu vou ter que ler?” E ela respondeu: “Claro que não. Só lê se você quiser. Mas aqui não tem mais nada para fazer.” Aí eu disse “humpf”, peguei o livro e fui ler numa cadeira bem velha que tinha lá.
Eu comecei lendo o maior chateado, mas aí eu fui achando a história legal. Ela se chamava A Chave do Tamanho e foi escrito por um cara chamado Monteiro Lobato. Ele é quem escreveu as histórias do Sítio do Pica-Pau Amarelo, que eu não li mas vi na tevê. Só que ele escreveu os livros, não os programas de tevê. E o livro é mais legal que o programa de tevê. Eu achei que a Emília é o maior parecida comigo. Se juntasse nós dois numa coisa só a gente ia ser o Emilelê! Bom, na história, a Emília quer acabar com a guerra no mundo (a segunda guerra mundial) porque essa guerra deixa a Dona Benta muito triste. Aí ela decide achar a chave das guerras. Só que em vez de ela desligar a chave das guerras, ela desligou a chave do tamanho, e aí todo mundo do mundo todo ficou com um centímetro. E pelados, porque as roupas delas não tinham encolhido. Eu achei isso o maior legal! O problema é que, quando as pessoas encolheram, tinha umas dirigindo carro, outras no avião, e aí um monte de gente morreu. Foi a maior tragédia. Eu, por exemplo, se estivesse tomando banho na banheira ia morrer afogado, porque a banheira ia virar uma baita lagoa e eu não consigo nadar muito. Bom, no livro a Emília encontra o Visconde (que é um milho mesmo e não um homem vestido de milho) e eles procuram o resto do pessoal do Sítio. Lá ninguém teve muito problema. Só a tia Nastácia é que estava muito brava, porque ela já estava acostumada a ser grande.
A Emília achava que as coisas eram melhores daquele jeito, porque aí não ia mais ter guerra porque ninguém ia conseguir usar os aviões e explodir bombas. Mas nem todo mundo concordou, e ela decidiu viajar pelo mundo com o pó de pirlimpimpim para ver como é que estavam as coisas... Aí ela fala com o Hitler, com o presidente dos Estados Unidos, com o imperador do Japão e..., bom, eu não vou contar o resto porque senão eu estrago a história para quem não leu o livro. Mas eu garanto que o final é legal. Lendo o livro no sítio (que não era o do Pica-Pau Amarelo) o carnaval passou o maior rápido. Acho que foi o livro mais bacana que eu li até hoje. Só que ele não é livro para criancinha pequena, é livro para criança mais grande, que nem eu. E depois eu fiquei me imaginando pequenininho. A grama ia ser uma floresta, um cachorro ia ser do tamanho de um dinossauro e a coleção de carrinhos do meu tio ia ser uma coleção de carrinhos de verdade. Ele tem mais de duzentos! Meu tio ia ficar milionário! Uma coisa que ia ficar difícil ia ser escrever aqui no blog. É que eu ia ter que pular em cima das letras do teclado para escrever, e isso ia me deixar o maior cansado. Mas ia ser legal! Tchau!
Escrito por Lelê às 08h58
![]() A última história das Chapeuzinhos: Chapeuzinho Preto
Bom, no aniversário do meu pai todo mundo ficou contando histórias de Chapeuzinhos que não eram vermelhos. Só falta a história do meu pai, que naquele dia fez 40 anos. É uma história o maior triste-alegre. Ela é assim: Era uma vez, numa vila perto de uma floresta bem escura, uma menina de olhos e cabelos negros.
Todo mundo gostava dela, e a avó dela mais ainda, tanto que decidiu fazer uma pequena capa com capuz para ela. A roupa era muito elegante, toda de veludo negro, e a menina andava para cima e para baixo com ela. Por conta disso, as pessoas começaram a chamá-la de Chapeuzinho Preto. Um dia, a mãe de Chapeuzinho disse: “Filha, leve estas jabuticabas para sua avó, que vive lá no meio da floresta.” “Pode deixar, mamãe, eu vou e volto num minuto.” “Mas olhe, não saia do caminho porque a floresta é perigosa.” Então a menina colocou as jabuticabas numa cesta, deu um beijo na mãe e partiu. No caminho, ela cantava: “Pela estrada afora, Chapeuzinho entrou pela floresta. A cada passo as árvores se fechavam e a mata ficava mais escura. Mas ela não sentia medo e apenas cantava sua musiquinha. Assim foi até que, de repente, o Lobo saiu de trás de uma moita e falou: “Bom dia, menina do Chapeuzinho Preto.” “Bom dia, senhor.” “O que você leva nesta cesta?” “Algumas jabuticabas.” “Hum! São para mim?” “Não, elas são para a minha avó, que vive no meio da floresta.” Naquela hora o Lobo pensou: “Minha fome é interminável. Um dia, com certeza, eu comerei esta pequena.” Mas ele não queria comer Chapeuzinho ali, no meio do caminho, pois as refeições devem ser feitas nas horas certas. Então ele disse: “Está vendo aquela trilha? Ela também vai até a casa de sua avó. É um pouco mais comprida, mas está cheia de tulipas. Por que você não vai por ali e leva umas flores para ela” “Supimpa, senhor! Vou fazer isso mesmo!” Assim, enquanto Chapeuzinho pegou o outro caminho, o Lobo foi por um atalho até a casa da avó. Quando lá chegou, tocou a campainha: “Blem, blem, blem.” “Quem é?”, perguntou a velhinha lá de dentro. “Sou eu, sua netinha”, falou o Lobo disfarçando a voz. “Vim trazer jabuticabas para a senhora.” A Vovó então pôs seus óculos e abriu a porta. Quando viu que era o Lobo e não Chapeuzinho quem estava lá, falou: “Ah, é você? Sabia que viria me buscar um dia. Entre, não repare na bagunça.” Depois de dar um suspiro, o Lobo engoliu a avó e deitou na cama para esperar Chapeuzinho. A menina vinha andando lentamente pela mata, mas tão lentamente que nem viu o tempo passar. Finalmente, quando chegou à casa da avó, tocou a campainha: “Blem, blem, blem.” “Quem é?”, perguntou o Lobo lá de dentro, com voz rouca. “Sou eu, sua netinha, vovó.” “Entre, querida.” Chapeuzinho abriu a porta e foi até a cama da avó. O Lobo estava embaixo das cobertas e usava touca, de modo que só se podia ver uma parte do seu rosto. Percebendo que havia alguma coisa estranha por ali, ela foi se olhar no espelho.
Foi aí que ela viu que tinha passado muito tempo colhendo tulipas. Tanto tempo que já era uma mulher. Então, olhando no espelho, ela perguntou para ela mesma: “Por que eu tenho orelhas tão grandes?” E ela se respondeu: “É porque passei muito tempo na mata e elas cresceram.” “E estes olhos tão grandes?” “É porque agora posso ver mais coisas.” “E estas mãos tão grandes?” “E porque agora posso alcançar o que antes não alcançava.” “E este nariz tão grande?” “É porque agora sou dona do meu próprio nariz.” “E essa boca tão grande?” É porque já posso falar por mim mesma”, disse Chapeuzinho. Depois disso ela virou-se para o Lobo e perguntou: “Onde está minha vovó?” “Eu a engoli”, respondeu ele. “E quem é você?” “Sou o Lobo dos lobos. As pessoas me chamam de Tempo.” “Você também vai me engolir?” “Vou, mas não agora. Vamos comer estas jabuticabas?” Então eles comeram bastante e tiraram uma sonequinha. Como estavam com a barriga cheia, começaram a roncar alto, mas tão alto que um caçador que estava andando por ali escutou o barulho e resolveu dar uma olhada. Quando abriu a porta, o Caçador, que já era bem velho, colocou balas em sua espingarda e deu dois tiros no Lobo. Mas as balas passaram por ele e não lhe fizeram nenhum estrago. Aí o Caçador perguntou: “Lobo maldito!, o que posso fazer para vencê-lo?” “Isso é impossível, caro Caçador, mas nós podemos ser amigos.” “Como?, se um dia você vai me engolir?” “Ora, vamos ser amigos enquanto esse dia não chega.”
E dizendo isso o Lobo pegou as duas jabuticabas que sobraram, deu a menor para o Caçador e a maior para Chapeuzinho, e saiu pela janela dizendo: “Até breve.” E, assim, todos ficaram felizes: O Caçador porque reconheceu que não podia vencer o Lobo. A Vovó porque teve uma vida feliz e demorou para ser engolida. E Chapeuzinho Preto porque aprendeu uma lição: “Deve-se comer as jabuticabas sem pressa.”
Escrito por Lelê às 08h08
![]() O primeiro primeiro dia de Lelê na escola
Hoje eu vou contar como é que foi o meu primeiro dia na escola. Mas não o primeiro dia depois dessas férias. Eu vou contar uma coisa mais legal: o meu primeiro primeiro dia, no pré, quando eu era criança, quer dizer, mais criança. Eu lembro direitinho daquele dia. E faz o maior tempão que ele aconteceu. Uns três anos. Foi um dia o maior terrível! Uns meses antes a minha mãe começou a dizer que eu tinha que ir para a escola. Mas eu disse que não queria, que eu estava bem ali em casa e que vendo televisão eu ia aprender tudo. Aí ela disse que eu ia conhecer uma turma legal da escola; mas eu falei que já tinha uma turma legal no prédio. Aí ela disse que eu precisava fazer faculdade para ganhar muito dinheiro; mas eu falei que o Ronaldinho Gaúcho não fez faculdade e tem o maior carrão, e o tio Torero fez um monte de faculdade e tem uma moto velha. Aí ela disse que poucos conseguem ser jogador de futebol, e por isso eu ia ter que estudar para ter uma profissão; mas eu falei que, quando eu crescesse, queria trabalhar como testador de brinquedos, e para isso eu não precisava ir na escola, precisava ficar em casa brincando. Aí ela perdeu a paciência e disse: “Você vai para a escola e pronto!” Depois disso a gente comprou uniforme, lápis de cor, borracha, caneta, régua, tesoura, estojo, lancheira e mochila, e essa parte foi legal. Mas cada vez que o dia de começar a escola chegava mais perto, ia me dando um negócio assim na barriga. Pô, eu ia ter que falar com um monte de gente que eu não conhecia, entrar num lugar que eu nunca tinha ido, obedecer uma mulher que não era a minha mãe e ainda por cima ia ter que aprender um monte de coisa diferente. Vida de criança é muito dura! No caminho para a escola, a minha mãe falou assim: “O primeiro dia é o mais difícil. Depois fica fácil. E nada de chorar, hein? Você já é um homenzinho.” “Se eu fosse um homenzinho eu não precisava ir para a escola”, eu falei. E depois fiquei calado. Eu estava de maior mau humor e nem tinha vontade de falar com a minha mãe. Aí, quando a gente chegou na escola e eu vi um monte de gente na porta, eu ainda tentei mais uma vez e falei assim: “E se a gente for para casa e voltar amanhã. O primeiro dia é o mais difícil, então, se eu vier só amanhã, eu já começo no segundo.” Não adiantou nada. Então eu desci do carro, passei pelo portão, onde tinha um monte de serventes, que são umas moças que trabalham na escola, e fui entrando. Mas aí começou a me dar a maior vontade de voltar para casa e uma baita saudade da minha mãe. Cada passo que eu dava, eu pensava assim: “Não vou chorar, não vou chorar”. Mas sempre que eu penso isso eu começo a chorar. E aí comecei a chorar muito. Então eu dei meia volta e corri para o portão feito um doido. Mas as serventes me seguraram e não deixaram eu passar. Por isso é que tinha um monte delas lá. Eu dei soco, chutei, mordi, fiz de tudo. Uma delas até falou: “Poxa, esse é forte.” Mas elas eram um monte e eu não conseguia passar. Então, no meio da briga, eu olhei para a minha mãe e vi que ela estava na grade olhando para mim e chorando. E eu pensei assim: “Bem feito, você não queria que eu viesse para a escola.” Aí eu desisti de brigar e entrei. Lá dentro até que não foi tão horrível. A tia Alzira era meio velha e gorda, mas era legal. E ela não deu lição. A tia Alzira foi legal e deu um monte de Lego para a gente brincar. E no segundo dia deu umas coisas para a gente pintar. Só depois de um tempo é que ela começou a ensinar umas coisas. Mas aí eu já tinha acostumado com a escola e tinha uns novos amigos legais e tinha conhecido uma menina bonita chamada Elizete (qualquer dia eu conto a minha história com a Elizete, que é o maior triste). Hoje eu acho bom ter ido para a escola. O primeiro dia foi fogo, mas depois foi legal porque eu aprendi a escrever, e, se eu não soubesse escrever, não ia ter nada escrito nesse blog, e deve ser chato ler uma coisa onde não tem nada escrito. Tchau!
Escrito por Lelê às 07h24
![]() Chapeuzinho Marrom
Puxa, eu esqueci de contar a história da Chapeuzinho Marrom que a minha mãe contou. É uma história o maior feliz. Ela é assim: Era uma vez, numa pequena vila perto de uma triste floresta, uma menina de olhos e cabelos castanhos. Todos gostavam muito dela, e sua avó mais ainda, de modo que decidiu fazer-lhe uma pequena capa com capuz. A roupa era de veludo marrom e a menina nunca o tirava, fosse para brincar ou para limpar a lápide de seu pai, que havia morrido recentemente. Por conta disso, todos na vila começaram a chamá-la de Chapeuzinho Marrom. Um dia, sua mãe chamou-a e disse: “Chapeuzinho, leve marrom-glacê para sua avó, que vive lá no meio da floresta. Ela está sempre sozinha, nunca ninguém vai visitá-la e isso vai fazer com que ela se sinta melhor.” “Pode deixar, mamãe, vou levar estas coisas para a minha solitária vovozinha.” Então a menina colocou o marrom-glacê numa cesta, deu um beijo na mãe e partiu. No caminho, ela cantava: Chapeuzinho foi entrando pela floresta até que, de repente, o Lobo saiu de trás de uma moita. “Bom dia, menina do Chapeuzinho Marrom.” “Bom dia, senhor.” “O que você leva nesta cesta?” “Um marrom-glacê.” “E isso é para mim?” “Não, sinto muito. Estou levando essas coisas para a minha avó, que vive lá no meio da floresta.” Então o Lobo pensou: A vida não está nada fácil aqui na floresta. Estou com tanta fome que sou capaz de comer tudo que encontrar na casa da avó desta menina e depois a avó e depois ela mesma e depois o marrom-glacê de sobremesa. Mas ele não podia comer Chapeuzinho ali, no meio do caminho, pois algum Caçador poderia escutar os gritos da menina. Foi quando o Lobo teve uma idéia e disse: “Está vendo aquela trilha? Ela também vai até a casa de sua avó. É um pouco mais comprida, mas está cheia de lojas de chocolate. Por que você não vai por ali e pega um monte de bombons para a sua avó? Aposto que ela vai gostar.” “Que saborosa idéia, senhor. Vou fazer isso mesmo!” Assim, Chapeuzinho pegou o outro caminho, que era realmente muito bonito. Foi catando folhas pelo caminho e nem viu o tempo passar. Enquanto isso, o Lobo foi pelo caminho mais curto até a casa da avó. Quando lá chegou, bateu na porta: “Poc, poc, poc.” “Quem bate?”, perguntou a velhinha lá de dentro. “Sou eu, sua netinha”, falou o Lobo disfarçando a voz. “Vim trazer um marrom-glacê para a senhora.” A Vovó então levantou-se, calçou suas polainas e abriu a porta. Quando ela viu que era o Lobo, e não Chapeuzinho quem estava lá, não se importou. Ela sabia que ia ser devorada, mas vivia tão só e esquecida que achou bom ter, ao menos por um breve instante, uma companhia. E, de fato foi apenas um breve instante, porque o faminto Lobo saltou sobre ela e a devorou antes que ela pudesse dizer “Fique à vontade”. Depois de dar um pequeno soluço, o Lobo disfarçou-se de vovó e deitou na cama para esperar Chapeuzinho. A menina vinha bem devagar pela mata, colhendo folhas, escutando os pássaros, brincando com esquilos, bebendo água das fontes e cantando sua música. Finalmente, quando ela chegou à casa da avó, bateu na porta: “Poc, poc, poc.” “Quem bate?”, perguntou o Lobo imitando a velhinha. “Vovó, sou eu, sua netinha.” “Entre, minha querida, eu não via a hora de você chegar.” Chapeuzinho abriu a porta lentamente e foi até a cama da avó. O Lobo estava embaixo das cobertas e usando a touca, de modo que só se podia ver um pouco de seu rosto. A menina, percebendo que havia alguma coisa esquisita no ar, perguntou: “Por que você tem orelhas tão grandes?” “São para ouvir a comida chegando.” “E estes olhos tão grandes?” “São para ver a comida direito.” “E estas mãos tão grandes?”! “São para pegar a comida.” “E este nariz tão grande?” “É para sentir o cheiro da comida.” “E essa boca tão grande?” “É para comer a comida, que por sinal é você!”. E, dizendo isto, o Lobo saltou sobre a menina, mas, antes que ele a engolisse, ela ergueu a mão e disse: “Quero que o senhor saiba que eu não me importo de morrer, porque sou uma menina muito triste, pois amava meu pai e ele morreu.” O Lobo, que era muito emotivo, não esperava ouvir aquilo. Deprimido, ele deu um passo para trás e começou a chorar. Chapeuzinho, com medo, também começou a chorar. Então um caçador que estava andando por ali escutou aquele barulheira e resolveu dar uma olhada. Quando abriu a porta e viu o Lobo e Chapeuzinho chorando, ele colocou balas em sua espingarda e apontou para o Lobo. Mas, quando ia atirar, ouviu a porta fazer um nhéc. Era a mãe de Chapeuzinho que vinha chegando. Ela e o Caçador trocaram um olhar como se se conhecessem há muito tempo: “Por acaso”, perguntou o Caçador, “você não é uma linda moça que morava numa casinha no alto da colina?” “Sou”, respondeu a mãe de Chapeuzinho Marrom. “E você, por acaso, não era meu vizinho?” “Seu vizinho e admirador. Confesso que eu era apaixonado por você.” “Que coincidência! Eu também tinha uma quedinha por você. Mas aí você se mudou, eu me casei e tive essa bela menina. Desde que o pai dela morreu estou sozinha.” Os dois estavam no maior bate-papo quando a avó gritou lá de dentro da barriga do Lobo: “Me tirem daqui!” O caçador falou: “Você se importa se eu tirar a Vovó de dentro da barriga do Lobo antes de a gente continuar a conversa?” “Não, não, vá em frente.” Aí o Caçador apertou a barriga do Lobo com força e a Vovó saiu de lá num pulo. A desengolida velhinha, quando se viu livre, falou: “Muito obrigada, senhor Caçador. O senhor salvou a minha vida. Se bem que a minha vida é tão solitária que eu nem me importei de ter sido engolida!” “Sua vida não será mais solitária, minha senhora. Eu vou pedir a mão de sua filha em casamento e, se ela aceitar, nós vamos morar todos juntos.” “Pois eu aceito!”, disse a mãe de Chapeuzinho. Ao ouvir isso, a menina falou: “Que bom! Agora vocês têm um ao outro, vovó tem companhia e eu tenho um pai! Mas e o Lobo?” Nesse momento o Lobo acordou, e disse: “Eu só queria um pouco de comida. Que tal se vocês me adotassem como lobo de estimação?” E, assim, todos ficaram felizes para sempre: O Caçador porque se casou com a mãe de Chapeuzinho Marrom. A Vovó porque passou a ter companhia. O Lobo porque voltou a comer todos os dias. E Chapeuzinho Marrom porque aprendeu uma lição: “Às vezes as histórias terminam bem para todos. Mas que parece mentira, parece.”
Escrito por Lelê às 07h20
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