
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos
Lelê é o sobrinho fictício do ![]()
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Lelê, o jogador pirata
O meu tio comprou uma coisa chamada quitinete, lá em Santos (que o meu tio chama de "cidade dos semáforos"), e convidou a minha mãe para ir conhecer o treco. Então a minha mãe disse que a gente ia sim e aproveitava para dar uma volta. Aí eu pedi se eu podia levar o meu amigo Gustavo, porque é muito chato viajar só com adulto, e ela disse que eu podia. Então a minha mãe ligou para a mãe do Gustavo e perguntou assim para ela: “Oi, Rosângela, eu vou para Santos com o Leocádio e ele que levar o Gustavo. Você deixa ele ir com a gente?” A mãe do Gustavo respondeu o maior rápido: “É claro que deixo! A mala dele fica pronta em três minutos. Não, em um! Pensando bem, ele nem precisa de mala! Pode passar aqui já!” As mães da gente gostam que a gente se divirta. Mas aí a minha mãe explicou que só ia no dia seguinte, e deu tempo da mãe do Gustavo fazer uma mala bem grande, com roupa de praia, de frio, de calor, bandeide, pasta e escova de dente (eu não sei pra quê), pente (também não sei pra quê) e até um boné. Ela também disse pra ele se comportar direito e não fazer um monte de coisas, mas ele disse que esqueceu que coisas que eram. Bom, aí a gente entrou no carro (o meu tio e a irmã dele que é a minha mãe foram na frente e eu e o Gustavo, atrás) e foi para Santos. Quando a gente chegou lá, a primeira coisa foi ir na quitinete do meu tio. Quitinete é um apartamento em que a sala também é quarto e também é cozinha. Mas o banheiro é separado. Ainda bem. Depois o meu tio e a minha mãe começaram a discutir sobre aonde a gente ia. Ele queria ir no Museu do Santos. Ela queria dar uma volta de barco. Então a gente combinou que primeiro ia no barco e depois no Museu. Daí a gente foi até um lugar chamado Ponta da Praia, mas que não tinha praia, e entrou num barco grandão. Eu achei bacana, porque eu nunca tinha andado de barco. Depois de um tempo, o barco saiu pelo mar e a gente passou na frente de uma fortaleza, que não é aquela de Bertioga mas que também é legal. Aí eu tirei uma foto da fortaleza, do Gustavo e do braço da minha mãe.
Eu e o Gustavo gostamos de andar de barco, então a gente combinou que quando a gente crescer a gente vai ser pirata. No barco tinha comida para vender e eu e o Gustavo ficamos comendo batatinha de saquinho. Já o meu tio não quis comer nada, o que foi bem esquisito, porque ele sempre tem fome. Ele estava meio verde e não conseguia olhar para o mar. “Eu estou meio enjoado, vendo tudo torto...” Mas aí a minha mãe riu e falou que os prédios de Santos eram meio tortos mesmo.
Aí eu olhei direito e vi que tinha uns que pareciam que estavam caindo em cima dos outros, que nem o cinza, do lado esquerdo, e o branco do meio, que parece que vai cair em cima do azul. Olhando lá para os prédios, a minha suspirou e disse: “Acho que isso é o mais perto que eu vou chegar da Torre de Pisa.” Bom, depois a gente comeu (só o meu tio Torero é que não comeu nada porque ainda estava enjoado) e fomos lá para o Museu do Santos.
Eu que tirei essa foto aí de cima. O Gustavo está no meio de uma foto do Pelé e do Pepe. O meu tio disse que esses dois são os maiores jogadores da história do Santos,e pelo tamanho na foto eles grandes mesmo. Uma coisa que eu gostei muito no Museu foi dessa vitrine aqui.
A minha mãe me explicou que essas coisas são flâmulas, e que os capitães (ou será que é capitões?) dos times fazem uma troca de flâmulas antes de começarem os jogos internacionais. Daí eu vi que o Santos tinha viajado bastante e que ser jogador de futebol deve ser um emprego bom para quem gosta de viajar, que nem pirata. Só que para ser jogador de futebol tem que ser bem forte, porque quando ganha um campeonato tem que levantar um troféu bem pesado, que nem esse aí:
Se o Gustavo ganhasse esse troféu, não ia conseguir levantar ele. Mas ia caber lá dentro, e aí o resto do time ia carregando ele lá. Bom, daí, na volta, quando a gente estava no carro, o meu tio perguntou o que que a gente ia ser quando crescer, e a gente, eu e o Gustavo, decidiu que o mais legal é ser pirata e jogador de futebol. “Não dá para ser as duas coisas”, disse o meu tio. Mas eu expliquei que dava sim, porque a gente vai fazer um time de piratas que fica viajando de barco de uma cidade para outra para jogar futebol, e no caminho a gente ataca os outros navios. “Mas aí vocês estão juntando duas coisas numa só”, ele falou. “É um emprego-quitinete”, eu disse. E aí ele parou de botar defeito no nosso trabalho.
Escrito por Lelê às 06h06
![]() As férias de Lelê
Sempre que a gente volta de férias, a professora manda a gente escrever uma redação chamada “Minhas férias” Então, para ir adiantando, eu já vou começar a dizer aqui como é que elas foram. Uma coisa muito bacana que aconteceu foi quando a gente foi para Bertioga. Bertioga é uma cidade que tem praia. A gente ficou na casa de uma amiga da minha mãe e também tinha outros amigos da amiga da minha mãe, e eles tinham filhos que eram a Vivian, o Victor e a Catarine, e foi o maior legal. Casa de praia é bem diferente de casa de verdade, porque tem um monte de ladrilho e cada móvel é de um jeito. O quarto que eu fiquei era bacana. Tinha uma cama grande para os meus pais, uma pequena para mim e uma televisão quebrada de uma marca que eu nunca tinha visto. Acho que ela deve ser bem velha, porque ela tem uma umas cores no canto de cima para avisar que ela é colorida, e hoje em dia não precisa mais disso.
Outra coisa bacana em casa de praia é que lá a gente pode fazer uma porção de coisas que não pode fazer na nossa casa de verdade. Pode correr, fazer bagunça, ficar acordado até tarde, pôr cadeira de praia na sala, comer porcaria, dormir até tarde e entrar com o pé cheio de areia. Quer dizer, em casa eu também faço isso, mas na praia é diferente porque eu não levo bronca. O que eu mais gostei na casa de praia foram os negócios de acender a luz, que se chamam interruptores mas deviam se chamar ligadores, porque eles não interrompem, eles ligam. Vou colocar umas fotos deles:
A casa ficava bem em frente à praia, e isso é muito bom porque aí a gente só tem que atravessar a rua e pronto, já está na areia. Se alguém tiver com preguiça, nem precisa ir, é só ficar olhando de longe, que foi o que o meu pai fez. Ele pegou uma cerveja, deitou na rede e ficou lá deitadão, sem fazer nada. A minha mãe perguntou para ele: “Por que você não vai na praia jogar uma bolinha?” E ele respondeu: “A única gota de suor que eu quero ver hoje é na lata de cerveja.” Então a minha mãe saiu dizendo “Não foi com isso que eu me casei...”, e o meu pai ficou cantando uma música que dizia “Eu sou assim, quem quiser gostar de mim, eu sou assim...” A vista lá da rede do meu pai era essa aqui:
No almoço teve churrasco. Também tinha farofa e salada, mas a salada ninguém quis. O pessoal parecia que estava fazendo um concurso de quem comia mais. Era só sair umas lingüiças e todo mundo atacava. Ainda bem que a mesa das crianças ficava meio longe. Eu comi um monte de pedaço de carne e depois fiz um cocô bem fedido. Aí eu perguntei para a minha mãe por que o cocô é fedido se a comida cheira bem, e ela me disse que é porque no intestino tem um monte de bactérias, que são uns bichos muito pequenos que dividem a comida em muitos pedacinhos para ajudar a digestão. Essas bactérias soltam uns gases que são fedidos, e como a carne é difícil de quebrar em pedacinhos, as bactérias acabam trabalhando muito e soltando mais gases. Depois de explicar isso, ela olhou para mim, riu e disse: “Viu? Cocô também é cultura.” Nas férias a minha mãe fica meio doida. Bom, aí de noite a gente foi passear e estava bem legal, porque ainda não era noite mas também já não era dia, e tudo ficava meio amarelo. Eu até tirei uma foto de um barco:
Mas o mais legal é que a gente andou mais um pouco e viu um forte. Um forte de verdade! Eu nunca tinha visto um forte de verdade, e o meu pai disse que aquele é o mais velho do Brasil e que tinha quase quinhentos anos. Aí eu disse “Melevamelevameleva?” E a minha mãe falou que hoje já estava fechado, mas que no dia seguinte ela levava. E levou mesmo. De noite o forte é assim:
E de dia é assim:
O preço do ingresso é bem barato. Só um real. O nome do forte é Forte de São João e lá dentro tem um monte de coisa bacana. Tem umas armaduras de verdade que os portugueses trouxeram para fazer guerra aqui, mas como no Brasil faz muito calor, eles só usavam a parte do peito.
Tem também umas lanças, umas espadas e uns escudos com o símbolo do Cabral, que são umas cabras, e uns eu achei isso o maior legal. Se eu tiver um escudo, o símbolo vai ser uma bola de futebol. Outra coisa bacana eram uns canhõezinhos bem pequenos, que pareciam de brinquedo e atiravam umas bolas do tamanho de uma goiaba. Quando a minha mãe viu eu olhando para eles, disse: “ Nem adianta que você não vai ter um desses.” A minha mãe adivinha o que a gente pensa.
Mas o que eu achei mais legal é que dentro do forte fizeram uma oca de índio, onde colocaram um monte de estátua de índio. Uns ficavam na rede, outros ficavam fazendo fogueira e tinha esses aqui, de pé num canto.
Aí o meu pai me explicou que, quando os portugueses chegaram, eles não se deram muito bem com os tupinambás, que eram os índios que viviam aqui. Tanto que em 1547 os tupinambás incendiaram o forte e queimaram o povoado dos portugueses, que se chamava Buriquioca, que na língua dos índios quer dizer “Morada dos Macacos”. Mas os portugueses mataram uns índios, consertaram o forte e em 1565 saiu uma turma daqui para fundar o Rio de Janeiro. O chefe era um tal de Estácio de Sá. “Poxa, aquela cidade grandona foi feita por uma turma que saiu daqui?”, eu perguntei para o meu pai. E ele disse: “É. E depois o Estácio de Sá fundou uma escola de samba.” Eu achei muito bacana visitar o forte. Foi melhor do que ter aula de história. Aí eu falei assim para a minha mãe: “Mãe, nas férias eu aprendi mais coisa que na escola, porque agora eu sei porque o cocô é fedido e conheço esse forte, que foi o primeiro do Brasil. Eu acho que se...” Ela nem deixou eu acabar de falar e disse: “Nem adianta, Lelê! Eu não vou deixar você ficar mais tempo de férias porque você acha que aprende mais assim do que na escola. Pode ir tirando o cavalinho da chuva.” A minha mãe adivinha o que a gente pensa.
Escrito por Lelê às 06h40
![]() Uma história de tirar o chapéu
Meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama mesmo é de Lelê. Agora eu vou fazer uma coisa que eu acho o maior legal: voltar no tempo. Em filme tem sempre uma máquina grandona, tipo um túnel listrado ou um supercarro que faz a gente voltar no tempo, mas escrevendo a gente só precisa de umas letras. Quer ver? Olha só: Era a noite do aniversário do meu pai. Viu? A gente voltou mais de um mês e foi o maior fácil. Vou fazer de novo: Era a noite do aniversário do meu pai. Naquela noite ele, a minha mãe, o meu avô, o tio Torero, o tio Pimenta e a tia Márcia estavam contando as histórias das Chapeuzinhos. Teve a história da Chapeuzinho Abóbora, a da Chapeuzinho Lilás e a da Chapeuzinho Verde-Musgo que o tio Pimenta contou, mas aí todo mundo não gostou da história e jogou brigadeiro nele. Um dos brigadeiros fui eu que joguei. Mas aí foi o maior maus, porque eu errei a direção e ele ia acertar bem na cabeça do vovô. Sorte que o tio Torero deu um pulo e pegou o brigadeiro. O meu tio ia ser um goleiro bem bom se em vez de bola se jogasse com brigadeiro. Bom, aí ele engoliu o brigadeiro e fez assim: “Hummm...” E depois disse: “Bom, já que vocês não gostaram da história do Pimenta eu vou contar a minha história, que é de tirar o chapéu: a história da Chapeuzinho Azul”.
Escrito por Lelê às 08h25
![]() Chapeuzinho Azul Era uma vez, numa pequena vila perto de uma pequena floresta, uma menina de olhos da cor do céu. Todo mundo gostava dela, e sua avó mais ainda, tanto que decidiu fazer uma pequena capa com capuz para ela. Essa roupa era de veludo azul e a menina estava sempre com a roupa, até quando brincava de teatrinho no quintal. Por causa disso, todo mundo na vila começou a chamá-la de Chapeuzinho Azul. Um dia, sua mãe chamou-a e disse: -Chapeuzinho, leve esta torta de amoras azuis para sua avó, como você sempre faz. -Pode deixar, mamãe, eu vou levar a torta. -E tome cuidado, ouviu? Vá direto para a casa da sua avó e não saia do caminho, porque a floresta é perigosa. Então a menina colocou a torta de amoras numa cesta, deu um beijo na mãe e partiu. No caminho, ela cantava: “Pela estrada afora, Chapeuzinho caminhou floresta adentro. A cada passo o caminho ficava mais estreito e a mata ficava mais escura. Até que, de repente, o Lobo saiu de trás de uma moita e disse: -Bom dia, menina do Chapeuzinho Azul. O que você leva nesta cesta? -Uma torta de amoras. -Para mim? -Infelizmente, não, senhor. Estou levando essas coisas para a minha frágil e indefesa avó, que vive lá no meio da floresta. Então o Lobo pensou assim: "Chapeuzinho Azul é bem bobinha. Vou comer sua avó, depois ela e ainda vou pegar essa torta de amoras de sobremesa." Mas ele não podia devorar a menina ali, porque algum Caçador poderia escutar os gritos dela. Foi quando ele teve uma idéia e disse: -Está vendo aquela trilha? Por que você não vai por ali e pega um monte de miosótis azuis para a sua avó? Aposto que ela vai gostar. -Que boa idéia, senhor. Vou fazer isso mesmo! Assim, Chapeuzinho pegou o outro caminho e saiu catando flores alegremente. Enquanto isso, o Lobo foi pelo caminho mais curto até a casa da Vovó. Quando chegou, bateu na porta: -Pou, pou, pou. -Quem é?, perguntou a velhinha lá de dentro. -Sou eu, sua netinha -, falou o Lobo disfarçando a voz. – Eu vim trazer uma torta de amoras para a senhora. Abra a porta, Vovó. A Vovó então levantou-se, pegou uma espingarda e abriu a porta. Quando ela viu que era o Lobo quem estava lá, nem titubeou. Puxou o gatilho e, bang!, deu um tiro no peito do Lobo. Depois disso a Vovó pôs o Lobo para assar no forno e deitou-se para esperar Chapeuzinho. A menina vinha bem devagar pela mata, colhendo flores, escutando os pássaros, brincando com esquilos, bebendo água das fontes e cantando sua música. Finalmente, quando ela chegou à casa da avó, bateu na porta: -Pou, pou, pou. -Quem é?, perguntou a Vovó. -Sou eu, sua netinha. Posso entrar? -Entre, querida, eu não via a hora de você chegar. Chapeuzinho abriu a porta e foi até perto da cama. A Vovó estava embaixo das cobertas e usava uma touca enorme, de modo que só se podia ver uma pequena parte de seu rosto. A menina, percebendo que havia alguma coisa esquisita na avó, perguntou: -Por que você tem orelhas tão grandes? -São para ouvir melhor os lobos. -E estes olhos tão grandes? -São para ver os lobos de longe. -E estas mãos tão grandes? -São para pegar grandes pedaços de carne de lobo. -E este nariz tão grande? -É para sentir o cheiro dos lobos no forno. -E essa boca tão grande? -É para comer carne de lobo! -, gritou a Vovó com alegria. E depois de dar uma grande gargalhada ela, falou: - Realmente este nosso plano nunca dá errado, não é, Chapeuzinho Azul? -É verdade, Vovó. Os lobos sempre caem no nosso truque. E aí as duas foram até o fogão, tiraram a travessa do forno e comeram o Lobo de uma só vez. Depois disso, elas foram tirar uma sonequinha. Como estavam com a barriga muito cheia, logo começaram a roncar bem alto. Tão alto que um Caçador que estava andando por ali escutou aquele barulho, pensou que alguém estivesse passando mal e resolveu dar uma olhada. Quando abriu a porta e viu aqueles restos de comida nos pratos, o Caçador ficou com muita raiva. Ele não imaginava que veria o Lobo em pedaços, comido por aquelas duas. Então ele apontou sua espingarda para elas e disse: -Vocês estão presas! -Nós? Por quê, senhor Caçador? -Esse Lobo é de uma espécie em extinção, que está desaparecendo da floresta. E sabe por que eles estão desaparecendo? Porque vocês andam comendo os coitados. Aí ele pegou dois pares de algemas, prendeu as duas e levou-as para a delegacia, onde elas ficaram presas por muitos e muitos anos. Fim! Eu achei legal aquela história e achei o maior dez quando o Caçador prendeu as duas. É que nem nos filmes que eu gosto de assistir, que os meus pais não deixam e falam assim: Isso não é para a sua idade, Leocádio. O meu avô achou ela meio esquisita e falou assim: “Pelo menos ensina a gente a tratar bem dos bichos.” E a tia Márcia falou: “Pois é, ela é bem bacana, mas eu fiquei chateada quando o Lobo morreu.” E o tio Pimenta falou: “É, foi meio triste, mas, se o Lobo não morrer, não parece história de Chapeuzinho.” E o meu pai falou: “Eu sei, mas precisava ser justo o bonzinho da história.” E o tio Torero falou: “Espera aí, ele não era tão bonzinho. O plano dele era comer a Vovó e a Chapeuzinho. Falando em comida, que horas a gente vai cortar o bolo?” Aí a minha mãe, que sempre fala por último, disse: “Pode até ser agora, mas aí eu não vou contar a minha história, que é a da Chapeuzinho Marrom.” Então todo mundo, menos o tio Torero, gritou: “Conta, conta, conta!” E aí a minha mãe começou a contar a história que eu só vou contar na semana que vem.
Escrito por Lelê às 08h14
![]() Os três desejos do Lelê
O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê (se bem que às vezes eles me chamam de lelé, lelé da cuca). Passar de um ano para outro é muito engraçado. Num segundo a gente está num ano e no outro já foi para o ano seguinte. Isso quer dizer que se a gente ficar embaixo d’água nesses dois segundos, vai poder falar que ficou um ano sem respirar. No jantar teve um monte de comida, mas a que eu gostei mais foi uma coisa chamada rabanada. Quando minha mãe disse que ia fazer isso, me deu o maior nojo porque eu pensei que era rabo de bicho frito, mas rabanada não é isso, é um pão bem gostoso. Eu também gosto de panetone e de chocotone, só não entendo porque não tem essas coisas (e ovo de Páscoa) o ano todo. Bom, o mais bacana do Ano Novo lá em casa é que cada um faz três desejos que o meu tio escreve num caderninho, e aí no ano seguinte a gente vê quem fez mais pontos. No ano passado, os desejos do meu avô foram: ganhar o campeonato de dominó, trocar de dentadura e conseguir uma namorada. Ele não fez nem um ponto, porque ficou em segundo no campeonato (mas diz que roubaram ele), não trocou a dentadura e nem conseguiu uma namorada. Aí a minha mãe disse: “Também! Só joga dominó e fica com essa dentadura aí, como é que vai arranjar uma namorada?” Aí ele deixou a dentadura cair até o meio da boca, fez uma cara de monstro e rosnou para ela. O meu avô faz uma cara de monstro legal com essa dentadura. Tomara que ele não troque mesmo. Os desejos da minha mãe eram aprender a nadar, voltar a fazer ginástica e perder dois quilos. Mas ela não entrou na natação, não voltou para a ginástica e engordou dois quilos. Fez zero pontos. Então todo mundo começou a vaiar ela. Mas a minha mãe disse que em 2007 ia ser diferente e ela até ia manter os três desejos. Acho que ela vai perder de novo. Os três desejos do meu tio eram engraçados: ele queria largar todos os empregos, ficar só escrevendo e viver da venda dos livros dele. “E aí?”, minha mãe perguntou meio rindo. Aí o meu tio disse: “Eu até que consigo viver da venda dos meus livros. É só eu perder esse vício de almoçar e jantar todo dia.” O meu tio também não fez ponto. Os desejos do meu pai eram: comprar um carro novo, ser promovido e tirar um mês inteirinho de férias. “Conseguiu, pai”?, eu perguntei. E ele respondeu: “Não comprei carro novo mas troquei tanta peça daquele calhambeque que é quase outro. Não fui promovido mas também não fui despedido. E não tirei férias mas fiquei duas semanas doente e não fui trabalhar.” Ele queria ganhar meio ponto por cada coisa, mas todo mundo reclamou e ele ficou com zero mesmo. Bom, e os meus desejos foram jogar bola, tomar sorvete de chocolate e brincar de carrinho. Eu consegui as três coisas. E um monte de vezes! Então no final eu ganhei de três a zero, zero, zero, zero. Foi o maior fácil. Gente grande pede coisa muito difícil. Depois eu é que sou lelé da cuca.
(PS: Se você quiser, escreve aqui os seus três desejos e no ano que vem a gente vê se você fez três pontos.)
Escrito por Lelê às 05h10
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