BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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O Natal do Lelê


Eu acho que o Natal é o dia mais legal do ano. É até melhor do que aniversário e do que Dia da Criança, porque em todos esses dias a gente ganha presente, mas no Natal as ruas ficam cheias de luzinhas e todo mundo parece mais contente.

O Natal lá em casa teve o meu pai, a minha mãe, o meu avô e o meu tio Torero (que chegou antes de todo mundo e ficou beliscando as comidas).

Primeiro a minha mãe rezou e depois a gente começou a comer à beça. Quando o meu tio estava mordendo uma coxa de peru, ele até disse assim: "O Natal é a época em que a gente reza feito anjo e come feito animal!" Mas aí a minha mãe olhou feio para ele e ele falou: "Animais angelicais, maninha."

Para jantar teve bacalhau e peru, e de sobremesa teve panetone e sorvete. Eu misturei o panetone e o sorvete e ficou bem bom. Mas o bacalhau com o peru ficou meio esquisito.

O mais legal veio depois, na hora de entregar os presentes. Eu ganhei um monte!

A minha mãe, que é corintiana, me deu um uniforme do Corinthians. O meu pai, que é palmeirense, meu deu um uniforme do Palmeiras. O meu tio, que é santista, me deu um uniforme do Santos. E o meu avô, que é são-paulino, me deu um uniforme do São Paulo.

Mas o que eu mais gostei foi do presente do Papai Noel, que ele deixou na árvore de Natal lá de casa. O Papai Noel me deu uma bola de futebol novinha, e uma bola de futebol nova é a coisa mais bonita que tem, nem dá vontade de tirar do plástico, porque ela não tem nenhum esfolado, nenhuma marquinha, é perfeita.

Eu gostei mais da bola do que dos uniformes porque bola é brinquedo, e é melhor ganhar brinquedo que ganhar roupa, se bem que uniforme é uma roupa de brinquedo, mas bola é brinquedo de brinquedo, por isso é melhor ainda.

Bom, aí, em vez de todo mundo jogar bola comigo, eles ficaram falando para eu experimentar os uniformes, porque se não servisse tinha que trocar.

Experimentar roupa é muito chato porque sempre atrapalha o que a gente está fazendo. Pior ainda é sair para comprar roupa com a minha mãe, porque aí ela me faz experimentar um montão de coisa, mas a gente sempre acaba escolhendo a que ela gosta e nunca um uniforme do Homem-Aranha, que é muito mais legal.

Então eles falaram tanto que eu fui experimentar os uniformes.

Para ser mais rápido, eu botei a camisa do São Paulo com o short e as meias do Palmeiras. Quando eu saí do banheiro todo mundo achou esquisito, mas aí eu expliquei que estava com o uniforme do São Paumeiras.

Aí eu botei o uniforme do Sanrinthians, que é a mistura de Santos e Corinthians.

E depois misturei tudo e ficou o São Sanmeirintians

Então a gente tirou um monte de fotos e estava tudo bem animado, até que tocaram a campainha.

Eu pensei: “É o Papai Noel! Ele veio me trazer outra coisa, só que não deu pra ele entrar porque a gente não tem chaminé, então ele tocou a campainha!”. E aí fui correndo abrir a porta.

Mas não era o Papai Noel. Eram uma mulher e um menino do meu tamanho. Eles estavam querendo comida.

Aí a minha mãe foi fazer dois pratos para eles. E o meu pai falou para mim: “Por que você não dá um presente para o menino?”

E aí eu respondi: “Isso é serviço do Papai Noel.”

Mas o meu pai falou assim: “Como que o Papai Noel vai entregar o presente para ele se ele não tem casa?”

Aí eu disse “É mesmo... Tá bom.” e fui buscar um presente.

Eu procurei na minha caixa de brinquedos e achei uma bola bem velha que eu não queria mais, porque ela já estava toda esfolada e meio murcha. Então eu peguei a bola e ia dar ela para o menino, mas aí o meu pai perguntou:

“Lelê, essa bola não está muito velha?”

E eu falei “Tá.”

“E você ia gostar de ganhar uma bola velha?”, ele me perguntou.

E eu disse “Não.”

“Pois é, Lelê, você tem que dar para ele uma coisa bacana, uma coisa que você ia gostar de ganhar. Senão não é presente, é esmola.”

E o meu avô falou: “Faz de conta que você é o Papai Noel. Você ia dar uma bola furada para ele? É claro que não.”

E o meu tio perguntou: “Se você fosse o Papai Noel, o que você acha que aquele garoto merecia?”

Aí eu fiquei sem saber o que fazer e não consegui pensar direito. O que que eu ia dar para ele se eu fosse Papai Noel? O que será que ele merecia ganhar?

Sei lá porquê, eu peguei a minha bola nova e levei até a porta, onde o menino e a mãe dele estavam comendo.

Eu falei “Toma”, e dei a bola para o menino. Ele parou de comer, pegou a bola e ficou olhando para mim. Acho que ele não entendeu nada. Nem eu.

Então eu voltei para dentro de casa, fui para o meu quarto e comecei a chorar. Mas eu não sei se eu estava chorando porque perdi a minha bola nova ou se era porque o menino era pobre e não tinha casa para o Papai Noel entregar o presente dele. Acho que foi por causa da bola.

Aí a minha mãe foi falar comigo, passou a mão na minha cabeça e disse que aquilo que eu fiz era muito certo, que o bom é quando a gente dá uma coisa que a gente gosta muito, uma coisa que faz falta para a gente, e que isso era uma coisa bem difícil de fazer, tanto que as pessoas só dão as coisas velhas, que elas não querem mais, e fazem isso só para conseguir mais lugar no armário.

Depois eu também fiquei pensando que eu tenho um monte de brinquedos e o menino não deve ter muitos, e por causa disso era melhor para a bola ficar com ele, porque com o menino ela vai ser mais brincada do que comigo.

Naquela noite, eu dormi e sonhei que o menino estava chutando a minha bola que não era mais minha. Mas não foi sonho ruim, foi sonho bom.

E aí eu acordei contente por ter dado a bola nova para o menino.

Então eu botei o meu uniforme de São Sanmeirinthians e fiquei jogando no quintal com o meu pai, o meu tio e o meu avô. E a gente usou a bola velha.

Escrito por Lelê às 07h04

Chapeuzinho Verde-Musgo

Bom, continuando a história da semana passada, aí o tio Pimenta, que ainda estava de boca aberta, falou assim:

Era uma vez, numa pequena vila perto de uma verdejante floresta, uma menina de olhos cor de esmeralda.

Todos gostavam muito dela, e sua avó mais ainda, tanto que lhe deu de presente uma pequena capa com capuz. A roupa era verde-dólar, quer dizer, verde-musgo, e a menina ia com ela para tudo quanto é lugar. E por causa disso, é claro que as pessoas começaram a chamá-la de Chapeuzinho Verde-Musgo.

Tudo ia calmo e tranquilo até que um dia sua mãe disse:

-Chapeuzinho, leve esta torta de limão para sua avó que vive lá no meio da floresta. Ela está é muito avarenta para comprar um docinho, e se a gente não manda uma coisinha para ela de vez em quando, ela vai acabar magra feito um palito.”

-Pode deixar, mamãe, vou levar estas coisas para a vovó. A senhora pode me dar dinheiro para o ônibus?

-Mas você vai a pé!?

-Então me dá dinheiro para a sola de sapato!

-Nunca vi menina para gostar tanto assim de dinheiro! Tá bom, pega. Mas tome muito cuidado. Não saia do caminho porque a floresta é perigosa.

Cintia Loureiro/UOL

Então a menina colocou a torta de limão numa cesta, deu um beijo na mãe e partiu.

No caminho, ela cantava assim:
                                   “Pela estrada afora,
                                   Eu vou tão mesquinha.
                                   Pedirei mais grana
                                   Para a vovozinha.”

Chapeuzinho entrou pela floresta e foi andando, andando, até que, de repente, o Lobo saiu de trás de uma moita.

-Bom dia, menina do Chapeuzinho Verde.

-Bom dia, senhor.

-O que você leva nesta cesta?

-Uma torta de limão.

-Para mim?

-Só se o senhor tiver dinheiro para comprá-la.

-Não tenho nem um tostão.

-Então vou levá-la para a minha avó que vive na Casa Verde lá no meio da floresta.

Aí o Lobo pensou: Todo mundo fala que a velhinha da Casa Verde tem um monte de jóias. Acho que vou comer a avó, a menina, e ainda vou roubar as jóias.

Mas ele não podia comer Chapeuzinho ali, no meio do caminho, pois algum Caçador que estivesse por perto poderia escutar os gritos da menina.

Foi quando o Lobo teve uma idéia e disse:

-Está vendo aquela trilha? Ela também vai até a casa de sua avó. É um pouco mais comprida, mas tem uma fonte onde as pessoas jogam moedas. Por que você não vai por ali e pegas umas para você?

-Que boa idéia! Vou fazer isso mesmo!

Assim, Chapeuzinho pegou o outro caminho, ficou catando moedinhas e nem viu o tempo passar. Enquanto isso, o Lobo foi pelo caminho mais curto até a casa da avó. Quando lá chegou, bateu na porta: “Tuc, tuc, tuc.”

-Quem é?, perguntou a velhinha lá de dentro.

-Sou eu, sua netinha, vim trazer uma torta de limão para a senhora, falou o Lobo disfarçando a voz.

A Vovó levantou-se, viu se seu cofre estava bem trancado (ela achava que sua neta só ia lá porque estava de olho nas suas jóias) e abriu a porta. Quando fez isso, nem teve tempo de abrir a boca de espanto, porque o Lobo pulou sobre ela e devorou-a de um só bocado.

Cintia Loureiro/UOL 

Depois ele pensou em roubar as jóias da Vovó, mas, como precisava fazer a digestão, deitou-se para esperar Chapeuzinho.

Finalmente, quando ela chegou à casa da avó, bateu na porta: “Tuc, tuc, tuc.”

-Quem bate?, perguntou o Lobo imitando a voz da vovó.

-Sou eu, sua netinha.

-Entre, minha querida, eu não via a hora de você chegar.

Chapeuzinho abriu a porta lentamente e foi até a cama da avó. O Lobo estava embaixo das cobertas e usando a touca, de modo que só se podia ver um pouco de seu rosto. A menina, percebendo que havia alguma coisa esquisita por ali, perguntou:

-Vovó, por que você tem orelhas tão grandes?

-Para ouvir o tilintar das moedas.

-E estes olhos tão grandes?

-São para ver os extratos do banco.

-E estas mãos tão grandes?

-São para contar dinheiro mais rápido.

-E este nariz tão grande?

-É para sentir o cheiro das notas.

-E essa boca tão grande?

Então o Lobo parou de imitar a Vovó e falou com sua voz terrível: “Essa é para te comer!”.

Depois disso ele saltou sobre a menina e a engoliu à vista, ou seja, de uma só vez. E aí foi tirar uma sonequinha.

Como estava com a barriga muito cheia, logo começou a roncar bem alto. Tão alto que um caçador escutou aquele barulho e resolveu dar uma olhada.

Quando abriu a porta e viu o Lobo dormindo com aquele barrigão, o Caçador pensou: puxa vida, esse lobo é de um tipo bem raro! Se eu tirar a pele dele, poderei vendê-la e ficarei rico.

Cintia Loureiro/UOL

Então o Caçador colocou balas em sua espingarda, apontou para o Lobo e CABUM!, matou o Lobo.

Depois, quando estava abrindo sua barriga com cuidado para não estragar a pele, viu que Chapeuzinho Verde e sua avó estavam lá dentro. Como não é todo dia que aparecem oportunidades de se ganhar algum dinheiro extra, o Caçador disse:

-Olha, eu até posso tirar vocês duas daí, mas isso vai me tomar muitas horas, então, antes de começar, eu queria saber se vocês poderiam me pagar por esse trabalho.

-Pode pegar as minhas jóias que estão no cofre, disse a Vovó.

-E eu tenho as moedinhas que apanhei pelo caminho, falou Chapeuzinho.

Então o Caçador pegou as jóias, as moedinhas, e tirou as duas de dentro da barriga do Lobo. E todo mundo viveu feliz para sempre!

Quando o tio Pimenta acabou de contar, todo mundo protestou:

O meu avô disse que naquela fábula só tinha gente ruim.

A minha mãe falou que todo mundo só pensava em dinheiro.

E o meu pai disse que aquela história não tinha moral, mas aí o tio Pimenta falou que tinha sim.

“E qual é?”, perguntou o meu tio Torero, que estava comendo bolo.

E o tio Pimenta respondeu: “A moral dessa história é: O dinheiro não traz felicidade, mas sempre pode pagar um bom cirurgião.”

E aí todo mundo achou essa moral tão ruim que atirou brigadeiro no tio Pimenta.

 

(Na semana que vem, em vez de contar as Chapeuzinhos, eu vou contar como foi o meu Natal. Depois eu continuo com as Chapeuzinhos).

Escrito por Lelê às 06h40
A Chapeuzinho que não era vermelho

Bom, para quem não leu ou já esqueceu, era aniversário do meu pai e tinha um monte de gente lá na minha casa: o meu pai, a minha mãe, o meu tio Torero, que comeu mais brigadeiro que todo mundo, o meu avô, o tio Pimenta, que é amigo do meu pai, e a tia Márcia, que é mulher do amigo do meu pai.

A tia Márcia tinha contado a história da Chapeuzinho Cor de Abóbora (que está lá embaixo), e aí o meu avô lembrou de outra Chapeuzinho: a Chapeuzinho Lilás.

Então ele começou a contar a história e foi assim:

Chapeuzinho Lilás

Era uma vez uma menina muito famosa na vila dela.

Todo mundo gostava daquela menina. E a sua avó mais ainda, tanto que fez uma capinha com capuz para ela. A roupa era lilás, e a menina usava tanto aquela capinha com capuz que o povo da aldeia botou um apelido nela: Chapeuzinho Lilás.

Um dia a mãe da Chapeuzinho chamou ela e disse:

- Filha, leva estas revistas com fofocas sobre gente famosa para a sua avó, que vive lá no meio da floresta.

Cintia Loureiro/UOL

- Tenho que ir mesmo, mamãe?, perguntou Chapeuzinho.

- Sim, tem. Você não quer continuar com a sua fama de ser uma menina obediente e trabalhadora?

- Quero.

- Então você tem que ir. Não é fácil manter a boa fama.

- Tá bom, eu vou...

Cintia Loureiro/UOL

Então a menina colocou as revistas numa cesta, deu um beijo na mãe e partiu. No caminho, ela cantava:

                  “Queria ser famosa,
                  Bem conhecidinha,
                  Aí não andaria
                  Nunca mais sozinha.”

Chapeuzinho vinha assim pela floresta quando, de repente, o Lobo saiu de trás de uma moita.

- Bom dia, menina do Chapeuzinho Lilás.

- Bom dia, senhor.

- O que você leva aí nesta cesta?

- Revistas de fofocas.

- Para mim?

- Não, para a minha avó. Ela vive no meio da floresta.

Então o Lobo pensou assim: “Caramba, estou com tanta fome que seria capaz de comer a avó desta menina e depois ela mesma como sobremesa.”

Mas ele não podia devorar Chapeuzinho ali, pois algum Caçador poderia escutar os gritos e vir em socorro da menina.

Foi quando o Lobo teve uma idéia e disse:

- Está vendo aquela trilha? Ela também vai até a casa de sua avó. É um caminho mais longo, mas você poderia pegar umas violetas para ela.

- Que excelente idéia, senhor. Vou fazer isso mesmo!

Assim Chapeuzinho pegou o outro caminho e começou a colher violetas.

Enquanto isso, o Lobo foi pelo caminho mais curto até a casa da avó. Quando lá chegou, bateu na porta: Pam, pam, pam.

- Quem bate?, perguntou a velhinha lá de dentro.

- Sou eu, sua netinha, falou o Lobo disfarçando a voz.

A Vovó então levantou-se e abriu a porta. Mas não havia ninguém lá, e a Vovó disse:

- Xi, eu devo ter imaginado que bateram na porta. Ré, Ré, estou ficando velha...

“Ué? Mas o lobo não estava lá?”, eu perguntei.

“O que aconteceu?”, perguntou a minha mãe.

“Conta logo, conta logo!”, disse todo mundo. Quer dizer, todo mundo menos o meu tio Torero, porque ele estava com a boca cheia de cajuzinhos e não falou nada.

Aí o meu avô tomou um gole d´água para fazer suspense, respirou fundo e continuou.

Não tinha ninguém porque, antes que a Vovó abrisse a porta, o Lobo teve uma crise de consciência. Ele pensou assim: “Que coisa horrível eu vou fazer: comer esta pobre velhinha! Não, não farei isso! Está na hora de mudar as coisas!” E aí ele se escondeu atrás de uma moita.

Pouco depois Chapeuzinho chegou e bateu à porta: Pam, pam, pam.

- Quem bate?, perguntou a velhinha.

- Sou eu, Chapeuzinho Lilás.

- Entre, querida, a porta está aberta.

A Vovó estava embaixo das cobertas e usava uma touca tão grande que nem dava para ver o seu rosto. A menina chegou perto dela devagarinho e perguntou:

- Vovó, por que você tem orelhas tão grandes?

- São para ouvir o rádio melhor.

- E estes olhos tão grandes?

- São para ver os programas de tevê.

- E estas mãos tão grandes?

- São para segurar os jornais.

- E este nariz tão grande?

- É para metê-lo na vida dos outros.

- E essa boca tão grande?

- É para fazer fofocas, falou a Vovó. E dizendo isto elas começaram a rir e a ler as revistas. E leram tanto que acabaram pegando no sono.

Depois disso o Lobo pulou para dentro do quarto da avó e ficou olhando as duas ali a dormir.

Enquanto isso, ele pensava: “Que bom que não comi estas duas. Assim vou mudar a opinião que as pessoas têm de mim.”

Então ele deitou no meio das duas e dormiu um pouco.

Cintia Loureiro/UOL

Mas, como eu contei no começo, o Lobo estava com fome. Sua barriga estava vazia e começou a roncar alto. Assim: Rôôôônc!

Aquele barulho chegou aos ouvidos de um Caçador que passava por ali, e ele resolveu dar uma olhada no que estava acontecendo.

Quando abriu a porta da casa da vovó e viu o Lobo entre as duas, ele pensou: “Conheço a fama deste Lobo. Ele deve estar se preparando para comer as pobrezinhas.”

Então o Caçador apontou sua espingarda para o Lobo e... POU!, atirou.

A Vovó e Chapeuzinho acordaram assustadas. Mas o Caçador disse:

- Fiquem tranqüilas. Eu matei o lobo antes que ele comesse vocês.

E aí todos ficaram muito contentes. Menos o Lobo, é claro.

“Pobrezinho...”, falou a minha mãe quando o meu avô acabou de contar a história.

“Tadinho...”, disse a tia Márcia.

“Poxa, que fim mais injusto”, reclamou o meu tio.

“Tá, mas parem de reclamar e digam qual é a moral da história”, falou o meu avô.

Como ninguém disse nada, ele mesmo se respondeu:

“É que não se deve julgar ninguém pela fama!”

Todo mundo ficou falando coisas do tipo “Isso mesmo” e “É verdade”, mas então minha mãe disse: “Falando em fama, Lelê, já para a cama!”

Como eu não queria ir dormir, perguntei: “Não vai ter mais história de Chapeuzinho? Pode ser de qualquer cor.”

“Eu tenho uma história ótima!”, disse o tio Pimenta. “É a história da Chapeuzinho Verde Musgo. É uma história policial! Tem tiros, roubos e muita ação!”

Todo mundo olhou para o tio Pimenta e disse: “Conta, conta!”. Aí ele abriu a boca para contar a história.

Mas agora acabou o espaço e eu tenho que parar de escrever. O tio Pimenta vai ficar de boca aberta até a semana que vem.

 

Escrito por Lelê às 06h39
Lelê e os chapeuzinhos que não eram vermelhos

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Menos a minha mãe quando ela está brava comigo. Aí ela me chama de Leocádio mesmo.

Ontem foi aniversário do meu pai, e aí estavam lá em casa uns amigos dele: o tio Pimenta e a tia Márcia, que é mulher do tio Pimenta. Tinha também a minha mãe, o meu avô e o tio Torero, que sempre aparece quando tem bolo.

Aí já estava ficando tarde e a minha mãe falou assim: “Lelê, não está na hora de você dormir?”

E eu respondi: “Não.”

E ele disse: “Hã?”

“É que eu estou de férias. Não preciso mais acordar cedo.”

“Mas você precisa dormir para crescer bastante.”

“Se isso fosse verdade, a senhora ia ser a maior gigante, porque no fim de semana a senhora dorme até o meio-dia.”

Aí ela olhou sem jeito para o resto do pessoal e disse: “Isso é só de vez em quando, para repor as energias.”

Depois ela virou para mim e falou mostrando os dentes, de um jeito que parecia um cachorro quando faz grrrrr: “Vai dormir, vai. Você precisa de pelo menos oito horas de sono, Leocadiozinho.”

Mas aí, como eu sabia que ela não podia me bater porque tinha visita em casa, eu respondi assim: “Deixa eu ficar acordado. No fim de semana eu durmo até o meio-dia e reponho as energias.”

Aí todo mundo riu, menos a minha mãe, que olhou para mim de um jeito que queria dizer “amanhã você me paga.”

Então a tia Márcia falou assim: “Se você quiser, eu posso contar uma história para você dormir. Conhece a da Chapeuzinho?”

“Claro, todo mundo conhece”, eu respondi. “Essa história é o maior velha! É do tempo do meu avô.”

“Eu não sou tão velho assim”, disse o meu avô.

“Ah, mas eu não vou contar a história da Chapeuzinho Vermelho”, disse a tia Márcia. “Eu vou contar a história da Chapeuzinho Cor de Abóbora.”

“Cor de Abóbora? Essa eu quero escutar!”, eu falei.

“Então, se você deitar na sua caminha, eu conto.”

“Não, conta aqui mesmo”, disse o meu pai. Essa eu quero escutar.

E aí todo mundo falou que também queria ouvir a tal história, porque Chapeuzinho Cor de Abóbora era coisa que ninguém tinha ouvido falar.

Então a tia Márcia começou assim: “Era uma vez...”

(continua aqui embaixo)

Escrito por Lelê às 05h59

Chapeuzinho Cor de Abóbora

Era uma vez uma menina gordinha, de grandes bochechas.

“Que nem a senhora?”, eu perguntei.
 
“Mais ou menos”, a tia Márcia respondeu com uma cara estranha.

Bom, continuando, todo mundo gostava muito da menina, e a avó dela mais ainda, tanto que fez uma capinha com capuz para ela. A roupa era cor de abóbora, bem escandalosa mesmo, e a menina usava a roupa o tempo todo. Por causa disso as pessoas puseram um apelido nela: Chapeuzinho Cor de Abóbora.

Então um dia a mãe da menina chamou ela e disse:

-Chapeuzinho, leve esta torta de abóbora com cobertura de chantili e uma cereja em cima para sua avó, que vive lá no meio da floresta. Ela está muito magrinha e isso vai fazer ela se sentir melhor.

-Pode deixar, mamãe, disse a Chapeuzinho lambendo os beiços, porque ela adorava comer.

-E tome muito cuidado. Não saia do caminho porque a floresta é muito perigosa, completou a mãe.

(Cintia Loureiro/UOL)

Então Chapeuzinho colocou a torta numa cesta, deu um beijo na mãe e partiu.

No caminho, ela cantava assim:
       Almocei agora,
       Mas já tô com fominha,
       Pena que esse doce
       É para a vovozinha.

Chapeuzinho foi indo pela floresta até que, de repente, o Lobo saiu de trás de uma moita.

-Bom dia, menina do chapeuzinho cor de abóbora.

-Bom dia, senhor.

-O que você leva nesta cesta?

-Uma torta de abóbora com cobertura de chantili e uma cereja em cima.

-E isso tudo é para mim?

-Não. E nem para mim, infelizmente. Estou levando essas coisas para a minha avó, que vive lá no meio da floresta.

Então o Lobo pensou: “Estou com tanta fome que podia comer esta menina como tira-gosto, sua avó como prato principal e a torta como sobremesa’, mas ele não podia comer Chapeuzinho ali, pois algum caçador poderia escutar os gritos da menina.”
 
Foi quando o Lobo teve uma idéia e disse:

-Está vendo aquela trilha? Ela também vai até a casa de sua avó. É um pouco mais comprida, mas está cheia de jabuticabeiras, macieiras, pereiras, figueiras, ameixeiras, bananeiras, abacateiros e mangueiras. Por que você não vai por ali?

-Que apetitosa idéia, senhor. Vou fazer isso mesmo!

Assim, Chapeuzinho pegou o outro caminho e foi catando frutas pela trilha. Enquanto isso, o Lobo foi pelo caminho mais curto até a casa da avó. Quando lá chegou, bateu na porta:

-Poc, poc, poc.

-Quem bate?, perguntou a velhinha.

-Sou eu, sua netinha, falou o Lobo imitando a voz da Chapeuzinho (ele era bom nisso). Vim trazer uma torta para a senhora.

-A Vovó levantou bem contente e abriu a porta, mas então o Lobo pulou sobre ela e engoliu a pobre velhinha de uma só vez. Nhoc!

Depois disso ele deu um tremendo arroto, vestiu as roupas da Vovó (que ficaram apertadas, porque o Lobo ficou bem gordinho depois de comer a velhinha), colocou sua touca e deitou-se na cama para esperar Chapeuzinho.

Quando a menina chegou à casa da avó e bateu na porta, o Lobo falou lá de dentro, imitando a voz da velhinha:

-Quem bate?

-Sou eu, vovó, Chapeuzinho Cor de Abóbora.

-Pode entrar, minha querida, eu não via a hora de você chegar!

Chapeuzinho abriu a porta e foi até a cama da avó. O Lobo estava embaixo das cobertas e usando a touca, de modo que não se podia ver sua cara direito. A menina então perguntou:

-Vovó, por que você tem orelhas tão grandes?

-São para escutar quando o leiteiro passa.

-E estes olhos tão grandes?

-São para ver os bolos crescerem.

-E estas mãos tão grandes?

-São para segurar melancias e jacas.

-E este nariz tão grande?

-É para sentir o cheiro do pão quentinho.

-E essa boca tão grande?

-Essa é para te comer mesmo!, gritou o Lobo. E dizendo isto ele saltou sobre a menina e a engoliu de uma só vez. Nhoc!

Depois, o Lobo voltou para a cama e foi tirar uma sonequinha. Mas como estava com a barriga muito cheia, começou a roncar bem alto. Tão alto que um caçador escutou aquele barulhão e resolveu dar uma olhada.

Quando abriu a porta e viu o Lobo dormindo com as roupas da Vovó, o Caçador ficou de boca aberta!

Então colocou balas em sua espingarda, apontou para o Lobo e...

“E o quê?”, o meu pai, a minha mãe, o meu avô, o meu tio Torero e o tio Pimenta perguntaram.

“E não fez nada”, disse a tia Márcia.

Não fez nada porque pensou que a Vovó ainda poderia estar viva dentro da barriga do Lobo.

Aí ele pegou uma grande tesoura e, quando estava quase começando a cortar a barriga do Lobo, o Lobo acordou e... Nhoc!, também engoliu o Caçador de uma só vez.

O pior é que, mal o Lobo comeu o caçador, já ficou com fome de novo. E aí ele disse:

-Hum..., ainda tenho que comer a torta que a menina trouxe para a avó.

              

Então ele comeu a torta de abóbora com cobertura de chantili. Depois, viu que tinha sobrado a cerejinha e pensou:

-Acho que ainda cabe alguma coisinha...

                                     

Aí o Lobo pegou a cerejinha e comeu. Mas ele já estava com a barriga tão cheia, mas tão cheia, que... BUM! O guloso acabou explodindo e morreu.

“Oh!”, fez o pessoal que estava escutando a tia Márcia. E aí ela perguntou:
 
“E quem sabe qual é a moral dessa história?”

Como ninguém falou nada, ela mesma se respondeu:

“A moral é: Nunca se deve comer até a última cerejinha.”

O pessoal riu muito dessa história que foi o maior cruel. Então eu pensei que a minha mãe fosse dizer: “Pronto, agora chega de farra, Lelê, está na hora de dormir.”

Mas antes disso o meu avô falou: “Sabem, agora me lembrei de uma outra história. A história da Chapeuzinho Lilás.”

Então todo mundo falou “Conta, conta!”, que nem criança, quer dizer, que nem eu. E aí o meu avô começou assim: “Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Lilás...”

Mas essa fica para semana que vem.

Escrito por Lelê às 05h57
Aviso
Hoje eu não vou escrever, só amanhã. É que sexta é dia de escola e a minha mãe falou que agora eu vou ter que escrever no sábado para não atrapalhar as aulas. Minha mãe é fogo!
Escrito por Lelê às 12h17
Lelê bota pra quebrar!

Entrou uma menina na minha classe que é o maior linda!

O nome dela é Blimunda, e ela disse que o pai dela deu esse nome para ela porque leu ele num livro muito bom.

Todos os meninos da classe querem namorar com a Blimunda, então a gente joga giz nela e puxa o cabelo dela, mas não está dando muito certo. Aí eu comecei a pensar: “O que que a gente tem que fazer para uma menina gostar da gente?”

Numa revista da minha mãe eu li que as mulheres (que são que nem as meninas, só que grandes) gostam de homens que tenham “algo de especial”. Pelo que eu entendi, “algo de especial” deve ser qualquer coisa meio diferente.

Os outros meninos da minha classe têm “algo de especial”. O Edvaldo é alto, o Aurelius usa óculos e tem cara de inteligente, o Zépa é engraçado, o Gabriel tem um olho azul e outro verde, o Ricardo usa aparelho, o André sabe imitar porco bem direito e só eu que não tenho nada de diferente. Eu sou o maior comum.

Aí, como eu não tenho nenhum “algo de especial”, eu fui perguntar para a minha família o que que a gente tem que fazer para uma menina gostar da gente.

O meu avô disse: “Faça uma poesia.”

Aí eu falei: “Boa idéia, vô! O que que rima com Blimunda?”. Aí ele mandou eu desistir da idéia.

Depois eu fui perguntar para a minha mãe e ela falou para eu estudar e tirar notas bem altas, mas dessa idéia eu não gostei.

O meu tio disse: “Se descobrir alguma coisa, me conta.”

E o meu pai foi o único que deu uma idéia boa. Ele falou assim: “Dá uma flor para ela, meu filho. Quando eu estava querendo conquistar a sua mãe, eu mandava um monte de rosas para ela.”

“E eu espirrava o dia todo, porque eu sou alérgica a rosas. Só aceitei sair com você para parar de espirrar”, disse a minha mãe que estava passando por ali.

Eu achei essa idéia de dar flor muito bacana. Então, quando a gente estava no recreio, eu fui até a Blimunda e falei assim:

“Oi.”

E ela: “Oi.”

“Você espirra com flor?”

“Não.”

“E qual é a flor que você mais gosta?”

Aí ela pensou, pensou, apontou para o alto de uma árvore que tem no pátio e disse: “Aquela lá.”

E eu respondi “Tá”, e fui embora. Foi uma conversa legal.

Então, na aula seguinte eu pedi para ir no banheiro e saí da classe. Aí, quando eu estava passando pelo pátio, eu vi que ninguém estava vendo e comecei a subir na árvore que tinha a flor da Blimunda.

Subi, subi, subi e caí.

É que eu pisei num galho meio fraco, ele fez clec, quebrou e eu caí no chão. E aí o meu dedão da mão direita é que fez clec.

Bom, agora eu nem vou contar quando a servente me pegou no chão e levou para a enfermaria, não vou contar do pronto socorro, não vou contar que a minha mãe chegou lá chorando e me dando bronca. Só vou contar que eu ganhei uma coisa maior legal: gesso!

Isso mesmo, eu fiquei com a mão engessada!

O gesso é bem duro e branco, e parece que a gente fica com uma mão muito poderosa e forte, boa para dar soco nos outros.

Outra coisa bacana no gesso é que todo mundo faz tudo para você: a minha mãe me deu comida na boca, o meu pai me ajudou na lição de casa, o meu avô catou meus brinquedos do chão e só o meu tio é que disse: “Nem pense em me chamar quando você for no banheiro. Use a sua mão esquerda.”

Mas o mais legal foi no dia seguinte. É que quando eu cheguei lá na escola, todo mundo veio me perguntar como é que foi, se doeu, se coça, se dói, se pode apertar e se pode assinar.

Então eu disse que a Blimunda que ia assinar primeiro.

E ela disse: “Eu? Poxa!”

Aí ela fez um coração e colocou o nome dela dentro. Um coração! Acho que a Blimunda gosta de mim.

Então eu vi que o gesso era o meu “algo de especial”. Eu não tinha óculos, nem aparelho, nem um olho de cada cor, mas eu tinha gesso. Gesso é o maior legal!

O chato é que daqui a duas semanas o médico vai tirar o meu gesso.

Mas tudo bem. Depois eu quebro outra coisa.

Escrito por Lelê às 06h22