BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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Lelê encontra Nonô

Bom, então eu vou continuar a história da semana passada.

Para quem não se lembra, eu fui passear com o meu tio por umas fazendas de café bem velhas, quer dizer, antigas, porque ele está escrevendo um livro sobre um menino chamado Nonô que tinha sido escravo no Brasil.

Então quando a gente foi dormir, numa senzala que virou hotel, eu comecei a escutar um barulho que parecia um escravo arrastando uma corrente. Aí eu pensei assim: “Pô, o meu tio come tanto que a barriga dele fica fazendo ronc-ronc.”

Só que aí eu olhei para o meu tio e não estava saindo nenhum barulho da barriga dele. Então eu vi que no canto do quarto tinha um menino negro de olhos bem brancos. Ele deu dois passos, chegou perto de mim, e disse:

“Oi, Lelê. Eu sou o Nonô.”

“E aí eu respondi: Oi. O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê.”

“E o meu é Nonôxi, mas todo mundo me chama de Nonô.”

“Esse nome é o maior irado.”

“Ele quer dizer “estrela” na língua da minha gente.”

“Legal. Lelê não quer dizer nada.”

“Lelê não é ‘maluco’?”

“Não, aí é lelé.”

“Ah...”

“Por que as suas orelhas são tão grandonas, Nonô?”

“Acho que é porque a minha mãe sempre puxava elas quando eu fazia alguma travessura.”

“E você escuta bem com essas orelhonas?”

“Ô! Consigo escutar qualquer barulhinho. Pode ser o plique-plique da chuva pingando no lago, pode ser o paque da lenha estalando no fogo, pode ser o pife da folha batendo no chão. Com as minhas superorelhas, eu escuto tudo.”

“Onde é que você nasceu?”

“Numa aldeia chamada Ucamba. Ela era fabulível!”

“Fabu o quê?”

“Lível! É a mistura de fabulosa com incrível. Eu adoro inventar palavras. O meu pai dizia que eu tinha muita imaginatividade.”

“Hein?”

 “É uma mistura de imaginação com criatividade.”

“Ah... E você tinha escola lá em Ucamba?”

“Não. Mas com um ano eu aprendi a andar, com dois anos aprendi a falar, com três aprendi a subir em árvores, com quatro aprendi a fazer fogo, com cinco comecei a pescar, com seis já entrava pela mata, com sete caçava pequenos bichos, com oito aprendi a dançar, com nove comecei a inventar palavras (que nem fabulível e imaginatividade) e com dez comecei a brincar o jogo do espelho.”

“Que jogo é esse?”

“É assim: a gente escolhe uma pessoa e faz tudo como se fosse ela. Tudinho. Imita o andar dela, o jeito dela, a voz dela. E aí a pessoa vê como é que ela é e fica com a maior raiva.”

“Legal. E todo mundo lá em Ucamba é que nem você?”

“Assim bonito, negro e com cabelo de redemoinho? É, sim. E quando eu morava lá, eu pensava que todo mundo era que nem eu. A primeira vez que eu vi um branco eu levei o maior susto.”

“Você pensou que era um fantasma?”

“Não, eu pensei que era tinta branca.”

“Como é que você veio para o Brasil?”

“Uns adultos de uma aldeia inimiga me raptaram e me venderam para os homens de um navio. E nesse navio é que eu vim para cá.”

“Foi uma viagem bacana?”

“Foi horrível! Demorou quarenta dias. Eu fiquei amarrado no porão com mais trezentas pessoas, sem janela nem nada. Foram quarenta dias sem receber um ventinho, lutando pelos restos de comida que eles jogavam para a gente, fazendo xixi e cocô ali mesmo onde eu estava, sendo atirado de um lado a outro que nem uma pedrinha dentro de um chocalho. Foram quarenta dias com saudades de meu pai e de minha mãe, quarenta dias sem saber o que seria de mim.”

“Puxa... E veio muita gente do seu tamanho?”

“Em cada quatro que vinham, três tinham entre dez e quinze anos. É que a maioria dos escravos morria com uns trinta e poucos anos, então, se ele chegasse bem novo, trabalhava por mais tempo.”

“E quando você chegou aqui foi legal?”

“Que nada! Me colocaram numa loja, lá no Rio de Janeiro. Era uma loja que vendia livros de Portugal, santinhos da Espanha, lustres da Bélgica, leques do Japão, chapéus da Cornuália, bengalas da Escócia, xícaras da China, tapetes da Pérsia, penicos da França e escravos da África, que nem eu.”

“Puxa, você ficou na vitrine, que nem aqueles carros nas lojas?”

“É. O dono da loja, o Gil Girafa, até passava óleo em mim para eu ficar mais lustroso e bonito. E quando entrava um freguês, ele tocava um sininho e eu tinha que dançar para o freguês ver que eu estava com saúde.”

“Você custava caro?”

“Duzentos mil réis. Mais ou menos o que ganha um professor num ano de trabalho.”

“E quem comprou você?”

(continua aqui embaixo)

Escrito por Lelê às 05h33
Lelê encontra Nonô-2

(continuando o lá de cima)

“A Dona das Dores. Ela era uma peste. Mas a filha dela, a Letícia, era boa. Só que ela se apaixonou pelo seu Hilário, que era inimigo das Das Dores e aí eu... Não, não vou contar a história toda agora.”

“Tudo bem, mas conta como é que era a senzala naquele tempo. Tinha chuveiro quente?”

“Não tinha nem chuveiro frio. Nem janela. E o cheiro, aca! Comigo moravam umas vinte pessoas: homens, mulheres, meninos, meninas, crianças de colo e até uma velha que era doida e bacana, a Zefa Bié. Mas tinha quarto da senzala que era só de homem, quarto só de mulher e até quarto só de uma família.”

“Pelo menos dava para conversar.”

“Mais ou menos. Os donos das fazendas quase sempre colocavam escravos que falavam línguas diferentes nos mesmos quartos da senzala. Era para a gente não planejar nada.”


“E você foi castigado?”

“Ô! Um monte de vezes. Os brasileiros tinham uma porção de castigos para os escravos. Um mais infernal que o outro. Tinha a palmatória, que parece uma escova sem os pelinhos, e serve para bater mãos dos escravos...”

“Ai, ai...”

“Tinha o calabouço, que é um quartinho escuro e úmido, onde o infeliz era deixado sozinho por vários dias...”

“Puxa...”

“Tinha o anjinho, que é um tipo de anel de ferro que fica apertando os polegares; tinha as chibatadas, que podiam ser até duzentas para quem tentasse fugir; tinha o afogamento, que é mergulhar a cabeça da pessoa numa tina de água até ela quase perder a respiração...”

“Caramba!”

“Tinha a máscara de ferro, que só tem um furinho para cada olho, e aí não se pode comer nem beber...”

“Puxa, a minha mãe só me dá uns beliscões.”

“Mas o pior castigo que a Das Dores me deu não foi nenhum desses.”

“Teve um pior?”

“Teve. Foi o banho de mel. Eles prendiam o escravo numa tora de madeira e aí jogavam mel nele.”

“Mas isso parece gostoso.”

“Eu também pensei assim. Até dei uma lambidinha em mim mesmo. Mas depois eu entendi o que que ia acontecer, porque começaram a chegar umas formigas.”

“E aí?”

“Aí elas começaram a subir pelas minhas pernas...”

“E aí?”

“Aí elas começaram a me morder...”

“E aí?”

“E aí eu vou parar por aqui, porque senão ninguém compra o livro do seu tio e ele vai ficar macambúzio.”

“Maca o quê?”

“...búzio. Quer dizer triste. É uma palavra lá da África. E tem um monte de outras palavras que vieram de lá e os brasileiros usam até hoje: banguela, batuque, bunda, cacunda, cafuné, calombo, camundongo, catimba, fubá, macumba, marimbondo, meganha, meleca, miçanga, moleque e zanzar; que é quando a gente anda só por andar.”

                      

“Tá, então não vamos mais falar da sua história. Vamos brincar!”

“De quê?”

“Pode ser de espelho?”

“Pode ser de espelho?”

“A gente já tá brincando?”

“A gente já tá brincando?”

“Isso é o maior legal!”

“Isso é o maior legal!”

E aí, quando a gente estava brincando, o meu tio acordou e o Nonô desapareceu na hora. Então eu disse para o meu tio: “Tio, eu falei com o Nonô.”

E ele disse: “Não é isso, Lelê, é que você viu muitas coisas de escravo durante o dia, depois comeu muito na janta e aí teve um sonho com o Nonô.”

“Mas eu vi, tio.”

“Foi só um pesadelo.”

Aí eu fiquei com raiva do meu tio e imitei ele: “Foi só um pesadelo.”

“Você está me imitando, Lelê?”

“Você está me imitando, Lelê?”

“Isso é o jogo do espelho?”, ele perguntou meio assustado. “O Nonô esteve mesmo aqui?”

Mas eu virei para o lado e disse: “Não, tio, foi só um pesadelo. Boa noite.”

E aí o meu tio ficou acordado a noite toda.
 

Escrito por Lelê às 05h31
Lelê na senzala

Hoje eu não estou escrevendo no meu quarto. Eu estou numa senzala. Senzala é onde moravam os escravos. Mas não é que eu virei escravo. É que anteontem a gente estava almoçando lá em casa e aí o meu tio Torero falou:

"Agora à tarde eu vou para uma fazenda lá em Barra do Piraí."

Aí eu disse: "Me leva, tio!?"

E ele respondeu assim: "Eu levaria com o maior prazer, Lelê, mas seus pais não iam querer ficar longe de você no feriado."

"Não tem problema", disse a minha mãe.

"Nenhum", falou o meu pai.

O meu tio fez uma cara de assustado e disse: "Mas é que eu vou fazer uma pesquisa para um livro sobre escravos, não vou poder dar muita atenção para o Lelê."

Mas o meu pai e a minha mãe já tinham levantado da mesa. O meu pai gritou lá do quarto: "Já vou fazer a malinha dele". E a minha mãe berrou lá da cozinha: "Estou preparando um lanchinho para vocês comerem na viagem."

Os meus pais adoram quando eu vou passear com o meu tio.

Bom, aí a gente pegou o carro e foi para Barra do Piraí, que fica no estado do Rio de Janeiro.

De vez em quando, quando o meu tio não estava xingando os outros motoristas, que nunca dão passagem e nem sinal de seta, ele falava do livro dele. Era sobre um menino da minha idade chamado Nonô. Ele nasceu na África, mas aí raptaram ele e trouxeram ele para uma fazenda de café. Por isso é que o meu tio tinha que conhecer as fazendas.

Quando já era de noite, a gente chegou numa fazenda chamada Ponte Alta, que é essa aqui:

Mas hoje ela não é mais fazenda, é hotel. Puseram a gente num quarto que fica numa senzala. O meu tio disse que antigamente as senzalas só tinham umas fogueiras e umas esteiras no chão, mas agora tem cama, armário, banheiro e água quente.

O meu tio disse que essa fazenda é bem típica. Ela tem a casa grande, que era onde moravam os donos da fazenda; a senzala, onde moravam os escravos; o terreiro, que é onde secava o café; e o engenho de café, onde eles moíam o café.

O quarto da gente fica no canto, bem na esquina. E eu achei legal que tinha piscina. Eu já tive três aulas de natação e já sei nadar super bem. Quase nem preciso da bóia.

Aí a gente foi jantar e o meu tio comeu à beça, que nem sempre. Eu até tirei uma foto.

Depois a gente foi dormir. Quer dizer, o meu tio dormiu rápido, mas eu não, porque a barriga dele roncava tanto que parecia um fantasma arrastando corrente e eu fiquei com medo.

Bom, no dia seguinte, a gente acordou, tomou café e foi visitar outras fazendas.

Tem umas fazendas bonitonas e umas mais velhinhas. Mas sempre tem alguém para explicar a história de cada uma delas. Parece até que a gente está na aula de história do professor Reinaldo.

A primeira que a gente visitou foi a Fazenda do Secretário. Ela tem esse nome engraçado porque era de um secretário. Se tivesse sido de um presidente, ela ia se chamar Fazenda do Presidente. Se fosse minha, ia ser a Fazenda do Lelê. Eu achei isso o maior legal.

A fazenda do Secretário é muito bonita. É grande e tem um jardim bacana. Olha só:

Esta foto aí de cima está ruim porque tem um cachorro e o meu tio atrapalhando. O meu tio é o da esquerda. Vou colocar uma outra foto:

Essa fazenda tinha uma cozinha que era o maior grande. Dava até para jogar bola lá dentro. Mas ninguém tinha uma para me emprestar.

Depois a gente foi na Fazenda Cachoeira Grande, que tem um monte de carro velho, quer dizer, antigo; na Fazenda Taquara, que ainda tem cafezal de verdade; na fazenda Santo Antonio do Paiol, onde moram uns padres; e na Fazenda Paraízo, que é o maior gigantesca e se escreve com zê e não com esse. Dessa eu tirei uma foto:


O meu tio disse que gostou à beça de ver as fazendas, mas acho que ele gostou mesmo foi da comida, porque depois de cada visita o pessoal da fazenda dá café, suco, pudim e bolo para a gente comer. O tio Torero vai voltar gordão para casa.

Então a gente voltou para a Fazenda Ponte Alta e de noite teve uma peça de teatro lá na senzala.

A peça contava a história do Barão de Mambucaba, que era o antigo dono da fazenda, e foi o maior legal porque a gente viu a peça no lugar que a peça aconteceu de verdade.

Depois teve a janta e o meu tio comeu um tantão de novo.

Aí a gente foi dormir e eu comecei a escutar de novo aquele barulho, que parecia um escravo arrastando uma corrente. Aí eu pensei assim: "Pô, o meu tio come tanto que a barriga dele fica fazendo ronc-ronc."

Só que aí eu olhei para o meu tio e não estava saindo nenhum barulho da barriga dele. Então eu olhei para o canto do quarto e vi um menino negro de olhos bem brancos. Ele deu dois passos, chegou perto de mim, e disse:

"Oi, Lelê. Eu sou o Nonô."

(Poxa, pena que acabou o espaço e eu só vou poder contar o que aconteceu na semana que vem. Mas eu garanto que foi o maior legal. Tchau!)

Escrito por Lelê às 06h33
Lelê, o Príncipe Submarino

Domingo o meu tio Torero participou de uma travessia no Guarujá. Ele ficou o maior chateado porque ele chegou em nono lugar e só marca ponto até o oitavo. Quando ele viu o resultado, ele disse: "*&$%#!"

Eu achei o maior legal viajar para uma praia e competir. Ainda mais se você consegue chegar na frente do nono. Então eu pedi para a minha mãe me colocar num curso de natação.

Aí eu fui com ela até um clube, tirei foto, fiz exame médico e depois veio a parte mais legal, que foi ir até o shopping comprar o meu equipamento oficial de nadador.

A gente foi numa loja muito grande e um moço careca veio atender a gente. A primeira coisa que ele mostrou foi o calção.

“Este aqui está bom, Lelê?”, a minha mãe perguntou mostrando um calção azul. Eu respondi “Claro que não! Esse é o maior sem graça. Eu quero um com escamas, que nem o do Namor, o Príncipe Submarino.”

O moço careca deu uma risadinha e falou: “Justo esse está em falta, meu garoto, mas nós temos este aqui, igualzinho ao do Ian Thorpe, aquele grande nadador australiano.”

           

Era um calção que não era calção, porque ele cobria as pernas, o peito e os braços. Eu disse: “Uau! Esse é um barato!”

Mas a minha mãe olhou o preço na etiqueta e disse: “Barato nada. É caro à beça!”

Então eu falei para convencer ela: “Com essa roupa aposto que eu vou nadar feito um torpedo.”

E ela disse para me convencer: “Mas ele custa uma fortuna e daqui a um ano não vai mais servir.”

“Mas eu quero”, eu falei para convencer ela.

“Tá bom, eu compro, mas só se você prometer que não cresce mais.”

Aí, como eu não quero ser baixinho para sempre, eu acabei ficando com o calção azul mesmo.

Então a gente foi ver os oclinhos de natação, que servem para não deixar entrar água no olho. O moço careca me mostrou um monte, mas eles eram muito sem graça. Aí eu perguntei:

“Não tem um diferente?”

“Diferente como, meu garoto?”

“Com visão de raio-x?”

“Não temos, não.”

“E com binóculo embutido?”

“Não temos.”

“E com luz infravermelha para enxergar de noite?”

“Não.”

Aí eu não agüentei e disse: “Poxa, que loja ruim, não tem nada.”

Então a minha mãe olhou para mim apertando os olhos e aí eu fiquei quieto, porque eu sei que depois de apertar os olhos ela aperta eu. E aí eu escolhi um bem rápido e falei: “Esse azul tá bom.”

Depois a gente foi ver a touca. O moço careca mostrou uma e disse “A mais barata é essa. E tem azul para combinar.”

A minha mãe falou “Perfeita!”. Mas eu protestei:

“Essa é a maior ruim! Não tem uma com orelhas que nem a do Batman? Ou com antenas? E se eu usasse um capacete de moto?”

A minha mãe respirou fundo, que é o que ela faz quando a paciência já está bem no finzinho, e falou: “A touca serve para o seu cabelo não cair na piscina. É isso ou cortar careca.”

Então eu olhei para o moço careca, que era bem feio, e disse: “Prefiro a touca.”

       

Na saída da loja, eu ainda pedi para a minha mãe me comprar pés de pato, snorkel e um tubo de oxigênio, mas acho que ela está ficando meio surda, coitada, porque tem vez que eu falo, falo, e ela não escuta nada.

Aí eu fui para o meu primeiro dia de natação. No carro mesmo eu já estava com meu calção, minha touca e meus oclinhos, porque eu queria colocar logo a minha roupa oficial de nadador.

Quando a gente chegou perto da piscina, veio a professora e falou para mim: “Oi, eu sou a tia Nilce”. E eu disse “Oi.” 

“Qual é o seu nome?”

“É Leocádio. Mas todo mundo me chama de Lelê.”
 
Ela passou a mão na minha cabeça, quer dizer, na minha touca, e falou: “E você quer ser o novo Mark Spitz?”

“Quem?”, eu perguntei, porque nunca tinha ouvido esse nome.

“Deixa pra lá, eu estou ficando meio velha. Parece que você veio pronto para nadar, né?”

“É. Já posso entrar na piscina?”, eu perguntei. E eu estava mesmo com a maior vontade de pular na água para estrear a minha roupa oficial de nadador.

Só que nessa hora deu um trovão bem grande, daqueles que fazer brrrruuuummm! E aí a tia Nilce falou: “Xi, com trovão não tem treino na piscina, porque é perigoso. Todo mundo para o ginásio.”

Então a gente foi para o ginásio e ficou fazendo ginástica, que é superchato, porque isso eu já faço na escola e nem dá para usar o meu equipamento oficial de nadador.

Depois a gente chegou em casa e eu estava o maior triste porque não tinha usado a minha roupa.

“Amanhã você testa o seu equipamento”, disse a minha mãe.

“Mas até amanhã é muito tempo", eu respondi.

Aí eu fui fazer xixi e tive uma idéia. Uma superidéia!

Uma hora depois, a minha mãe entrou no banheiro, arregalou os olhos e disse: “Lelê, você ficou louco?!” E depois ela começou a rir tanto que até sentou no chão.

Eu não entendi nada. O que que tem de engraçado a gente tomar banho de calção, touca e oclinhos?

 

Escrito por Lelê às 05h58
As dez coisas mais legais da vida

Eu estava o maior triste porque a minha avó tinha morrido e eu não sabia sobre o que que eu ia escrever hoje. Então eu fui até a minha mãe e perguntei: “Mãe, você acha que eu devo falar de cemitério ou de caixão?”

Aí a minha mãe falou assim: “Lelê, você anda muito borocochô. Passou a semana toda com cara de quem comeu chuchu.”

E quando ela falou isso eu vi que era sério, porque quando eu tenho que comer chuchu eu fico bem triste.

Então a minha mãe continuou falando: “Por que você não escreve sobre uma coisa bem legal para ver se fica mais alegrinho? Não, uma, não. Dez! Isso, por que você não escreve sobre as dez coisas mais legais da vida?”

Eu achei essa idéia o maior boa, porque é triste escrever sobre coisa triste e é legal escrever sobre coisa legal.

Então eu comecei a pensar sobre o que que era legal. Só que pensar dá a maior fome, e aí eu peguei o chocolate que o meu tio me deu porque eu fiz um texto para ele. Quando eu dei a primeira mordida eu vi que uma das coisas mais legais da vida é chocolate.

Coisa um: Chocolate.

O chocolate é uma coisa muito gostosa, que não alimenta mas engorda e dá cárie. O engraçado do chocolate é que sempre cabe mais um na nossa barriga. Acho que a gente tem um estômago para cada coisa. O estômago para chuchu é bem pequeno. Já o estômago para chocolate é bem grande. E enquanto eu comia o bombom eu pensei nas outras nove coisas mais legais da vida, que são essas aqui:

Coisa dois: O pessoal lá de casa
O pessoal lá de casa é legal. É o que a gente chama de família. A minha é a minha mãe, o meu pai, o meu avô e o meu tio, que não mora lá mas sempre aparece quando tem comida boa. O legal da família é que ela está sempre junta, e aí, mesmo quando a gente briga, a gente sabe que vai ter que fazer as pazes, porque não tem jeito mesmo.

Coisa três: Viajar.

Viajar é muito bacana porque a gente vê um monte de coisa que nunca viu. O engraçado é que a melhor parte de viajar é viajar de volta para casa.

Coisa quatro: Futebol.
Futebol é bacana de qualquer jeito: no estádio, no jogo de botão e no computador. E é legal porque dá para jogar em qualquer lugar: na praia, na rua e até no quarto da minha mãe. Se bem que aí só dá para jogar quando ela sai de casa.

Coisa cinco: Minha escova de dentes.
 
Escovar dente é uma coisa chata, porque tem que fazer sempre numa hora chata: depois que acorda (quando a gente ainda tá com sono) e antes de dormir (quando a gente já tá com sono de novo). Mas aí eu comprei essa escova que é o maior legal porque gruda no espelho como se fosse uma escova do Homem-Aranha e comecei a achar que escovar os dentes é legal, e toda vez que eu escovo eu grudo a minha escova-aranha num lugar diferente e depois a minha mãe grita “Lelê, lugar de escova de dente é na gaveta!”

Coisa seis: Meus amigos.
Os amigos são que nem uma família reserva. Eles são muito legais, e se não fossem não iam ser amigos, iam ser inimigos. Eu tenho um monte deles: tem o Aurelius, que é o maior CDF mas é legal, o Zépa, que é o maior gordo mas é bom de goleiro, o Zóio, que tem dois olhões mas usa óculos, e o Ronaldinho, que se chama Ronaldinho mas é ruim no futebol.

Coisa sete: Meu supertapete.

Eu tenho esse tapete no meu quarto e eu acho ele o maior legal, porque ele não é só um tapete para pisar, é um tapete para brincar. Ele tem um monte de pistas e dá para colocar os meus carrinhos em cima dele. O único tapete que é mais legal que o meu tapete é o tapete voador, mas eu acho que esse não existe de verdade. E se existir deve ser muito caro e o meu pai não vai comprar para mim.

Coisa oito: Meninas.

As meninas são chatas mas eu gosto delas, só que eu não sei porquê. Uma menina que eu lembro é a Emily, que eu conheci lá na Alemanha. A gente conversou bastante, só que eu não entendi nada do que ela falou. Mas deve ser assim mesmo, porque o meu pai sempre diz que não entende o que a minha mãe fala e ela fala que ele não entende o que ela diz.

Coisa nove: Escrever neste blog.

Escrever aqui é bacana porque eu posso contar as coisas que aconteceram comigo e posso até inventar umas coisas que não aconteceram. A minha mãe diz que é bom eu escrever porque aí eu paro um pouco quieto, e o meu tio diz que é ótimo quando eu escrevo no lugar dele porque aí ele fica sem fazer nada (e ele é meio preguiçoso). Mas o bacana de escrever neste blog é que um monte de gente faz comentário (tomara que hoje as pessoas escrevam o que elas acham mais legal na vida), e aí é como se eu conversasse com um monte de gente de uma só vez, e todo mundo fica amigo de mim.

Coisa dez: Respirar.
Acho que a coisa mais legal da vida é respirar, porque se você respira você está vivo, e só quem está vivo é que pode ter as outras nove coisas. Mas ninguém lembra de achar isso bacana, porque respirar é uma coisa muito comum, e parece que as pessoas só acham bacana as coisas que só acontecem de vez em quando, que nem ser campeão de futebol ou ganhar na loteria. Eu não, eu acho que tem coisa que a gente tem o tempo todo e também é legal, que nem chocolate, escova de dente, família, amigo e futebol.

E depois de escrever essas dez coisas legais eu fiquei menos triste. Pena que a minha mãe está fazendo chuchu para o almoço.

Escrito por Lelê às 23h05