BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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Lelê e o mingau de chocolate

Anteontem foi o dia mais triste da minha vida.

Eu estava em casa, brincando com os meus brinquedos novos (uma múmia e uma limusine chique) enquanto o meu pai e a minha mãe não chegavam para o almoço. Aí, quando eu escutei o barulho do carro do meu pai, eu fui até a porta para pular em cima dele.

Eu vi que ele estava meio sério e aí, antes que eu pulasse na barriga dele, ele falou: “A sua avó morreu”.

Eu fiquei parado, sem me mexer. Só depois de um tempo eu consegui dizer “Quê?”. E ele repetiu: “A sua avó morreu.” Aí eu comecei a chorar e o meu pai me abraçou.

Nunca alguém que eu conhecia tinha morrido. Aí eu fiquei pensando “Poxa, eu nunca mais vou ver ela. Nunca mais”, e eu fiquei muito triste, porque é muito triste este negócio de nunca mais.

A minha avó já estava bem velhinha. Ele morava num asilo e não lembrava mais direito das coisas. Só lembrava bem mesmo da minha mãe, que era a filha dela. Mas de mim ela não lembrava muito, só de vez em quando, e aí era legal porque ela me chamava de Bacaninha e dizia que eu era o seu neto favorito, e é sempre bom quando alguém diz que você é o favorito.

Então a minha mãe chegou e o meu pai foi falar com ela. Eu só fiquei olhando de longe, sem escutar nada. Mas nem precisava. Eu entendi quando que foi que o meu pai falou da minha avó porque de repente a minha mãe pôs as duas mãos no rosto e começou a chorar. Quando a mãe da gente chora é a coisa mais triste que tem, porque parece que a gente chora duas vezes.

De tarde teve uma coisa chamada velório e eu não fui para a escola. Não ir para escola é bom, mas dessa vez não foi.

Eu vi a minha avó no caixão e foi estranho, porque não parecia que ela tinha morrido. O corpo dela estava igualzinho, e eu tinha a impressão de que ela ia levantar. Eu ficava pensando assim: “Se tem coisa que quebra e pára de funcionar, mas depois dá para consertar, porque não pode ser assim com o corpo da gente? Devia ter um jeito de consertar as pessoas depois que elas quebram, e aí elas voltam a funcionar.”

Mas eu não falei isso para ninguém porque iam dizer que eu era bobo.

O velório é uma coisa estranha. Toda a família vai, até aqueles primos que você nunca vê. E todo mundo fica triste porque alguém morreu, mas também fica um pouco alegre porque toda a família está junta. Mas eu não entendo uma coisa: se todo mundo fica feliz porque fica junto, por que não fazem isso nos outros dias, quando ninguém morreu?

Bom, ali no velório eu comecei a pensar uma coisa que eu nunca tinha pensado. Pensei que um dia eu vou morrer. E também pensei que um dia o meu pai e a minha mãe vão morrer. E pensei que o meu avô, que mora em casa e é pai do meu pai, deve morrer logo, porque ele é o que está mais velho de todos.

Acho que o meu avô pensou a mesma coisa, porque ele estava o maior calado.

Aí a gente voltou do velório e eu estava muito preocupado com esse negócio de morrer. Eu só ficava pensando que podia ter um dia que eu nunca mais ia ver alguém, e eu não gosto desse negócio de nunca mais.

Eu fui brincar com meus brinquedos novos, a múmia e a limusine chique, mas nem brincava direito. Aí o meu avô chegou perto de mim e perguntou “Tudo bem?”

E eu respondi “Tudo”, mas era mentira.

Eu continuei brincando por um tempo, e o meu avô ficou ali me olhando. Então uma hora eu peguei coragem e perguntei para ele: “Por que as pessoas têm que morrer?”

Foi a primeira vez que eu ouvi o meu avô responder “Não sei”, porque ele sempre sabe tudo.

Ele viu um pouco de televisão e depois ele me perguntou: “Quer mingau de chocolate?” Eu e o meu avô gostamos um tantão de mingau de chocolate. A minha mãe até chama a gente de mingófilos.

Então eu respondi “Quero”, e a gente foi para a cozinha. Ele fez o mingau no fogão e eu fiquei brincando com os meus carrinhos. Aí ele botou o mingau num prato, pegou duas colheres e a gente ficou esperando ele esfriar um pouco.

Ninguém falou nada por um tempo, mas aí eu não agüentei e perguntei uma coisa que eu estava com a maior vontade de perguntar:

“Vô, se todo mundo morre, por que que a gente nasce?”

O meu avô ficou passando a colher pela bordinha do mingau, que é a parte que fica fria primeiro. Quando a colher ficou cheia, ele disse:

“Lelê, eu acho que a vida é mais ou menos que nem esse mingau. É uma coisa muito boa, muito gostosa, mas que a gente sabe que vai acabar. Só o que a gente pode fazer é aproveitar cada pedacinho e dividir com quem a gente gosta.”

Depois deu uma risada meio triste, sem mostrar os dentes, e colocou a colher na minha boca. Aí eu enchi a minha colher o mais que dava e coloquei na boca dele. Aí ele colocou outro tanto na minha boca, mas passou a colher no meu nariz e deixou ele sujo de chocolate, e eu fiz a mesma coisa com ele a gente foi comendo e rindo.

No final só sobrou um pouquinho de mingau bem no meio do prato. Mas esse, sei lá porquê, a gente não comeu.

Escrito por Lelê às 23h34
Lelê, a missa e o futebol.

Esse domingo foi um dia engraçado, porque eu fui em dois lugares bem diferentes mas que eram meio parecidos.

De manhã, a minha mãe me levou na missa. De tarde, o meu pai me levou num jogo de futebol.

Eu não gosto muito de missa porque a gente tem que ficar um tempão quieto no mesmo lugar e sem falar nada. O pior é que tem botar roupa de festa e eu detesto roupa de festa, ainda mais quando não tem festa.

Se eu pudesse comer aquele negócio que o padre dá (que a minha mãe falou que se chama hóstia), ia ser bacana. Só que ela disse que aquilo não tem gosto. Se um dia eu for padre, na minha igreja vai ter uma hóstia bem gostosa, com gosto de pizza ou de banana. Ou de pizza de banana, que é a minha favorita.

Lá na missa, o padre ficou falando sobre os milagres de Jesus e disse que o maior de todos foi ele ter voltado dos mortos, porque ele tinha morrido, mas renasceu no final da história.

Bom, aí de tarde o meu pai, que é palmeirense, me levou para ver o jogo do Palmeiras contra o Atlético do Paraná, que foi o maior bom porque parecia que o Palmeiras ia perder de dois a zero, mas aí ele fez dois gols e empatou, e o meu pai ficou o maior aliviado e disse: “Você viu, Lelê? Foi um milagre! O time estava morto, mas renasceu no finzinho.”

Aí, por causa do que o meu pai disse, eu fiquei pensando que a missa e o jogo de futebol têm um monte de coisa igual. Então eu falei: “Pai, a missa e o jogo de futebol têm um monte de coisa igual, né?”

Ele perguntou: “É?”

E eu respondi: “É.”

“Não consigo lembrar de nenhuma”, ele falou.

“Mas tem um monte, quer ver?”.

“Quero.”

Aí eu comecei a falar: “A primeira coisa igual é que o padre e o juiz gostam de se vestir de preto. Deve ser para parecer bem sério, porque quem se veste de preto é para parecer sério. E os dois dizem para todo mundo o que que é certo e o que que é errado.”

“É..., você até que tem razão. Tem mais alguma coisa?”

“Tem que a igreja é meio parecida com um estádio. Nos dois lugares a gente senta numas cadeiras ruins e fica levantando e sentando toda hora. Mas o banheiro das igrejas é bem melhor. Se bem que na igreja não vende pipoca. Se o banheiro do estádio fosse bom e se vendessem pipoca na igreja ia ser legal.”

O meu pai riu e disse que era mais fácil ter pipoca em igreja do que banheiro limpo em estádio.

 

(Aí em cima tem um estádio que parece um pneu e uma igreja que parece do Batman)

Aí eu lembrei de uma coisa importante: “Nos dois lugares a gente reza. Só que na igreja todo mundo reza junto e no estádio cada um reza sozinho. O senhor mesmo nesse jogo ficou assim: 'Ai, meu Jesus Cristo, ilumina esse nosso ataque, senão quem vai ter um ataque sou eu.'”

“É, meu filho, para torcer pro Palmeiras a gente tem que ter muita fé mesmo.”

 (Essa moça estava rezando na Copa)

“Outra coisa parecida é que a missa e o jogo têm torcida, e as duas cantam. A do jogo de futebol canta mais vezes que a da igreja, e isso é bom, mas a música deles têm palavrão, e isso é ruim.”

E aí o meu pai começou a cantar assim: “Ê, ô, ê, ô, o Edmundo é um terror!”

Aí eu lembrei de mais um negócio: “Na missa e no futebol tem taça. E de ouro! Mas a taça da missa é para o padre beber vinho e a taça do futebol é para dar para o campeão.”

“Acho que só vou ver outra taça indo na missa...”, disse o meu pai meio triste.

“E também tem uma coisa engraçada, que é que na missa e no futebol tem o bom e o mau. Os bons são Deus e o nosso time, e os maus são o Diabo e o outro time. E a gente sempre torce para o bom ganhar, mas às vezes quem ganha é o mau.”

“Às vezes, não. Muitas vezes...”, disse o papai com cara de chateado, mas eu não sei se ele tava falando de futebol.

“Tem também que as duas coisas passam na tevê, mas acho que o futebol faz mais sucesso, porque passa um monte de jogo e missa é só de vez em quando. E nos dois lugares tem que pagar. No estádio paga ingresso, e na igreja a minha mãe põe um dinheiro num saquinho vermelho.”

“É verdade, Lelê. Você anda muito observador. Acabou ou tem mais alguma coisa?”

“Tem mais uma: na missa e no futebol a gente senta com uma turma que nem conhece e parece que é todo mundo é amigo. Será que é por isso que as pessoas vão na missa e no jogo? Por que elas gostam de ficar numa turma de amigos e torcer para a mesma coisa?”

Aí o meu pai pensou e disse: “Acho que é isso mesmo, Lelê. Você anda muito esperto.”

Aí eu vi que ele tinha me elogiado e aproveitei: “Então, pai, se a missa é igual ao futebol, na semana que vem, em vez de eu ir na missa e no jogo, eu posso ir em dois jogos?”

Eu achei que tinha sido o maior esperto, mas aí o meu pai falou:

“Hum... O seu argumento é muito bom, mas vamos fazer diferente. Já que é tudo igual, você vai na missa da manhã e na missa da tarde.”

Aí eu me ferrei. Eu sou esperto, mas o meu pai é mais. Droga!

 

Escrito por Lelê às 09h46
Lelê, o entrevistado

Essa semana foi legal, porque eu dei entrevista. É que era Dia da Criança e aí me convidaram para fazer o Bate-papo no UOL.

Eu me senti o maior importante. Até ensaiei no banheiro. Peguei a mangueirinha do chuveirinho e fiquei fingindo que respondia umas perguntas: “O que eu acho do Brasil? Ah, eu acho blublurgh (o ‘blublurgh’ é porque a mangueirinha ligou bem na hora que eu ia falar e a minha boca encheu de água).”

O pessoal fez um monte de perguntas. Eu vou colocar elas aqui (só que eu tive que cortar umas, porque não cabia tudo). Ah, e a minha família depois mandou umas perguntas novas, que não tinham entrado no Bate-papo.

A entrevista foi lá no UOL, que tem um prédio bacana em São Paulo. Só que não tinha microfone nem entrevistador, era tudo no computador, que nem na foto aí embaixo.

Line: Lelê, você gosta de ler?

Lelê: Eu gosto de ler. Mas prefiro livro com desenho. Livro sem desenho é feio.

Line: Qual foi o livro que você mais gostou?

Lelê: Eu tenho que dizer que o livro que eu mais gostei é o "Uma história de futebol", do meu tio Torero, porque ele deve estar lendo esta entrevista.

Claudia: Lelê, eu acho muito legal o jeito que você conta as suas aventuras. Alguém te ajuda a escrever os textos?

Lelê: Ninguém me ajuda, mas todo mundo me atrapalha, porque ficam gritando pra mim: “Lelê, vem pegar o carrinho que você deixou no meio da sala!”, “Lelê, vem tirar a bola da pia da cozinha!”, “Lelê, que bicho é esse na banheira?”.

Line: Qual a sua comida preferida?

Lelê: Minha comida preferida é arroz, feijão e batata frita. Mas quando vem sem arroz e feijão é melhor.

Fabiana: Você é o tipo que não sai da frente do PC?

Lelê: Não. Eu saio da frente do computador de vez em quando porque não tem computador no banheiro.

Fabiana: Com quem você aprendeu a ser comunicativo assim?

Lelê: Eu não sei direito o que é comunicativo, mas acho que eu falo muito porque a minha mãe também fala muito. Tanto que o meu pai sempre diz: "Quando não é a sua mãe, é você. Tadinhos dos meus ouvidos."

Ket: Seus pais te dão muita bronca?

Lelê: Dão. E eu não acho justo, porque eu não tenho culpa se as coisas quebram fácil.

Efef: Como surgem as idéias do seu blog?

Lelê: Cada vez é de um jeito. Tem vez que eu vejo uma foto e me lembro de uma coisa (que nem o post das igrejas), tem vez é um leitor que dá uma idéia (que nem o post do presidente), e às vezes eu sonho com algum negócio e escrevo (que nem o do prefixo).

                  

Luciana: Oi, Lelê, primeiro queria dizer que te acho maior legal e depois quero te perguntar uma coisa: que time você torce? eu torço pro brasil! tchau!

Lelê: Eu também torço pro Brasil. Para time eu ainda não torço para nenhum, porque minha mãe é corintiana, meu pai é palmeirense, meu avô é São Paulo e o meu tio é Santos, então se eu escolher um os outros vão ficar tristes (e vão parar de me dar presente).

Luciana: Você gosta mais de escrever com o computador ou com a caneta? Sabe, às vezes eu acho que não sei mais escrever com a caneta, de tanto que eu fico no computador.

Lelê: Eu também gosto mais de escrever no computador. É mais fácil de apagar.

Line: Qual seu desenho preferido?

Lelê: É “Os Simpsons”. Eu queria ser que nem o Bart, mas a minha mãe disse que eu não posso ter cabelo espetado e nem me pintar de amarelo.

Fabiana: O que mais sua mãe não te deixa fazer de jeito nenhum?

Lelê: Ela não deixa eu botar fogo nas coisas. E isso é chato, porque é bacana pôr fogo nos bonequinhos velhos. Mas aí eu coloquei um soldadinho no microondas e também foi legal.

Line: O que você faz quando um amigo seu fica triste?

Lelê: Dou um chocolate para ele.

Lindinha: Qual a pior travessura que você fez em sua vida?

Lelê: Acho que foi quando eu virei os sofás da casa para brincar de homem das cavernas. A minha mãe não gostou e disse que ia me mandar para uma caverna de verdade.

Mãe do Lelê: Falando nisso, por que você não guarda as suas coisas depois que você brinca?

Lelê: Para que guardar se eu vou espalhar de novo?

 (esse sou eu em preto e branco)

Line: Você tem animal de estimação?

Lelê: Eu tenho uma cachorra chamada Lady. Ela é preta e é pequinesa e é a maior inteligente. Mas eu também queria um gato, um papagaio que falasse bastante e um golfinho. Eu adoro golfinho.

Lins: Onde você ia colocar o golfinho?

Lelê: Na banheira, é claro.

Julinha: Você joga bola dentro de casa?

Lelê: Claro! Jogar bola dentro de casa é o maior legal! As cadeiras são o outro time e a mesa é o gol.

Dudu: Você teria vergonha de usar aquele "banheiro público" da Roma antiga?!

Lelê: Eu não. Eu acho que ia ser legal, porque todo mundo devia levar revistinha e a gente ia ficar trocando uns com os outros.

Tico: Parabéns pra você, Lelê. Não perco uma história sua desde a copa. Foi na copa que você nasceu?

Lelê: Não, foi no hospital.

Lindinha: Lelê, qual foi o brinquedo que você mais gostou de ganhar?

Lelê: Foi um tanque que atirava mísseis. Aí eu mirava na barriga do meu pai, que eu dizia que era o King Kong. Mas um dia esse brinquedo sumiu.

Lins: Qual a matéria que você mais gosta na escola?

Lelê: É Educação Física, porque às vezes tem futebol. Se as outras matérias tivessem futebol eu também ia gostar. Na de Geografia, por exemplo, podiam desenhar o mundo no chão e a gente jogava em cima.

Sil: Lelê, você já deu beijinho na boca?

Lelê: Ainda não, mas eu já tentei. Só que a Thays corre mais que eu.

Pai do Lelê: Você quer ser que nem eu quando crescer?

Lelê: Quero. Só que mais magro e com mais cabelo.

Avô do Lelê: Onde você pôs a minha dentadura?

Lelê: Eu peguei pra brincar de Godzila e assustar a Lady, mas aí caiu e a Lady pegou. Acho que ela deve ter enterrado lá no jardim.

Juquinha: É verdade que seu tio Torero estava de bermuda e chinelo num jogo da Copa do Mundo ou foi maldade do nosso tio Juca?

Lelê: É verdade. O meu tio é o maior relaxado. A minha mãe diz que para ele ser mendigo só falta o chapéu de pedir esmola.

Lalá: Oi, Lelê, você é famoso na sua escola?

Lelê: Acho que na minha escola todo mundo é famoso porque todo mundo sabe o nome de todo mundo.

Tio Torero: Qual o sentido da vida?

Lelê: Sei lá! Acho que é brincar bastante enquanto o brinquedo não quebra.

Escrito por Lelê às 07h07
Lelê, o crítico

Estes dias eu fui com o meu tio Torero ver um filme chamado “O ano em que meus pais saíram de férias”. É a história de um menino chamado Mauro (que é esse aí da foto). Ele também gosta de jogar botão e torce para a seleção brasileira que nem eu.

Só que os pais dele saem de férias e deixam ele na casa do avô. Mas o avô morre e ele fica sozinho. Se isso acontecesse comigo eu não sei o que eu ia fazer. Se fosse hoje em dia eu ligava para o celular da minha mãe, mas a história é na Copa de 70, e naquele tempo não tinha celular (nem tevê colorida, nem Play Station, e acho que por isso é que meu tio diz que aqueles anos foram horríveis).

Lá no cinema, eu sentei numa cadeira, o tio Torero sentou de um lado e o Tio Juca do outro. E os dois choraram. O tio Juca mais que o tio Torero. Até fazia barulho. O tio Torero disfarçou e enxugou as lágrimas, mas eu vi.

Eles choraram porque o filme é meio triste. É meio triste mas é legal. E é legal porque é meio triste. E o final é meio alegre e meio triste, mas eu não vou contar porque senão estraga.

Escrito por Lelê às 08h28
O dia em que Lelê virou Leocadius


O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Só que eu queria mesmo era que me chamassem de Leocadius, porque eu sei fazer uma coisa igualzinho aos romanos. E por causa dessa coisa a minha mãe me deixou de castigo.

Na verdade, a culpa foi toda do professor Reinaldo, de História.

A aula dele é logo depois do recreio, e no recreio eu tomei dois copos de leite e comi um sanduíche de queijo, um Diamante Negro e uns cinco Bis. Então, quando começou a aula, eu tinha comido tanto que não agüentei e sem querer eu soltei um arrotinho.

Foi mais ou menos assim: Grou!

Aí todo mundo apontou para mim e riu.

O professor Reinaldo falou para a classe parar de rir e disse que aquilo não tinha graça, porque o arroto era uma coisa que acontecia com todo mundo e que em alguns lugares era até uma prova de educação.

“Onde?”, eu perguntei.

“Em Roma”, respondeu o professor Reinaldo.

“Então você tem que mudar pra lá.”, disse o Zepa, que se chama Zé Paulo e é gordo.

Todo mundo riu de mim de novo e eu fiquei o maior chateado, porque é bom rir dos outros, mas é chato quando riem da gente. Se o Zepa não fosse maior que eu, eu batia nele.

Depois que a risaiada acabou, o professor Reinaldo disse que não adiantava eu ir para a Roma de hoje em dia, porque o arroto só era valorizado na Antiga Roma, uns dois mil anos atrás.

Então a Psiula (que se chama Priscila mas tem esse apelido porque usa aparelho e quando ela fala o nome dela parece que ela diz Psiula) perguntou onde ficava Roma.

O professor disse que Roma fica na Itália, onde tem um monte de jogador de futebol brasileiro. Só que a explicação não adiantou muito, porque tem jogador brasileiro em tudo quanto é lugar. Por isso o professor Reinaldo, que é o maior inteligente mas não sabe desenhar, mostrou num mapa onde era essa tal de Roma. Ele contou que ela já foi a cidade mais importante do planeta, a capital do maior império do mundo.

Depois o professor começou a falar de um tal de César, que eu acho que era amigo do Popeye, porque tinha um inimigo chamado Brutus.

“Mas e a história do arroto?”, eu perguntei, porque o professor Reinaldo sempre começa falando de uma coisa e acaba falando de outra.

Ele falou para eu esperar, porque ele já ia arrotar, quer dizer, contar.

Então ele disse que se os meninos vivessem lá, todos iam ter que usar um vestido chamado toga. Aí as meninas riram dos meninos.

O pior é que eu sabia que aquilo era verdade, porque eu vi um filme chamado Gladiador e lá os homens usavam vestido.

Nesse filme, os romanos falavam inglês, mas o professor Reinaldo disse que na verdade os romanos falavam latim, e que, em latim, o meu nome ia ser Leocadius.

Ele também contou que algumas coisas na vida dos romanos eram parecidas com as nossas. Que muita gente vivia em apartamentos bem parecidos como os nossos, só que  mais baixos.

O problema era que os apartamentos não tinham elevador. E, pior ainda, não tinham esgoto. Os ricos, que moravam em casas grandes, tinham, mas quem era mais pobre não tinha. Eles faziam cocô e o xixi nuns penicos e tinham que ir até a rua para jogar tudo no lugar certo.

Só que tinha uns romanos preguiçosos que jogavam tudo pela janela, e isso dava a maior briga, porque às vezes quem era acertado contratava um advogado e processava quem tinha jogado.

Também tinha umas coisas legais que eram as latrinas públicas (que nem essa aí na foto de baixo), onde todo mundo ficava conversando e fazia xixi e cocô junto. Eu achei isso legal, porque nessa hora a gente fica sozinho e é chato.

O professor também contou que, nas casas romanas, o móvel mais importante era a cama, que era do tamanho do dinheiro que a pessoa tinha. Quanto mais o cara era rico, maior era a cama. Ela era importante porque os romanos dormiam e comiam nas camas. E eles comiam com a mão, que é mais fácil do que com garfo e faca.

Os romanos eram o maior prático!

Mas o melhor de tudo é que a gente podia arrotar. Podia, não, devia. O professor Reinaldo até colocou uma frase na lousa que era assim:

“O arroto à mesa era uma delicadeza justificada pelos filósofos, para os quais seguir a natureza era a última palavra da sabedoria.”

Depois disso a aula acabou e eu fui para casa.

Então à noite, a minha mãe, o meu pai, o meu avô e o meu tio Torero estavam jantando e gritaram para eu ir logo que a comida estava esfriando.

Aí eu peguei um lençol, amarrei como se fosse uma toga e fui para a cozinha.

Todo mundo abriu a boca quando me viu. Então eu juntei duas cadeiras, deitei nelas, comecei a comer com a mão e disse: "Depois vamos fazer cocô todo mundo junto?"

A minha mãe perguntou: “Você está louco, Leocádio?”

E eu respondi: “Leocádio não. Meu nome agora é Leocadius.” E  dei o maior arroto: Grroooouuuuu!”.

Por isso é que eu fiquei de castigo.

Escrito por Lelê às 06h41