BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

Saiba quem é Torero

Neste blog Na Web

Este blog é atualizado às sextas.
 Visitas  
 
Lelê fixa o prefixo

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Só que eu quero mudar meu apelido para Bilê.

É que quando eu era pequeno, que foi no ano passado, eu perguntei para o meu tio Torero por que que eu tinha que ter aula de português se eu já falava português.

Ele disse que eu tinha que aprender português bem direito para escrever que nem ele. Mas aí eu falei que eu já escrevia bem direito, tanto que de vez em quando eu fazia uns textos para o jornal dele, e que eu até recebia mais comentários no meu blog que ele no dele.

Então o meu tio, depois de engasgar com o bolo de chocolate que ele estava comendo, pensou um pouco e disse que eu tinha que aprender português melhor do que eu já sabia porque quem escreve bem tem namorada bonita.

Aí eu pensei e vi que era verdade, porque os amigos do meu tio Torero, o tio Verissimo, o tio Zuenir e o tio Bonassi são casados com umas bonitonas.

Por causa disso eu decidi caprichar nas aulas de português.

A minha professora de português se chama Dona Maria Rosa Estevam Frangetto. Ela também é bem bonitona e deve ter uns sessenta anos. Na semana passada, a dona Maria Rosa falou de uma coisa que se chama prefixo.

O prefixo é um negócio que vem na frente da palavra e quer dizer alguma coisa.

A Dona Maria Rosa escreveu a palavra prefixo na lousa, aí separou o pre do fixo e disse: “Por exemplo, pessoal, o ‘pre’ de prefixo quer dizer o quê?”

 

prefixo   pre/fixo

 

Ninguém falou nada, aí ela mesma respondeu: “Quer dizer ‘antes de’, entenderam? Como em previsão, pré-história e prefácio. Entenderam agora?” 

Todo mundo continuou calado. Ela percebeu que a gente não tinha entendido nada e tentou de novo:

“Vou dar um outro exemplo: a gente tem o prefixo ‘anti’, que quer dizer ‘contra’, como em anticristo, antibiótico e antitérmico. Entenderam?”

Anti = contra

A gente continuou calado. Nem o Aurelius, que é o maior CDF da classe, falou alguma coisa.

Então a dona Maria Rosa explicou de novo:

“Olha, tem também o prefixo ‘a’, que quer dizer ‘não’ e ‘sem’. Por exemplo, analfabeto é quem não conhece o alfabeto; arritmia é o que não tem ritmo; anormal é uma coisa que não é normal; acéfalo é sem cabeça e anônimo é sem nome.”

Aí o Babão, tem esse apelido porque um dia dormiu na classe e babou, perguntou: “Então lá em Alagoas não tem lagoa?”

Alagoas = sem lagoa?

O Babão é meio burro, mas dessa vez ele fez uma pergunta muito boa, porque a dona Maria Rosa teve que respirar fundo antes de responder.

“Não, Babão, quer dizer, Luizinho, nem sempre o ‘a’ é um prefixo de negação. Às vezes ele faz parte da palavra, como em abacaxi e abacate.”

“Ah, bom...”, disse o Arlindo. “Eu já estava pensando que meu nome queria dizer não-lindo”. E aí como o Arlindo é bem feio mesmo, todo mundo caiu na gargalhada, menos ele.

Depois que a gente parou de rir, a dona Maria Rosa falou de outro prefixo, o “bi”, que queria dizer dois. E deu uns exemplos: bicampeão é quem foi campeão duas vezes, biatlo é aquela competição que tem duas provas diferentes, bípede é quem tem dois pés, bicolor é o que tem duas cores, bimestral é o que acontece de dois em dois meses e a bicicleta tem esse nome porque tem duas rodas.

Bi = dois

A gente começou a entender o tal do prefixo. E então a dona Maria Rosa disse que tem outros prefixos que significam números, que nem tri, que quer dizer “três”, tetra, que quer dizer quatro, penta, que quer dizer cinco, e hexa, que quer dizer seis e é uma coisa que o Brasil não é no futebol porque a seleção jogou o maior ruim na Copa.

Aí todo mundo entendeu aquela coisa de prefixo e a gente começou a falar:

A Bibi perguntou o que queria dizer o apelido dela. Era “dois e dois” ou era “quatro”?

O Zepa, que se chama Zé Paulo e é o maior gordo, falou que não quer mais bife, bisteca e biscoito. Agora ele quer trife, tetrateca e pentacoito, que devem ser bem grandões.

Chamaram a Tereza de bisbilhoteira, mas ela falou que era só um pouquinho, uma bilhoteira.

Eu disse que ia mudar meu nome para Bilê, que é duas vezes Lê, o que dá Lelê.

Bilê = Lelê

O Gabriel, que está sempre olhando as meninas, falou que ia dar um bibeijo na Bibi e fez um beicinho, mas ela respondeu que ele era binsuportável e botou um lápis no beicinho dele.

E o Aurelius, que é o maior CDF, disse que ele era binteligente, mas a dona Maria Rosa falou que aquela palavra não existia e então toda classe começou a gritar “Biburro! Biburro!” e ficou a maior bibagunça.

Só quem ficou quieta foi a dona Maria Rosa. Ela sentou na cadeira dela, deu um suspiro e disse baixinho: “Essa turma ainda vai me deixar bibiruta...”

Escrito por Lelê às 07h05
Lelê, o presidente

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que andei pensando em trocar de nome. Ia mudar para Leocádio Lelê da Silva, porque eu ia ser candidato a presidente.

Xi, contei o fim da história!

Bom, vou começar de novo. Bem do começo.

É que a minha mãe tinha saído, então eu aproveitei para jogar bola no quarto dela. Lá é o maior bom de jogar bola porque a cama dela e do meu pai é enorme, e aí eu jogo a bola na parede e caio em cima da cama para fazer a defesa.

Pena que os goleiros de verdade têm que pular no chão duro. Se eu fosse goleiro de verdade eu ia fazer uma roupa de espuma de colchão, porque aí quando eu caísse ia ser gostoso.

Só que quando eu estava pulando na cama da minha mãe teve um problema: é que uma das madeirinhas que fica embaixo da cama era muito fraca (já devia até estar rachada com o peso do meu pai, que é meio gordo), então, quando eu pulei, a madeirinha fez crec e quebrou.

Quando a minha mãe viu aquilo, ela ficou o maior brava e berrou assim: “Leocádio, você quebrou o estrado da minha cama?”

E eu olhei para o chão, que eu não sou bobo, e disse: “É...”

Ela perguntou: “Você estava jogando bola, não estava?”

Eu respondi: “É...”

Aí ela falou: “Brincando de goleiro, não é?”

Eu disse: “É...”, e pensei: “Se ela sabe o que aconteceu, por que que tem que me perguntar tudo de novo?”

Ela continuou: “Eu já não te falei que minha cama não é campo de futebol? Pois o senhor vai ficar sem televisão.”

Eu achei aquilo um castigo muito exagerado, mas a coisa ia ficar pior ainda. É que quando ela já estava saindo, batendo o pé bem forte no chão, ela parou, deu meia volta, voltou e disse: “Não. Vou te dar um castigo pior ainda. A televisão vai ficar ligada, mas você vai ver o horário político.”

O meu avô, que escutou essa última parte, disse: “Isso é muita crueldade com o garoto”, mas minha mãe nem deu bola e me mandou para frente da televisão.

Aí eu fiquei vendo os candidatos falarem e vi que esse negócio de horário político é muito chato. Muuuuuito. Com um monte de us. E é chato porque as pessoas falam que nem eu quando decoro alguma coisa para a aula, e todo mundo parece parecido.

Mas aquilo me deu uma idéia: eu também podia ser candidato. E aí, se eu ganhasse, eu ia ser presidente e ia morar em Brasília, que é uma cidade bem bonita, que parece do futuro.

Então na hora da janta eu falei que queria ser presidente e todo mundo riu. Mas quando eu disse que ia entrar para o PCdoB todo mundo ficou sério. Só riram de novo quando eu expliquei que PCdoB era Partido das Crianças do Brasil.

Aí eu disse que já tinha até uma música para a minha campanha. Todo mundo quis saber qual era. Aí eu expliquei que eu peguei aquela música (clique aqui para ouvir um pedacinho) que é assim:

“Samba Lelê tá doente,
Tá com a cabeça quebrada.
Samba Lelê precisava
É de uma boa lambada

“Samba, samba, samba, ô Lelê.
Samba, samba, samba, ô Lalá.
Samba, samba, samba, ô Lelê.
Pisa na barra da saia, ô Lalá.”

Só que aí eu mudei umas palavras e ela ficou assim:

“Para Lelê presidente,
Vote aí criançada.
Todo mundo contente
Olha que festa danada!

“Vote, vote, vote Lelê,
Em Brasília ele vai chegar.
Vote, vote, vote Lelê,
Que o mundo vai melhorar!”

O pessoal achou a minha música muito boa, e o meu avô perguntou se eu já tinha um slogan.

Eu respondi que tinha, e era “Brinquedos para todos!”

“É um bom slogan”, disse a minha mãe. “Criança tem que ter brinquedo mesmo. Senão, daqui a pouco, vai ter o MSB, Movimento dos Sem-Brinquedo.”

Aí estava passando uma reportagem na tevê sobre uns meninos que pediam esmola e ela disse: “Pensando bem, o MSB já existe...”

        

Depois o meu pai explicou que eu ia precisar de bastante dinheiro para me eleger.

Então o meu tio Torero, que estava filando a janta lá em casa, falou que eu ia conseguir apoio das empresas de brinquedos.

“Como assim?”, eu perguntei.

Aí meu avô me explicou que, como as campanhas dos políticos são muito caras, as empresas apóiam os candidatos. Só que depois os candidatos dão um jeito de ajudar essas empresas.

“Por exemplo”, falou a minha mãe, “se uma empresa de brinquedo te der dinheiro, depois você vai ter que comprar brinquedos dela.”

“E se os brinquedos dela forem feios?”, eu perguntei.

“Azar das crianças”, disse o meu pai.

“E se uma empreiteira te der dinheiro, ela é que vai construir as suas estradas”, disse o meu tio.

“E se os bancos te derem dinheiro, você vai ter que manter os juros altos”, disse o meu avô.

“E se os ricos te derem dinheiro, você nunca vai aprovar o tal imposto sobre as grandes fortunas”, falou a minha mãe.

Eu achei tudo isso muito ruim e desisti de ser político. Pelo menos por enquanto. É que eu tinha pensado que o político mandava nos outros, mas pelo jeito são as empresas que mandam nos políticos.

Aí, como eu desisti de mudar para Brasília, eu mudei a minha música, que ficou assim:
  
“Samba Lelê tá doente,
Tá com a cabeça quebrada.
Queria ser presidente,
Ia entrar numa roubada.

“Samba, samba, samba, ô Lelê
Em Brasília não sabem brincar.
Samba, samba, samba, ô Lelê,
Brinca, brinca, não vai pra lá.”  

Escrito por Lelê às 06h45
Lelê pinta o sete

O meu nome é Leocádio mas todo mundo me chama de Lelê. Se bem que o tio Rony, um amigo gago do meu pai, me chama de Leleocádio. Eu acho isso legal. Quer dizer, lelegal.

Eu gosto de pintar mas eu acho que não sei pintar direito, porque sempre que eu desenho uma coisa as pessoas pensam que é outra.

Na viagem que eu fiz com o meu tio Torero, ele me levou num monte de museus, e nesses museus tinha um monte de quadros e eu tirei um monte de fotos desse monte de quadros desse monte de museus.

A foto que eu mais queria tirar era da Mona Lisa, porque o meu tio disse que esse é o quadro mais famoso e mais caro do mundo. Só que quando a gente chegou lá, tinha tanta gente que nem deu para tirar foto direito. Aí o meu tio me colocou nos ombros dele e eu tirei esta foto aqui:

A Mona Lisa é aquele quadro pequenininho lá longe. Depois a gente chegou perto dele, mas aí não pode tirar foto porque tem um guarda que fica dizendo que não pode tirar foto. Só que aí eu achei o quadro na internet, e ele é assim:

Esse quadro é o maior velho, já tem quinhentos anos.

Eu achei que a Mona Lisa está com um sorriso esquisito, que nem quando a gente faz quando solta um pum e tenta disfarçar. Quando eu falei isso pro meu tio, ele disse que eu devia ser crítico de arte.

Existe muito quadro de mulher e de vaso. Eu gosto mais dos que têm mulher, porque vaso é uma coisa sem graça e que quebra com uma bolada de nada. Outro quadro bacana de mulher que a gente viu foi esse aqui:

Esse retrato se chama Maja Vestida, e foi pintado há uns duzentos anos por um pintor chamado Francisco de Goya, que o meu tio disse que era um pintor muito famoso na Espanha. Eu achei o quadro legal, mas eu gostei mais deste aqui, a Maja Desnuda:

Quando eu falei para o meu tio que tinha gostado mais da pelada que da vestida, ele disse: “Bom, já que é assim, para despertar seu gosto pela arte eu vou te mostrar as Três Graças.”

Aí a gente viu um quadro com três mulheres peladas, esse aqui:

Eu achei as mulheres meio gordinhas, mas o meu tio disse que naquele tempo assim é que era bonito e que, se tivesse revista Playboy na época delas, as Três Graças iam sair na capa.

Quem fez esse quadro das Três Graças, uns quatrocentos anos atrás, foi um tal de Pedro Paulo Rubens, que é um nome engraçado porque tem três nomes mas não tem sobrenome. Meu tio disse que o legal nesse Rubens é que a luz parece que atravessa uma neblina, e as imagens são meio esfumaçadas, como se fosse um sonho. Aí eu fiquei pensando: será que o meu tio sonha com estas três gordinhas?

Bom, aí depois a gente viu outra mulher pelada, mas essa era bem diferente. Era assim:

Quem desenhou essa moça há quase cem anos foi um cara de nome muito engraçado, o Pablo Picasso. Se eu tivesse esse nome iam tirar o maior sarro de mim na classe.

Eu achei o quadro legal porque ele é todo reto, bem diferente do tal do Rubens, que é todo cheio de curva.

Meu tio Torero disse que o Picasso era um cubista, aí eu perguntei de que clube, mas o meu tio explicou que era cubista e não clubista, e que os pintores cubistas, há uns cem anos, começaram a pintar as coisas como se elas fossem feitas de formas geométricas, que nem cilindros, cubos e esferas. Achei isso legal, porque assim eu também sei pintar, porque eu tenho uma régua cheia de quadrados e triângulos e bolas.

Aí a gente viu um quadro muito legal de um cara chamado Van Gogh. Esse aqui:

O meu tio disse que no tempo do Van Gogh não reconheceram o talento dele, tanto que ele só vendeu um quadro enquanto estava vivo. Mas hoje aqueles quadros que ninguém quis custam milhões.

Então o meu tio falou para eu olhar a pintura bem de perto e prestar atenção na pincelada do Van Gogh. Aí eu olhei o botão da camisa do homem do quadro bem de perto, e ele é assim:

O meu tio perguntou: “Viu a pincelada?”

E eu respondi: “Vi”.

Aí ele disse: “Então, antes do Van Gogh os pintores escondiam a pincelada. Lembra da Mona Lisa e das Três Graças? Lá a gente não vê a pincelada, mas aqui vê. O Van Gogh não queria dar a impressão que a gente estava vendo uma coisa de verdade, ele queria que a gente pensasse que estava vendo um quadro mesmo. E essas pinceladas grandonas deixam o quadro vibrante.”

Eu olhei para o quadro e ele não estava vibrando. Aí o meu tio viu a minha cara e explicou: “Vibrante quer dizer intenso, forte, nervoso, vivo.” Então eu disse: “Ah...” para fazer de conta que eu tinha entendido.

Mas o quadro que eu gostei mais de todos foi esse aqui:

Ele foi feito por um cara italiano chamado Giuseppe Arcimboldo, que viveu há mais de quatrocentos anos, e eu gostei porque ele é feito com um monte de coisas que fazem uma outra coisa, quer dizer, o pintor pintou um homem, mas o cabelo é feito de uva, o nariz, de batata e a orelha, de cogumelo.

Achei isso muito bacana e o Arcimboldo virou o meu pintor favorito. Aí, quando a professora Edileusa mandou a gente fazer uma bandeira do Brasil, eu fiz que nem o Arcimboldo. Desenhei a parte verde com umas folhas que eu recortei, a parte amarela eu fiz com umas bananas, aí eu pintei o mundo na parte azul e, em vez de escrever “Ordem e Progresso”, eu escrevi “Reis da Bola”, porque o Brasil não tem muita ordem e progresso, mas é o melhor no futebol.

Aí o meu quadro ficou assim:

Eu achei ele o maior legal e falei para o meu tio Torero comprar ele de mim.

O meu tio disse que não queria, mas aí eu falei para ele que no futuro eu ia ficar famoso e o meu quadro ia valer milhões, que nem o do Van Gogh, e que se ele não comprasse ia perder a chance de ficar milionário. Aí ele disse “tá bom, tá bom, Van Lelê...” e me deu dez reais.

Eu achei pouco, mas tudo bem. É dífícil a gente ter o valor reconhecido. Pelo menos eu já empatei com o Van Gogh.

Escrito por Lelê às 06h41
O diabinho na igreja

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê (pelo menos quando ninguém está bravo comigo, porque aí a minha mãe me chama de “tinhoso”, o meu tio de “pestinha”, meu pai de “demoninho” e o meu tio me chama de “coisa-ruim”).

Ontem, depois que eu quebrei um vaso (por que os vasos são de louça e não de ferro ou de espuma?), a minha mãe disse que parecia que eu estava com o diabo no corpo. Eu perguntei para mim mesmo: “Será?”. Mas aí eu me respondi: “Não, ela quer é me botar medo.”

E aí, falando em diabo, eu lembrei das igrejas que eu visitei nas férias. Elas eram muuuito grandes. E mais velhas que o Brasil.

A primeira igreja que eu lembro é a Notre Dame, que quer dizer “Nossa Senhora” em francês. Ela fica numa ilha que fica no meio de um rio em Paris, o rio Sena, que deve ter esse nome por causa do Ayrton Senna, só que esqueceram de colocar um outro “ene”.

Ela é assim:

O meu tio disse que nessa igreja vive um corcunda, o corcunda de Notre Dame, e o nome dele é Quasímodo. Mas eu sabia que era mentira, porque eu tinha visto o desenho da Disney. Por que será que os adultos gostam de pôr medo nas crianças? Será que é para elas ficarem quietas?

Bom, a gente foi lá num domingo e não tinha nenhum corcunda pulando nos sinos. Mas tinha um negócio mais esquisito: um pessoal cantando numa língua estranha chamada latim. Eu falei que latim devia ser língua de cachorro, mas acho que o meu tio não entendeu a piada porque ele não riu, então eu expliquei: “Latim, latido, entendeu?”. Ele continuou sem rir. Deve ter sido uma piada muito difícil para ele. Fazer piada é legal.

De costas, a Nossa Senhora é assim:

Por dentro, essa igreja é bem escura e alta. O meu tio disse que é porque ela é gótica. Eu perguntei o que era uma coisa gótica e ele falou assim: “É um estilo artístico que predominou na Europa no final da Idade Média e que se caracterizava por formas esguias, grandes aberturas verticais e um tom taciturno e misterioso.”

Eu disse: “Hã?”

Então ele disse: “Gótico é assim que nem a Batcaverna.”

Aí eu entendi. Por que não ele explicou direito da primeira vez?

A igreja era bem alta mesmo. Por isso eu me senti bem pequeno. O meu tio disse que essa era a idéia dos arquitetos daquele tempo: mostrar como Deus é grande e o homem é pequeno. Será que eles faziam isso para a gente ficar com medo de Deus?

Lá dentro eu vi umas estátuas de santos e pensei que ia ser super legal seu eu fosse santo. Eu ia ter uma estátua e a estátua ia ter uma plaquinha assim: “São Lelê”.

Em Chartres, que é uma cidade que fica perto de Paris, a gente viu outra catedral. Essa é maior ainda:

A nave dessa catedral (nave não é de nave espacial, é o lugar onde as pessoas ficam para ver a missa) tem 37 metros de altura. E num papel estava escrito que ela começou a ser construída em 1020.

Meu tio Torero falou que o mais legal dessa igreja é que ela tem três rosáceas e mais de 150 vitrais.

Eu disse: “Hã?”

Então ele apontou para um lugar e disse: “Aquilo lá”. “Aquilo lá” era isso aqui:

 

Os vitrais são os compridos e as rosáceas são as redondas. Os dessa igreja são o maior velhos e não quebraram nunca. Nem na guerra, porque aí tiraram os vidros e guardaram até ela acabar. O meu tio disse que a sorte daqueles vitrais era que eu não morava lá.

Bom, numa cidade chamada Sevilha, que fica na Espanha, a gente foi numa outra igreja. Essa tinha uma torre muito alta chamada Giralda, que é um nome engraçado porque parece Geralda.

O mais legal é que a gente sobe por dentro da Giralda. E não era de elevador, era por umas rampas por dentro da torre. O meu tio ficou sem ar e falava assim: “Meu reino por um elevador, meu reino por um elevador...”

Lá em cima dava para ver a cidade toda. Assim:

Eu ainda vi mais igrejas, lá em Colônia, na Alemanha, onde tem uma catedral que parece mesmo do Batman:

Mas teve uma coisa que eu não entendi: em todas as igrejas tinha sempre uma lojinha. Às vezes era do lado, mas às vezes era lá dentro. Isso não é pecado? Se na igreja não pode correr nem gritar, porque é que pode vender um monte de coisas? Não tinha que ser só para rezar?

E até para acender vela a gente tinha que pagar! E as velas nem eram de verdade. A gente punha uma moedinha a acendia uma lampadinha. Será que tem que pagar para ir pro céu?

 

Escrito por Lelê às 06h44
Lelê vira Lelezilla, o destruidor de castelos

Uma coisa que eu sempre quis ver era um castelo de verdade, porque tem um monte de filme e de desenho que mostra castelo, mas um castelo de verdade mesmo, de carne e osso, quer dizer, de pedra e madeira, eu nunca vi.

É que aqui no Brasil não tem castelo. Mas devia ter, porque no Brasil também tem rei e rainha, que nem o Pelé, que é o rei do futebol, a Xuxa, que é a rainha dos baixinhos, e o Roberto Carlos, que o meu tio disse que é o rei do ieieiê (eu não sei o que que é ieieiê, mas deve ser uma coisa muito velha).

Bom, aí quando acabou a Copa, eu pedi pro meu tio: “Tio Torero, me leva para ver um castelo de verdade?”

Ele respondeu: “Não vai dar tempo, Lelê.”

Aí eu falei: “Tio Torero, me leva para ver um castelo de verdade, porque no Brasil não tem nenhum?”

E ele respondeu: “Não vai dar, Lelê.”

Aí eu falei: “Tio, me leva para ver um castelo de verdade, porque no Brasil não tem nenhum e eu adoro castelo, porque eles parecem um brinquedo gigante e eu acho eles a coisa mais legal do mundo?”

E ele respondeu: “Não, Lelê.”

Aí eu falei: “Tio, me leva...”

Mas nem deixou eu acabar de falar e disse: “Levo, Lelê, levo!”

E aí eu aprendi que a gente não pode só pedir as coisas, mas tem que pedir de um jeito bem comprido, porque aí parece que a gente quer mais a coisa.

Então o meu tio me levou num lugar e eu vi um monte de castelos, uns quarenta, e tirei foto desses aqui:

  

Mas isso foi um truque do meu tio, porque esses quarenta castelos eram todos pequenininhos. Eles ficavam num parque onde tinha um monte deles.

Aquilo foi o maior truque sujo, mas eu não fiquei triste porque eu achei o parque bacana. Eu me sentia um gigante ali. Eu era o Lelezilla, que é uma mistura de Lelê com Godzilla.

Se eu fosse o Lelezilla ia ser bacana porque eu ia chegar na escola só com uns cinco passos, e ia assistir à aula da janela da classe, porque eu não ia conseguir entrar na sala. Só ia ser ruim quando chovesse.

Bom, eu estava brincando no meio dos castelos, pensando que eu era o Lelezilla, quando o meu tio disse que também queria brincar, que ele ia ser o King Torerong, mistura de Torero com King Kong.

Então ele ficou em frente à miniatura de um castelo e pediu para eu tirar uma foto e eu tirei.

Mas eu queria ter tirado esta foto um pouco depois, porque ele tropeçou e quase caiu em cima do castelo, só que eu comecei a rir e não consegui tirar a foto. Se o meu tio fosse gigante ia fazer o maior estrago, porque ele é o maior desastrado.

Depois disso o meu tio falou: “Pronto, agora chega de castelo.”

Mas aí eu disse “Não, tio, isso não vale, eu quero ver um castelo de verdade!”. Eu já ia começar a chorar para o meu tio ficar com pena de mim e me levar num castelo de verdade. Só que aí ele falou: “É claro que a a gente vai ver um castelo de verdade, Lelê. Eu só estava brincando, rá, rá”.

Isso não é brincadeira que se faça. Ah, se eu fosse o Lelezilla...

Bom, então a gente foi num lugar na França (que é um país onde se come muito queijo) chamado Vale do Loire. O Loire é um rio, e a gente escreve “Loire” mas fala “luar”. Os franceses são muito complicados, porque eles nunca falam do jeito que se escreve. Deve ser porque eles estão sempre com a boca cheia de queijo.

Bom, nesse Vale do Loire tem um monte de castelo, e aí o meu tio me levou para ver um que ele acha muito bacana, o castelo de Chenonceau (se escreve assim mas se fala chenonçô).

Esse castelo é o maior legal porque ele é uma mistura de castelo com ponte. E a gente pode alugar um barquinho e passar debaixo dele.

O meu tio falou assim: “Ah, che non sô eu pra te trazer aqui, hein Lelê?” E aí ficou falando “Che non sô eu” em tudo quanto é frase. O meu tio diz que ganha a vida fazendo gracinha, mas eu não entendo como que as pessoas pagam ele para isso.

O meu tio me contou que esse Castelo foi mandado construir pelo rei Henrique II, e ele deu o castelo de presente para uma moça que ele gostava, chamada Diane de Poitiers, em 1547. Só que o rei Henrique II era casado com uma mulher chamada Catarina de Médicis. Aí, quando o rei morreu (afogado no rio, coitado), a Catarina mandou a Diane morar num castelo menor e ficou com este aqui.

Tem um negócio engraçado que são as letras que tem no castelo. Tem o H de Henrique II e o C de Catarina. Mas quando juntam as duas letras aparece o D de Diane. Esse rei era bem esperto.

 

Depois disso a gente foi ver o castelo que o meu tio acha o mais bonito do mundo, o castelo de Chambord. Ele é esse aí embaixo: 

O meu tio olhou o papelzinho que a gente recebe na entrada, leu, colocou no bolso, fez cara de sabido e falou:

“Sabe Lelê, Chambord tem 440 aposentos. Ele possui 160 metros de comprimento e 120 de largura. As obras começaram em 1519, mas só acabaram mesmo em 1685. Mais de oitocentas mil pessoas por ano visitam este castelo.”

Aí eu disse: “Poxa, tio, o senhor sabe um monte de coisa!”, porque gente grande gosta de pensar que a gente pensa que eles são inteligentes.

Então o meu tio ficou animado e continuou:

“Quem construiu Chambord foi o rei Francisco I.”

E eu perguntei: “O rei construiu ele sozinho?”

“Não. Mil e oitocentos homens trabalharam aqui.”

Aí eu não achei justo e falei “Pô, mil e oitocentos caras trabalhando só para um não tá certo. Ainda mais que o castelo tem 440 aposentos e o rei só consegue dormir num quarto. Ele bem que podia deixar uns dos mil e oitocentos morarem lá de graça.”

E aí o meu tio disse: “O pior é que é assim até hoje em dia, Lelê. Os pedreiros que fazem prédios chiques nunca vão morar lá. E eles também constroem escolas bacanas, mas os filhos deles não vão poder estudar ali.”

E aí eu comecei a achar que tem alguma coisa errada nesse negócio de castelo.

Escrito por Lelê às 07h20