BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Menino, de 08 a 12 anos

Lelê é o sobrinho fictício do
escritor José Roberto Torero.

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Lelê e a mistureba

Eu estava pensando no que que eu ia contar das minhas férias, e aí eu achei legal falar sobre o lugar que eu achei mais bonito.

Esse lugar que eu achei mais bonito se chama Catedral-Mesquita e fica numa cidade chamada Córdoba, que fica na Espanha e lá faz o maior calorão, tanto que eu tive que tomar um monte de refrigerante.

Tem um tantão assim de latas diferentes lá, mas o meu tio não deixou eu trazer nenhuma, então eu tirei foto delas:

  

Eu não tomei todos esses refrigerantes. A Fanta Uva quem tomou foi o meu tio. Ele adora esse negócio, mas eu acho blargh.

Bom, eu estava falando da cidade de Córdoba. Ela é legal porque ela tem umas casas muito velhas e parece que a gente está num filme.

O meu tio disse que antigamente, antes até do meu avô nascer, há uns mil e duzentos anos, nessa cidade viviam católicos, judeus e muçulmanos.

Eu perguntei “muçu o quê?”, e o meu tio explicou que os judeus, os católicos e os muçulmanos eram três grupos religiosos, que eles acreditavam no mesmo Deus, mas cada um de um jeito um pouco diferente, e que os católicos iam na igreja, os muçulmanos na mesquita e os judeus na sinagoga.

Parece que quem mandava em Córdoba naquele tempo eram os muçulmanos, mas eles deixavam os católicos e os judeus em paz e todo mundo vivia junto.

Então os muçulmanos começaram a construir essa mesquita para eles rezarem lá dentro. Fizeram primeiro um pedaço, depois outro, depois outro e depois de 202 anos ela ficou o maior grande.

No papel que eu peguei na entrada estava escrito que lá cabiam mais de 40 mil pessoas. Ela é cheia de arcos (parece que os muçulmanos gostavam à beça de arcos, porque as portas e as janelas deles são sempre redondas em cima) e o papelzinho diz que tem mais de 850 colunas!

O engraçado é que, como a mesquita foi feita aos pouquinhos, tem uns pedaços diferentes dos outros.

Uns são assim:

E outros são assim:

E dá a maior vontade de brincar de esconde-esconde lá.

Bom, aí passou um tempão, uns quatrocentos anos, e os católicos lutaram com os muçulmanos e reconquistaram a cidade de Córdoba, onde faz um baita calor. E os católicos tiveram a idéia de construir uma catedral dentro da mesquita, e ficou o maior legal porque a igreja é o maior rica.

Vou colocar a foto de um pedaço da catedral aqui:

Mas o mais legal é que tem lugar em que a igreja se junta com a mesquita, e aí fica assim:

Eu achei isso bacana, e aí eu perguntei pro meu tio se dava muita confusão no dia em que iam os muçulmanos e os católicos na Catedral-Mesquita ao mesmo tempo, porque devia misturar as duas missas. Mas aí o meu tio disse que a Catedral-Mesquita agora é só para os católicos, e que quinhentos anos atrás os católicos expulsaram os judeus e os muçulmanos da Espanha.

Aí eu achei isso estranho e fiquei pensando, mas fiquei pensando sem saber direito o que que eu estava pensando, só achando tudo meio estranho.

À noite eu fui jantar com o meu tio. Ele pediu uma salada porque ele estava gordo e eu pedi um negócio que eu achei bem esquisito: uma perna de cordeiro com mel.



 
Eu achei aquilo o maior bom. Parecia uma mistura de comida com sobremesa, porque era doce e salgado ao mesmo tempo.

O meu tio perguntou se eu estava gostando da minha mistureba. E aí eu entendi o que eu estava pensando e falei para ele que achava que tudo tinha que ser misturado mesmo, que nem aquela carne com mel e que nem aquela igreja com mesquita. E aí eu disse que, para ficar melhor, só se tivesse sorvete de chocolate no prato e uma sinagoga junto da catedral-mesquita, porque, já que o deus era o mesmo, os católicos, os judeus e os muçulmanos deviam ficar todos juntos, sem brigar.

E aí o meu tio botou a mão na minha cabeça e disse:

“Lelê, você devia trabalhar na ONU. Mas nem pense em ser cozinheiro.”

 

Escrito por Lelê às 23h37
O mundo é muito injusto!

O meu nome é Leocádio, mas todo mundo me chama de Lelê. Eu sou sobrinho do meu tio. Ele se chama Torero e tem um blog. Mas agora eu também tenho um, que é esse aqui.

O blog serve para a gente dizer um monte de coisas, e hoje eu queria dizer que eu estou o maior triste.

É que as minhas férias acabaram e quando isso acontece eu fico o maior chateado. Mas o pior mesmo é no último dia de férias. Aí eu nem quero dormir para aproveitar até o fim. Mas a minha não deixa. Ela diz que eu tenho que dormir cedo por causa da escola. O mundo é muito injusto! Eu não entendo por que as aulas duram tanto e as férias são tão curtinhas. Não podia ser o contrário?

Bom, pelos menos as minhas férias foram bacanas e eu fui num monte de lugares que eu nunca tinha ido.
Um desses lugares foi o estádio do Real Madrid, que é um time que o meu tio odeia, porque ele diz que o Real roubou o Robinho do Santos, e o Santos é o time do meu tio.

Aí a gente foi para a bilheteria e o meu tio Torero reclamou do preço: “Nove euros! É mais caro que o Louvre! Eu não vou entrar aí.” Depois ele me explicou que o Louvre é o maior museu do mundo e que a entrada custava só oito euros e cinquenta centavos, mas aí eu disse que o Robinho não jogava no Louvre, jogava no Real, e que eu queria entrar lá e que a gente até podia encontrar com o Robinho de verdade e ia ser o maior legal porque eu entrevistei o Robinho na Copa e até tirei foto do chinelo dele, e se a gente não fosse aquele dia no estádio eu ficar muito triste porque se não era para entrar a gente nem devia ter chegado até a porta.

Então o meu tio perguntou “Como é que você consegue falar tantas palavras de uma vez?”, e eu falei que eu fazia que nem a minha mãe, que é irmã dele. Aí ele riu, disse que ela era uma matraca mesmo, comprou os ingressos e a gente entrou.

Mas se eu soubesse como ele ia ficar triste lá dentro, eu nem tinha insistido.

Bom, aí a gente pegou um elevador todo de vidro e subiu, e aí a gente viu o campo que é o maior lindão, assim:

Quando viu o estádio, o meu tio até falou um palavrão que é uma mistura das palavras cara e alho, mas que eu não vou colocar aqui porque a minha mãe pode ler o blog e aí eu vou ver o que é bom.

Neste estádio cabem oitenta mil pessoas. Eu perguntei para o meu tio: “É maior que a Vila Belmiro?”

Ele olhou para o chão e disse: “Umas quatro vezes...”

A coisa que eu achei mais legal no estádio foi essa placa:

Eu pensei que tinha um lugar para as pessoas vomitarem, e que esse lugar era uma privadona bem grande para todo mundo vomitar junto, mas um guarda explicou que vomitório era o nome da saída, porque as pessoas saíam tão rápido que parecia que elas estavam sendo vomitadas.

Aí o meu tio quis conhecer o banco de reservas. Quando a gente chegou lá, viu que o banco não é um banco, é um monte de cadeiras e é o maior chique. Então o meu tio sentou numa delas e disse que era que nem o Ronaldo, porque ele também estava meio careca, gordo, com bolha no pé e no banco de reservas do Real. Acho que foi uma piada, mas eu não vi graça.

Depois disso eu quis ir no banheiro dos vestiários para ver onde o Robinho, o Ronaldo e o Cicinho faziam xixi. O banheiro do Real é legal, é o maior chique. Então eu quis fazer xixi ali, mas um guarda não deixou.

Aí eu perguntei “E cocô?”, e o guarda fez cara de bravo e respondeu: “No!”. O mundo é muito injusto!

Só de raiva, antes de sair dali eu soltei o maior pum. Daqueles que não fazem barulho mas são o maior fedido. Bem feito pro guarda.

Bom, aí a gente foi para o lugar que deixou o meu tio muito triste, a sala de troféus do Real. Para chegar lá a gente passa por um corredor cheio de troféus, este aqui:

E depois tem um monte de estantes cheinhas de troféus, e tevês que ficam passando gols do Real e em todo lugar tem barulho da torcida gritando.

O meu tio Torero olhou aquilo tudo com uma cara muito estranha, depois sentou num canto e disse: “Este estádio, este banheiro, estes troféus... este time é muito rico, Lelê. A Vila Belmiro é bonita, mas isso aqui é demais. Por causa desse dinheiro todo é que todo jogador quer vir para a Europa. Não dá para competir. Acho que o Robinho nunca vai voltar para o Santos... Nunca mais... O mundo é muito injusto!”

Então a gente saiu dali e foi para a loja do Real Madrid. Lá tem camisa, bola, boné, boneco, escova de dente, chaveiro, vídeos, fotografias e mais um montão de coisas legais.

Eu queria um uniforme oficial, mas o meu tio disse: “De jeito nenhum! Eu não vou ajudar a pagar o salário do Robinho! Vamos embora desse lugar!”

E a gente foi. Sem comprar nem um chaveirinho. O mundo é muito injusto!

Escrito por Lelê às 07h53